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segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Lúcio de Mendonça: No trem de ferro

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Vinha sentado gravemente, mudo,
D'olhos baixos, obeso e venerando,
Mãos cruzadas no ventre, ruminando
Velhas rezas ou santo e duro estudo.

Ergue tímido o olhar, triste; contudo,
É paternal e bom; de quando em quando
Ao céu o volve, ao céu que vai passando
Pelas vidraças, empoeirado. Tudo

Nele respira a fé e cheira a igreja.
Por todos os seus poros Deus poreja.
Do seu breviário agora passa as folhas.

Pio varão! para este já começa
O reino do Senhor!... mas sai à pressa
E cai-lhe da batina um saca-rolhas!

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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — Organização, Prefácio e Notas Bibliográficas de R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo — atual USP do Largo de São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha  MG; escreveu e publicou Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela; consta em sua biografia que o poeta era republicano, anticlerical e de tendência socialista.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Raimundo Magalhães Júnior *: Autocrítica de Deus

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Depois de muita reflexão
Positivamente acabrunhado
Deus resolveu fazer autocrítica.
Considerou bem a sua obra,
Viu toda a ruindade do homem
As misérias sem remédio da Terra
E uma lágrima imensa como um oceano
Rolou da sua pálpebra enorme
No chão incomensurável do infinito.

"Senhor!  disse um arcanjo
Desejoso de consolá-lo. 
Realmente, a tua obra não prestou,
Mas pode tomá-la em tuas mãos,
Amassar e tornar a amassar,
Começando, depois, tudo de novo!"
Mas Deus sacudiu as longas barbas
Com a mais divina tristeza
E disse desanimadamente:
"Não adianta, não adianta, não adianta!
Ide e proclamai, urbe et urbi,
Que os erros de Deus não se repetem!"



* No Prefácio da 1ª. edição desta Antologia, o poeta Vinícius de Moraes escreveu a propósito dos bissextos: “... poetas que nós, seus íntimos, chamamos cordialmente de bissextos — poetas sem livros de versos — bissextos pela escassez de sua produção, cuja excelência sem embargo os coloca ao lado dos mais citados
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Raimundo Magalhães Júnior ou R. Magalhães Júnior (1907  1981), cearense de Ubajara, foi jornalista, biógrafo, tradutor, historiador, teatrólogo e poeta bissexto *; de mudança para o Rio de Janeiro, estudou humanidades e iniciou no jornalismo; trabalhou como secretário n’A Noite Ilustrada, foi um dos fundadores do Diário de Notícias, diretor das revistas Carioca, Vamos Ler e Revista da Semana e redator d’A Noite; escreveu e publicou Impróprio para menores (contos, 1934), O homem que fica (teatro, 1934), Fuga e outros contos (1936), Um judeu (teatro, 1939), Mentirosa (teatro, 1934), Carlota Joaquina (teatro, 1934), Chico-vira-bicho e outras histórias (literatura infantil, 1942), Vila Rica (teatro, 1945), Artur Azevedo e sua época (biografia, 1953), Poesia e vida de Cruz e Sousa (biografia, 1961), Poesia e vida de Álvares de Azevedo (biografia, 1962), Dicionário de coloquialismos anglo-americanos, provérbios, idiotismos e frases feitas (1964), Poesia e vida de Casimiro de Abreu (biografia, 1965), Dicionário de citações brasileiras (1971) e tantos outros títulos, além de ter organizado Contos e Crônicas de Machado de Assis (1958), Histórias brejeiras, contos escolhidos de Arthur Azevedo (1962), Antologia do Humorismo e Sátira, de Gregório de Matos a Vão Gôgo (1957) etc; obteve vários prêmios literários; traduziu poemas franceses, ingleses e italianos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras. 

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Luiz Gama: "Sou nobre e de linhagem sublimada, . . . [soneto]

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“Sou nobre, e de linhagem sublimada,
descendo, em linha reta, dos Pegados,
cuja lança feroz desbaratados,
fez tremer os guerreiros da Cruzada!

Minha mãe, que é de proa alcantilada,
vem da raça dos Reis mais afamados”
blasonava entre um bando de pasmados,
certo povo de casta amorenada.

Eis que brada um peralta retumbante:
— "Teu avô, que era de cor latente,
teve um neto mulato e mui pedante!"

Irrita-se o fidalgo qual demente,
trescala a vil catinga nauseante...
E não pode negar ser meu parente!

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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 1882), baiano de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como escravo aos 10 anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (primeira edição, 1859), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa da época, tendo sido aprendiz de tipógrafo n'O Ipiranga, redator do Radical Paulistano, redator de O Polichinelo primeiro periódico político e satírico da cidade de São Paulo, e ajudou a fundar os periódicos ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 1865) Cabrião (1866 1867).

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Rubem Braga: Adeus

Antologia De Humorismo E Sátira - R. Magalhães Júnior
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Adeus, escritório, adeus,
Para sempre e nunca mais.
Eu vou sair pelo mundo
Eu vou pra Minas Gerais,
Já não quero mais cidade
Onde tem muita prisão
E nenhuma liberdade.
Nem quero ser lavrador.
Eu quero ser vagabundo,
Mas de espingarda na mão.
Se precisar trabalhar
Mudo sempre de patrão.

Beber, só bebo cachaça,
Não preciso beber mais.
Se morrer é de maleita
No fundo do mato: morte
Que rima com esta sorte
Do Brasil que Deus me deu.

Adeus, mulherada, adeus,
Eu vou no rumo de Minas,
Pego sertão de Goiás,
Mato onça e pesco muito.
Se forem me aborrecer
Vou matando sem aviso
O branco que aparecer.

Depois desço por um rio,
Vou pro Norte ou vou pro Sul,
Em Marajó ou no Prata
Eu varo as ondas do mar.
E saio por este mundo
Barbado, pobre, sozinho,
Doente, todo estragado,
 Mas de espingarda na mão!

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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; Rubem Braga (1913 1990), capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, formado em Direito, foi jornalista, escritor e cronista; iniciou-se no jornalismo, ainda estudante, no Correio do Sul, em Cachoeiro; o Diário da Tarde, o Diário de Pernambuco, os Diários Associados  São Paulo e a Rede Globo de Televisão (Jornal Hoje) foram alguns dos veículos por onde passou e onde registrou suas crônicas; em Recife, fundou o periódico Folha do Povo e, em São Paulo, a revista Problemas, além de outras; escreveu e publicou O Conde e o Passarinho (1936), O Morro do Isolamento (1944), Com a FEB na Itália (1945), Um Pé de Milho (1948), Três Primitivos (1954), A Borboleta Amarela (1955), A Cidade e a Roça (1957), Ai de Ti, Copacabana! (1960) e outros títulos, além de participação em adaptações de outros autores e tradução de Terre des Hommes (Terra dos Homens), de Antoine de Saint-Exupéry; em 1945 atuou como correspondente de guerra junto à FEB (Forças Expedicionárias Brasileiras), na Itália.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Corrêa de Almeida: A Dança dos Partidos

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Os dous estragadíssimos partidos
Ocupam a seu turno a governança
E nos imos vivendo da esperança
De ver os nossos males combatidos.
           
Os quinhões são de novo repartidos,
Toda vez que se dá qualquer mudança,
Se aquele outrora encheu, este enche a pança
E os clamores do povo são latidos.

Se as velhas leis têm sido violadas,
Estando nossas crenças abaladas,
Novas leis não darão melhores normas.

Palavras eu não sei se adubam sopa,
Mas a fala do trono é que não poupa
Reformas e reformas e reformas.

José Joaquim CORREA DE ALMEIDA
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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; José Joaquim Corrêa de Almeida (1820 1905), mineiro de Barbacena, foi poeta satírico; escreveu Satyras, Epigrammas e outras poesias (1854), Sonetos e Sonetinhos (1884), Sonetos e Sonetinhos — segundo volume (1887), Sensaborias Métricas — 2 volumes, Decrepitude Metromaníaca (1894), Produções da Caducidade (1896); presbítero secular (padre), Corrêa de Almeida teve as ordens sacerdotais cassadas por uma vez ter revelado coisas de sabor cômico que uma beata lhe confidenciou no segredo do confessionário.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Luiz Gama: Serei Conde, Marquês e Deputado

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Pelas ruas vagava, em desatino,
em busca do seu asno, que fugira,
um pobre paspalhão apatetado,
que dizia chamar-se Macambira.

A todos perguntava se não viram
o bruto, que era seu, e desertara;
 Ele é sério  dizia  está ferrado,
e tem branco o focinho, é malacara.

Eis que encontra, postado numa esquina,
um esperto, ardiloso capadócio,
dos que mofam da pobre humanidade,
vivendo, por milagre, em santo ócio.

 Olá, senhor meu amo  lhe pergunta
o pobre do matuto, agoniado 
por aqui não passou o meu burrego,
que tem ruço o focinho, o pé calçado?

Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:
 O seu burro, senhor, aqui passou,
mas um guapo Ministro fê-lo presa
e num parvo Barão o transformou!

 Ó Virgem Santa!  exclama o tabaréu
da cabeça tirando o seu chapéu 
Se me pilha o Ministro, neste estado,
Serei Conde, Marquês e Deputado!

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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 1882), baiano de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como escravo aos 10 anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (primeira edição, 1859), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa da época, tendo sido aprendiz de tipógrafo n'O Ipiranga, redator do Radical Paulistano, redator de O Polichinelo primeiro periódico político e satírico da cidade de São Paulo, e ajudou a fundar os periódicos ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 1865) e Cabrião (1866 1867).

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Furnandes Albaralhão: Bisita à casa du mo pai

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É impriscindíbel que não se confunda
rabulação intistina com rabulação
intistinále. O varulho da mitralha é
 muito dif'rente! GÓMES LIÁLE

Como um pardal que bólta para u ninho
dispois de andáre pur aí além,
eu quis tamvém ribêre Santarém,
u meu primâiro e birginal cantinho.

Pinitrei. Um fantasma, com querinho,
que era, talbez, a assumvração d'alguém,
pigando-me p'la mão, disse: — "Meu vem!
"Bem cumigo!" E lá fomos, de mansinho...

Era aqui nesta alcôba, o dia intâiro,
em que eu vrincaba d'iscundêre, e tanto
que punha fora os vófes... Um v'rrâiro

eu fiz logo, contra u meu disâijo.
Una pulga churaba em cada canto.
Churaba em cada canto um pulsebâijo.

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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; Furnandes Albaralhão, pseudônimo de Horácio Mendes Campos (1902 ant.1964), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta satírico e de paródias, escritor, libretista de teatro de revistas, violonista e compositor; publicou o livro de humor Caldo Berde (1ª edição impressa em 1930), no qual apresenta sátiras, paródias de sonetos famosos e pensamentos com linguagem macarrônica, bem à moda do pré-modernista Juó Bananére; Horácio Campos foi um dos muitos colaboradores quase ignorados de uma das várias fases de A Manha, jornal humorístico e satírico do Barão de Itararé o Aporelly; ao autor de Caldo Berde coube cuidar, com muita arte, do suplemento lusitano de A Manha, escrevendo paródias de poetas portugueses e brasileiros e composições de sua inteira inspiração; trechos de seu livro foram republicados na revista A Pomba (década de 60).

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Carlos de Laet: Tarde. Avenida. Gente. Braços nus. (soneto futurista)

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Tarde. Avenida. Gente. Braços nus.
Pequenotas. Decotes. Almofadas.
Futuristas. Alvear. Doces. Coalhadas.
Deputados. Carniças. Urubus.

O Graça. A claque. O Futurismo. Nada.
Taxi. Bonde. Encontro. Cataprús!
Assistência. Meninos. Pouca luz.
Muita prosa. O Futuro. Pataquada.

Céu verde. Mar de leite. Estrela preta.
Mais graça. Mais topete. Lábio azul.
Osório. O velho Alves. A chupeta.

Aranha. Avô. Avó. Ave. Taful!
Ligação. Beira-mar. Potoca. Peta.
Telefone. Afinal, setenta sul... *


* Nota do Organizador: 70  Sul era outrora o número do Hospício Nacional (do Rio de Janeiro) no catálogo telefônico.
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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; Carlos Maximiliano Pimenta de Laet (1847 1927), nascido no Rio de Janeiro, foi polemista, epigramista, humorista, além de professor, filólogo, homem de imprensa e poeta; bacharel em Letras e formado em Engenharia pela Escola Central (atual Politécnic UFRJ), não seguiu carreira e voltou-se ao magistério e ao jornalismo; trabalhou em diversos periódicos (Diário do Rio, Jornal do Commercio) e também como colaborador e/ou redator na Tribuna Liberal, no Jornal do Brasil, no Jornal do Commercio de São Paulo e na revista Atlântida, nos quais deixou uma vasta produção sobre arte, história, literatura, crítica de poesia e crítica de costumes; considerado ' "pimenta" das mais cáusticas' no mundo literário, nos conta R. Magalhães Junior que o poeta fez uso de muitos pseudônimos, entre eles 'Sic', em O Cruzeiro  jornal que circulou no Império, 'Cosme Peixoto', no tempo do governo Floriano, e 'Cosme de Morais', no tempo do governo Prudente; escreveu e publicou Poesias (1873), Em Minas (1894), Antologia Nacional (em colaboração com Fausto Barreto, 1895), A Descoberta do Brasil (1900), Heresia Protestante (polêmica com o pastor Álvaro Reis, 1907), e outros títulos; opôs-se ao movimento nascido em São Paulo com a Semana da Arte Moderna de 1922, ironizando e combatendo o Modernismo.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Álvares de Azevedo: O poeta moribundo

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Poetas! amanhã ao meu cadáver
Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda, e cantem nela
Os amores da vida esperançosa!

Cantem esse verso que me alentava...
O aroma dos currais, o bezerrinho,
As aves que na sombra suspiravam,
E os sapos que cantavam no caminho!

Coração, por que tremes? Se esta lira
Nas minhas mãos sem força desafina,
Enquanto ao cemitério não te levam
Casa no marimbau a alma divina!

Eu morro qual nas mãos da cozinheira
O marreco piando na agonia...
Como o cisne de outrora... que gemendo
Entre os hinos de amor se enternecia.

Coração, por que tremes? Vejo a morte ,
Ali vem lazarenta e desdentada...
Que noiva!... E devo então dormir com ela?...
Se ela ao menos dormisse mascarada!

Que ruínas! que amor petrificado!
Tão ante-diluviano e gigantesco!
Ora, façam idéia que ternuras
Terá essa lagarta posta ao fresco!

Antes mil vezes que dormir com ela,
Que dessa fúria o gozo, amor eterno...
Se ali não há também amor de velha,
Dêem-me as caldeiras do terceiro Inferno!

No inferno estão, suavíssimas belezas,
Cleópatras, Helenas, Eleonoras;
Lá se namora em boa companhia,
Não pode haver inferno com Senhoras!

Se é verdade que os homens gozadores,
Amigos de no vinho ter consolos,
Foram com Satanás fazer colônia,
Antes lá que do Céu sofrer os tolos!

Ora! e forcem um'alma qual a minha ,
Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça,
A cantar ladainha eternamente
E por mil anos ajudar a Missa!

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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).