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terça-feira, 5 de maio de 2026

Gérard de Nerval: O ponto negro

 

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[traduzido por Mauro Gama]

Quem quer que tenha olhado o sol bem fixamente
Crê ante seus olhos ver, a voar teimosamente,
Ao redor, uma nódoa algo lívida, no ar.

Assim bem moço ainda e muito petulante
Ousei fixar na glória os olhos um instante:
Ficou-me um ponto negro em meu voraz olhar.

Depois, mesclado a tudo, em sinal de algum luto,
Por toda parte, onde o olho eu ponho ou mais perscruto,
Vejo-a também pospor-se assim, a negra escória!

Que coisa, sempre! Está entre mim e qualquer ventura!
Ó, é que apenas a águia ai dessa desventura!
Contempla impunemente os dois, o sol e a glória!

Gérard de Nerval

Le point noir

Quiconque a regardé le soleil fixement
Croit voir devant ses yeux voler obstinément
Autour de lui, dans l’air, une tache livide.

Ainsi, tout jeune encore et plus audacieux,
Sur la gloire un instant j’osai fixer les yeux:
Un point noir est resté dans mon regard avide.

Depuis, mêlée à tout comme un signe de deuil,
Partout, sur quelque endroit que s’arrête mon oeil,
Je la vois se poser aussi, la tache noire!

Quoi, toujours? Entre moi sans cesse et le bonheur!
Oh! c’est que l’aigle seul malheur à nous, malheur!
Contemple impunément le Soleil et la Gloire.

Odelettes [1834]
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Gérard de Nerval — Cinquenta Poemas, Edição Bilíngue, Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de Mauro Gama, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista, novelista, romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações, parte de seus poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies et Odelettes (1834), Léo Burckart (drama, 1839), Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie (conto, 1853), Les Filles du Feu (coleção de contos, e poemas “Les Chimères”, 1854), Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères (poemas, 1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères (publicação póstuma), Poésies Diverses (publicação esparsa ou postumamente) ...; além dos já citados Goethe e Klopstock, também traduziu Schiller, Uhland, Burger, reunindo-os em Poésies Allemandes (1830), posteriormente, ainda traduziu Heinrich Heine; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Gérard de Nerval: É uma Mulher o Amor

 
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[traduzido por Mauro Gama]

É uma mulher o amor, a glória e a esperança;
Aos filhos que ela guia, ao homem consolado,
Eleva o coração e o sofrimento amansa,
Como um anjo dos céus sobre a Terra exilado.

Curvado no trabalho ou pelo seu destino,
A sua voz o homem se ergue e na alma se esclarece,
Impaciente em sua marcha escassa de alto tino,
Só um sorriso o doma, e o coração lhe aquece.

Nesta época de ferro, a glória é toda incerta:
Esperando-a demais, chegamos a abdicar.
Mas quem não a quererá, de graça e paz coberta,
Da beleza que a traz, ou no-la faz ganhar?

Gérard de Nerval

Une femme est l’amour

Une femme est l’amour, la gloire et l’espérance;
Aux enfants qu’elle guide, à l’homme consolé,
Elle élève le coeur et calme la souffrance,
Comme un esprit des cieux sur la terre exilé.

Courbé par le travail ou par la destinée,
L’homme à sa voix s’élève et son front s’éclaircit;
Toujours impatient dans sa course bornée,
Un sourire le dompte et son coeur s’adoucit.

Dans ce siècle de fer la gloire est incertaine:
Bien longtemps à l’attendre il faut se résigner.
Mais qui n’aimeraient pas, dans sa grâce sereine,
La beauté qui la donne ou qui la fait gagner?

[Poésies diverses]
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Gérard de Nerval — Cinquenta Poemas, Edição Bilíngue, Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de Mauro Gama, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista, novelista, romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações, parte de seus poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies et Odelettes (1834), Léo Burckart (drama, 1839), Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie (conto, 1853), Les Filles du Feu (As Filhas do Fogo, coleção de contos, e poemas “Les Chimères”, 1854), Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères (As Quimeras, poemas, 1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères (publicação póstuma), Poésies Diverses (publicação esparsa ou postumamente) ...; além dos já citados Goethe e Klopstock, também traduziu Schiller, Uhland, Burger, reunindo-os em Poésies Allemandes (1830), posteriormente, ainda traduziu Heinrich Heine; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Gérard de Nerval: Romança

 
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[traduzido por Mauro Gama

Ària: O Nobre Fulgor do Diadema

Sob alegrias simuladas
Não nos escondas tua dor!
Tanto em tristeza nos agradas
Quanto em sorriso encantador:
Em meio à névoa a aurora invade
O vale, e assim o olhar enleva
E, bela em tênue claridade,
A noite, Febe, encanta a treva.

Quem te vê muda e pensativa
Sonhar sozinha o dia inteiro,
A ingênua virgem em ti reaviva
Que ainda suspira o amor primeiro;
Não vê a coroa e seu esplendor
Cingindo em ti os cabelos belos,
E se lhe entrega com o ardor
Do amor primeiro e seus anelos.

Gérard de Nerval

Romance

Air: Le Noble Eclat du Diadème

Ah! sous une feinte allégresse
Ne nous cache pas ta douleur!
Tu plais autant par ta tristesse
Que par ton sourire enchanteur:
À travers la vapeur légère
L'Aurore ainsi charme les yeux;
Et, belle en sa pâle lumière,
La nuit, Phœbé charme les cieux.

Qui te voit, muette et pensive,
Seule rêver le long du jour,
Te prend pour la vierge naïve
Qui soupire un premier amour;
Oubliant l'auguste couronne
Qui ceint tes superbes cheveux,
A ses transports il s'abandonne,
Et sent d'amour les premiers feux!

(Poèmes divers)
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Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas [Edição Bilíngue], Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de Mauro Gama, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista, novelista, romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações, parte de seus poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies et Odelettes (1834), Léo Burckart (drama, 1839), Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie (conto, 1853), Les Filles du Feu (coleção de contos, e poemas “Les Chimères”, 1854), Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères (poemas, 1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères (publicação póstuma), Poésies Diverses (publicação esparsa ou postumamente) ...; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Gérard de Nerval: Nobres e Criados

 
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[traduzido por Mauro Gama]

Esses nobres de outrora, e de livros, canções,
Com suas testas de boi e semblantes dantescos,
Os corpos com a estrutura e os ossos gigantescos,
Qual se houvessem no solo as raízes, fundações.

Se voltassem ao mundo, e cá tivessem a idéia
De cada herdeiro achar, de seus nomes, sua lida,
Raça de Laridons que nos paços, decaída,
Entre ministros corre e, ávida, enxameia;

Secos em seus plastrões e estofos afetados,
Entenderiam porém, esses nobres senhores,
Que, desde aquele tempo, a seu sangue e favores,
Suas filhas vêm mesclando o sangue de seus criados!

Gérard de Nerval

Nobles et valets

Ces nobles d'autrefois dont parlent les romans,
Ces preux à fronts de boeuf, à figures dantesques,
Dont les corps charpentés d'ossements gigantesques
Semblaient avoir au soi racine et fondements;

S'ils revenaient au monde, et qu'il leur prît l'idée
De voir les héritiers de leurs noms immortels,
Race de Laridons, encombrant les hôtels
Des ministres, rampante, avide et dégradée;

Êtres grêles, à buscs, plastrons et faux mollets:
Certes ils comprendraient alors, ces nobles hommes,
Que, depuis les vieux temps, au sang des gentilshommes
Leurs filles ont mêlé bien du sang de valets!

[Odelettes — 1834]
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Gérard de Nerval — Cinquenta Poemas, Edição Bilíngue, Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de Mauro Gama, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista, novelista, romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações, parte de seus poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies et Odelettes (1834), Léo Burckart (drama, 1839), Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie (conto, 1853), Les Filles du Feu (As Filhas do Fogo, coleção de contos, e poemas “Les Chimères”, 1854), Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères (As Quimeras, poemas, 1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères (publicação póstuma), Poésies Diverses (publicação esparsa ou postumamente) ...; além dos já citados Goethe e Klopstock, também traduziu Schiller, Uhland, Burger, reunindo-os em Poésies Allemandes (1830), posteriormente, ainda traduziu Heinrich Heine; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

sábado, 21 de junho de 2025

Gérard de Nerval: A Prima

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[traduzido por Mauro Gama]

Tem o inverno prazer: é, aos domingos frequente,
Se à terra branca traz um sol ouro e semente:
Pode-se com uma prima, airosa, ir a passear...
E não vos faça aqui esperar para jantar,

Diz a mãe. E eis que a ver, nas Tulherias, vestidas
De flor e mansidão árvores negras, puídas,
A jovem sente frio... e vos faz perceber
Que o nevoeiro da tarde, aos poucos, vem-se erguer.

Voltamos e, do dia, enfim, só se reclama
Ter-se ido tão depressa... e com discreta chama;
Na casa então se sente, entre o apetite e a caça,
Bem debaixo da escada, o bom peru que se assa*.

Gérard de Nerval

La cousine

L’hiver a ses plaisirs; et souvent, le dimanche,
Quand un peu de soleil jaunit la terre blanche,
Avec une cousine on sort se promener…
Et ne vous faites pas attendre pour dîner,

Dit la mère. Et quand on a bien, aux Tuileries,
Vu sous les arbres noirs les toilettes fleuries,
La jeune fille a froid… et vous fait observer
Que le brouillard du soir commence à se lever.

Et l’on revient, parlant du beau jour qu’on regrette,
Qui s’est passé si vite… et de flamme discrète:
Et l’on sent en rentrant, avec grand appétit,
Du bas de l’escalier, le dindon qui rôtit.

(Odelettes — [1834])

* Nota do tradutor Mauro Gama: O leitor aplicado encontrará uma sugestiva semelhança entre o fundo de cena deste poema, sua atmosfera, seus ingredientes, e os do episódio “Othys”, da novela “Sylvie”, em Les Filles de Feu.
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Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas [Edição Bilíngue], Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de Mauro Gama, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 — 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista, novelista, romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações, parte de seus poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies et Odelettes (1834), Léo Burckart (drama, 1839), Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie (conto, 1853), Les Filles du Feu (coleção de contos, e poemas “Les Chimères”, 1854), Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères (poemas, 1854), Aurélia ou Le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères (publicação póstuma), Poésies Diverses (publicação esparsa ou postuamamente) ...; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Gérard de Nerval: Anteros

Resultado de imagem para As Filhas do Fogo 15 Livro B Editorial Estampa Gérard de Nerval
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[traduzido por M. João Gomes]

Perguntas porque tenho no peito tanta ira
E nos ombros ostento esta fronte indomada:
É que, da geração de Anteu originado,
Sou o que o tenso dardo aos próprios deuses vibra.

Sim, sou daqueles a quem o Vingador inspira;
Ele me marcou no rosto um ósculo irado;
De Abel na palidez do sangue fui banhado,
Implacável Caim que de paixão delira.

Ó Jeová, quem foi que o teu poder vencia,
E do profundo inferno gritava: “Ó tirania”!?
Foi meu avô Beluz, meu pai Degon talvez...

Três vezes me banhei nas águas de Cocita,
Protejo minha mãe viúva Amalecita,
Do dragão lhe deixando a presa esparsa aos pés.

(As Quimeras)

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Gérard de Nerval

Antéros

Tu demandes pourquoi j’ai tant de rage au coeur
Et sur un col flexible une tête indomptée;
C’est que je suis issu de la race d’Antée,
Je retourne les dards contre le dieu vainqueur.

Oui, je suis de ceux-là qu’inspire le Vengeur,
Il m’a marqué le front de sa lèvre irritée,
Sous la pâleur d’Abel, hélas! ensanglantée,
J’ai parfois de Caïn l’implacable rougeur!

Jéhovah! le dernier, vaincu par ton génie,
Qui, du fond des enfers, criait: “O tyrannie!”
C’est mon aïeul Bélus ou mon père Dagon…

Ils m’ont plongé trois fois dans les eaux du Cocyte,
Et, protégeant tout seul ma mère Amalécyte,
Je ressème à ses pieds les dents du vieux dragon.

(Les Chimères)
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As Filhas do Fogo (e As Quimeras) — Gérard de Nerval, Traduções de Luiza Neto Jorge (As Filhas do Fogo) e M. João Gomes (As Quimeras), 1972, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Gérard de Nerval (1808 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, contista, novelista e romancista; estudou no Collège Charlemagne Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; parte de seus poemas foram publicados em jornais e revistas da época; bibliografia: Elégies et Odelettes (1834), Voyage en Orient (1851), Les Filles du feu (1854), Promenades et souvenirs (1854), Les Chimères (1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (1855) e outros títulos em verso, prosa e para teatro; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Gérard de Nerval: Ninguém ouvia gemer a vítima sagrada, . . . [soneto]

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[traduzido por Alexei Bueno]

IV

Ninguém ouvia gemer a vítima sagrada,
Abrindo ao mundo em vão seu peito derramado;
Mas, quase a desmaiar e sem força inclinado,
Chamou a única sombra em Solima acordada:

"Judas, sabes em quanto a minha alma é cotada,
Vai, vende-me depressa, e finda este mercado:
Eu sofro, amigo, sobre a terra vil deitado...
Vem, que a força do crime ainda tens bem guardada!"

Mas Judas ia além, tristonho e pensativo,
Sentindo-se mal pago em remorso tão vivo
E lendo o seu negror sobre todos os muros...

Só Pilatos, enfim, por seu César velando,
Tendo alguma piedade e ao azar se voltando;
"Busquem o louco!" disse aos sicários impuros.

(O Cristo no Horto das Oliveiras)

Gérard de Nerval - poemas - Revista Prosa Verso e Arte
Gérard Nerval
IV

Nul n'entendait gémir l'éternelle victime,
Livrant au monde en vain tout son coeur épanché;
Mais prêt à défaillir et sans force penché,
Il appela le seul — éveillé dans Solyme:

"Judas! lui cria-t-il, tu sais ce qu'on m'estime,
Hâte-toi de me vendre, et finis ce marché:
Je suis souffrant, ami! sur la terre couché...
Viens! ô toi qui, du moins, as la force du crime!"

Mais Judas s'en allait, mécontent et pensif,
Se trouvant mal payé, plein d'un remords si vif
Qu'il lisait ses noirceurs sur tous les murs écrites...

Enfin Pilate seul, qui veillait pour César,
Sentant quelque pitié, se tourna par hasard;
"Allez chercher ce fou!" dit-il aux satellites.

(Le Christ aux Oliviers)
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Cinco séculos de poesia (diversos autores) — poemas traduzidos, Tradução e Prefácio de Alexei Bueno, edição bilíngue, 2013, Editora Record, São Paulo — SP; Gérard de Nerval (1808 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, contista, novelista e romancista; estudou no Collège Charlemagne Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; parte de seus poemas foram publicados em jornais e revistas da época; bibliografia: Elégies et Odelettes (1834), Voyage en Orient (1851), Les Filles du feu (1854), Promenades et souvenirs (1854), Les Chimères (1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (1855) e outros títulos em verso, prosa e para teatro; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Gérard de Nerval: Versos áureos

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[traduzido por Alexei Bueno]

Mas como! Tudo é sensível!
Pitágoras

Oh! Homem pensador, julgas que é em ti somente
Que há a razão neste mundo onde em tudo arfa a vida?
Das forças que tu tens tua vontade é servida,
Mas dos conselhos teus o universo está ausente.

Respeita no animal um espírito agente:
Cada flor é uma alma à Natureza erguida;
Um mistério de amor no metal tem guarida;
“Tudo é sensível!” Tudo em teu ser é potente.

Teme, no muro cego, um olho que te espia:
Pois mesmo na matéria um verbo está sepulto...
Não a faças servir a alguma função impia!

No ser obscuro às vezes mora um Deus oculto;
E, como olho a nascer por pálpebras coberto,
Nas pedras cresce um puro espírito desperto!

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Gérard de Nerval

Vers dorés

Eh quoi! tout est sensible.
Pythagore

Homme! libre penseur! te crois-tu seul pensant
Dans ce monde où la vie éclate en toute chose?
Des forces que tu tiens ta liberté dispose,
Mais de tous tes conseils l'univers est absent.

Respecte dans la bête un esprit agissant:
Chaque fleur est une âme à la Nature éclose;
Un mystère d'amour dans le métal repose:
"Tout est sensible!" Et tout sur ton être est puissant.

Crains, dans le mur aveugle, un regard qui t'épie:
A la matière même un verbe est attaché...
Ne la fais pas servir à quelque usage impie!

Souvent dans l'être obscur habite un Dieu caché;
Et, comme un oeil naissant couvert par ses paupières,
Un pur esprit s'accroît sous l'écorce des pierres!
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Cinco séculos de poesia (diversos autores) — poemas traduzidos, Tradução e Prefácio de Alexei Bueno, edição bilíngue, 2013, Editora Record, São Paulo — SP; Gérard de Nerval (1808 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, contista, novelista e romancista; estudou no Collège Charlemagne Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; parte de seus poemas foram publicados em jornais e revistas da época; bibliografia: Elégies et Odelettes (1834), Voyage en Orient (1851), Les Filles du feu (1854), Promenades et souvenirs (1854), Les Chimères (1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (1855) e outros títulos em verso, prosa e para teatro; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Gérard de Nerval: Era ele mesmo o louco, o insensato sublime. . . [soneto]

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[traduzido por Alexei Bueno]

V

Era ele mesmo, o louco, o insensato sublime...
Este Ícaro esquecido que aos céus remontava,
Faetonte que o raio divino abismava,
Átis ao qual Cibele um novo alento imprime!

O áugure interrogava o seu flanco sem crime,
Ébria, a terra sorvia o sangue que manava...
O universo em seus eixos tonto se inclinava,
E o Olimpo quase ansiou o abismo que o dizime.

"Fala!”, César gritou a Júpiter que o ouvia,
“Que novo deus é este à terra hoje outorgado?
E, se não é um deus, um demônio seria."

Mas sempre se calou o oráculo invocado;
Um só daria este arcano ao mundo desvendado:
Aquele que deu alma ao ser de argila fria.

(O Cristo no Horto das Oliveiras)

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Gérard de Nerval

V

C’était bien lui, ce fou, cet insensé sublime...
Cet Icare oublié qui remontait les cieux,
Ce Phaéton perdu sous la foudre des dieux,
Ce bel Atys meurtri que Cybèle ranime!

L’augure interrogeait le flanc de la victime,
La terre s’enivrait de ce sang précieux...
L’univers étourdi penchait sur ses essieux,
Et l’Olympe un instant chancela vers l’abîme.

“Réponds! criait César à Jupiter Ammon,
Quel est ce nouveau dieu qu’on impose à la terre?
Et si ce n’est un dieu, c’est au moins un démon...”

Mais l’oracle invoqué pour jamais dut se taire;
Un seul pouvait au monde expliquer ce mystère:
Celui qui donna l’âme aux enfants du limon.

(Le Christ aux Oliviers)
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Cinco séculos de poesia (diversos autores) — poemas traduzidos, Tradução e Prefácio de Alexei Bueno, edição bilíngue, 2013, Editora Record, São Paulo — SP; Gérard de Nerval (1808 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, contista, novelista e romancista; estudou no Collège Charlemagne Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; parte de seus poemas foram publicados em jornais e revistas da época; bibliografia: Elégies et Odelettes (1834), Voyage en Orient (1851), Les Filles du feu (1854), Promenades et souvenirs (1854), Les Chimères (1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (1855) e outros títulos em verso, prosa e para teatro; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.