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[traduzido por Mauro Gama]
Já faz três anos que morreu a
avó
— A boa senhora — e, então,
quando a enterraram,
Parente, amigo, todos a
choraram
Com verdadeira dor, e amargo
dó.
Só eu errava pela casa,
aflito,
Surpreso, mais que triste; e,
ao ficar perto
De seu caixão, alguém não me
achou certo
Ver aquilo sem lágrimas, sem
grito.
Dor estridente e logo
terminada:
Três anos faz, e novas
emoções,
Quer bens, quer males — e revoluções
—
Têm sua memória n’alma já
apagada.
Só eu sonho com ela e choro,
instante;
Três anos faz; no tempo que me
arrosta,
Como um nome gravado numa
crosta,
Sua lembrança se cava mais
adiante!
La
grand’mère
Voici trois ans qu’est morte ma grand’mère,
— La bonne femme, — et, quand on l’enterra,
Parents, amis, tout le monde pleura
D’une douleur bien vraie et bien amère.
Moi seul j’érrais dans la maison, surpris
Plus que chagrin; et, comme j’étais proche
De son cercueil, —
quelqu’un me fit reproche
De voir cela sans larmes et sans cris.
Douleur bruyante est bien vite passée:
Depuis trois ans, d’autres émotions,
Des biens, des maux, — des révolutions, —
Ont dans les coeurs sa mémoire effacée.
Moi seul j’y songe, et la pleure souvent;
Depuis trois ans, par le temps prenant force,
Ainsi qu’un non gravé dans une écorce,
Son souvenir se creuse plus avant!
Odelettes [1834]
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Gérard de Nerval — Cinquenta
Poemas, Edição Bilíngue, Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de
Mauro Gama, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 — 1855),
nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista,
novelista, romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne — Paris, participou
do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe
e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao
teatro e que circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações,
parte de seus poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies
et Odelettes (1834), Léo Burckart
(drama, 1839), Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie
(conto, 1853), Les Filles du Feu (As Filhas do Fogo, coleção de contos, e poemas “Les Chimères”, 1854),
Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères (As Quimeras, poemas, 1854), Aurélia
ou le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères (publicação póstuma),
Poésies Diverses (publicação esparsa ou postumamente) ...; além dos já citados
Goethe e Klopstock, também traduziu Schiller, Uhland, Burger, reunindo-os em
Poésies Allemandes (1830), posteriormente, ainda traduziu Heinrich Heine; o poeta,
que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações
mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.
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