Mostrando postagens com marcador Affonso Celso Ávila. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Affonso Celso Ávila. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de janeiro de 2023

Leconte de Lisle: Os Elefantes

____________________
[traduzido por Olegário Mariano]

Mar sem limite, o areal vermelho abrasa e estua
Em seu leito onde o sol raios de ouro espadana.
Ondula, em fumos no ar, sobre a planície nua,
O amplo horizonte onde fervilha a vida humana.

Nenhum rumor. Somente os leões dormem saciados,
Cem léguas em redor, no antro absconso das feras.
Bebe a girafa a água dos veios azulados.
Sob as palmas doce asilo das panteras.

Nem um pássaro, um só, num voo abandono,
Corta com o alfanje da asa o infinito que escalda.
Por vezes a serpente, acordada em seu sono
Move as escamas lampejantes de esmeralda.

E enquanto o espaço abafa em mormaços violentos
E em tudo pesa a lassidão de um sono incerto,
Os Elefantes vão, rudes viageiros lentos,
Rumo ao país natal, através do deserto...

De um ponto do horizonte, entre nuvens de poeira,
Mexem-se com vagar, tardos e desconformes...
E em linha regular soldados em fileira
Dunas levam rolando entre as patas enormes.

À frente, marcha o velho chefe. Tem o dorso
Áspero. É um tronco exposto ao tempo que o espezinha.
A cabeça é uma rocha; e, num mínimo esforço,
Dobra, crespo e brutal, o arco mole da espinha

Conservando na marcha um ritmado compasso,
Ele indica o país que o Destino lhes marca...
E, abrindo a areia, os peregrinos, passo a passo,
Seguem passivamente o velho patriarca...

A orelha em leque, a tromba a rolar entre dentes,
Caminham sempre... Os ventres negros lhe latejam;
No ar abrasado o suor sobe, em volutas quentes,
Enquanto, em derredor, milhões de insetos voejam...

Que lhes importa a sede e a inclemência maldita
Do sol de brasas? E o moscardo que os ameaça?
Se eles sonham com a terra encantada onde habita
Entre figueiras, longe, a sua heróica raça?!

Verão, a cascatear de altos montes incultos
O rio em que rolava o hipopótamo a fio...
Onde em noites de luar, vinham, mirando os vultos
N’água, em torno aos juncais, beber a água do rio.

É por todo esse ideal que os enche de saudade,
Que eles cortam o areal longínquo que se explana...
E o deserto retoma a ampla imobilidade,
Quando, ao longe, se perde a lenta caravana...


Les Éléphants

Le sable rouge est comme une mer sans limite,
Et qui flambe, muette, affaissée en son lit.
Une ondulation immobile remplit
L’horizon aux vapeurs de cuivre où l’homme habite.

Nulle vie et nul bruit. Tous les lions repus
Dorment au fond de l’antre éloigné de cent lieues,
Et la girafe boit dans les fontaines bleues,
Là-bas, sous les dattiers des panthères connus.

Pas un oiseau ne passe en fouettant de son aile
L’air épais, où circule un immense soleil.
Parfois quelque boa, chauffé dans son sommeil,
Fait onduler son dos dont l’écaille étincelle.

Tel l’espace enflammé brûle sous les cieux clairs.
Mais, tandis que tout dort aux mornes solitudes,
Lés éléphants rugueux, voyageurs lents et rudes
Vont au pays natal à travers les déserts.

D’un point de l’horizon, comme des masses brunes,
Ils viennent, soulevant la poussière, et l’on voit,
Pour ne point dévier du chemin le plus droit,
Sous leur pied large et sûr crouler au loin les dunes.

Celui qui tient la tête est un vieux chef. Son corps
Est gercé comme un tronc que le temps ronge et mine
Sa tête est comme un roc, et l’arc de son échine
Se voûte puissamment à ses moindres efforts.

Sans ralentir jamais et sans hâter sa marche,
Il guide au but certain ses compagnons poudreux;
Et, creusant par derrière un sillon sablonneux,
Les pèlerins massifs suivent leur patriarche.

L’oreille en éventail, la trompe entre les dents,
Ils cheminent, l’oeil clos. Leur ventre bat et fume,
Et leur sueur dans l’air embrasé monte en brume;
Et bourdonnent autour mille insectes ardents.

Mais qu’importent la soif et la mouche vorace,
Et le soleil cuisant leur dos noir et plissé?
Ils rêvent en marchant du pays délaissé,
Des forêts de figuiers où s’abrita leur race.

Ils reverront le fleuve échappé des grands monts,
Où nage en mugissant l’hippopotame énorme,
Où, blanchis par la Lune et projetant leur forme,
Ils descendaient pour boire en écrasant les joncs.

Aussi, pleins de courage et de lenteur, ils passent
Comme une ligne noire, au sable illimité;
Et le désert reprend son immobilité
Quand les lourds voyageurs à l’horizon s’effacent.

(Poèmes Barbares, 1862)
____________________
Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Charles Marie René Leconte de Lisle (1818 1894), francês nascido em Saint-Paul, ilha francesa de La Réunion, no Oceano Índico, estudou Direito, sem apresentar interesse por questões jurídicas abandonou tal caminho, estudou grego, italiano e história, foi poeta expoente do parnasianismo, escritor, dramaturgo e tradutor; viveu o período da infância na ilha e na Bretanha, frança continental; trabalhou no jornal La Démocratie Pacifique; suas obras: Poèmes antiques (1852), Hélène (teatro, 1852), Le Chemin de la Croix ou La Passion (1856), Poèmes barbares (1862), Les Érinnyes e L’Apollonide (ambas, peças dramáticas líricas, 1873 e 1888), Poèmes tragiques (1884) e outros textos; traduziu Teócrito, Homero, Hesíodo, Ésquilo, Horácio, Sófocles e Eurípedes; em 1886 foi eleito para a Academia Francesa sucedendo Victor Hugo.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Affonso Ávila: Frases-Feitas


____________________
“... uma família de espíritos finos e medidos, cujo maior defeito estaria em certa propensão para rebuscar, ora a frase, ora o conceito.”
Antonio Cândido (Literatura caligráfica)

façamos a revolução
antes que o povo a faça
antes que o povo à praça
antes que o povo a massa
antes que o povo na raça
antes que o povo: A FARSA

o senso grave da ordem
o censo grávido da ordem
o incenso e o gáudio da ordem
a infensa greve da ordem
a imensa grade DA ORDEM

terra do lume e do pão
terra do lucro e do não
terra do luxo e do não
terra do urso e do não
terra da usura e DO NÃO

mais da lei que dos homens
mais da grei que os come
mais do dê que do tome
mais do rei que do nome
mais da rês que DA FOME

num peito de ferro
é um coração de ouro
é o quorum a ação do ouro
é o coro a ação do ouro
é a cor a ópio-ação do ouro
é a gorda nação DO OURO

modesto como convém
austero como é do gosto
aufere como é do gosto
ao ferro como é do gosto
ar estéril como é do gosto
austero comendo A GOSTO

solidário só no câncer
solidário só no câmbio
solidário só na canga
solidário só na campa
solidário só NA CAMA

aos inimigos bordoada
aos amigos marmelada
aos contíguos marmelada
aos conspícuos marmelada
aos promíscuos marmelada
aos ambíguos MARMELADA

o crime é não vencer
o crime é não vender
o crime é não vir a ser
o crime é não virar cedo
o crime é o NÂO VEZES CEM

libertas quae sera tamen
liberto é o ser que come
livre terra ao sertanejo
livro aberto será a trama
LIBERTO QUE SERÁ O HOMEM

____________________
Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Affonso Celso Ávila (1928 2012), mineiro de Belo Horizonte, foi ensaísta, jornalista, crítico, pesquisador e poeta; colaborou com os jornais Diário de Minas, Estado de Minas e foi colunista do Estado de São Paulo, entre outros periódicos; co-fundador da revista de vanguarda Tendência e participante da revista Invenção, orientada para o concretismo, foi um dos organizadores da Semana de Poesia de Vanguarda, evento realizado em 1963, em Belo Horizonte; dirigiu a revista Barroco — Revista de Ensaio e Pesquisa, publicação do Centro de Estudos Mineiros da UFMG, que se tornou leitura obrigatória a estudiosos do assunto; escreveu e publicou O açude e Sonetos da descoberta (poesias, ambos em 1953), Carta do solo (poesias, 1961) Frases-feitas (poesias, 1963), Resíduos Seiscentistas em Minas (ensaio, dois volumes, 1967), O poeta e a consciência crítica (ensaio, 1969), Gertrude’s instante (poema-postal, 1969), Código de Minas e Poesia anterior (ambos em 1969), O lúdico e as projeções do mundo barroco (ensaio, 1971), Código nacional de trânsito (poesias, 1972), Cantaria barroca (1975), Modernismo (ensaio, 1975), Discurso da difamação do poeta (poesias, 1976), Masturbações (1980), Barrocolagens (1981), Delírios dos cinquent’anos (1984), O visto e o imaginado (poesias, laureado com o Prêmio Jabuti, 1990), Cantigas do Falso Alfonso El Sabio (poesias, 2006, obteve o Prêmio Jabuti em 2007) etc., além de premiações.

domingo, 26 de julho de 2015

Affonso Ávila: Discurso da difamação do poeta 11 / Pobre velha música

____________________
O poeta falava e as pessoas o ouviam atentamente

O poeta falava e as pessoas costumavam ouvi-lo atentamente

O poeta falava e as pessoas costumavam ouvi-lo com alguma atenção

O poeta falava e as pessoas às vezes o ouviam com alguma atenção

O poeta falava e algumas pessoas o ouviam com alguma atenção

O poeta falava mas raras pessoas o ouviam com alguma atenção

O poeta falava e as pessoas o ouviam sem atenção

O poeta falava e as pessoas já não o ouviam

O poeta falava e as pessoas já o olhavam sem ouvir

O poeta mal fala e as pessoas já abrem a boca em fastio

A ATITUDE DIANTE DO POETA É O BOCEJO

(Transcrito de Discurso da difamação
 do poeta  1978, pág. 103)

____________________
Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século — Seleção de José Nêumanne Pinto, Textos introdutórias e Notas biobibliográficas de Rinaldo de Fernandes, 1a. edição, 2001, Geração Editorial, São Paulo — SP; Affonso Celso Ávila (1928  2012), mineiro de Belo Horizonte, foi ensaísta, jornalista, crítico, pesquisador e poeta; colaborou com os jornais Diário de Minas, Estado de Minas e foi colunista do Estado de São Paulo, entre outros periódicos; foi co-fundador da revista de vanguarda Tendência e participou da revista Invenção, voltada para o concretismo; escreveu e publicou O açude e Sonetos da descoberta (poesias, ambos em 1953), Carta do solo (poesias, 1961) Frases-feitas (poesias, 1963), Resíduos Seiscentistas em Minas (ensaio, dois volumes, 1967), O poeta e a consciência crítica (ensaio, 1969), Gertrude’s instante (poema-postal, 1969), Código de Minas e Poesia anterior (ambos em 1969), O lúdico e as projeções do mundo barroco (ensaio, 1971), Código nacional de trânsito (poesias, 1972), Cantaria barroca (1975), Modernismo (ensaio, 1975), Discurso da difamação do poeta (poesias, 1976), Delírios dos cinquent’anos (1984), e outros títulos; foi vencedor de prêmios por suas publicações.