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quinta-feira, 15 de julho de 2021

Bernardo Guimarães: Disparates rimados*

 
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Quando as fadas do ostracismo,
Embrulhadas num lençol,
Cantavam em si bemol
As trovas do paroxismo,
Veio dos fundos do abismo
Um fantasma de alabastro
E arvorou no grande mastro
Quatro panos de toicinho,
Que encontrara no caminho
Da casa do João de Castro.

Nas janelas do destino,
Quatro meninos de rabo
Num só dia deram cabo
Das costelas de um Supino.
Por tamanho desatino,
Mandou o Rei dos Amores
Que se tocassem tambores
No alto dos chaminés
E ninguém pusesse os pés
Lá dentro dos bastidores.

Mas este caso nefando
Teve a sua nobre origem
Em uma fatal vertigem
Do famoso conde Orlando.
Por isso, de vez em quando,
Ao sopro do vento sul,
Vem surgindo de um paul
O gentil Dalai-lama,
Atraído pela fama
De uma filha de Irminsul.

Corre também a notícia
Que o Rei Mouro, desta feita,
Vai fazer grande colheita
De matéria vitalícia.
Seja-lhe a sorte propícia,
É o que mais lhe desejo.
Portanto, sem grande pejo,
Pelo tope das montanhas,
Andam de noite as aranhas
Comendo cascas de queijo.

O queijo, dizem os sábios,
É um grande epifonema,
Que veio servir de tema
De famosos alfarrábios.
Dá três pontos nos teus lábios,
Se vires, lá no horizonte,
Carrancudo mastodonte,
Na ponta de uma navalha,
Vender cigarros de palha,
Molhados na água da fonte!…

Há opiniões diversas
Sobre dores de barriga:
Dizem uns que são lombrigas;
Outros, que vêm de conversas.
Porém as línguas perversas
Nelas vêm grande sintoma
De um bisneto de Mafoma,
Que, sem meias, nem chinelas,
Sem saltar pelas janelas,
Num só dia foi a Roma.


* Nota de Alphonsus de Guimaraens Filho: Disparates rimados — A respeito deste poema, escreve Basílio de Magalhães à pág. 122 de seu estudo [Bernardo Guimarães: Esboço Biographico e Crítico, 1926]: “O Ipiranga”, periódico literário surto no Rio de janeiro em 1865, recebeu do poeta ouropretano e deu à luz no nº 74, de 27 de outubro de 1867, uma curiosa produção, do gênero escurril. Entre os elogios que tributou a referida folha ao seu espontâneo colaborador vem a asserção de que este lhe enviara outros versos do mesmo facecioso engenho. Teriam sido publicados? Não pude averiguá-lo. Vejam-se, porém, os que ali vieram a lume e que se afiguram nova “charge” contra o “ultra-condoreirismo”. No livro de J. M. Vaz Pinto Coelho, pág. 194, vem transcrita a nota do referido número de “O Ipiranga”: “À musa engenhosa de B. Guimarães, o inspirado poeta dos Cantos da solidão, devemos estes e outros Disparates rimados, que bem nos atestam a variedade do seu talento, que, por ter escrito “O ermo” e as “Inspirações da tarde”, nem por isso desdenha da musa da galhofa”.
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Poesias Completas de Bernardo Guimarães — Organização, Introdução e Notas de Alphonsus de Guimaraens Filho e Apresentação de José Renato Santos Pereira, 1959, Instituto Nacional do Livro — Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1825 1884), mineiro de Ouro Preto, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, romancista, jornalista, crítico literário, magistrado e professor de Retórica, Poética, Latim e Francês; obras: Cantos da Solidão (poesia, 1852), O Ermitão de Muquém (1858, publicado em 1869), A Voz do Pajé (drama, 1860), Inspirações da tarde, Poesias diversas e Evocações (todos de 1865), Lendas e Romances: Uma História de Quilombolas, A Garganta do Inferno, A Dança dos Ossos (contos, 1871), O Garimpeiro, O Seminarista e O Índio Afonso (romances, todos de 1872), A Escrava Isaura (romance, 1875), Folhas de Outono (coletânea de versos, 1883) e outros títulos; o romance A Escrava Isaura foi tema de novela de mesmo nome (1976—1977 e 2004, Globo e Record) e, na versão exibida na Globo, foi exportada para mais de uma centena de países — na China, por exemplo, a Escrava Isaura, protagonizada pela atriz Lucélia Santos, foi assistida por mais de 1 bilhão de pessoas e, lá, a edição do romance, em livro, contou com pelo menos 300 mil exemplares.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Bernardo Guimarães: Minha rede

 
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Canção

Minha rede preguiçosa
Amorosa,
Em teu seio me embalança;
Quero ler nos céus risonhos
Doces sonhos
De ventura e de esperança.

Neste lânguido deleixo
Correr deixo
Minha vida descuidosa,
Contemplando ali defronte
No horizonte
Uma nuvem cor-de-rosa.

Pelo vão dessa janela,
Pura e bela,
Eu a vejo deslizar;
Pelo campo etéreo voga
Qual piroga
Cortando o cerúleo mar.

Linda nuvem, quem me dera
Pela esfera
Em teus ombros ir boiando,
E pairando sobre os montes,
Horizontes
Infinitos devassando!

Veria da minha terra
A alta serra,
Que há tanto tempo deixei;
E veria na janela
A donzela
Por quem tanto suspirei.

E os lares de minha infância,
Em distância
Pelo menos eu veria,
E as campinas, os ribeiros,
E os coqueiros,
A cuja sombra dormia...

Veria coisa infindas,
E tão lindas,
Que eu nem posso descrever,
Ó nuvem, se em teu regaço
Pelo espaço
Eu pudesse espairecer.

Mas se tão puro recreio
Em teu seio
Não quer dar-me a sorte escassa,
Ao menos esvoaçando
Lá te mando
De meu charuto a fumaça.

Nela vai meu pensamento
Pachorrento
Pelo ar vogando a esmo;
Para mim isto é tão doce,
Qual se fosse
Para ti voando eu mesmo.

Entanto aquele corvo
Negro e torvo
Quanto invejo o feliz fado!
Sobre as nuvens me parece
Que adormece
Nas asas equilibrado.

E adejando em céu de anil,
Esse vil
Ri talvez de compaixão
De mim, pobre animalejo,
Que rastejo
Neste ingrato e duro chão.

Que me importa, se em descanso
Me embalanço
Cantando uma barcarola;
E agitando-me nos ares,
Dos pesares
Minha rede me consola.

Tudo prazeres exprime,
E sorri-me
Em puro céu de bonança,
Quando esta rede amorosa,
Preguiçosa,
Em seu seio me embalança.

Minha rede é meu tesouro,
Nuvem d’ouro
Que me embala pelo espaço;
Em seu lânguido vaivém
Eu também
Sobre os ares esvoaço.

Se penso nos meus amores,
Entre flores
Me sorri doce esperança:
E entre sonhos cor-de-rosa,
Amorosa,
Minha rede me embalança.

Os pesares, os queixumes,
Os ciúmes
Com horror dela se arredam;
Só prazeres sorridores,
Só amores
Em suas malhas se enredam.

Meus amigos, em mim crede:
Esta rede
Foi um presente divino;
Esta rede é encantada;
Uma fada
Me a deu em troco de um hino.

Minha rede sonolenta,
Vai mais lenta,
Vai-me agora embalançando;
Enquanto o suave sono
De teu dono
Sobre os olhos vem baixando.

Rio, abril de 1864
Poesias diversas — 1865

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Poesias Completas de Bernardo Guimarães — Organização, Introdução e Notas de Alphonsus de Guimaraens Filho e Apresentação de José Renato Santos Pereira, 1959, Instituto Nacional do Livro — Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1825 1884), mineiro de Ouro Preto, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, romancista, jornalista, crítico literário, magistrado e professor de Retórica, Poética, Latim e Francês; obras: Cantos da Solidão (poesia, 1852), O Ermitão de Muquém (1858, publicado em 1869), A Voz do Pajé (drama, 1860), Inspirações da tarde, Poesias diversas e Evocações (todos de 1865), Lendas e Romances: Uma História de Quilombolas, A Garganta do Inferno, A Dança dos Ossos (contos, 1871), O Garimpeiro, O Seminarista e O Índio Afonso (romances, todos de 1872), A Escrava Isaura (romance, 1875), Folhas de Outono (coletânea de versos, 1883) e outros títulos; o romance A Escrava Isaura foi tema de novela de mesmo nome (19761977 e 2004, Globo e Record) e, na versão exibida na Globo, foi exportada para mais de uma centena de países na China, por exemplo, a Escrava Isaura, protagonizada pela atriz Lucélia Santos, foi assistida por mais de 1 bilhão de pessoas e, lá, a edição do romance, em livro, contou com pelo menos 300 mil exemplares.

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Bernardo Guimarães: Mote estrambótico*

 
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Mote

Das costelas de Sansão
Fez Ferrabrás um ponteiro,
Só para coser um cueiro
Do filho de Salomão.

Glosa

Gema embora a humanidade,
Caiam coriscos e raios,
Chovam chouriços e paios
Das asas da tempestade,
Triunfa sempre a verdade,
Com quatro tochas na mão.
O mesmo Napoleão,
Empunhando um raio aceso,
Suportar não pode o peso
Das costelas de Sansão.

Nos tempos da Moura-Torta,
Viu-se um sapo de espadim,
Que perguntava em latim
A casa da Môsca-Morta.
Andava, de porta em porta,
Dizendo, muito lampeiro,
Que, pra matar um carneiro,
Em vez de pegar no mastro,
Do nariz do Zoroastro
Fez Ferrabrás um ponteiro.

Diz a folha de Marselha
Que a imperatriz da Mourama,
Ao levantar-se da cama,
Tinha quebrado uma orelha,
Ficando manca a parelha.
É isto mui corriqueiro
Numa terra, onde um guerreiro,
Se tem medo de patrulhas,
Gasta trinta-mil agulhas,
Só para coser um cueiro.

Quando Horácio foi à China
Vender sardinhas de Nantes,
Viu trezentos estudantes
Reunidos numa tina.
Mas sua pior mofina,
Que mais causou-lhe aflição,
Foi ver de rojo no chão
Noé virando cambotas
E Moisés calçando as botas
Do filho de Salomão.


* Nota de Alphonsus de Guimaraens Filho: Mote estrambótico — Do mesmo ano do soneto [Eu vi dos polos o gigante alado...] 1865 é, segundo Basílio de Magalhães [autor de Bernardo Guimarães: Esboço Biographico e Crítico, 1926], o “Mote estrambótico”, que recolhemos tal como vem reproduzido no estudo do erudito mineiro e que, segundo este, foi “dado a lume pela primeira vez no livro do Dr. J. M. Vaz Pinto Coelho ([Poesias e romances do Dr. Bernardo Guimarães] págs. 196-198), que lhe guardava o original, datado de Ouro Preto”. Com efeito, lê-se ao pé da pág. 198 do livro de J. M. Vaz Pinto Coelho: “Possuo-os pela pena do nosso poeta. Foram escritos em Ouro Preto em 1865”.
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Poesias Completas de Bernardo Guimarães — Organização, Introdução e Notas de Alphonsus de Guimaraens Filho e Apresentação de José Renato Santos Pereira, 1959, Instituto Nacional do Livro — Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1825 1884), mineiro de Ouro Preto, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, romancista, jornalista, crítico literário, magistrado e professor de Retórica, Poética, Latim e Francês; obras: Cantos da Solidão (poesia, 1852), O Ermitão de Muquém (1858, publicado em 1869), A Voz do Pajé (drama, 1860), Inspirações da tarde, Poesias diversas e Evocações (todos de 1865), Lendas e Romances: Uma História de Quilombolas, A Garganta do Inferno, A Dança dos Ossos (contos, 1871), O Garimpeiro, O Seminarista e O Índio Afonso (romances, todos de 1872), A Escrava Isaura (romance, 1875), Folhas de Outono (coletânea de versos, 1883) e outros títulos; o romance A Escrava Isaura foi tema de novela de mesmo nome (19761977 e 2004, Globo e Record) e, na versão exibida na Globo, foi exportada para mais de uma centena de países na China, por exemplo, a Escrava Isaura, protagonizada pela atriz Lucélia Santos, foi assistida por mais de 1 bilhão de pessoas e, lá, a edição do romance, em livro, contou com pelo menos 300 mil exemplares.

domingo, 29 de novembro de 2020

Bernardo Guimarães: Desalento

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Nestes mares sem bonança,
Boiando sem esperança,
Meu baixel em vão se cansa
Por ganhar o amigo porto;
Em sinistro negro véu
Minha estrela se escondeu;
Não vejo luzir no céu
Nenhum lume de conforto.

A tormenta desvairou-me,
Mastro e vela escalavrou-me,
E sem alento deixou-me
Sobre o elemento infiel;
Ouço já o bramir tredo
Das vagas contra o penedo
Onde irá talvez bem cedo
Soçobrar o meu batel.

No horizonte não lobrigo
Nem praia, nem lenho amigo,
Que me salve do perigo,
Nem fanal que me esclareça;
Só vejo as vagas rolando,
Pelas rochas soluçando,
E mil coriscos sulcando
A medonha treva espessa.

Voga, baixel sem ventura,
Pela túrbida planura,
Através da sombra escura,
Voga sem leme e sem norte;
Sem velas, fendido o mastro,
Nas vagas lançado o lastro,
E sem ver nos céus um astro,
Ai! que só te resta a morte!

Nada mais ambiciono,
Às vagas eu te abandono,
Como cavalo sem dono
Pelos campos a vagar;
Voga nesse pego insano,
Que nos roncos do oceano
Ouço a voz do desengano
Pavorosa a ribombar!

Voga, baixel foragido,
Voga sem rumo perdido,
Pelas tormentas batido,
Sobre o elemento infiel;
Para ti não há bonança;
À toa, sem leme avança
Neste mar sem esperança,
Voga, voga, meu baixel!

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Poesias Completas de Bernardo Guimarães — Organização, Introdução e Notas de Alphonsus de Guimaraens Filho e Apresentação de José Renato Santos Pereira, 1959, Instituto Nacional do Livro — Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1825 1884), mineiro de Ouro Preto, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, romancista, jornalista, magistrado e professor; bibliografia: Cantos da Solidão (poesia, 1852), O Ermitão de Muquém (1858, publicado em 1869), A Voz do Pajé (drama, 1860), Poesias diversas (1865), Evocações (1865), Lendas e Romances: Uma História de Quilombolas, A Garganta do Inferno, A Dança dos Ossos (contos, 1871), O Garimpeiro, O Seminarista e O Índio Afonso (romances, todos de 1872), A Escrava Isaura (romance, 1875), Folhas de Outono (coletânea de versos, 1883) e outros títulos; o romance A Escrava Isaura foi tema de novela de mesmo nome (19761977 e 2004, Globo e Record) e, na versão exibida na Globo, foi exportada para mais de uma centena de países na China, por exemplo, Escrava Isaura, protagonizada pela atriz Lucélia Santos, foi assistida por mais de 1 bilhão de pessoas e, lá, a edição do romance, em livro, contou com pelo menos 300 mil exemplares.

domingo, 15 de novembro de 2020

Bernardo Guimarães: Hino à Preguiça *

 
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...Viridi projectus in antro...
(VIRGÍLIO.)

Meiga Preguiça, velha amiga minha,
          Recebe-me em teus braços,
E para o quente, conchegado leito
          Vem dirigir meus passos.

Ou, se te apraz, na rede sonolenta,
          À sombra do arvoredo,
Vamos dormir ao som d'água, que jorra
          Do próximo rochedo.

Mas vamos perto; à orla solitária
          De algum bosque vizinho,
Onde haja relva mole, e onde se chegue
          Sempre por bom caminho.

Aí, vendo cair uma por uma
          As folhas pelo chão,
Pensaremos conosco: são as horas,
          Que aos poucos lá se vão.

Feita esta reflexão sublime e grave
          De sã filosofia,
Em desleixada cisma deixaremos
          Vogar a fantasia,

Até que ao doce e tépido mormaço
          Do brando sol do outono
Em santa paz possamos quietamente
          Conciliar o sono.

Para dormir à sesta às garras fujo
          Do improbo trabalho,
E venho em teu regaço deleitoso
          Buscar doce agasalho.

Caluniam-te muito, amiga minha,
          Donzela inofensiva,
Dos pecados mortais te colocando
          Na horrenda comitiva.

O que tens de comum com a soberba?...
          E nem com a cobiça?...
Tu, que às honras e ao ouro dás as costas,
          Lhana e santa Preguiça?

Com a pálida inveja macilenta
          Em que é que te assemelhas,
Tu, que, sempre tranqüila, tens as faces
          Tão nédias e vermelhas?

Jamais a feroz ira sanguinária
          Terás por tua igual,
E é por isso, que aos festins da gula
          Não tens ódio mortal.

Com a luxúria sempre dás uns visos,
          Porém muito de longe,
Porque também não é do teu programa
          Fazer vida de monge.

Quando volves os mal abertos olhos
          Em frouxa sonolência,
Que feitiço não tens!... que eflúvios vertes
          De mórbida indolência!...

És discreta e calada como a noute;
          És carinhosa e meiga,
Como a luz do poente, que à tardinha
          Se esbate pela veiga.

Quando apareces, coroada a fronte
          De roxas dormideiras,
Longe espancas cuidados importunos,
          E agitações fragueiras;

Emudece do ríspido trabalho
          A atroadora lida;
Repousa o corpo, o espírito se acalma,
          E corre em paz a vida.

Até dos claustros pelas celas reinas
          Em ar de santidade,
E no gordo toutiço te entronizas
          De rechonchudo abade.**

Quem, senão tu, os sonhos alimenta
          Da cândida donzela,
Quando sozinha vago amor delira
          Cismando na janela?...

Não é também, ao descair da tarde,
          Que o vate nos teus braços
Deixa à vontade a fantasia ardente
          Vagar pelos espaços?...

Maldigam-te outros; eu, na minha lira
          Mil hinos cantarei
Em honra tua, e ao pé de teus altares
          Sempre cochilarei.

Nasceste outrora em plaga americana
          À luz de ardente sesta,
Junto de um manso arroio, que corria
          À sombra da floresta.

Gentil cabocla de fagueiro rosto,
          De índole indolente,
Sem dor te concebeu entre as delícias
          De um sonho inconsciente.

E nessa hora as auras nem buliam
          Nas ramas do arvoredo,
E o rio a deslizar de vagaroso
          Quase que estava quedo.

Calou-se o sabiá, deixando em meio
          O canto harmonioso,
E para o ninho junto da consorte
          Voou silencioso.

A águia, que, adejando sobre as nuvens,
          Dos ares é princesa,
Sentiu frouxas as asas, e do bico
          Deixou cair a presa.

De murmurar, manando entre pedrinhas
          A fonte se esqueceu,
E nos imóveis cálices das flores
          A brisa adormeceu.

Por todo o mundo o manto do repouso***
          Então se desdobrou,
E até dizem, que o sol naquele dia
          Seu giro retardou.

E eu também já vou sentindo agora
          A mágica influência
De teu condão; os membros se entorpecem
          Em branda sonolência.

Tudo a dormir convida; a mente e o corpo
          Nesta hora tão serena
Lânguidos vergam; dos inertes dedos
          Sinto cair-me a pena.

Mas ai!... dos braços teus hoje me arranca
          Fatal necessidade!...
Preguiça, é tempo de dizer-te adeus,
          Ó céus!... com que saudade!


Notas do Organizador Alphonsus de Guimaraens Filho:
Hino à Preguiça: Este é, a nosso ver, um dos mais deliciosos poemas humorísticos de Bernardo Guimarães. Basílio de Magalhães anota à pág. 112 de seu estudo biográfico e crítico ‘No “Hino à Preguiça”, — em que ele mais uma vez retraça um dos aspectos particulares da sua “psique”, já revelado em anteriores produções (“Ao charuto”, “Minha rede” e Ao cigarro”), — há tangível mescla de humorismo e ironia’.
** De rechonchudo abade. Em FO (Folhas de Outono, 1883) está rochonchudo.
*** Por todo o mundo o manto do repouso Suprimi a vírgula que havia em repouso.
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Poesias Completas de Bernardo Guimarães Organização, Introdução e Notas de Alphonsus de Guimaraens Filho e Apresentação de José Renato Santos Pereira, 1959, Instituto Nacional do Livro Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro RJ; Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1825 1884), mineiro de Ouro Preto, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, romancista, jornalista, magistrado e professor; bibliografia: Cantos da Solidão (poesia, 1852), O Ermitão de Muquém (1858, publicado em 1869), A Voz do Pajé (drama, 1860), Poesias diversas (1865), Evocações (1865), Lendas e Romances: Uma História de Quilombolas, A Garganta do Inferno, A Dança dos Ossos (contos, 1871), O Garimpeiro, O Seminarista e O Índio Afonso (romances, todos de 1872), A Escrava Isaura (romance, 1875), Folhas de Outono (coletânea de versos, 1883) e outros títulos; o romance A Escrava Isaura foi tema de novela de mesmo nome (19761977 e 2004, Globo e Record) e, na versão exibida na Globo, foi exportada para mais de uma centena de países  na China, por exemplo, a Escrava Isaura, protagonizada pela atriz Lucélia Santos, foi assistida por mais de 1 bilhão de pessoas e, lá, a edição do romance, em livro, contou com pelo menos 300 mil exemplares.