Mostrando postagens com marcador Alexis-Félix Arvers. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alexis-Félix Arvers. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Alexis-Félix Arvers: Nesta vida há mistério e na alma, o irrevelado, . . . [soneto]

Resultado de imagem para pequena antologia de poemas franceses de François Villon a Fernando Pessoa por Renata Cordeiro
____________________
[traduzido por Renata Cordeiro]

Nesta vida há mistério e na alma, o irrevelado,
Um sempiterno amor num instante nascido;
É o mal sem esperança, e deve ser calado
e àquela que o causou, o mal é dessabido.

Ai! Perto dela vou passar despercebido,
Com ela, o eterno só, jamais acompanhado;
e até ao fim do meu caminho aqui trilhado
nada ousarei pedir, sem nada ter obtido.

Embora por Deus boa e terna, vai seguir
Seu rumo, distraída, e sem jamais ouvir
Meu murmúrio de amor que aos seus pés se erguerá;

dirá, pia fiel ao austero dever,
lendo estes versos só repletos do seu ser,
“Que mulher será esta?”, e nada entenderá.

Resultado de imagem para félix arvers

Sonnet

Mon âme a son secret, ma vie a son mystère;
Un amour éternel en un moment conçu;
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! J’aurai passé près d’elle inaperçu
Toujours à ses côtés et toujours solitaire;
et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,
n’osant rien demander, et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite bonne et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour elevé sur ses pas;

à l’austère devoir pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle,
“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas.
____________________
Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira  Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Aléxis-Félix Arvers (1806 1850), francês e parisiense, estudou Direito, foi funcionário de cartório e perseguiu o desejo de ser poeta e escritor; fez sucesso com uma peça teatral, uma comédia que caiu no esquecimento, e levou uma vida de dandy por Paris; um seu poema, conhecido como ‘Soneto de Arvers’ e aqui transcrito, despertou grande polêmica nos meios literários à época, com todos curiosos em descobrir quem teria sido sua musa inspiradora, ‘Quelle est donc cette femme?’, ‘Quem será essa mulher?’; o ‘Soneto de Arvers’ foi amplamente traduzido para os mais diversos idiomas, inclusive para o esperanto; em língua portuguesa contam-se em dezenas os tradutores, entre os quais Guilherme de Almeida, Olegário Mariano, José Oiticica, Gondim da Fonseca, J. G. de Araújo Jorge, José Lino Grünewald, Lúcio de Mendonça, Benedicto Lopes, Bastos Tigre, além de ter inspirado outras criações em resposta ou citando o soneto famoso; Félix Arvers escreveu e publicou Minhas horas perdidas (Mês heures perdues, poesias, 1833), com o referido soneto incluso.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Félix Arvers: Tenho um mistério na alma e um segredo na vida: . . . [soneto]

Resultado de imagem para Mello Nóbrega O Sonêto de Arvers
____________________
[traduzido por Olegário Mariano]

Tenho um mistério na alma e um segredo na vida:
Eterno amor que, num momento, apareceu.
Mal sem remédio, é dor que conservo escondida
E aquela que o inspirou nem sabe quem sou eu.

A seu lado serei sempre a sombra esquecida
De um pobre homem de quem ninguém se apercebeu.
E hei de esse amor levar ao fim da humana lida,
Certo de que dei tudo e ele nada me deu.

E ela que Deus formou terna, pura e distante,
Passa sem perceber o murmúrio constante
Do amor que, a acompanhar-lhe os passos, seguirá.

Fiel ao dever que a fez tão fria quanto bela,
Perguntará, lendo estes versos cheios dela:
“Que mulher será esta?” E não compreenderá.

(Texto colhido em Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, de 23.12.1951.
Publicado, antes, em Letras e Artes, suplemento de A Manhã, em 10.6.51.)

Resultado de imagem para félix arvers
Félix Arvers

Sonnet

Mon âme a son secret, ma vie a son mystère;
Un amour éternel en un moment conçu:
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! j’aurai passé près d’elle inaperçu,
Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire,
Et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,
N’osant rien demander, et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tendre.
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour elevé sur ses pas;

À l’austère devoir pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle:
“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas.
____________________
O Soneto de Arvers — Mello Nóbrega — 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Aléxis-Félix Arvers (1806  1850), francês e parisiense, estudou Direito, foi funcionário de cartório e perseguiu o desejo de ser poeta e escritor; fez sucesso com uma peça teatral, uma comédia que caiu no esquecimento, e levou uma vida de dandy por Paris; um seu poema, conhecido como ‘Soneto de Arvers’ e aqui transcrito, despertou grande polêmica nos meios literários à época, com todos curiosos em descobrir quem teria sido sua musa inspiradora, ‘Quelle est donc cette femme?’, ‘Quem será essa mulher?’; o ‘Soneto de Arvers’ foi amplamente traduzido para os mais diversos idiomas, inclusive para o esperanto; em língua portuguesa contam-se em dezenas os tradutores, entre os quais Guilherme de Almeida, Olegário Mariano, José Oiticica, Gondim da Fonseca, J. G. de Araújo Jorge, José Lino Grünewald, Lúcio de Mendonça, Benedicto Lopes, Bastos Tigre, além de ter inspirado outras criações em resposta ou citando o soneto famoso; Félix Arvers escreveu e publicou Minhas horas perdidas (Mes heures perdues, poesias, 1833), com o referido soneto incluso.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Félix Arvers: Tenho na alma um segredo e um mistério na vida: . . . [soneto]

Resultado de imagem para Mello Nóbrega O Sonêto de Arvers
____________________
[traduzido por Guilherme de Almeida]

Tenho na alma um segredo e um mistério na vida:
Um amor que nasceu, eterno, num momento.
É sem remédio a dor; trago-a pois escondida,
E aquela que a causou nem sabe o meu tormento.

Por ela hei de passar, sombra inapercebida,
Sempre a seu lado, mas num triste isolamento,
E chegarei ao fim da existência esquecida
Sem nada ousar pedir e sem um só lamento.

E ela, que entanto Deus fez terna e complacente,
Há de, por seu caminho, ir surda e indiferente
Ao murmúrio de amor que sempre a seguirá.

A um austero dever piedosamente presa,
Ela dirá, lendo estes versos, com certeza:
"Que mulher será esta?" e não compreenderá.

(Poetas de França, 2ª edição, São Paulo, 1944.)

Resultado de imagem para félix arvers
Félix Arvers

Sonnet

Mon âme a son secret, ma vie a son mystère;
Un amour éternel en un moment conçu:
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! j’aurai passé près d’elle inaperçu,
Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire,
Et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,
N’osant rien demander, et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tendre.
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour elevé sur ses pas;

À l’austère devoir pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle:
“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas.
____________________
O Soneto de Arvers — Mello Nóbrega — 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Aléxis-Félix Arvers (1806 1850), francês e parisiense, estudou Direito, foi funcionário de cartório e perseguiu o desejo de ser poeta e escritor; fez sucesso com uma peça teatral, uma comédia que caiu no esquecimento, e levou uma vida de dandy por Paris; um seu poema, conhecido como ‘Soneto de Arvers’ e aqui transcrito, despertou grande polêmica nos meios literários à época, com todos curiosos em descobrir quem teria sido sua musa inspiradora, ‘Quelle est donc cette femme?’, ‘Quem será essa mulher?’; o ‘Soneto de Arvers’ foi amplamente traduzido para os mais diversos idiomas, inclusive para o esperanto; em língua portuguesa contam-se em dezenas os tradutores, entre os quais Guilherme de Almeida, Olegário Mariano, José Oiticica, Gondim da Fonseca, J. G. de Araújo Jorge, José Lino Grünewald, Lúcio de Mendonça, Benedicto Lopes, Bastos Tigre, além de ter inspirado outras criações em resposta ou citando o soneto famoso; Félix Arvers escreveu e publicou Minhas horas perdidas (Mes heures perdues, poesias, 1833), com o referido soneto incluso.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Martins Fontes: Primavera

____________________
Moças do coração de minha Terra,
Se a dizer vossos nomes não me atrevo,
Por vós, sabeis, minha saudade encerra
O mais contínuo e fascinante enlevo.

Qualquer de vós, seja onde for, não erra
Se se vir retratada no que escrevo,
Porque a poesia é um véu que se descerra,
Para a imagem mostrar-vos em relevo.

Em meus versos se espelha o vosso rosto:
Dá-se convosco exatamente o oposto
Do Soneto lindíssimo de Arvers.

Lendo-me, pensareis:  Sou eu! Pressinto,
Há muito, o seu amor! Sei, por instinto,
Que é impossível ser outra esta mulher!

Resultado de imagem para martins fontes poeta
____________________
O Soneto de Arvers — Mello Nóbrega — 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; José Martins Fontes (1884  1937), paulista de Santos, foi médico sanitarista, poeta, conferencista e jornalista; escreveu para os jornais A GazetaDiário Popular, de São Paulo, Diário de Santos, Cidade de Santos e também para outros periódicos e revistas; deixou-nos extensa produção literária em verso e prosa e também outras de caráter científico; algumas de suas obras: Granada (poema, 1899), O Lezado (1908), Chicouuu (versos, 1917), A Gripe em Iguape (1920), Arlequinada (fantasia, 1922), Boêmia galante (versos, 1923), Rosicler (versos (1923), Prometeu (versos, 1924), Partida para Cítera (teatro, 1925), Volúpia (versos, 1925), Decameron (contos, 1925), O céu verde (versos, 1926), O Colar Partido (prosa, 1927), A flauta encantada (poesias, 1931) e tantos outros títulos.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Luísa de Oliveira: Tenho n'alma um segredo e um mistério na vida; [soneto]

____________________
Tenho n’alma um segredo e um mistério na vida:
 Um afeto eternal num momento nascido;
Calarei este amor, que a esperança é perdida
E quem me faz sofrer não me tem entendido...

Ah! passando por ela, então, despercebido
desta linda visão, todavia querida!
Eu findarei no mundo, assim, a minha vida,
Nada ousando pedir e nada tendo ouvido.

Se bem que seja terna e de carinho cheia,
Sempre a vejo ao meu lado, indiferente e alheia
Ao sussurro do amor que aos seus pés descerá.

Piedosamente fiel a um dever tão santo,
Ela dirá ao ler os versos que eu descanto:
 “Quem é esta mulher?” — mas não compreenderá...

[Colhido num artigo de Lincoln de
 Souza, em Gazeta de Notícias, do
 Rio  de Janeiro, edição de... (?)].
____________________
O Soneto de Arvers — Mello Nóbrega, 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; sobre a autora Luísa de Oliveira, nada foi encontrado em pesquisa.

domingo, 30 de outubro de 2016

José Oiticica: Tenho um segredo n'alma e um mistério na vida, . . . [tradução do 'Soneto de Arvers'] *

____________________
Tenho um segredo na alma e um mistério na vida,
Este infinito amor nascido sem querer.
Ela nunca entreviu esta febre contida
Pois, sendo o mal sem cura, o melhor é esconder.

Ai! Passarei, despercebido em minha lida,
Sempre a seu lado e sempre só, a padecer,
Recalcando, até o fim, esta paixão proibida
Nada ousando implorar, sem dela nada obter.

Ela, entretanto, absorta, irá no seu caminho
Sem ouvir murmurar, em derredor, baixinho
Este arrulho de amor que, ansiante, a seguirá;

Fiel ao rude dever, erguendo a fronte bela,
Dirá, depois de ler meus versos cheios dela,
“Que mulher será essa” e não compreenderá.

José Oiticica

Sonnet


Mon âme a son secret, ma vie a son mystère;
Un amour eternel en un moment conçu:
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le traire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! j’aurai passé près d’elle inaperçu,
Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire,
Et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,
N’osant rien demander et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour élevé sous ses pas;

À l’austère devoir pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle:
"Quelle est donc cette femme?" et ne comprendra pas

Félix Arvers


* Nota de Mello Nóbrega: (Texto comunicado pelo Autor, em carta de 5 de junho de 1954, como definitivo. Variantes desta tradução podem ser lidas na coletânea de sonetos organizada por Amélia de Sampaia Arruda, 1946; e em Studia, Rio de Janeiro, ano II, nº 2, dezembro de 1951.)
____________________
O Soneto de Arvers — Mello Nóbrega, 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882  1957), mineiro de Oliveira, fez seus primeiros estudos em Maceió  AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor e poeta; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia" relata Fernando Góes em Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os periódicos Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929) e Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa e colaborou com a imprensa operária libertária através dos jornais A Lanterna, Spartacus, Livre Pensador, A Plebe, e a revista A Vida; obras: Sonetos, primeira série (1911), Ode Ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Roteiro de Fonética Fisiológica, Técnica do Verso e Dicção (1955), e outros títulos.

sábado, 29 de outubro de 2016

Félix Arvers: Tenho n'alma um segredo e um mistério na vida . . . [soneto — tradução de Gondin da Fonseca]

Livro de Ouro da Poesia de Angústia, Sofrimento e Morte: Ed. Bilíngue
____________________
[traduzido por Gondin da Fonseca]

Tenho n’alma um segredo e um mistério na vida:
e este amor imortal gerado num momento;
sufoco-o, pois não espera alívio o meu tormento
— e não vê, quem o causa, a minha alma dorida!

Por ela,  ai! — passarei, sombra despercebida,
sempre a seu lado e sempre só, e em desalento!
E hei de findar, morrer neste martírio lento,
sem pedir, sem ousar, sem uma graça obtida.

Embora doce e terna, essa que me alanceia
irá continuando o seu caminho, alheia
a este amor que em murmúrio a segue onde ela vá.

Presa ao dever, tranqüila, honestamente bela,
talvez pergunte, ao ler versos tão cheios dela:
"que mulher será esta?" 
— e não compreenderá.

Resultado de imagem para félix arvers

Sonnet

Mon âme a son secret, ma vie a son mystère;
Un amour éternel en un moment conçu:
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! j’aurai passé près d’elle inaperçu,
Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire,
Et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,
N’osant rien demander, et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tender.
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour elevé sur ses pas;

À l’austère devoir pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle:
“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas.
____________________
O Livro de Ouro da Poesia de Angústia, Sofrimento e Morte edição bilíngüe (diversos autores), tradução de Gondin da Fonseca, sem data, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Aléxis-Félix Arvers (1806  1850), francês e parisiense, estudou Direito, foi funcionário de cartório e perseguiu o desejo de ser poeta e escritor; fez sucesso com uma peça teatral, uma comédia que caiu no esquecimento, e levou uma vida de dandy por Paris; um seu poema, conhecido como ‘Soneto de Arvers’ e aqui transcrito, despertou grande polêmica nos meios literários à época, com todos curiosos em descobrir quem teria sido sua musa inspiradora, ‘Quelle est donc cette femme?’, que mulher será esta?’; o ‘Soneto de Arvers’ foi amplamente traduzido para os mais diversos idiomas, inclusive para o esperanto; em língua portuguesa contam-se em dezenas os tradutores, entre os quais Guilherme de Almeida, Olegário Mariano, José Oiticica, Gondim da Fonseca, J. G. de Araújo Jorge, José Lino Grünewald, Lúcio de Mendonça, Benedicto Lopes, Bastos Tigre, além de ter inspirado outras criações em resposta ou citando o soneto famoso; Félix Arvers escreveu e publicou Minhas horas perdidas (Mes heures perdues, poesias, 1833), com o referido soneto incluso.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Bastos Tigre: Guardo um segredo n'alma e um mistério na vida, . . . [soneto]

____________________
Guardo um segredo n’alma e um mistério na vida,
Imorredouro amor que irrompeu de momento,
Se o mal é sem remédio, a queixa é descabida
E a que me fez o mal, nunca ouviu meu lamento.

Por ela já passei — sombra despercebida,
E ao meu lado a senti, no meu isolamento!
Ao termo chegarei dessa terrena lida,
E não ouso pedir, e receber não tento.

Quanto a ela, apesar da doçura e carinho
Com quem Deus a dotou, seguirá seu caminho,
Sem ouvir que a acompanha um murmúrio de amor...

E, fiel ao seu dever que austeramente zela,
Ela dirá, lendo os meus versos plenos dela:
 “O soneto de Arvers tem mais um tradutor!”

(Poesias Humorísticas, Rio de Janeiro, 1933.)

____________________
O Soneto de Arvers  Mello Nóbrega, 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Bastos Tigre (1882  1957), pernambucano de Recife, foi poeta, jornalista, bibliotecário, compositor, humorista e publicitário; redigiu programas de rádio, colaborou em diversos jornais e revistas e escreveu por longuíssimo tempo a coluna "Pingos & Respingos" do Correio da Manhã; escreveu peças e revistas teatrais; obra literária: Saguão da Posteridade (Tipografia Altina, Rio de Janeiro, 1902), Versos Perversos (Livraria Cruz Coutinho, Rio de Janeiro, 1905), Moinhos de Vento (J. Silva, Rio de Janeiro, 1913), Bolhas de Sabão (Leite Ribeiro & Maurillo, Rio de Janeiro, 1919), Fonte da Carioca (1922), Arlequim (Tipografia Fluminense, Rio de Janeiro, 1922), Penso, logo eis isto... (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1923), A Ceia dos Coronéis (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1924), Poemas da Primeira Infância (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1925), Poesias Humorísticas (seleção de versos já publicados e mais poemas novos, Flores & Mano, Rio de Janeiro, 1933) e outros títulos; Bastos Tigre é considerado o primeiro bibliotecário concursado do Brasil, em sua homenagem criou-se o dia do Bibliotecário, comemorado em 12 de março, data do seu nascimento.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Félix Arvers: Minha alma tem segredo e esta vida, um mistério, . . . [soneto — tradução de José Lino Grunewald}

____________________
[traduzido por José Lino Grünewald]

Minha alma tem segredo e esta vida, um mistério,
Um sempre eterno amor num momento nascido;
Também devo calar o mal que é deletério,
E aquela que assim fez jamais teve-o sabido.

Ai! por ela eu passei, perto, despercebido
Incessante a seu lado e, no entanto, funéreo;
E teria ido ao fim, até o cemitério,
Nada pedindo, nada havendo recebido.

Já que Deus a fez boa e terna, vai seguir
A trilha, distraída e sem poder ouvir
O murmúrio de amor por sobre seu andar;

Ao austero dever que piamente zela,
Dirá, lendo estes versos, eles plenos dela,
“Quem será essa mulher?” e não vai desvendar.

Resultado de imagem para félix arvers
Félix Arvers

Sonnet

Mon âme a son secret, ma vie a son mystère,
Un amour éternel en un moment conçu;
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,
et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! j’aurai passé près d’elle inaperçu
Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire;
et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre
n’osant rien demander, et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour elevé sur ses pas;

à l’autère devoir pieusement fidèle,
elle dirá, lisant ces vers tout remplis d’elle,
“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas.
____________________
Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro RJ; Aléxis-Félix Arvers (1806  1850), francês e parisiense, estudou Direito, foi funcionário de cartório e perseguiu o desejo de ser poeta e escritor; fez sucesso com uma peça teatral, uma comédia que caiu no esquecimento, e levou uma vida de dandy por Paris; um seu poema, conhecido como ‘Soneto de Arvers’ e aqui transcrito, despertou grande polêmica nos meios literários à época, com todos curiosos em descobrir quem teria sido sua musa inspiradora, ‘Quelle est donc cette femme?’, ‘Quem será essa mulher?’; o ‘Soneto de Arvers’ foi amplamente traduzido para os mais diversos idiomas, inclusive para o esperanto; em língua portuguesa contam-se em dezenas os tradutores, entre os quais Guilherme de Almeida, Olegário Mariano, José Oiticica, Gondim da Fonseca, J. G. de Araújo Jorge, José Lino Grünewald, Lúcio de Mendonça, Benedicto Lopes, Bastos Tigre, além de ter inspirado outras criações em resposta, ou citando o soneto famoso; Félix Arvers escreveu e publicou Minhas horas perdidas (Mes heures perdues, poesias, 1833), com o referido soneto incluso.