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terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Blaise Cendrars: Quando amares, vai-te embora . . .


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[paráfrase de Cendrars, por Prudente de Moraes, Neto]

Quando amares, vai-te embora,
toma o trem, toma o avião,
o auto, o vapor, dá o fora,
pisa, rasga o coração.
Suspira, chora, aborrece-te,
assobia, dança, embriaga-te
e se a morte um dia afaga-te,
verás, teu amor esquece-te.
Um ano, um dia, uma hora...
Quando amares vai-te embora,
sossega esse coração.

Quando amares vai-te embora
por esse mundo de Deus.
Vai sem destino, que agora
não saibam os passos teus
onde conduzir-te. A esmo
sem hora, sem rumo, à toa
companheiros de ti mesmo
verás que a vida ainda é boa.
Vai, anda, parte, dá o fora
Vai, anda, parte, dá o fora
quando amares vai-te embora
domina o teu coração.

Quando amares vai-te embora
por este mundo sem fim!
Faz como eu farei agora,
não volto mais, ai de mim!

Blaise Cendrars

Tu es plus belle que le ciel et la mer

Quand tu aimes il faut partir
Quitte ta femme quitte ton enfant
Quitte ton ami quitte ton amie
Quitte ton amante quitte ton amant
Quand tu aimes il faut partir

Le monde est plein de nègres et de négresses
Des femmes des hommes des hommes des femmes
Regarde les beaux magasins
Ce fiacre cet homme cette femme ce fiacre
Et toutes les belles marchandises
Il y a l'air il y a le vent
Les montagnes l'eau le ciel la terre
Les enfants les animaux
Les plantes et le charbon de terre
Apprends à vendre à acheter à
Donne prends donne prends
Quand tu aimes il faut savoir
Chanter courir manger boire
Siffler
Et apprendre à travailler

Quand tu aimes il faut partir
Ne larmoie pas en souriant
Ne te niche pas entre deux seins
Respire marche pars va-t-en

Je prends mon bain et je regarde
Je vois la bouche que je connais
La main la jambé
Le l'œil
Je prends mon bain et je regarde

Le monde entier est toujours là
La vie pleine de choses surprenantes
Je sors de la pharmacie
Je descends juste de la bascule
Je pèse mes 80 kilos
Je t'aime

[Feuilles de route, 1924]
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr., sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Blaise Cendrars (1887 1961), pseudônimo literário de Frédéric Louis Sauser, franco-suíço nascido em La Chaux-de-Fonds, Suiça, iniciou faculdade de Medicina, em Berna, mas interrompeu seus estudos, foi romancista e poeta, considerado uma das principais figuras do movimento modernista francês; em 1912, em Paris, foi cofundador da editora e revista literária Les Hommes nouvelles, na qual passou a editar e publicar seus poemas e textos de outros autorias: conheceu Apollinaire, Delaunay, Chagall e Modigliani; em 1915, juntou-se à Legião Estrangeira, lutou na primeira grande guerra, foi gravemente ferido na mão direita, em rajada de metralhadora, e teve o braço amputado logo abaixo do cotovelo; o poeta aprendeu a escrever com a mão esquerda; viajou pelos Estados Unidos, pela América do Sul e, conhecedor de várias línguas, traduziu para o francês autores ingleses, alemães, portugueses e brasileiros; produziu relatos de viagem e foi colaborador em muitas revistas e jornais literários; em 1939, na segunda guerra, tornou-se correspondente do exército inglês; suas obras: Les Pâques à New York (poemas, 1912), Sèquences (poemas, 1913), Prose du Transsibérien et de la petite Jeanne de France (1913), La Guerre au Luxembourg (1916), I Killed (poemas, 1918), Dix-neuf poèmes élastiques (1919), Feuilles de route (poemas, 1924), L’Or. La merveilleuse histoire du général Johann August Suter (novela, 1925), Moravagine (romance surrealista, 1926), Petits Contes nègres pour les enfants des Blancs (1928), L’Homme foudroyé e Le Main coupée (ambas, autobiografias de experiências da guerra, 1945 e 1946), Bourlinguer e Le Lotissement du ciel (ambas, memórias, 1948 e 1949) etc.; quando esteve no Brasil, em 1924, o poeta conheceu os modernistas Oswald de Andrade, Mario de Andrade e Sérgio Milliet, foi por eles influenciado e também os influenciou; Blaise Cendrars, que se naturalizara francês e recebera a cidadania ainda em 1916, recebeu sua única láurea por suas obras, o Grand Prix Littéraire de la Ville de Paris, em 1961, um pouco antes de morrer.

segunda-feira, 29 de julho de 2024

Blaise Cendrars: O Pássaro Azul & Vida Perigosa

 
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[traduzidos por R. Magalhães Júnior]

O Pássaro Azul

Meu pássaro azul tem o papo todo azul
Sua cabeça é de um verde concentrado
Tem uma pinta negra no pescoço
Suas asas são azuis com tufos de pequenas plumas douradas
No fim da cauda há traços de vermelhão
As costas são zebradas de negro e verde
Tem o bico negro as patas encarnadas de bananas e dois pequenos
olhos de azeviche
Adora fazer sopinha, alimenta-se de bananas e solta um grito
semelhante a um pequeno apito de vapor
Seu nome é seticolor

— o —

Vida Perigosa

Hoje sou talvez o homem mais feliz do mundo
Possuo tudo aquilo que não desejo
E da única coisa a que aspiro cada rotação de hélice me aproxima
E decerto já a terei perdido ao chegar

Blaise Cendrars

L'Oiseau Bleu

Mon oiseau bleu a le ventre tout bleu
Sa tête est d'un vert mordoré
Il a une tache noire sous la gorge
Ses ailes sont bleues avec des touffes de petites plumes jaune doré
Au bout de la queue il y a des traces de vermillon
Son dos est zébré de noir et de vert
Il a le bec noir les pattes incarnat et deux petits yeux de jais
Il adore faire trempette se nourrit de bananes et pousse un cri qui
ressemble au sifflement d'un tout petit jet de vapeur
On le nomme le septicolore

— o —

Vie Dangereuse

Aujourd'hui je suis peut-être l'homme le plus heureux du monde
Je possède tout ce que je ne désire pas
Et la seule chose à laquelle je tienne dans la vie chaque tour de l'hélice
m'en rapproche
Et j'aurai peut-être tout perdu en arrivant
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr., sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Blaise Cendrars (1887 1961), pseudônimo literário de Frédéric Louis Sauser, franco-suíço nascido em La Chaux-de-Fonds, Suiça, iniciou faculdade de Medicina, em Berna, mas interrompeu seus estudos, foi romancista e poeta, considerado uma das principais figuras do movimento modernista francês; em 1912, em Paris, foi cofundador da editora e revista literária Les Hommes nouvelles, na qual passou a editar e publicar seus poemas e textos de outros autorias: conheceu Apollinaire, Delaunay, Chagall e Modigliani; em 1915, juntou-se à Legião Estrangeira, lutou na primeira grande guerra, foi gravemente ferido na mão direita, em rajada de metralhadora, e teve o braço amputado logo abaixo do cotovelo; o poeta aprendeu a escrever com a mão esquerda; viajou pelos Estados Unidos, pela América do Sul e, conhecedor de várias línguas, traduziu para o francês autores ingleses, alemães, portugueses e brasileiros; produziu relatos de viagem e foi colaborador em muitas revistas e jornais literários; em 1939, na segunda guerra, tornou-se correspondente do exército inglês; suas obras: Les Pâques à New York (poemas, 1912), Sèquences (poemas, 1913), Prose du Transsibérien et de la petite Jeanne de France (1913), La Guerre au Luxembourg (1916), I Killed (poemas, 1918), Dix-neuf poèmes élastiques (1919), Feuilles de route (poemas, 1924), L’Or. La merveilleuse histoire du général Johann August Suter (novela, 1925), Moravagine (romance surrealista, 1926), Petits Contes nègres pour les enfants des Blancs (1928), L’Homme foudroyé e Le Main coupée (ambas, autobiografias de experiências da guerra, 1945 e 1946), Bourlinguer e Le Lotissement du ciel (ambas, memórias, 1948 e 1949) etc.; quando esteve no Brasil, em 1924, o poeta conheceu os modernistas Oswald de Andrade, Mario de Andrade e Sérgio Milliet, foi por eles influenciado e também os influenciou; Blaise Cendrars, que se naturalizara francês e recebera a cidadania ainda em 1916, recebeu sua única láurea por suas obras, o Grand Prix Littéraire de la Ville de Paris, em 1961, um pouco antes de morrer.