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terça-feira, 7 de maio de 2024

Junqueira Freire: Temor


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Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olhe que a terra
            Não sinta o nosso peso.

Deitemo-nos aqui. Abre-me os braços.
Escondamo-nos um no seio do outro.
Não há de assim nos avistar a morte,
            Ou morreremos juntos.

Não fales muito. Uma palavra basta
Murmurada, em segredo, ao pé do ouvido.
Nada, nada de voz,  nem um suspiro,
            Nem um arfar mais forte.

Fala-me só com o revolver dos olhos.
Tenho-me afeito à inteligência deles.
Deixa-me os lábios teus, rubros de encanto,
            Somente pra os meus beijos.

Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olha que a terra
            Não sinta o nosso peso.

(Grandes Poetas Românticos do Brasil, organização,
revisão e notas de Federico José da Silva Ramos
— Edições Lep, São Paulo, 1952, pág. 477.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia: vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Luis José Junqueira Freire (1832 1855), baiano e soteropolitano, aos sete anos iniciou de forma irregular seus estudos primários e os de Latim, eis que era acometido de moléstia cardíaca; em 1849, matriculou-se no Liceu Provincial, de Salvador, tendo sido “excelente aluno, grande ledor e já poeta”; em 1851, por razões familiares, ingressou na Ordem Beneditina, mas a abandonou por não se considerar vocacionado para a vida monástica, “embora permanecesse sacerdote, por força dos votos perpétuos”; teve um único livro publicado em vida: Inspirações do Claustro (1855) e, postumamente, seguiu-se Contradições Poéticas (1868); faleceu em 24 de junho de 1855, com apenas 23 anos de idade.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Junqueira Freire *: Arda de raiva contra mim a intriga, . . . [soneto]

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Arda de raiva contra mim a intriga,
morra de dor a inveja insaciável;
destile seu veneno detestável
a vil calúnia, pérfida, inimiga.

Una-se todo, em traiçoeira liga,
contra mim só, o mundo miserável.
Alimente por mim ódio entranhável
o coração da terra que me abriga.

Sei rir-me da vaidade dos humanos;
sei desprezar um nome não preciso;
sei insultar uns cálculos insanos.

Durmo feliz sobre o suave riso
de uns lábios de mulher gentis, ufanos;
e o mais que os homens dão, desprezo e piso.


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador deste 60 Poetas Trágicos, registra acerca de Junqueira Freire: “Após dois anos de contrariedades, angústias e martírios no Mosteiro de São Bento, na Bahia, em 1853 solicitou a secularização, que lhe permitia abster-se da severidade monástica, embora permanecesse sacerdote por ter feito votos perpétuos. E voltou para casa. Fez bem ao poeta, haja vista a trágica força dos versos que produziu na abordagem de temas que o desesperavam, como horror da vida celibatária, os desejos reprimidos, a revolta contra o mundo e o arrependimento por ter feito votos que o aprisionavam. Mas o poeta era cardíaco e morreu com apenas 23 anos.
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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Luis José Junqueira Freire (1832 1855), baiano e soteropolitano, chegou a ingressar na Ordem Beneditina mas abandonou-a, pois não se considerou vocacionado para a vida monástica; teve um único livro publicado em vida: Inspirações do Claustro (1855) e, postumamente, seguiu-se Contradições Poéticas (1868).

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Junqueira Freire: A Sultana

 
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Sultana!  por que teus olhos
pululam choro tão triste?
No vôo de ave sinistra
algum mau agouro viste?
Ou dos lábios do teu mago
más profecias ouviste?

Que tens que choras, sultana,
co’as mãos no queixo  tão bela?
Tanto palor nestas faces,
que foram cor de canela?
Desalinhada a madeixa,
sentada junto à janela?

Sultana!  por que dedilhas
os bilros nesse tear?
Os dedos correm e correm
à toa, sem acertar!
Os dedos erram pontos
bem fora de seu lugar!

Sultana!  que dor tamanha
que te esmaga o coração?
Que te pode armar nas faces
tão estranha contração?
Que pode arrojar-te a mente
em tão vaga distração?

 Meu senhor hoje chamou-me:
quando mais me chamará?
Meu senhor hoje falou-me:
quando mais me falará?
Meu senhor hoje abraçou-me:
quando mais me abraçará?

Naquele colchão macio
eu junto dele dormi;
eu vi o céu do profeta,
o céu verdadeiro eu vi:
oh! que bela a noite de ontem!
 Não terei mais noite assi!

Beijou-me co’a sua boca
macia como cetim
abraçou-me com seus braços
mais lindos do que o marfim:
reclinou minha cabeça
em cima de seu coxim.

Eu ficava toda fria,
se ele se achegava a mim:
minhas faces palejavam,
como cândido jasmim:
 e depois... ficava ardente,
vermelha  como um rubim.

Eu lhe ouvi a voz sonora,
como a voz de um querubim,
que doce roçar de beijos
macios como o cetim!
Que dedos tão delicados,
que se imprimiram em mim!

Julguei eterna a ventura,
 fui louca  pobre de mim!
Não luzem mais de uma noite
as lâmpadas do festim!
 Revelai-me ó grão profeta,
se terei mais noite assim!

Meu senhor tem mil mulheres
tão doces como o maná;
amante de coisas novas,
as novas chamando irá:
meu senhor  de mim, coitada,
de mim não se lembrará!

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Livro das Cortesãs 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Luis José Junqueira Freire (1832 1855), nascido em Salvador BA, chegou a ingressar na Ordem Beneditina mas abandonou-a, pois não se considerou vocacionado para a vida monástica; teve um único livro publicado em vida: Inspirações do Claustro (1855) e, postumamente, seguiu-se Contradições Poéticas (1868).

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Junqueira Freire: Arda de raiva contra mim a intriga, . . . [soneto]

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Arda de raiva contra mim a intriga,
morra de dor a inveja insaciável;
destile seu veneno detestável
a vil calúnia, pérfida inimiga.

Una-se tudo em traiçoeira liga,
contra mim só, o mundo miserável;
alimente por mim ódio entranhável
o coração da terra que me abriga.

Sei rir-me da vaidade dos humanos;
sei desprezar um nome não preciso;
sei insultar uns cálculos insanos.

Durmo feliz sobre o suave riso
de uns lábios de mulher gentis, ufanos;
e o mais que os homens dão, desprezo e piso.

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Luis José Junqueira Freire (1832  1855), nascido em Salvador  BA, chegou a ingressar na Ordem Beneditina mas abandonou-a, pois não se considerou vocacionado para a vida monástica; teve um único livro publicado em vida: Inspirações do Claustro (1855); seguiu-se, postumamente, Contradições Poéticas (1868).

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Junqueira Freire: A Órfã na Costura*

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.

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Minha mãe era bonita
Era toda a minha dita
Era todo o meu amor.
Seu cabelo era tão louro,
Que nem uma fita de ouro
Tinha tamanho esplendor.

Suas madeixas luzidas
Lhe caíam tão compridas
Que vinham-lhe os pés beijar;
Quando ouvia as minhas queixas,
Em suas áureas madeixas
Ela vinha me embrulhar.

Também quando toda fria
A minha alma estremecia,
Quando ausente estava o sol,
Os seus cabelos compridos,
Como fios aquecidos,
Serviam-me de lençol.

Minha mãe era bonita
Era toda a minha dita
Era todo o meu amor.
Seus olhos eram suaves,
Como o gorjeio das aves,
Sobre a choça do pastor.

Minha mãe era mui bela,
Eu me lembro tanto dela,
De tudo quanto era seu!
Tenho em meu peito guardadas
Suas palavras sagradas
Co’os risos que ela me deu.

Os meus passos vacilantes
Foram por largos instantes,
Ensinados pelos seus.
Os meus lábios, mudos, quedos,
Abertos pelos seus dedos,
Pronunciaram-me: — Deus! —

Mais tarde — Quando acordava,
Quando a aurora despontava,
Erguia-me sua mão,
Falando pela voz dela,
Eu repetia, singela,
Uma formosa oração.

Minha mãe era mui bela,
— Eu me lembro tanto dela,
De tudo quanto era seu!
Minha mãe era bonita,
Era toda a minha dita,
Era tudo e tudo meu.

Estes pontos que eu imprimo
Estas quadrinhas que eu rimo,
Foi ela que me ensinou,
As vozes que eu pronuncio
Os contos que eu balbucio,**
Foi ela que m’os formou.

Minha mãe! — diz-me esta vida,
Diz-me também esta lida,
Este retrós, esta lã!
Minha mãe! — diz-me este canto;
Minha mãe! — diz-me este pranto;
Tudo me diz: — Minha mãe!

Minha mãe era mui bela,
— Eu me lembro tanto dela,
E tudo quanto era seu!***
Minha mãe era bonita,
Era toda a minha dita,
Era tudo e tudo meu.
(Transcrito de Os Anais, n. 92, ano 3, Rio, 1906,
 por Almachio Diniz  Anthologia da Língua
 Vernácula, organizada como curso
 de Literatura Brasileira, Livraria
 Catilina, Bahia, 1913)
JUNQUEIRA FREIRE
* Conferido com Junqueira Freire, Nossos Clássicos, e com Poesias Completas, volume I, e com Junqueira Freire, Obras Completas, tomo I, "Inspiração do Claustro", Edições Cultura, 1943, São Paulo  SP;
** Os cantos em vez de Os contos;
*** De tudo em vez de E tudo.
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Antologia de Antologias  101 poemas brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, e prefácio de Alfredo Bosi, 1a. edição (2a. reimpressão), 2004, Musa Editora, São Paulo - SP; Luis José Junqueira Freire (1832  1855), nascido em Salvador  BA, chegou a ingressar na Ordem Beneditina mas abandonou-a, pois não se considerou vocacionado para a vida monástica; teve um único livro publicado em vida: Inspirações do Claustro (1855); seguiu-se, postumamente, Contradições Poéticas (1868).

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Junqueira Freire: Louco (Hora do delírio)

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Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
Aproxima-se mais à essência etérea.

Achou pequeno o cérebro que o tinha:
Suas idéias não cabiam nele;
Seu corpo é que lutou contra su'alma,
E nessa luta foi vencido aquele.

Foi uma repulsão de dois contrários;
Foi um duelo, na verdade, insano:
Foi um choque de agentes poderosos;
Foi o divino a combater co'o humano.


Agora está mais livre. Algum atilho
Soltou-se-lhe do nó da inteligência;
Quebrou-se o anel dessa prisão de carne,
Entrou agora em sua própria essência.


Agora é mais espírito que corpo:
Agora é mais um ente lá de cima;
É mais, é mais que um homem vão de barro:
É um anjo de Deus, que Deus anima.


Agora, sim  o espírito mais livre
Pode subir às regiões supernas:
Pode, ao descer, anunciar aos homens
As palavras de Deus, também eternas.

E vós, almas terrenas, que a matéria
Ou sufocou ou reduziu a pouco,
Não lhe entendeis, por isso, as frases santas.
E zombando o chamais, portanto:  um louco!

Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre.
Aproxima-se mais à essência etérea.
Contradições poéticas (1868)
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Roteiro da Poesia Brasileira — Romantismo, Seleção e Prefácio de Antonio Carlos Secchin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo — SP; Luis José Junqueira Freire (1832  1855), nascido em Salvador  BA, chegou a ingressar na Ordem Beneditina mas abandonou-a por não considerar com vocação para a vida monástica; teve um único livro publicado em vida: Inspirações do Claustro (1855); seguiu-se, postumamente, Contradições Poéticas (1868).