O morto precisa
tratamento exato.
Preciso é primeiro
formol em um frasco.
Algodão em bolas
e luvas de banho.
Ataduras brancas,
alfinetes novos.
De Pean a pinça,
mais um pente grosso,
que pode ser de aço,
ou mesmo de osso.
Carece é não ter
piedade do morto.
Enquanto está fresco
preciso é cuidá-lo.
A técnica ensina
o método exato.
(Descalçar não basta
o par de sapatos.)
Tire o travesseiro
em que o morto dorme.
(Ao lençol atente
e ao esparadrapo.)
Eles serão úteis
ao tempo devido.
(Cuba e etiquetas
na mesa de vidro.)
A colcha da cama
retire a seu tempo.
Do corpo a camisa
agora é despi-la.
E o corpo do morto
agora é levá-lo.
e os olhos do morto
devem ser cerrados.
E a boca do morto
deve ser selada.
(Se o queixo for duro
use o esparadrapo.)
Coloque a etiqueta,
no peito do morto.
Seu nome, endereço,
número do quarto.
Vista outra camisa
no corpo do morto.
Depois vire o corpo
do lado direito.
O colchão cobrindo,
o lençol estenda.
Desvire o cadáver
(o peito pra cima).
Envolva-o todo
com lençol bem largo,
(que deve estar solto
da beira do estrado).
Aos pés amarrado
atado ao pescoço
será o lençol branco
a roupa do morto.
Mais outra etiqueta
no lençol coloque,
contendo endereço,
data e telefone.
O morto está pronto
a ser enterrado.
Querendo, a família,
poderá lustrá-lo.
Cortar suas unhas,
a barba, o cabelo.
E pode enfeitá-lo
de turco ou de grego.
e pode engraxar-lhe
as negras botinas.
E pode untá-lo
de brilhantinas.
Pentear seus cabelos,
defumar suas partes.
Sujá-lo de flores
ou mesmo pranteá-lo.
O que era preciso
foi feito em sua homenagem.
O resto...
— silêncio!
e boa viagem.
Preciso é primeiro
formol em um frasco.
Algodão em bolas
e luvas de banho.
Ataduras brancas,
alfinetes novos.
De Pean a pinça,
mais um pente grosso,
que pode ser de aço,
ou mesmo de osso.
Carece é não ter
piedade do morto.
Enquanto está fresco
preciso é cuidá-lo.
A técnica ensina
o método exato.
(Descalçar não basta
o par de sapatos.)
Tire o travesseiro
em que o morto dorme.
(Ao lençol atente
e ao esparadrapo.)
Eles serão úteis
ao tempo devido.
(Cuba e etiquetas
na mesa de vidro.)
A colcha da cama
retire a seu tempo.
Do corpo a camisa
agora é despi-la.
E o corpo do morto
agora é levá-lo.
e os olhos do morto
devem ser cerrados.
E a boca do morto
deve ser selada.
(Se o queixo for duro
use o esparadrapo.)
Coloque a etiqueta,
no peito do morto.
Seu nome, endereço,
número do quarto.
Vista outra camisa
no corpo do morto.
Depois vire o corpo
do lado direito.
O colchão cobrindo,
o lençol estenda.
Desvire o cadáver
(o peito pra cima).
Envolva-o todo
com lençol bem largo,
(que deve estar solto
da beira do estrado).
Aos pés amarrado
atado ao pescoço
será o lençol branco
a roupa do morto.
Mais outra etiqueta
no lençol coloque,
contendo endereço,
data e telefone.
O morto está pronto
a ser enterrado.
Querendo, a família,
poderá lustrá-lo.
Cortar suas unhas,
a barba, o cabelo.
E pode enfeitá-lo
de turco ou de grego.
e pode engraxar-lhe
as negras botinas.
E pode untá-lo
de brilhantinas.
Pentear seus cabelos,
defumar suas partes.
Sujá-lo de flores
ou mesmo pranteá-lo.
O que era preciso
foi feito em sua homenagem.
O resto...
— silêncio!
e boa viagem.
Joana em flor (1965)
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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo — SP; Reynaldo Jardim (1926 — 2011), paulista e paulistano, além de poeta, foi jornalista e teatrólogo; escreveu: Joaquim e outros meninos (1955); Science fiction, prosa neoconcreta (1959); Joana em Flor (1965); Maria Betânia, Guerreira, Guerrilha (1968); Cantares Prazeres (1986); Lagartixa escorregante na parede de domingo (2005) etc.