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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Reynaldo Jardim: Cuidados com o morto


O morto precisa
tratamento exato.
Preciso é primeiro
formol em um frasco.
Algodão em bolas
e luvas de banho.
Ataduras brancas,
alfinetes novos.
De Pean a pinça,
mais um pente grosso,
que pode ser de aço,
ou mesmo de osso.

Carece é não ter
piedade do morto.
Enquanto está fresco
preciso é cuidá-lo.
A técnica ensina
o método exato.
(Descalçar não basta
o par de sapatos.)

Tire o travesseiro
em que o morto dorme.
(Ao lençol atente
e ao esparadrapo.)
Eles serão úteis
ao tempo devido.
(Cuba e etiquetas
na mesa de vidro.)
A colcha da cama
retire a seu tempo.
Do corpo a camisa
agora é despi-la.
E o corpo do morto
agora é levá-lo.
e os olhos do morto
devem ser cerrados.

E a boca do morto
deve ser selada.
(Se o queixo for duro
use o esparadrapo.)

Coloque a etiqueta,
no peito do morto.
Seu nome, endereço,
número do quarto.
Vista outra camisa
no corpo do morto.
Depois vire o corpo
do lado direito.
O colchão cobrindo,
o lençol estenda.

Desvire o cadáver

(o peito pra cima).
Envolva-o todo
com lençol bem largo,
(que deve estar solto
da beira do estrado).

Aos pés amarrado
atado ao pescoço
será o lençol branco
a roupa do morto.

Mais outra etiqueta
no lençol coloque,
contendo endereço,
data e telefone.
O morto está pronto
a ser enterrado.

Querendo, a família,
poderá lustrá-lo.
Cortar suas unhas,
a barba, o cabelo.
E pode enfeitá-lo
de turco ou de grego.
e pode engraxar-lhe
as negras botinas.
E pode untá-lo
de brilhantinas.
Pentear seus cabelos,
defumar suas partes.

Sujá-lo de flores
ou mesmo pranteá-lo.
O que era preciso
foi feito em sua homenagem.
O resto...
             — silêncio!
e boa viagem.
Joana em flor (1965)
____________________
Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo  SP; Reynaldo Jardim (1926  2011), paulista e paulistano, além de poeta, foi jornalista e teatrólogo; escreveu: Joaquim e outros meninos (1955); Science fiction, prosa neoconcreta (1959); Joana em Flor (1965); Maria Betânia, Guerreira, Guerrilha (1968); Cantares Prazeres (1986); Lagartixa escorregante na parede de domingo (2005) etc.

Reynaldo Jardim: Cuidados com o vivo


Enterrado o morto
cuidar do que é vivo.
Do que tem no porto
um barco partido.
Do que tem no pulso
relógio de vidro.
Do que tem em vinho
o sangue embebido.
(Cuidado e carinho
ao olhar pelo vivo.)

Cuidar que sua carne
se conserve tensa.
Seu ofício ou arte
tenha carga intensa.
Seu desgaste físico
tenha recompensa.
Seu desgaste químico
não ceda à doença.
Total eugenia
ao que age ou pensa.
Ao que sofre o dia
ao que à noite pena.

Cálculos de fome
ele não merece,
seja bicho ou homem
o que vivo cresce.

Preciso é ensiná-lo
a devorar aspargos.
E todos os legumes
baratos e caros.
Comer todas frutas
de sal ou amargas.
E todas verduras
agudas e graves.

Preciso é ensiná-lo
que a vida é conflito:
entre velho e novo
entre feito e dito.
Entre a forma do ovo
e o vigor contido.

Entre a dura casca
e a semente nova.
Dar todo o conforto
ao que ainda respira,
pois depois de morto
tudo foi mentira.

Se o vivo anda torto

cuidar da atitude.
Quem engole espadas
conserva a saúde.

Fornecer ao vivo
o que ao vivo anima:
pão e liberdade
mais as vitaminas.
Fazer com que coma
o alfabeto farto.
Assim há de ser
um vivo letrado.

Do sangue a dinâmica
fazer agitada.
Do corpo a mecânica
manter engrenada,
para dar ao vivo
tensão de granada:
que é sempre mais viva
ao ser detonada.
Joana em Flor (1965)
____________________
Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo  SP; Reynaldo Jardim (1926 — 2011), paulista e paulistano, além de poeta, foi jornalista e teatrólogo; escreveu: Joaquim e outros meninos (1955); Science fiction, prosa neoconcreta (1959); Joana em Flor (1965); Maria Betânia, Guerreira, Guerrilha (1968); Cantares Prazeres (1986); Lagartixa escorregante na parede de domingo (2005) etc.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Reynaldo Jardim: O Tatu

O tatu é um bicho
trancado em si mesmo.
O casco esconde
seus pensamentos.
Ninguém procurou
sondar seu destino.
Ninguém tratou
de industrializá-lo.
Fazer de seu casco
objeto de adorno.
Fazer de sua carne
um creme ou um bolo.
Fazer de sua furna
um túnel ao inferno.
Fazer de seu mundo
um verso moderno.
É preciso chamar
todos os jornais.
Indagar do tatu
o que é que ele faz.
Se dorme ou sonha
em seu jeito patético.
Se prefere os novos
ou se é dos herméticos.
Se prefere Picasso
da fase azul.
Os poetas do norte,
os pintores do sul.
Se vive contente,
se está bem de sorte.
Como vai seu blindado
e duro capote.
Se joga xadrez
ou quer morar nele.
Se prefere Paul Klee
ou os cronistas mundanos.
Se troca de casca
em que dia do ano.
Se prefere os alíseos
ou o minuano.
Se já foi eleito
entre os dez mais tatus.
Se respeita o passado
ou quebra tabus.

Ninguém quer saber
o que pensa o tatu.
Ninguém se importa
com a sorte do bicho.
Trancado em seu casco
e fechado em si mesmo.
Sem caminho certo
ou rosa dos ventos.
No grave suicídio
do seu pensamento.
Joaquim e outros meninos (1955)
____________________
Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo  SP; Reynaldo Jardim (1926 — 2011), paulista e paulistano, além de poeta, foi jornalista e teatrólogo; escreveu: Joaquim e outros meninos (1955); Science fiction, prosa neoconcreta (1959); Joana em Flor (1965); Maria Betânia, Guerreira, Guerrilha (1968); Cantares Prazeres (1986); Lagartixa escorregante na parede de domingo (2005); etc.