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No meu tempo, uma senhora
se vestia por inteiro,
sim, não era como agora,
neste Rio de Janeiro.
Hoje em dia, não se zanga
o marido, se, na rua,
a mulher anda de tanga,
ou, na praia, quase nua.
No cinema, uma donzela
que estivesse a nosso lado,
resistia ao que na tela
fosse vendo interpretado.
Porém hoje a senhorita
junto a nós, ali no escuro,
nos agarra vendo a fita,
e nos beija até, no duro.
Essa Boa, toda prosa,
cujo corpo é um violão,
que aí está toda orgulhosa,
por saber-se um pancadão,
pequenina, sentou tanto
no meu colo, entre os pais!
Hoje em dia, aqui, no entanto,
ela já não senta mais.
Até mesmo a ortografia,
de sofrer transformações,
acabou numa “Anarquia” *,
numa escrita de senões.
Hoje só se escreve assim,
sem acento: BOA, SOA,
porém BOA, para mim,
sem “acento”, não é BOA...
* Nota do atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Nelson Tangerini, o autor da crônica “Anarquia Na Gramática? Sim, obrigado!” na qual expõe o poema de seu pai, Nestor Tangerini, nos relata: ... “A palavra Anarquia, muita vezes mal empregada — como sinônimo de bagunça e falta de ordem – significa, na verdade, para os anarquistas, uma doutrina que prega uma nova ordem: os homens governariam a si próprios, não aceitariam governantes e o estado, e todas as fronteiras e religiões seriam abolidas. Uma nova pedagogia seria proposta, a Pedagogia libertária: racional, sem religião, sem o ranço autoritário e sem idolatria de qualquer espécie – política ou religiosa.” ... Nelson também registra que “Amigo e fã incondicional de José Oiticica, o também gramático Nestor Tangerini escrevia crônicas para a revista O Espeto, na qual tirava dúvidas de língua portuguesa, usando sua conhecida verve, com o pseudônimo José Oitiçoca.”
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Nestor Tangerini e o Café Paris — Crônicas de Nelson Tangerini, Apresentação de Jorge Eduardo Magalhães, 2010, Editora Nitpress, Niterói — RJ; Nestor Tambourindeguy Tangerini (1895 — 1966), paulista e piracicabano, cursou Farmácia e Direito, foi poeta satírico, jornalista, escritor, compositor, caricaturista, teatrólogo, professor de português e ex-funcionário do antigo DCT (Departamento de Correios e Telégrafos); viveu em Niterói, à época capital do Estado do Rio de Janeiro, e foi um dos frequentadores da Roda do Café Paris, reduto de intelectuais e boêmios de Niterói; como teatrólogo atuante no teatro de revistas escreveu Tudo pelo Brasil (com Lili Leitão), Cadeia de Sorte, Na Boca da Hora e Lição Doméstica (estas, em parceria com Aldo Cabral), O Tabuleiro da Baiana, Gol etc.; compôs canções e publicou crônicas e poesias em revistas literárias e jornais; colaborou com a revista de humor e sátira O Espeto, onde publicava sonetos, trovas, poemas, crônicas, esquetes, caricatura e monólogos, sempre fazendo uso de vários pseudônimos: Dom T, Conselheiro Armando Graça, João da Ponte, João do Paris, Conselheiro XX Mirim, José Oitiçoca, Malba Taclan, Álvaro Amoreyra, Benedito Merga Lião, Pastaciúta...
No meu tempo, uma senhora
se vestia por inteiro,
sim, não era como agora,
neste Rio de Janeiro.
Hoje em dia, não se zanga
o marido, se, na rua,
a mulher anda de tanga,
ou, na praia, quase nua.
No cinema, uma donzela
que estivesse a nosso lado,
resistia ao que na tela
fosse vendo interpretado.
Porém hoje a senhorita
junto a nós, ali no escuro,
nos agarra vendo a fita,
e nos beija até, no duro.
Essa Boa, toda prosa,
cujo corpo é um violão,
que aí está toda orgulhosa,
por saber-se um pancadão,
pequenina, sentou tanto
no meu colo, entre os pais!
Hoje em dia, aqui, no entanto,
ela já não senta mais.
Até mesmo a ortografia,
de sofrer transformações,
acabou numa “Anarquia” *,
numa escrita de senões.
Hoje só se escreve assim,
sem acento: BOA, SOA,
porém BOA, para mim,
sem “acento”, não é BOA...
Dom T
Revista O Espeto, 15.09.1947, Rio de Janeiro.
* Nota do atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Nelson Tangerini, o autor da crônica “Anarquia Na Gramática? Sim, obrigado!” na qual expõe o poema de seu pai, Nestor Tangerini, nos relata: ... “A palavra Anarquia, muita vezes mal empregada — como sinônimo de bagunça e falta de ordem – significa, na verdade, para os anarquistas, uma doutrina que prega uma nova ordem: os homens governariam a si próprios, não aceitariam governantes e o estado, e todas as fronteiras e religiões seriam abolidas. Uma nova pedagogia seria proposta, a Pedagogia libertária: racional, sem religião, sem o ranço autoritário e sem idolatria de qualquer espécie – política ou religiosa.” ... Nelson também registra que “Amigo e fã incondicional de José Oiticica, o também gramático Nestor Tangerini escrevia crônicas para a revista O Espeto, na qual tirava dúvidas de língua portuguesa, usando sua conhecida verve, com o pseudônimo José Oitiçoca.”
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Nestor Tangerini e o Café Paris — Crônicas de Nelson Tangerini, Apresentação de Jorge Eduardo Magalhães, 2010, Editora Nitpress, Niterói — RJ; Nestor Tambourindeguy Tangerini (1895 — 1966), paulista e piracicabano, cursou Farmácia e Direito, foi poeta satírico, jornalista, escritor, compositor, caricaturista, teatrólogo, professor de português e ex-funcionário do antigo DCT (Departamento de Correios e Telégrafos); viveu em Niterói, à época capital do Estado do Rio de Janeiro, e foi um dos frequentadores da Roda do Café Paris, reduto de intelectuais e boêmios de Niterói; como teatrólogo atuante no teatro de revistas escreveu Tudo pelo Brasil (com Lili Leitão), Cadeia de Sorte, Na Boca da Hora e Lição Doméstica (estas, em parceria com Aldo Cabral), O Tabuleiro da Baiana, Gol etc.; compôs canções e publicou crônicas e poesias em revistas literárias e jornais; colaborou com a revista de humor e sátira O Espeto, onde publicava sonetos, trovas, poemas, crônicas, esquetes, caricatura e monólogos, sempre fazendo uso de vários pseudônimos: Dom T, Conselheiro Armando Graça, João da Ponte, João do Paris, Conselheiro XX Mirim, José Oitiçoca, Malba Taclan, Álvaro Amoreyra, Benedito Merga Lião, Pastaciúta...

