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domingo, 28 de junho de 2020

Nestor Tangerini: Ontem e Hoje

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No meu tempo, uma senhora
se vestia por inteiro,
sim, não era como agora,
neste Rio de Janeiro.

Hoje em dia, não se zanga
o marido, se, na rua,
a mulher anda de tanga,
ou, na praia, quase nua.

No cinema, uma donzela
que estivesse a nosso lado,
resistia ao que na tela
fosse vendo interpretado.

Porém hoje a senhorita
junto a nós, ali no escuro,
nos agarra vendo a fita,
e nos beija até, no duro.

Essa Boa, toda prosa,
cujo corpo é um violão,
que aí está toda orgulhosa,
por saber-se um pancadão,

pequenina, sentou tanto
no meu colo, entre os pais!
Hoje em dia, aqui, no entanto,
ela já não senta mais.

Até mesmo a ortografia,
de sofrer transformações,
acabou numa “Anarquia” *,
numa escrita de senões.

Hoje só se escreve assim,
sem acento: BOA, SOA,
porém BOA, para mim,
sem “acento”, não é BOA...

Dom T

Revista O Espeto, 15.09.1947, Rio de Janeiro.


* Nota do atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Nelson Tangerini, o autor da crônica “Anarquia Na Gramática? Sim, obrigado!” na qual expõe o poema de seu pai, Nestor Tangerini, nos relata: ... “A palavra Anarquia, muita vezes mal empregada  como sinônimo de bagunça e falta de ordem – significa, na verdade, para os anarquistas, uma doutrina que prega uma nova ordem: os homens governariam a si próprios, não aceitariam governantes e o estado, e todas as fronteiras e religiões seriam abolidas. Uma nova pedagogia seria proposta, a Pedagogia libertária: racional, sem religião, sem o ranço autoritário e sem idolatria de qualquer espécie – política ou religiosa.” ... Nelson também registra que “Amigo e fã incondicional de José Oiticica, o também gramático Nestor Tangerini escrevia crônicas para a revista O Espeto, na qual tirava dúvidas de língua portuguesa, usando sua conhecida verve, com o pseudônimo José Oitiçoca.”
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Nestor Tangerini e o Café Paris — Crônicas de Nelson Tangerini, Apresentação de Jorge Eduardo Magalhães, 2010, Editora Nitpress, Niterói — RJ; Nestor Tambourindeguy Tangerini (1895 1966), paulista e piracicabano, cursou Farmácia e Direito, foi poeta satírico, jornalista, escritor, compositor, caricaturista, teatrólogo, professor de português e ex-funcionário do antigo DCT (Departamento de Correios e Telégrafos); viveu em Niterói, à época capital do Estado do Rio de Janeiro, e foi um dos frequentadores da Roda do Café Paris, reduto de intelectuais e boêmios de Niterói; como teatrólogo atuante no teatro de revistas escreveu Tudo pelo Brasil (com Lili Leitão), Cadeia de Sorte, Na Boca da Hora e Lição Doméstica (estas, em parceria com Aldo Cabral), O Tabuleiro da Baiana, Gol etc.; compôs canções e publicou crônicas e poesias em revistas literárias e jornais; colaborou com a revista de humor e sátira O Espeto, onde publicava sonetos, trovas, poemas, crônicas, esquetes, caricatura e monólogos, sempre fazendo uso de vários pseudônimos: Dom T, Conselheiro Armando Graça, João da Ponte, João do Paris, Conselheiro XX Mirim, José Oitiçoca, Malba Taclan, Álvaro Amoreyra, Benedito Merga Lião, Pastaciúta...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Nestor Tangerini: D. Boa

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Essa, que passa por aí, senhores,
De olhos “flecheiros” e assombroso porte,
É a Salomé de minha terra a morte,
O cadafalso dos conquistadores.

Dizem que, numa noite de esplendores,
Essa, que inflama à gelidez mais forte,
Até S. Pedro não livrou da sorte
De n´Assembleia estrebuchar de amores...

Julgais, talvez, ser isto zombaria?
Eu vos direi que não; pois, certo dia,
Em que ela entrou numa igreja, onde apareço,

Vi o reverendo todo esbodegado!
E o Cristo ouvi gritar, crucificado:
Vai-se embora, “seu” diabo, eu sou de gesso.

O Canastrão ­— jornal especializado em críticas teatrais,
p.6, 7 de julho de 1928, Niterói.

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Nestor Tangerini e o Café Paris — Crônicas de Nelson Tangerini, Apresentação de Jorge Eduardo Magalhães, 2010, Editora Nitpress, Niterói — RJ; Nestor Tambourindeguy Tangerini (1895 1966), paulista e piracicabano, cursou Farmácia e Direito, foi poeta satírico, jornalista, escritor, compositor, caricaturista, teatrólogo, professor de português e ex-funcionário do antigo DCT (Departamento de Correios e Telégrafos); viveu em Niterói, à época capital do Estado do Rio de Janeiro, e foi um dos frequentadores da Roda do Café Paris, reduto de intelectuais e boêmios de Niterói; como teatrólogo atuante no teatro de revistas, escreveu Tudo pelo Brasil (com Lili Leitão), Cadeia de Sorte, Na Boca da Hora e Lição Doméstica (estas, em parceria com Aldo Cabral), O Tabuleiro da Baiana, Gol etc.; compôs canções e publicou crônicas e poesias em revistas literárias e jornais; colaborou com a revista de humor e sátira O Espeto, onde publicava sonetos, trovas, poemas, crônicas, esquetes, caricatura e monólogos, sempre fazendo uso de vários pseudônimos: Dom T, Conselheiro Armando Graça, João da Ponte, João do Paris, Conselheiro XX Mirim, José Oitiçoca, Malba Taclan, Álvaro Amoreyra, Benedito Merga Lião, Pastaciúta...

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Nestor Tangerini: Vocação

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Era-lhe toda a ansiedade
Formar-se de qualquer jeito:
Cursar uma Faculdade
De Medicina ou Direito.

Mas em contraste e em verdade,
Havia, nesse sujeito,
Uma virtude: a vontade,
E a negligência: um defeito.

Fracassou em Medicina
E em Direito triste sina!
Foram fracassos fatais!

E as “faculdades” perdendo,
Coitado! Acabou sofrendo
Das faculdades mentais.

Pastaciúta

jornal O Almofadinha, de Luiz Leitão,
Ano XIV — Reinado de Momo, nº 14, p. 1,
25, 27 e 28 de fevereiro de 1933, Niterói — RJ,

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Nestor Tangerini e o Café Paris — Crônicas de Nelson Tangerini, Apresentação de Jorge Eduardo Magalhães, 2010, Editora Nitpress, Niterói — RJ; Nestor Tambourindeguy Tangerini (1895 1966), paulista e piracicabano, cursou Farmácia e Direito, foi poeta satírico, jornalista, escritor, compositor, caricaturista, teatrólogo, professor de português e ex-funcionário do antigo DCT (Departamento de Correios e Telégrafos); viveu em Niterói, à época capital do Estado do Rio de Janeiro, e foi um dos frequentadores da Roda do Café Paris, reduto de intelectuais e boêmios de Niterói; como teatrólogo atuante no teatro de revistas, escreveu Tudo pelo Brasil (com Lili Leitão), Cadeia de Sorte, Na Boca da Hora e Lição Doméstica (estas, em parceria com Aldo Cabral) etc.; compôs canções e publicou crônicas e poesias em revistas literárias e jornais; colaborou com a revista de humor e sátira O Espeto, onde publicava sonetos, trovas, poemas, crônicas, esquetes, caricatura e monólogos, sempre fazendo uso de vários pseudônimos: Dom T, Conselheiro Armando Graça, João da Ponte, João do Paris, Conselheiro XX Mirim, José Oitiçoca, Malba Taclan, Álvaro Amoreyra, Benedito Merga Lião, Pastaciúta...

sábado, 8 de setembro de 2018

João do Paris: Os Poetas

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Vai-se o primeiro explorador da musa1...
Vai-se outro mais... mais outro... enfim dezenas
De poetas vão-se do Paris, apenas
O relógio da casa uma hora acusa.

E na noite seguinte a tropa intrusa,
Cantando em versos loiras e morenas,
Chorando as mágoas, desferindo2 as penas
À caixeirada3 deixa semifusa4...

Também do botequim, onde os fregueses
Fazem lanches, um por um gringos, franceses,
Vão-se como esses vates5 imortais.

No lajedo da rua as pernas soltam,
Correm! Para o Paris os poetas voltam,
Mas os fregueses  qual!6  não voltam mais.

(publicado na revista Colyseu,
Niterói  RJ, 1º de julho de l924)

João do Paris,
 ou Nestor Tangerini

Notas de Luiz Antonio Barros:
1 Musa: o talento, a criatividade poética, a mulher, ou a amada, que é fonte de inspiração poética, especialmente entre os românticos. (Aulete)
2 Desferindo: aplicando. (idem)
3 Caixeirada: os que atendem o público, em estabelecimento comercial; os balconistas (ibidem)
4 Semifusa: em música, figura do valor de metade da fusa. No soneto, parece um trocadilho com semiconfusa, meio confusa. Aulete (Caldas) esclarece que era uma gíria antiga significando passos de navalha e musicata; e musicata, por sua vez, significa música pouco importante, fanfarra.
5 Vate: poeta. (Aurélio)
6 Qual!: interjeição que exprime dúvida, espanto, descrença ou admiração. (idem)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização, Apresentação e Introdução de Luiz Antonio Barros, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; João do Paris, ou Nestor Tambourindeguy Tangerini (1895  1966), paulista e piracicabano, foi poeta satírico, jornalista, escritor, compositor, caricaturista, teatrólogo, professor de português e ex-funcionário do antigo DCT (Departamento de Correios e Telégrafos); viveu em Niterói, à época capital do Estado do Rio de Janeiro, e foi um dos frequentadores da Roda do Café Paris; como teatrólogo, atuante no Teatro de Revista, escreveu Tudo pelo Brasil (com Lili Leitão), Cadeia de Sorte, Na Boca da Hora e Lição Doméstica (estas, em parceria com Aldo Cabral) etc.; compôs canções e publicou crônicas e poesias em revistas literárias e jornais; colaborou com a revista de humor e sátira O Espeto, onde publicava sonetos, trovas, poemas, crônicas, esquetes, caricatura e monólogos, sempre fazendo uso de vários pseudônimos: Dom T, Conselheiro Armando Graça, João da Ponte, Conselheiro XX Mirim, José Oitiçoca, Malba Taclan, Álvaro Amoreyra, Benedito Merga Lião...