segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Furnandes Albaralhão: A bingança da porta *

                    
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Ao culéga Alverto d’Ulibeira

Era um custume vesta que ele tinha
intrar vatendo a porta: "Antão Manéle!
lhe dizia a mulhére, que papéle!
não me faças romôre! Olha a bizinha!"

E todo dia era essa ladainha!
Sujaito deshumano, pai cruéle,
dizia-lhe: Si tains amôre à pele
daixa-me sussigado, ó mulherzinha!"

Uma noite em que bâiu desse jaito,
a pinitrar cum falta de ruspaito
na casa em que amvos eles dois residem,

avrindo a porta a punta-pés, zangado,
biu pulo chão, uma de cada lado,
a mulhére inguiçada e a filha idem!

Furnandes Albaralhão e o Caldo Berde – Recanto das Palavras

* Nota deste Verso e Conversa: Para efeito de comparação, este aprendiz de blogueiro transcreve o soneto que deu origem à paródia: A vingança da porta  Era um hábito antigo que ele tinha: / Entrar dando com a porta nos batentes. / — Que te fez esta porta? a mulher vinha / E interrogava... Ele, cerrando os dentes: // — Nada! Traze o jantar." — Mas à noitinha / Calmava-se; feliz, os inocentes / Olhos revê da filha e a cabecinha / Lhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes. // Uma vez, ao tornar à casa, quando / Erguia a aldraba, o coração lhe fala: / — Entra mais devagar... Pára, hesitando... // Nisso nos gonzos range a velha porta, / Ri-se, escancara-se. E ele vê na sala / A mulher como doida e a filha morta! (Alberto de Oliveira)
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Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Furnandes Albaralhão, pseudônimo de Horácio Mendes Campos (1902 1964), fluminense e carioca, foi poeta satírico e de paródias, escritor, libretista de teatro de revistas, violonista e compositor; publicou o livro de humor Caldo Berde (1ª edição impressa em 1930), no qual apresenta sátiras, paródias de sonetos famosos e pensamentos com linguagem macarrônica, bem à moda do pré-modernista Juó Bananére; Horácio Campos foi um dos muitos colaboradores quase ignorados de uma das várias fases de A Manha, jornal humorístico e satírico do Barão de Itararé o Aporelly; ao autor de Caldo Berde coube cuidar, com muita arte, do suplemento lusitano de A Manha, escrevendo paródias de poetas portugueses e brasileiros e composições de sua inteira inspiração; trechos de seu livro foram republicados na revista A Pomba (década de 60).