sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Nhô Bentico (Abílio Víctor): Sonho de cabocro

Pra mim vivê na alegria,
pra mim vivê sussegado,
quiria tê meu ranchinho
c'as parede bem barriado;
no terrêro, úa bandêra
c'o mastro tudo pintado;

um paió de miarada
tudo cheio, atupetado;
na sombra dos arvoredo,
galinha i porco deitado;
no palanque da portêra,
meu cavalo bem arriado,
pra mim vê minha morena
por quem ando apaxonado,
que mora numa fazenda
lá das banda do Cerrado!

Eu falava c'o pai dela,
falava c'os meu cunhado,
pidino cunsentimento
qu'eu já tava perparado,
que tinha tudo o perciso
pra se vivê bem forgado,
i me sobrava corage
pra pegá no meu arado
i trazê meu terreninho
tudo muito bem prantado!

Eu quiria que a morena
por quem ando infitiçado,
andasse c'os seus vistido
tudo muito ripimpado: 
c'uma brusa cor de rosa,
gola cheia de bordado;
i, pertado na cintura,
u'a saia de babado;
i, nos pé, piquinininho,
uns sapatinho carçado,
c'umas fivela de prata
i botãozinho dorado!

Tomára que Deus premíta
de sê tudo rializado,
êsse tão bunito sonho
que já tenho desejado,
pra mim vivê na alegria,
pra mim vivê sussegado!
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Folhas do Mato versos caipiras, 2ª edição aumentada, Prefácio de Manoel Cerqueira Leite, 1940, Gráfica Sorocabana, Sorocaba SP; Nhô Bentico e Abílio Soares Víctor (1899 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato, Versos Humorísticos, Favas de Ingá e Poemas Sertanejos.

Nhô Bentico (Abílio Víctor): Cavalinho de sabugo

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(Em Favas de Ingá  e Poemas Sertanejos)

Pidi p'ra Papai Noel
que me truxésse um presente
que fôsse bem bunitinho
qui eu ficaria contente!

Quano foi naquela noite,
noite linda de Natá,
me deitei muito mais cedo,
antes dos galo cantá.

Deitei já quaji dormino
i logo já fui sonhano
cum tanta coisa bunita
que inté agora tô lembrano...

Sonhei que, do céu, descia
mais de quinhentos balão,
tudo cheio de brinquedo,
doce, rodela de pão;

rôpas bunita, sapato,
um bando de carnerinho,
úa violinha, um pandêro,
um cavalo bem branquinho...

Vi tantas coisa bunita
drento de pôcos momento:
meu coração de criança
se incheu de contentamento!

Que noite cheia de incanto,
que noite de maravia!
Num posso nem le expricá
quanto foi minha alegria...

A noite se foi fugino...
e eu acordei contente,
desci ligêro da cama,
precurano o meu presente.

Oiei p'ro meu sapatinho
quaji sem sola, rasgado,
chorei devéra, baixinho,
i fiquei desconsolado!

Meu sonho só foi contrário...
Saiu tudo diferente,
quano oiei no meu sapato,
reparano o meu presente!

Papai Noel foi injusto,
de mim não compadeceu,
me deu um presente pobre
que muito me intristeceu.

Um cavalo de sabugo
pintadinho de carvão,
que só dexô sintimento
drento do meu coração.

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Pitoco e outros poemas  Coleção Pé Vermeio, Organização, edição e apresentação de Maria das Mercês Rocha Leite, 1ª edição, 2007, Editora Petra, Tatuí SP; este poema foi publicado originalmente em Favas de Ingá; Nhô Bentico e Abílio Víctor (1899 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Soares Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato (1938), Versos Humorísticos, Favas de Ingá (1950) e Poemas Sertanejos.

Cornélio Pires: Ideal do caboclo

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Ai, seu moço, eu só quiria
p'ra minha felicidade,
um bão fandango por dia,
e uma pala de qualidade.

Pórva, espingarda e cutia,
um facão fala-verdade,
e úa viola de harmonia
p'ra chorá minha sódade.

Um rancho na bêra d'água,
vára-de-anzó, pôca mágua,
pinga bôa e bão café...

Fumo forte de sobejo...
P'ra compretá meu desejo,
cavallo bão  e muié...

Resultado de imagem para Cornélio Pires
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Musa Caipira As estrambóticas aventuras do Joaquim Bentinho (o Queima-campo), edição comemorativa do centenário do nascimento de Cornélio Pires, editado pela Prefeitura Municipal de Tietê SP; Cornélio Pires (1884 1958), paulista de Tietê, autodidata, foi jornalista, escritor, folclorista, etnógrafo, ativista cultural, conferencista, poeta, contador de causos e cantador, enfim, um estudioso da cultura e dialeto caipiras; teve sua estréia na imprensa como aprendiz de tipógrafo em O Tietê (1905); trabalhou e/ou colaborou com os jornais O Comércio de São Paulo, O Estado de São Paulo, A Cidade de Santos, e também com as revistas O Pirralho, dirigida por Oswald de Andrade, A Careta, do Rio de Janeiro, A Farpa, de São Paulo, além de em outras publicações; dirigiu o hebdomadário O Movimento, de São Manuel SP; em Piracicaba, colaborou com O Jornal e Jornal de Piracicaba; fundou com o caricaturista e desenhista Voltolino, o semanário humorístico O Sacy (1926); em 1909 teve suas poesias publicadas no Almanaque d’O Malho; escreveu e publicou Musa Caipira (1910), O Monturo (poemetos, 1911), Versos (1912), Tragédia Cabocla (novela, 1914), Quem conta um conto... (1916), Conversas ao Pé do Fogo (1921), Cenas e Paisagens da minha terra (reunião de sua obra poética, 1921), As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho o Queima-Campo (1924), Seleta Caipira (1926), Continuação das Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho o Queima-Campo (1929), Sambas e Cateretês (folclore, 1932), Tá no bocó (1935) e outros; realizou os filmes Brasil Pitoresco (com auxílio técnico do cineasta paulista Flamínio de Campos Gatti, 1923) e Vamos passear? (documentário, 1934); o ativista cultural Cornélio Pires viajou pelo país afora divulgando e apresentando o que pesquisava, também produziu e deixou registrado seus causos e outros achados caipiras (modas de viola, anedotas, cururus  e outros ritmos caipiras...) em dezenas de discos gravados nos anos 29 e 30 com duplas caipiras e artistas por ele descobertos. 

Gail Sheehy: Frases

Se eu me atrasar, comece a crise sem mim.
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Gail Sheehy nasceu em 1937; Passagens - Editora Francisco Alves, São Paulo, 1979.

Noventa dias sem destino

Minha boa e cúmplice companhia,
Hoje, vinte e cinco de dezembro de 2009, faz exatos noventa dias que voamos juntos. E está tudo nos conformes, entendo eu. Regozijo total!
Um tombinho aqui, outro arranhãozinho ali, mas esse é o preço que se paga por estarmos vivos.  Temos ciência de que a cura de nossos possíveis tropeços está em alçarmos, cada vez mais, outros vôos. Não é isso o que você vive a proclamar!? Pois é.
Viu como eu estou aprendendo! Lambo minhas feridas, voando. E só as lambo de vez em quando, que é pra eu não perder o leme nem me desviar da rota.
O destino? Oquequié isso!? O destino tem sido quase que uma aventura. A  gente vai se aventurando e descobrindo. A cada dia uma alegria.
Minha cúmplice, só que eu preciso te confessar uma coisa! Não consigo deixar de pensar na Filó sozinha lá no barril. Você sabe que ela jamais me desaprova, não dá nenhum pio nem me atrapalha em nada. Cá entre nós, o meu receio é que essa característica dela seja só verniz. No fundo, no fundo, acho que ela também deseja voar. Ora, então porque não bate asas? Você pode me explicar?
Porque ela não se abre comigo? Já te disse que o mutismo que ela carrega me incomoda um pouco e que talvez seja por isso mesmo que eu alce vôo. Fazer o quê? Assim a Filó age, assim eu reajo.
Menina, ainda bem que tenho você pra voar comigo. Acho que estou dependente de você, mas é uma dependência necessária. Durante o vôo a gente vai se revezando no leme.
A Filó não sabe o que está perdendo por viver entafuiada no barril. E não precisa ter ciúme dela, viu!
Feliz Natal pra você! Feliz Natal pra você também, Filó!
Ah, continuo revisitando minhas infância, adolescência, juventude e maturidade. Enfim, comemoro meus cinqüenta e sete anos, onze meses, vinte e dois dias, algumas horas e diversos minutos de vida nesta oca que genericamente chamamos Terra.
Sem lanterna e em pleno vôo,
Diógenes
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­Genésio dos Santos, 57 anos por enquanto, poeta e cronista, está vivo!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Juó Bananére: O Gorvo i o Raposo

Fabula di La Fontana - Traduçó futuriste

MESTRE Gorvo n'un gaglio sintadigno,
Tenia nu bico un furmaggio;
Mestre Rapozo sintino u xirigno,
Aparlô nistu linguagio:

- Eh! dottore Gorvo, bondí!
Come stá o signore, stá bonzigno?
Come o signore é bunitigno!
Té parece uma giuriti.

Aparláno a virdade pura,
O xirósa griatura!
Si o vostro linguagio
É uguali co vostro prumagio,
Giuro per Zan Biniditto
Che in tutto isto distritto
Non tê ôtro passarigno
Chi segia maise bunitigno.

O Gorvo ficô tô inxado
Con istas adulaçô,
Chi até paricia o Rodorfo
Nu tempo da intervençó.

I pr'a amustrá o linguagio
Abri os brutto bicô,
I dixó gaí o furmagio
Chi o Raposo logo pigô

I dissi:

Sô Gorvo, o signore é un goió
Piore do Gapitó!
Ma aprenda bê ista liçó,
I non credite maise in dulaçó.
I assí dizéno fui s'imbóra,
Si rino do Gorvo gaipóra.
O Gorvo, danado da vida,
I co logro che illo livô,
Pigô un pidaço di górda
I s'inforcô.
____________________
La Divina Increnca, publicado em 1915 - Livro di Prupaganda da Literatura Nazionale. Juó Bananére, pseudônimo de Alexandre Marcondes Machado (1892 -1933). Candidato á Gademia Baolista de Letras - Arma Virunque Cano! Ferri - E di sai du governimo acarregado nus braço du povo! Hermeze - A bandiera du P. R. C. á di sê pindurada na porta du Palazzo né chi sejia tutto furada di bala i lameada di sangue! Capitó - Edição fac-similar, 2001 - reimpressão, 2007 - Editora 34, São Paulo - SP.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Juó Bananére: O Gorvo

(P'ru Raule)

A NOTTE stava sombria,
I tenia a ventania,
Chi assuprava nu terrêro
Come o folli du ferrêro.

Io stavo c'un brutto medó,
Lá dentro du migno saló,
Quano a gianella si abri
I non s'imagine o ch'io vi!

Un brutto gorvo chi entrô,
I mesimo na gabeza mi assentô!
I disposa di pensá un pochigno,
Mi dissi di vagarigno:

— Come vá sô giurnaliste?
Vucê apparece chi stá triste?!
— Non signore, sô dottore...
Io stô c'un medo do signore!

— Non tegna medo, Bananére,
Che io non sô disordiére!
— Poise intó desça di lá,
I vamos acunversá.

Ma assí che illo descê
I p'ra gara delli io ogliê
O Raule ariconecí,
I disse p'ra elli assí:

— Boa noute Raule, come vá!
Intó vucê come stá?
Vendosi adiscobrido, o rapaise,
Abatê as aza, avuô, i disse: nunga maise!
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(Paródia d'O Corvo, de Edgar Allan Poe) - La Divina Increnca, publicado em 1915 - Livro di Prupaganda da Literatura Nazionale. Juó Bananére, pseudônimo de Alexandre Marcondes Machado (1892 -1933). Candidato á Gademia Baolista de Letras - Arma Virunque Cano! Ferri - E di sai du governimo acarregado nus braço du povo! Hermeze - A bandiera du P. R. C. á di sê pindurada na porta du Palazzo né chi sejia tutto furada di bala i lameada di sangue! Capitó - Edição fac-similar, 2001 - reimpressão, 2007 - Editora 34, São Paulo - SP.

Edgar Allan Poe: O corvo


(Tradução: José Luiz de Oliveira; In Versos Reunidos, Itu, SP, 1968)

À meia-noite eu cogitava, fatigado,
Sobre volumes misteriosos do passado
Quando uns sons ouvi tais
Que me lembraram pancadinhas sobre a porta.
"É um visitante que, apesar da hora morta,
Me quer ver, nada mais..."

Ah! Com clareza o quadro todo agora lembro:
Um frio atroz cortava a pele  era dezembro!
Agonias mortais
Minha alma enchiam, pois pra dor buscava um fim
De já não ter Lenora aqui, junto de mim,
Nem seu nome ouvir mais...

Ao brando arfar de cada rubro cortinado,
Horror fantástico trazia-me aterrado
E, fugindo a esses "ais",
Me levantei a repetir: "É um visitante
Que bate à porta; vou abri-la num instante!
É só isso, não mais!"

Fortaleceu-se então minh'alma e eu disse: "Peço
Que desculpeis minha demora, pois confesso
Que dormia demais
E tão de manso vós batestes, que eu senti
Que duvidava do que ouvia..." A porta abri:
Só negror, nada mais...

Perscruto as trevas muito a fundo, estarrecido,
Sonhando um sonho por nenhum mortal vivido...
De ninguém há sinais!
Só minha voz "Lenora!" diz, num tom velado,
E o eco traz, de novo, a mim, o nome amado...
Nenhum outro som mais...

De volta ao quarto, sinto n'alma estranho ardor
E na janela escuto, então, com mais vigor,
As batidas fatais!
Pra sossegar a inquieta mente, eu digo a ela:
"É, certamente, algo que bate na janela,
Como o vento - não mais!"

Abro o postigo e então penetra, de repente,
Um corvo altivo, venerável, imponente
 De regiões noturnais!
Não me saudou nem se deteve, mas pousou
Bem sobre um busto de Minerva, e lá ficou
Sem fazer nada mais...

Pus-me a sorrir do aspecto grave que ele tinha
E então lhe disse: "Embora a crista, ave daninha,
Tenhas lisa demais,
Não és covarde... Qual teu nome, ó bicho torvo,
No escuro reino que Plutão governa?!" O corvo
Respondeu: "Nunca mais!"

Maravilhei-me quando ouvi tão claramente
Falar-me o corvo, empoleirado ali em frente,
Nos meus próprios umbrais!
Pois me parece que mortal jamais fitou
Ave falante que seu nome declarou
Ser, tão só, "Nunca mais!"

Só isso disse, e conservou-se solitário,
Como se fossem todo o seu vocabulário
As palavras fatais!
"Muitos amigos  murmurei  foram-se embora!
Também o corvo partirá, chegando a aurora..."
E ele diz: "Nunca mais!"

Estremecendo ante a resposta apropriada,
Pensei comigo: "Esta palavra malfadada,
Que ele diz, mais e mais,
Há de porvir de um dono a quem a dor feriu
Tão fundamente que, afinal, só conseguiu
Repetir "Nunca mais!"

Virei, então, uma cadeira almofadada,
Que coloquei perante o busto e a ave malvada,
Bem defronte aos umbrais,
E, ao me largar sobre o veludo, eu refletia
No que a medonha e horrível ave pretendia
Com o seu "Nunca mais!"

Enquanto ali, sem lhe falar, conjeturava,
O olhar do corvo no meu peito se cravava,
Como um par de punhais...
Minha cabeça descansava na almofada
Onde Lenora, doce e bela, a fronte amada
Não porá, nunca mais...

Subitamente, o ar se torna perfumado,
Qual se um turíbulo tivessem agitado
Serafins celestiais...
Então pra mim bradei: "Um deus te atende à prece!
Eis o remédio pra saudade! Sorve! Esquece!"
E a ave diz: "Nunca mais!"

"Profeta" - eu grito - "anjo do mal, ave ou satã,
Que penetraste nesta casa horrenda e vã,
Com teus olhos fatais!
Eu te suplico, dize logo, sem demora:
Existe um bálsamo pra dor que me devora?!"
Só ouvi: "Nunca mais!"

"Profeta"  eu grito  "anjo do mal, bicho nocivo!
Por este céu que sobre nós se estende altivo,
Pelo Deus dos mortais!
Dize à minha alma se, no Éden tão distante,
Ela verá Lenora, a bela, a radiante?!"
A ave diz: "Nunca mais!"

Eu brado, então: "Que esta resposta nos afaste!
Regressa à noite de Plutão, de onde chegaste!
Volta às trevas fatais!
Não deixes pena pra atestar essa mentira!
Tua figura, do meu lar, pra longe tira!"
Retorquiu: "Nunca mais!"

E o corvo, imóvel, inda agora está pousado
Sobre o portal, e seu olhar atormentado
Tem fulgores letais...
No chão percebo sua sombra projetada
E dentro dela está minha alma, acorrentada,
Que dali não sai mais!...
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Pela primeira vez, em 1969 e muito por acaso, em Iperó  SP, quando eu trabalhava num açougue como ajudante de açougueiro, ao folhear um jornal velho tomei contato com esta tradução do famoso poema O Corvo, de Edgar Allan Poe. Passei a conservar, dobrado entre as páginas de um dicionário escolar, o tal recorte de jornal com o poema. Com minha andança pela vida, um dia o perdi. Mais de três décadas depois, conheci várias famosíssimas traduções do mesmo poema, traduzido que foi, em diferentes épocas, por grandes literatos (Machado de Assis, Fernando Pessoa, Baudelaire, Mallarmé, Milton Amado, Augusto de Campos, Haroldo de Campos, entre dezenas de outros...), mas nenhuma era aquela tradução que eu obtivera, por acaso, na minha quase-adolescência, e da qual eu me recordava tão somente das duas primeiras estrofes. Já bem mais recentemente,  com o advento da Internet, consegui o tal poema. Além de o ter como valor sentimental, gosto muito desta tradução ... ou tradução-livre ... ou recriação. Como queiram!

O Espelho SP: A "passeata" do verdinho

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[O Espelho  Informativo dos funcionários do Banco do Brasil AGCEN SP Ano I n° 6 Setembro de 1980]

          Dias destes, quando eu saía da Estação São Bento do Metrô, mais ou menos ao meio-dia-e-meia, deparei com muitas caras que não me eram estranhas. Eram todos bancários, nossos colegas aqui do Banco. Muita gente. Umas trezentas pessoas. Homens e mulheres. E seguiam, decididos, à Florêncio de Abreu.
          Passeata estranha aquela, raciocinei. Sem gritos nem slogans, mas só podia ser passeata. E pra algum ato público. O que mais levaria tantos bancários juntos pelas ruas do centro e numa só direção? Nesta selva de pedra só passeata consegue este milagre.
          Meio-de-semana, meio-dia-e-meia, trezentos bancários e bancárias do BB abandonam suas cadeiras, suas mesas, seus carimbos e seguem em passeata convocada por não sei quem, pro ato público não sei onde e pra protestar contra não sei o quê. Desta vez  a coisa vai, pensei exultante.
          Engraçado. Alguma coisa no entanto estava fora dos eixos. Onde andavam as lideranças, que não vi ninguém ali nem nas imediações? Cadê os megafones, as faixas? E a bandinha, pra arrastar mais gente? Era preciso mais que depressa avisar as lideranças...!
          Ato contínuo, parei na primeira banca de jornal e adquiri uma fichinha de telefone. E, de um orelhão, eu já estava discando: três-meia, meia-três... foi quando vi Satélio, que seguia junto com o povão.
          Assim que ele me viu, fui perguntando:
           Você por aqui também?
           Sim, estou com o pessoal. Respondeu.
           Aonde vai ser o ato?
           Que ato? Retrucou Satélio, com cara de quem não estava entendendo nada.
           O ato público! Então você não está indo pro ato público dos funcionários do Banco do Brasil?
           Eu não estou sabendo de ato público nenhum. Eu e mais esse povão vamos pro verdinho, o vegetariano do setenta-e-sete da Florêncio. Vamos também?
           Não, eu já vim almoçado de casa. Respondi gaguejando e meio sem graça com a tremenda gafe que eu havia dado.
          Após eu ficar sabendo que quase todo dia o pessoal almoçava lá no verdinho, dei qualquer desculpa a Satélio, depositei o fone no gancho, retirei a fichinha devolvida e me despedi. Segui em direção ao Banco, matutando. Então todo esse povão está deixando de almoçar no Gervásio, e o Banco nem tchuns? Quanta safanagem, hein! Depois vêm dizer que a administração é sensível  aos problemas que afligem o funcionalismo da casa! Tudo babozeira. Se o pessoal prefere almoçar fora apesar de ter que desembolsar mais dinheiro, quer dizer que lá no onze a bóia continua aquelas coisas. E os funcionários das locadoras, que são obrigados almoçarem lá? Eles têm os tíquetes carimbados, que são válidos somente para uso interno. Dá dó deles!
          Entrei no elevador, ruminando muitas coisas. Meio sonhando-meio acordado.
          Já era quase uma hora. Mais um dia de serviço me esperava.
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Satélio, P. da Silva  e Genésio dos Santos são uma só pessoa e assumem, em uníssono, a autoria desta crônica.