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sábado, 25 de junho de 2022

Ana Cruz: Retinta

 
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Mãe preta, bonita, sorriso longo, completo.
Nem parece que passou por tantas.
Deu um duro danado entre a roça e os bordados.
Virou ao avesso para não desbotar.
Dizia, não com soberba: esfrego chão dessas Senhoras.
Essa gente coloniza.
Se a pessoa não tiver orgulho de ser assim Zulu
fica domesticada.
Sem opinião. Se autodeprecia, adoece.

Guardados da memória — 2008

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Ana Cruz, nascida em 1965, mineira de Visconde do Rio Branco, é jornalista e poeta; estreou na literatura com a obra E... feito de luz (1997), depois vieram Com o perdão da palavra (1999), Mulheres Q' Rezam (2001), e Guardados da memória (2008); criou e coordenou o caderno literário Jornal mural de mina (edições em 1998 e 2003), com textos de vários autores e também seus, além de críticas; lançou o projeto Mulheres Bantas, Vozes de Minhas Antepassadas (2011), incluindo um seminário sobre literatura afro-brasileira e leitura de seus poemas em DVD; atualmente reside em Niterói RJ.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Ana Cruz: Apaziguados

 
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Somos as marcas de um tempo
passado a limpo no limbo.
De fatos e acontecimentos
que somente se esclareceram
após nos consumirem por algumas horas
e que doeram tanto
para sair da carne.

Mulheres Q’ Rezam — 2001

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Ana Cruz, nascida em 1965, mineira de Visconde do Rio Branco, é jornalista e poeta; estreou na literatura com a obra E... feito de luz (1997), depois vieram Com o perdão da palavra (1999), Mulheres Q' Rezam (2001), e Guardados da memória (2008); criou e coordenou o caderno literário Jornal mural de mina (edições em 1998 e 2003), com textos de vários autores e também seus, além de críticas; lançou o projeto Mulheres Bantas, Vozes de Minhas Antepassadas (2011), incluindo um seminário sobre literatura afro-brasileira e leitura de seus poemas em DVD; atualmente reside em Niterói RJ.

sábado, 29 de janeiro de 2022

Ana Cruz: Cuidado, não vai esquecer a lição...

 
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Nasci filha de seu Zé que muito pouco tinha de José
carpinteiro de Nazaré, a não ser
a determinação e o gosto pelo trabalho.
Seu Zé, conhecido popularmente como marido de
D. Margarida,
uma flor que descansa plena, em outra dimensão,
isso porque sempre foi justa nunca abusou da sua
autoridade.
Precavida, desde cedo nos ensinou a detestar a
escravidão,
por conta disso, nossa primeira lição de casa foi:
nunca sair de canelas russas e nem esconder cabelos
por debaixo dos panos
e ouvidos bem apurados.
Quilombola que se presa não ri à toa
não aceita provocação e olha firme
no fundo dos olhos daqueles que possuem
nariz arrebitado e andam sempre aprumados.
Já dizia meu avô!

Mulheres Q’ Rezam — 2001

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Ana Cruz, nascida em 1965, mineira de Visconde do Rio Branco, é jornalista e poeta; estreou na literatura com a obra E... feito de luz (1997), depois vieram Com o perdão da palavra (1999), Mulheres Q' Rezam (2001), e Guardados da memória (2008); criou e coordenou o caderno literário Jornal mural de mina (edições em 1998 e 2003), com textos de vários autores e também seus, além de críticas; lançou o projeto Mulheres Bantas, Vozes de Minhas Antepassadas (2011), incluindo um seminário sobre literatura afro-brasileira e leitura de seus poemas em DVD; atualmente reside em Niterói RJ.

sábado, 7 de março de 2015

Ana Cruz: Magníficas

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Clementinas, Carolinas, Elzas, Margaridas, Sebastianas, mulheres cujas experiências doloridas não paralisaram a vida. Sabiam que onde amalgamavam os códigos da existência estavam impressas a coragem, altivez espiritual.
Mulheres ancestrais que, com a força de suas expressões, derrubaram a clausura do opressor, abriam portas, botaram a boca no mundo revelando-nos que as opressões não detêm o domínio sobre os sentimentos.
Matriarcas negras.
Nossas Senhoras!

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Ana Cruz, nascida em 1965, mineira de Visconde do Rio Branco, é jornalista e poeta; estreou na literatura com a obra E... feito de luz (1997), depois vieram Com o perdão da palavra (1999), Mulheres Q' Rezam (2001), e Guardados da memória (2008); criou e coordenou o caderno literário Jornal mural de mina (edições em 1998 e 2003), com textos de vários autores e também seus, além de críticas; lançou o projeto Mulheres Bantas, Vozes de Minhas Antepassadas (2011), incluindo um seminário sobre literatura afro-brasileira e leitura de seus poemas em DVD; atualmente reside em Niterói  RJ.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Ana Cruz: Conferindo os fatos

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Os meninos exibem gogós e rostos sujos por algumas penugens.
Passam horas lendo às escondidas ficção secreta.
Fico vesga de curiosidade, mas eles não me querem por perto.
O que tanto esses meninos lêem?
 É lambança, coisa imoral, minha filha!
Enquanto ela fala, Sofia lambe cuidadosamente os poucos que sobreviveram de sua ninhada:
"É lambança, é? Se conferir com aquilo que estou vendo, lambança deve ser uma coisa muito prazerosa:
Mãe tá doida!"

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Mulheres Q' Rezam — poesias, 2001, Edição da Autora, Rio de Janeiro — RJ; Ana Cruz, nascida em 1965, mineira de Visconde do Rio Branco, é jornalista e poeta; estreou na literatura com a obra E...feito de luz (1997), depois vieram Com o perdão da palavra (1999), Mulheres Q' Rezam (2001) e Guardados da memória (2008); criou e coordenou o caderno literário Jornal mural de mina (edições em 1998 e 2003), com textos de vários autores e também seus, além de críticas; lançou o projeto Mulheres Bantas, Vozes de Minhas Antepassadas (2011), incluindo um seminário sobre literatura afro-brasileira e leitura de seus poemas em DVD; atualmente reside em Niterói  RJ; fez parte da Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil (2011).

domingo, 1 de março de 2015

Ana Cruz: Claras ovos: suspiros

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Imersa em sua fantasia
batia as claras em neve
num frenesi contido
para não alterar a consistência.
Ela ainda sob o efeito da noite anterior
passada às claras numa agonia felina.
Sentia o calor dele ao seu lado,
pasmo com a desenvoltura e habilidade
com que manipulava os ovos.
Para não interromper o ritual,
ele perguntava num tom baixo:
Posso tocá-la?
Ela respondia:
Não, desanda.

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Mulheres Q' Rezam — poesias, 2001, Edição da Autora, Rio de Janeiro — RJ; Ana Cruz, nascida em 1965, mineira de Visconde do Rio Branco, é jornalista e poeta; estreou na literatura com a obra E... feito de luz (1997), depois vieram Com o perdão da palavra (1999), Mulheres Q' Rezam (2001) e Guardados da memória (2008); criou e coordenou o caderno literário Jornal mural de mina (edições em 1998 e 2003), com textos de vários autores e também seus, além de críticas; lançou o projeto Mulheres Bantas, Vozes de Minhas Antepassadas (2011), incluindo um seminário sobre literatura afro-brasileira e leitura de seus poemas em DVD; atualmente reside em Niterói RJ; fez parte da Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil (2011).

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Ana Cruz: Boas lembranças

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Hoje acordei pensando bobagens,
esqueci da miséria do mundo.
Cantei feito moça que casa pura depois dos trinta,
encantada com a novidade.

Peguei o álbum de fotografias encardidas
pelo tempo, para justificar minha alegria.
Eu estava lá, impressa, bochechas salientes, olhar curioso.
Certas recordações, ao invés de nos consternarem
fazem ainda mais cócegas.

Sobretudo aquelas que a doutrina determina
que não podem ser feitas. E a gente, então, vai e faz.
Pela metade, mas faz.
Revi uma dona inda bem moça perguntando,
muito cismada: "Viu o passarim verde, menina".
"Hein? Não mãe, verde não.
O preto".

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Mulheres Q' Rezam — poesias, 2001, Edição da Autora, Rio de Janeiro — RJ; Ana Cruz, nascida em 1965, mineira de Visconde do Rio Branco, é jornalista e poeta; estreou na literatura com a obra E... feito de luz (1997), depois vieram Com o perdão da palavra (1999), Mulheres Q' Rezam (2001) e Guardados da memória (2008); criou e coordenou o caderno literário Jornal mural de mina (edições em 1998 e 2003), com textos de vários autores e também seus, além de críticas; lançou o projeto Mulheres Bantas, Vozes de Minhas Antepassadas (2011), incluindo um seminário sobre literatura afro-brasileira e leitura de seus poemas em DVD; atualmente reside em Niterói RJ; fez parte da Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil (2011).

domingo, 11 de janeiro de 2015

Ana Cruz: O tempo dilui

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Saudade é um bicho traiçoeiro, perigoso,
pode apertar tanto o coração a ponto
de deixar os sentimentos confusos.
E aí a gente se enche de esperança.
Mas depois de alguns beijos
tudo cai no vazio novamente.

Eu fiz um pacto com a saudade:
Quando ela ameaça bater, eu me antecipo,
corro, abro-lhe a porta e digo:
Seja bem vinda, amiga!

Saudade é assim: igual a um cachorro
que morde em silêncio. Basta um olhar
firme, sem susto, que ele passa batido.

Melhor assim a ficar roxo,
com dor no peito,
caçando palavras para remediar
o dia seguinte.

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Mulheres Q' Rezam poesias, 2001, Edição da Autora, Rio de Janeiro RJ; Ana Cruz, nascida em 1965, mineira de Visconde do Rio Branco, é jornalista e poeta; estreou na literatura com a obra E... feito de luz (1997), depois vieram Com o perdão da palavra (1999), Mulheres Q' Rezam (2001) e Guardados da memória (2008); criou e coordenou o caderno literário Jornal mural de mina (edições em 1998 e 2003), com textos de vários autores e também seus, além de críticas; lançou o projeto Mulheres Bantas, Vozes de Minhas Antepassadas (2011), incluindo um seminário sobre literatura afro-brasileira e leitura de seus poemas em DVD; atualmente reside em Niterói RJ; fez parte da Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil (2011).

domingo, 23 de novembro de 2014

Ana Cruz: Linguaruda

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                                                  Eu sou uma preta, muito negra brilhante cintilante, faço verso com requinte para o deleite das pessoas que amam a vida e fazem das tripas coração, para prosseguir ampliando a estética do mundo que, sabe Deus ou "Olorum", pela perfeição de sua criação. Sou preta, muito negra, faço verso muito prosa. Por sermos assim retintos, somos tratados a ferro e fogo. Subvertemos a ordem social que vigora silenciosamente onde os pretos, quando chamados, é somente para concordar.

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Ana Cruz, nascida em 1965, mineira de Visconde do Rio Branco, é jornalista e poeta; estreou na literatura com a obra E... feito de luz (1997), depois vieram Com o perdão da palavra (1999), Mulheres Q' Rezam (2001), Guardados da memória (2008); criou e coordenou o caderno literário Jornal mural de mina (edições em 1998 e 2003), com textos de vários autores e também seus, além de críticas; lançou o projeto Mulheres Bantas, Vozes de Minhas Antepassadas (2011), incluindo um seminário sobre literatura afro-brasileira e leitura de seus poemas em DVD; atualmente reside em Niterói  RJ.