sábado, 28 de fevereiro de 2026

Friedrich Nietzsche: 341. O mais pesado dos pesos — E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão . . .

 
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[traduzido por Rubens Rodrigues Torres Filho]

& 341

O mais pesado dos pesos —  E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez e tu com ela, poeirinha da poeira!” Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu é um deus, e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

[A Gaia Ciência]

Friedrich Nietzsche

341
Das größte Schwergewicht.  Wie, wenn dir eines Tages oder Nachts ein Dämon in deine einsamste Einsamkeit nachschliche und dir sagte: »Dieses Leben, wie du es jetzt lebst und gelebt hast, wirst du noch einmal und noch unzählige Male leben müssen; und es wird nichts Neues daran sein, sondern jeder Schmerz und jede Lust und jeder Gedanke und Seufzer und alles unsäglich Kleine und Große deines Lebens muß dir wiederkommen, und alles in derselben Reihe und Folge und ebenso diese Spinne und dieses Mondlicht zwischen den Bäumen, und ebenso die ser Augenblick und ich selber. Die ewige Sanduhr des Daseins wird immer wieder umgedreht und du mit ihr, Stäubchen vom Staube!« Würdest du dich nicht niederwerfen und mit den Zähnen knirschen und den Dämon verfluchen, der so redete? Oder hast du einmal einen ungeheuren Augenblick erlebt, wo du ihm antworten würdest: »du bist ein Gott und nie hörte ich Göttlicheres!« Wenn jener Gedanke über dich Gewalt bekäme, er würde dich, wie du bist, verwandeln und vielleicht zermalmen; die Frage bei allem und jedem: »willst du dies noch einmal und noch unzählige Male?« würde als das größte Schwergewicht auf deinem Handeln liegen! Oder wie müßtest du dir selber und dem Leben gut werden, um nach nichts mehr zu verlangen als nach dieser letzten ewigen Bestätigung und Besiegelung?

(Die fröliche Wissenschaft — 1882)
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Os Pensadores — Volume XXXII: Nietzsche — Obras incompletas, Seleção de textos de Gérard Lebrun e Tradução e Notas de Rubens Rodrigues Torres Filho, 1974 — Abril Cultural, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

Alfred de Musset: O salgueiro

 
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[traduzido por José Lino Grünewald]

Alva estrela da tarde e arauto distante,
Cuja fronte a luzir vem dos véus do poente,
De teu palácio azul, um seio do firmamento,
Que vês no prado em teu mirante?

A tormenta se afasta, os ventos amainados 
Chora sobre a charneca o bosque irrequieto;
A falena dourada, em seu leve trajeto,
Transpõe os campos perfumados.
Que buscaria no torpor bucólico?
Pelos montes, porém, eu te vejo descer;
Tu partindo a sorrir, amiga melancólica,
E teu trêmulo olhar a fim de fenecer.

Estrela, tu que desces em verde colina,
Triste lágrima em prata do manto da Treva,
Tu que o pastor andando ao longe descortinas
Enquanto vem passando o rebanho que leva 
Estrela, aonde vais por esta noite imensa?
Pelos juncos da margem buscas teu assento?
Aonde vais tão bela, à hora do silêncio,
Qual pérola a cair no fundo das correntes?
Ah! se deves morrer, lindo astro, e a cabeça
Vai imergir no mar os teus louros cabelos,
Antes de nos deixar, um só instante arrefece;
Não desças mais dos céus, estrela do desvelo!

Alfred de Musset

Le Saule

[extrait]

Pâle étoile du soir, messagère lointaine,
Dont le front sort brillant des voiles du couchant,
De ton palais d'azur, au sein du firmament,
Que regardes-tu dans la plaine?

La tempête s'éloigne, et les vents sont calmés.
La forêt, qui frémit, pleure sur la bruyère;
Le phalène doré, dans sa course légère,
Traverse les prés embaumés.
Que cherches-tu sur la terre endormie?
Mais déjà vers les monts je te vois t'abaisser;
Tu fuis, en souriant, mélancolique amie,
Et ton tremblant regard est près de s'effacer.

Étoile qui descends vers la verte colline,
Triste larme d'argent du manteau de la Nuit,
Toi que regarde au loin le pâtre qui chemine,
Tandis que pas à pas son long troupeau le suit,
Étoile, où t'en vas-tu, dans cette nuit immense?
Cherches-tu sur la rive un lit dans les roseaux?
Où t'en vas-tu si belle, à l'heure du silence,
Tomber comme une perle au sein profond des eaux?
Ah! si tu dois mourir, bel astre, et si ta tête
Va dans la vaste mer plonger ses blonds cheveux,
Avant de nous quitter, un seul instant arrête;
Étoile de l'amour, ne descends pas des cieux!

[...]
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Alfred Louis Charles de Musset (1810 1857), francês e parisiense, antes de completar 9 anos de idade foi matriculado no Lycée Henri IV, concluiu o ensino médio, depois aventurou-se nos estudos de medicina, direito, pintura, música, logo os abandonou, e passou a se dedicar com determinação e interesse à literatura, foi poeta, novelista, romancista, crítico e dramaturgo, e tido como "l'enfant terrible" do período romantista em Paris; “desde os 14 anos já fazia seus versos": A ma mére (1824), À Mademoiselle Zoé le Douairin (1826), Un rêve et L’anglais mangeur d’opium (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (coletânea de poemas, Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), Namouna (poema narrativo, 1831), La coupe et les lèvres (teatro, 1832), Rolla (longo poema narrativo, 1833), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro comédia, 1834), Lorenzaccio (drama romântico, 1834), Fantasio (teatro comédia, 1834), Le Chandelier (comédia em três atos, 1835), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836), Les Nuits: La Nuit de Mai [1835], La Nuit de Décembre [1835], La Nuit d'Août [1836], La Nuit d'Octobre [1837], La Nuit d’Avril [1838] (ciclo As Noites, 1835-1838), Lettres du Dupuis et Cotonet (crítica, Cartas de Dupuis e Cotonet, 1837), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé (É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia em Um Ato, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros textos em verso e prosa e para teatro; teve poemas musicados por Hector Berlioz [poème Le Lever, 1839], Charles Gounod [avec piano, Venise, 1849], Édouard Lalo [trois mélodies: À une fleur, Chanson de Barberine et La Zuecca, 1870], Claude Debussy [Madrid, 1879], [Rondeau, 1881] e [Chanson espagnole, 1883] etc.; pertenceu à Académie Française; o poeta, desde 1824, foi um dos frequentadores do “Cénacle”, salão literário de Charles Nodier bibliotecário da Bibliotéque de l’Arsenal, e tendo como companhia Victor Hugo e outros; passou a viver como um “dândi devasso”, teve várias amantes, uma das quais a escritora George Sand [pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant]; em 1845, Musset foi condecorado com a Legião de Honra em reconhecimento à sua influência na literatura francesa; com a “saúde frágil, mas sobretudo atormentado pelo alcoolismo, pela ociosidade e pela devassidão, morreu de tuberculose em 2 de maio de 1857”, aos 46 anos.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Vasko Popa: Khílandar

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Negra mãe Trímana

Estende-me uma palma na mão
Para que me banhe no oceano mágico
Estende-me outra palma da mão
Para que me farte da doçura das pedras

E estende-me a terceira palma
Para que pernoite no ninho dos versos

Egresso do caminho
Poeirento e faminto
E ávido de outro mundo

Estende-me três pequenas ternuras
Antes que mil névoas caiam sobre os meus olhos
E minha cabeça role

Antes que te cortem as três mãos

Negra mãe Trímana

(A Terra Ereta — 1972)

Vasko Popa

ХИЛАНДАР

Црна мајко Тројеручице

Пружи ми један длан
Да се у чаробном мору окупам
Пружи ми други длан
Да се слатког наједем камења

И трећи длан ми пружи
Да у гнезду стихова преноћим

Приспео сам с пута
Прашњав и гладан
И жељан другачијег света

Пружи ми три мале нежности
Док ми не падне хиљаду магли на очи
И главу не изгубим

И док теби све три руке не одсеку
Црна мајко Тројеручице

([Усправна земља], Uspravna Zemlja — 1972)
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Vasko Popa: Osso a Osso, Tradução, Organização e Notas de Aleksandar Jovanović [+ 2 poemas com traduções de Nelson Ascher e Haroldo de Campos], Imprólogo de Octavio Paz, Texto da contra-capa, por Haroldo de Campos, 1989, Editora Perspectiva — Coleção Signos, São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste Romênia e na de Viena Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca ([збирке Кора], Kora, 1953), O Campo do Desassossego (Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta ([Усправна земљаUspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Paul Celan: Os cântaros


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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Para Klaus Demus

Nas longas mesas do tempo
embebedam-se os cântaros de Deus.
Eles esvaziam os olhos de quem vê e de quem não,
os corações das sombras reinantes,
o magro rosto da noite.
São os maiores bebedores:
levam à boca o vazio como o pleno
e não transbordam como eu ou tu.

(Ópio e Memória, 1952)

Paul Celan

Die Krüge

Für Klaus Demus

An den langen Tischen der Zeit
zechen die Krüge Gottes.
Sie trinken die Augen der Sehenden leer und die Augen der Blinden,
die Herzen der waltenden Schatten,
die hohle Wange des Abends.
Sie sind die gewaltigsten Zecher:
sie führen das Leere zum Mund wie das Volle
und schäumen nicht über wie du oder ich.

(Mohn und Gedächtnis, 1952)
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Cristal: Paul Celan, Seleção, Tradução e Nota Biobibliográfica de Claudia Cavalcanti, edição bilíngue, Apresentação de Márcio Seligmann Silva, 1999 (3ª reimpressão, 2014), Iluminuras, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Gilberto Mendonça Teles: O anzol

 
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Nesse anzol de chumbo
nesse anzol de prata
passeias no fundo
do sono das águas

onde o próprio rio
já não tem mais pressa
de ser rio e é triste
por ser mais secreto.

Nesse anzol surpreso
numa linha larga
afinal espreitas
o fluir das águas

e o sentido obscuro
que rola submerso
te fala de um surdo
existir de objetos.

Fingindo silêncio
e demais astúcia
vais medindo o tempo
na raiz da espuma

e no leito verde
teu olhar de vidro
se embebe no leve
rolar dos resíduos.

No íntimo contato
desse corpo líquido
na ausência de lado
para mais carícia

tens a plenitude
das águas e – dentro –
tua língua é inútil
peixe se escondendo.

Pois nessa água escura
(ou nessa água clara)
não há mais discurso
senão o que fala

pelo som das pedras
pela voz do acaso
pelo sortilégio
de alguma palavra

que vibra surpresa
mas fria e calada
como baioneta
como peixe-espada.

A Raiz da Fala (1972)

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Gilberto Mendonça Teles — Coleção Melhores Poemas, Seleção e Introdução de Luiz Busatto, 2007, Global Editora, São Paulo — SP; Gilberto Mendonça Teles (1931 2024), goiano de Bela Vista de Goiás, formou-se em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (universidades Federal e Católica de Goiás) e doutorou-se em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, foi professor universitário, poeta, ensaísta e crítico literário; lecionou Literatura Brasileira em universidades no exterior (Uruguai, Portugal, França [Rennes e Nantes], Estados Unidos [Chicago], e Espanha [Salamanca]), escreveu e publicou mais de 50 títulos em poesia, ensaios e crítica; suas obras: poesias: Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1961), Pássaro de Pedra (1962), Sonetos do Azul sem Tempo (1964), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), Hora Aberta (3ª edição aumentada de Poemas Reunidos [1ª edição em 1978] + outros textos, partituras de poemas musicados, gravuras de capas dos livros anteriores, 1986), Álibis (2001), ensaios e críticas: Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996), Contramargem (2002) e outros títulos em verso, prosa e poesia visual, edições e reedições; Gilberto Mendonça Teles foi múltiplas vezes premiado por sua atividade literária, entre os quais o Prêmio Silvio Romero (da ABL Academia Brasileira de Letras, por Drummond — A Estilística da Repetição, 1970), Prêmio Olavo Bilac (da ABL, por A Raiz da Fala, obra então inédita, 1971), Prêmio Machado de Assis (da ABL, por Hora Aberta — 3ª edição aumentada... e pelo conjunto da obra, 1989), Troféu Juca Pato (da UBE União Brasileira dos Escritores [patrocinado pela Folha de São Paulo], Intelectual do Ano, por Contramargem, 2002), etc., e foi reconhecido também fora do país, com obras vertidas para outras línguas e publicadas no exterior.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Musset: Vida não vivida

 
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[traduzido por Francisco Octaviano]

Era bela, como a estátua
Em mortuária capela,
Dormindo em leito de pedra,
Imóvel, pode ser bela.

Tinha bondade, se basta
Dar, ao acaso, sem dó,
Sem que Deus enxergue a esmola,
Se a esmola é dinheiro só.

Pensava, se o vão ruído
De um falar suave e lento,
Como gemido de arroio,
Denuncia o Pensamento.

Orava, se os olhos negros
Uma fez fitos no chão,
Outra vez ao céu erguidos,
Podem chamar-se oração.

Sorria, se o refrigério
De uma brisa, na alvorada,
Chegasse a expandir a flor
Que se conserva fechada.

Chorara, se, argila inerte,
Seu coração ressequido
Gotas de celeste orvalho
Pudesse haver recolhido.

Amara, se no seu peito
Não velasse orgulho fútil,
Como em cima de um sepulcro
Se entretém lâmpada inútil.

Aparentava viver...
Sem ter vivido morreu...
Caiu-lhe das mãos o livro...
Nesse livro nada leu!

Musset

Sur une morte

Elle était belle, si la Nuit
Qui dort dans la sombre chapelle
Où Michel-Ange a fait son lit,
Immobile peut être belle.

Elle était bonne, s’il suffit
Qu’en passant la main s’ouvre et donne,
Sans que Dieu n’ait rien vu, rien dit,
Si l’or sans pitié fait l’aumône.

Elle pensait, si le vain bruit
D’une voix douce et cadencée,
Comme le ruisseau qui gémit
Peut faire croire à la pensée.

Elle priait, si deux beaux yeux,
Tantôt s’attachant à la terre,
Tantôt se levant vers les cieux,
Peuvent s’appeler la Prière.

Elle aurait souri, si la fleur
Qui ne s’est point épanouie
Pouvait s’ouvrir à la fraîcheur
Du vent qui passe et qui l’oublie.

Elle aurait pleuré si sa main,
Sur son coeur froidement posée,
Eût jamais, dans l’argile humain,
Senti la céleste rosée.

Elle aurait aimé, si l’orgueil
Pareil à la lampe inutile
Qu’on allume près d’un cercueil,
N’eût veillé sur son coeur stérile.

Elle est morte, et n’a point vécu.
Elle faisait semblant de vivre.
De ses mains est tombé le livre,
Dans lequel elle n’a rien lu.
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Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Alfred Louis Charles de Musset (1810 1857), francês e parisiense, antes de completar 9 anos de idade foi matriculado no Lycée Henri IV, concluiu o ensino médio, depois aventurou-se nos estudos de medicina, direito, pintura, música, logo os abandonou, e passou a se dedicar com determinação e interesse à literatura, foi poeta, novelista, romancista, crítico e dramaturgo, e tido como "l'enfant terrible" do período romantista em Paris; “desde os 14 anos já fazia seus versos": A ma mére (1824), À Mademoiselle Zoé le Douairin (1826), Un rêve et L’anglais mangeur d’opium (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (coletânea de poemas, Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), Namouna (poema narrativo, 1831), La coupe et les lèvres (teatro, 1832), Rolla (longo poema narrativo, 1833), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro comédia, 1834), Lorenzaccio (drama romântico, 1834), Fantasio (teatro comédia, 1834), Le Chandelier (comédia em três atos, 1835), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836), Les Nuits: La Nuit de Mai [1835], La Nuit de Décembre [1835], La Nuit d'Août [1836], La Nuit d'Octobre [1837], La Nuit d’Avril [1838] (ciclo As Noites, 1835-1838), Lettres du Dupuis et Cotonet (crítica, Cartas de Dupuis e Cotonet, 1837), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia em Um Ato, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros textos em verso e prosa e para teatro; teve poemas musicados por Hector Berlioz [poème Le Lever, 1839], Charles Gounod [avec piano, Venise, 1849], Édouard Lalo [trois mélodies: À une fleur, Chanson de Barberine et La Zuecca, 1870], Claude Debussy [Madrid, 1879], [Rondeau, 1881] e [Chanson espagnole, 1883] etc.; pertenceu à Académie Française; o poeta, desde 1824, foi um dos frequentadores do “Cénacle”, salão literário de Charles Nodier bibliotecário da Bibliotéque de l’Arsenal, e tendo como companhia Victor Hugo e outros; passou a viver como um “dândi devasso”, teve várias amantes, uma das quais a escritora George Sand [pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant]; em 1845, Musset foi condecorado com a Legião de Honra em reconhecimento à sua influência na literatura francesa; com a “saúde frágil, mas sobretudo atormentado pelo alcoolismo, pela ociosidade e pela devassidão, morreu de tuberculose em 2 de maio de 1857”, aos 46 anos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Hermes Fontes: A primeira pedra

 
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Corpo que se encontrou abandonado de alma,
corpo que se não pôde à ação do ar decompor,
uma pedra é uma vaga imóvel... É uma calma
recordação do mar de que foi leito a estrada,
uma vaga do mar dos Tempos, retardada,
que por aí ficou sem sentidos, parada,
adormecida por um íntimo torpor.

É a Impassibilidade esculturada. Dorme.
Secou-lhe o sangue, e não consegue apodrecer.
Vive? É possível. Morre? É provável. Conforme
a Vida e a Morte... A pedra é um ponto de partida.
É o princípio da Morte, é o princípio da Vida...
É um gesto contrariado, é uma força contida,
É o Ser que adormeceu em caminho do Ser...

(Gênese, pág. 34, 1913 [Tipografia
W. Martins & C., Rio de Janeiro.])

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), sergipano de Buquim, órfão de mãe ainda criança, aos nove anos seguiu rumo ao Rio de Janeiro, levado pelas mãos de Martinho Garcez [à época senador federal], seu protetor, cursou a Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro [hoje Faculdade de Direito da UERJ-RJ], bacharelou-se, não exerceu a profissão, foi poeta, compositor, jornalista, crítico literário, caricaturista e funcionário público trabalhou nos Correios e Telégrafos e foi oficial de gabinete do ministro da Viação ; tendo sido um dos fundadores do jornal Estréia (1904), também foi colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, Kosmos, Revista Souza Cruz, entre outros periódicos de sua época; como caricaturista, Hermes Fontes atuou no jornal O Bibliógrafo e também no Tagarela e Brasil Moderno; obras poéticas: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922), A Fonte da Mata (1930) ...; sua poesia é de estética simbolista; Hermes Fontes “compôs a letra das músicas Luar de Paquetá e À Beira-Mar com música de Freire Junior gravadas por Vicente Celestino e Orlando Silva”, entre outras composições e gravações; na divulgação de seus textos, Hermes Fontes ainda fez uso dos pseudônimos Léo-zito, Leléo, Léo-Fábio, P. Q. Nino, H. F., F. H., Rems, Rins e Roms; o poeta, num processo de depressão, suicidou-se na véspera do Natal de 1930.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Jean Moréas: Noturno

 
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[traduzido por Álvaro Reis]

Toc, toc, toc, toc... Crava os pregos bem cravados
Bom armador, carpinteiro dos finados...

Bom armador, oh bondoso carpinteiro,
Seja de cedro, carvalho ou de pinheiro,
Faze um caixão muito grande, bem pesado,
Para deitar meu amor, pobre finado...

Toc, toc, toc, toc... Crava os pregos bem cravados,
Bom armador, carpinteiro dos finados...

Forra o caixão de cetins alvinitentes
Como os seus dentes, como os seus nevados dentes,
Orna-o também as fitas mais azuis
Como os seus olhos tão lindos e tafuis.

Toc, toc, toc, toc... Crava os pregos bem cravados,
Bom armador, carpinteiro dos finados...

Lá embaixo, além, junto a um fresco ribeiro,
Sob os olmeiros, sob um pequeno olmeiro,
Na hora em que o cuco, cedinho alça o trinado,
Outro a beijou no pescoço, apaixonado...

Toc, toc, toc, toc... Crava os pregos bem cravados,
Bom armador, carpinteiro dos finados...

Bom armador, oh bondoso carpinteiro,
Seja de cedro, carvalho ou de pinheiro,
Talha um caixão, muito grande, e bem pesado,
Para enterrar meu amor, hoje, finado...

Jean Moréas

Nocturne

Wisst ihr warum der Sarg wohl
So gross und schwer mag sein?
Ich legt’ auch meine Liebe
Und meinen Schmerz hinein.
Heinrich Heine.

I

Toc, toc toc toc, il cloue à coups pressés;
Toc, toc, le menuisier des trépassés.

«Bon menuisier, bon menuisier,
Dans le sapin, dans le noyer,
Taille un cercueil très grand, très lourd,
Pour que j’y couche mon amour.»

II

Toc toc, toc toc, il cloue à coups pressés,
Toc toc, le menuisier des trépassés.

«Qu’il soit tendu de satin blanc
Comme ses dents, comme ses dents;
Et mets aussi des rubans bleus
Comme ses yeux, comme ses yeux.»

III

Toc toc, toc toc, il cloue à coups pressés.
Toc toc, le menuisier des trépassés.

«Là-bas, là-bas près du ruisseau,
Sous les ormeaux, sous les ormeaux,
À l’heure où chante le coucou,
Un autre l’a baisée au cou.»

IV

Toc toc, toc toc, il cloue à coups pressés,
Toc, toc, le menuisier des trépassés.

«Bon menuisier, bon menuisier,
Dans le sapin, dans le noyer,
Taille un cercueil très grand, très lourd,
Pour que j’y couche mon amour.»
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França [111 autorias e vários tradutores], Organização, Seleção e Prefácio por R. Magalhães Jr., e Texto à Guisa de Introdução por Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro nº 12126, sem data, [1985?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Ioannis A. Papadiamantopoulos, conhecido no meio literário pelo pseudônimo Jean Moréas (1856 1910), grego e ateniense, viveu em Paris — França, estudou Direito, foi poeta, romancista, ensaísta e crítico literário; em sua juventude, Moréas passou em Marselha, depois viajou à Suiça, Alemanha e Itália, por fim se fixou em Paris; teve seus poemas publicados nas revistas Lutèce e Le Chat Noir, e, em 1886, no Prefácio de sua obra Les Cantilènes, Moréas se anunciou simbolista; ainda em 1886, com a apresentação do Manifesto do Simbolismo (Le Symbolisme), de sua autoria e divulgado no suplemento literário do Le Figaro, o poeta passou a ser reconhecido como o iniciador daquele movimento que surgia na França e que até então não tinha nome; foi cofundador da revista Le Symboliste, com Paul Adam e Gustave Kahn; suas obras: Les Syrtes (Os Sirtes, primeira coletânea de versos, 1884), Les Cantilènes (As Cantilenas, 1886), Le Pélerin passioné (O Peregrino apaixonado, 1891), Autant en emporte le vent (1893), Stances (Estâncias, série poética, 1899/1901), Iphigénie — tragédie en cinq actes (peça teatral, 1904) e outros títulos.