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Café Paris*, à noite. A rede antiga
ali sentava-se a beber cachaça...
Amigo Bento! Como o tempo passa,
mas deixa sempre uma lembrança amiga.
Era o Isaac Cerquinho... que barriga!
E que talento de orador sem jaça!
O Olavo, bonachão, que em rimas traça
Da “Dama loura” a imagem que o fustiga.
Depois vinha o Lili trocadilhista,
O Mazzini, o Mesquita, o Afrânio, em cada
da glória o brilho a refletir na vista...
E os boêmios, de almas quase que infantis,
vão debandando na alta madrugada...
E dorme em sombras o Café Paris.
[soneto escrito em 30.12.1953; publicado em
O Fluminense, 1º de dezembro de 1963,
página literária Prosa e Verso]
*Nota deste Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta
página expõe que no capítulo Roda do Café Paris, de Passeio das Letras na Taba de Araribóia, o autor Wanderlino Teixeira Leite Netto
registra o seguinte:
[ . . . ]
“Como o reduto líteroboêmio fechava por volta da meia-noite, os
integrantes da Roda seguiam de bonde para São Francisco e iam terminar a
noitada nas mesas do bar do restaurante Lido, que só bem mais tarde encerrava o
expediente. Verdadeiro cenáculo ambulante! Lamentavelmente, muito da produção
literária desse grupo de boêmios perdeu-se, já que seus integrantes tinham por
hábito escrever em papel de embrulhar pão ou no verso do papel prateado de
maços de cigarro. A maioria abandonava seus escritos nas mesas do Café Paris ou
do Lido, a mercê de uma vassoura iletrada.
[ . . . ]
Numa entrevista ao jornal Letras Fluminenses, em setembro de 1952, Kleber de Sá Carvalho
assim se pronunciou, relativamente ao movimento:
‘A formação da Roda do Café Paris assinalou um período de profunda revolução intelectual nos meios sociais e literários da capital do estado [à época, Niterói era a capital do Rio]. O grupo buscava um lugar ao Sol. Reagia e produzia assaltando salões, invadindo redações, forçando o seu público, impondo o valor de cada um. Metidos no fundo do Café Paris, ali traçavam planos, criavam, escreviam livros, poesias, artigos, páginas de crítica, fundavam jornais e revistas. Ali quebravam literatos de vidro, destruíam culturas suspeitas, fustigavam os conhecimentos de almanaque. Qualquer festa de que participassem constituía acontecimento de significação especial e ponto de atração da sociedade.’ [...]
Segundo Kleber de Sá Carvalho, muitos livros surgiram nesta época, entre
os quais, Oração aos seios, de René Descartes de Medeiros, A costela que me falta, de Mazzini Rubano, Orações
profundas, de Roberto Mesquita, Quod
seripsi seripsi, de Angelo
Eliseu, Vida apertada, de Lili Leitão, Uma porção de mentiras, de José Mayrink de Souza Motta, Ciclo
do Sol nascente, de Luís
Gomes Filho, Lugares comuns, de Brasil dos Reis, Luzernas e Outono de folhas mortas, ambos de Benjamim Costa.
Para Kleber de Sá Carvalho, 1922 foi o ano em que a Roda se formou. Já
Lourenço Araújo afirmava que, quando começou a frequentar o Café Paris, em
1913, o cenáculo ambulante já existia, fundado em 1898, conforme declarou em
entrevista publicada na página literária Artes Fluminenses, de Luís Antônio
Pimentel (jornal A Tribuna, 22/23 de agosto de 1976).
Dos poetas da Roda, Lili Leitão, por sua irreverência, terá sido o mais
notório. A fim de amealhar dinheiro para cair na esbórnia, produzia, às
vésperas dos festejos carnavalescos, O Almofadinha, formato tablóide, limitado a quatro
páginas. Além dos anúncios, em prosa e verso, o jornaleco trazia poesias
humorísticas e um sem número de anedotas.”
[ . . . ]
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Passeio das Letras na Taba de Araribóia: A literatura em Niterói no século
XX — Wanderlino Teixeira Leite Netto, Apresentação de Marcos Gomes, 2003, Niterói
Livros: Fundação de Artes de Niterói — FAN, Niterói —
RJ; Benjamim Bittencourt Costa (1894 — 1954), ou Benjamim
Costa ou ainda Benjamim da Costa, fluminense e niteroiense, matriculado no Colégio
Militar, curso que abandonou no 3º ano para se dedicar por inteiro à carreira das letras, foi poeta, escritor, autor de peças teatrais e litero-boêmio, tendo
sido um dos assíduos frequentadores da Roda do Café Paris, de Niterói, espaço aonde poetas, estudantes, jornalistas e outros artífices e apreciadores daquele movimento artístico-literário se concentravam nas tardes e entravam pela noite, arriscavam apresentar e declamar seus versos e outros textos, ali os criando e recriando, ocasião em que recebiam aplausos, vaias, troças, críticas e também eram divulgados em jornais e revistas das duas primeiras décadas do século XX, e até se transformavam em livros; obras do poeta Benjamim: em 1913 publicou
as suas Primeiras Canções, depois vieram, também em poesias, Lantejoulas (1914),
Luzernas (1922), Estatuetas (1924), Outono de Folhas Mortas (1925), Cacarecos — poemetos para crianças
(1933), O Poema das Fogueiras e Meu Jordão (ambos em 1936), Canções da Terra Virgem
(1948), Sonho e Miragem (1949) e Céu Tropical (1953); Benjamim Costa também
produziu peças para teatro, teve várias delas encenadas e algumas
radiofonizadas, como Amor de Condenado; inédito, deixou o Teatrinho dos meus
bonecos.