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segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Benjamim Costa: Café Paris


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Café Paris*, à noite. A rede antiga
ali sentava-se a beber cachaça...
Amigo Bento! Como o tempo passa,
mas deixa sempre uma lembrança amiga.

Era o Isaac Cerquinho... que barriga!
E que talento de orador sem jaça!
O Olavo, bonachão, que em rimas traça
Da “Dama loura” a imagem que o fustiga.

Depois vinha o Lili trocadilhista,
O Mazzini, o Mesquita, o Afrânio, em cada
da glória o brilho a refletir na vista...

E os boêmios, de almas quase que infantis,
vão debandando na alta madrugada...
E dorme em sombras o Café Paris.

[soneto escrito em 30.12.1953; publicado em
O Fluminense, 1º de dezembro de 1963,
página literária Prosa e Verso]

*Nota deste Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página expõe que no capítulo Roda do Café Paris, de Passeio das Letras na Taba de Araribóia, o autor Wanderlino Teixeira Leite Netto registra o seguinte:
     [ . . . ]
     “Como o reduto líteroboêmio fechava por volta da meia-noite, os integrantes da Roda seguiam de bonde para São Francisco e iam terminar a noitada nas mesas do bar do restaurante Lido, que só bem mais tarde encerrava o expediente. Verdadeiro cenáculo ambulante! Lamentavelmente, muito da produção literária desse grupo de boêmios perdeu-se, já que seus integrantes tinham por hábito escrever em papel de embrulhar pão ou no verso do papel prateado de maços de cigarro. A maioria abandonava seus escritos nas mesas do Café Paris ou do Lido, a mercê de uma vassoura iletrada.
     [ . . . ]
     Numa entrevista ao jornal Letras Fluminenses, em setembro de 1952, Kleber de Sá Carvalho assim se pronunciou, relativamente ao movimento:
     ‘A formação da Roda do Café Paris assinalou um período de profunda revolução intelectual nos meios sociais e literários da capital do estado [à época, Niterói era a capital do Rio]. O grupo buscava um lugar ao Sol. Reagia e produzia assaltando salões, invadindo redações, forçando o seu público, impondo o valor de cada um. Metidos no fundo do Café Paris, ali traçavam planos, criavam, escreviam livros, poesias, artigos, páginas de crítica, fundavam jornais e revistas. Ali quebravam literatos de vidro, destruíam culturas suspeitas, fustigavam os conhecimentos de almanaque. Qualquer festa de que participassem constituía acontecimento de significação especial e ponto de atração da sociedade.’ [...]
     Segundo Kleber de Sá Carvalho, muitos livros surgiram nesta época, entre os quais, Oração aos seios, de René Descartes de Medeiros, A costela que me falta, de Mazzini Rubano, Orações profundas, de Roberto Mesquita, Quod seripsi seripsi, de Angelo Eliseu, Vida apertada, de Lili Leitão, Uma porção de mentiras, de José Mayrink de Souza Motta, Ciclo do Sol nascente, de Luís Gomes Filho, Lugares comuns, de Brasil dos Reis, Luzernas e Outono de folhas mortas, ambos de Benjamim Costa.
     Para Kleber de Sá Carvalho, 1922 foi o ano em que a Roda se formou. Já Lourenço Araújo afirmava que, quando começou a frequentar o Café Paris, em 1913, o cenáculo ambulante já existia, fundado em 1898, conforme declarou em entrevista publicada na página literária Artes Fluminenses, de Luís Antônio Pimentel (jornal A Tribuna, 22/23 de agosto de 1976).
     Dos poetas da Roda, Lili Leitão, por sua irreverência, terá sido o mais notório. A fim de amealhar dinheiro para cair na esbórnia, produzia, às vésperas dos festejos carnavalescos, O Almofadinha, formato tablóide, limitado a quatro páginas. Além dos anúncios, em prosa e verso, o jornaleco trazia poesias humorísticas e um sem número de anedotas.”
     [ . . . ]
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Passeio das Letras na Taba de Araribóia: A literatura em Niterói no século XX Wanderlino Teixeira Leite Netto, Apresentação de Marcos Gomes, 2003, Niterói Livros: Fundação de Artes de Niterói FAN, Niterói RJ; Benjamim Bittencourt Costa (1894 1954), ou Benjamim Costa ou ainda Benjamim da Costa, fluminense e niteroiense, matriculado no Colégio Militar, curso que abandonou no 3º ano para se dedicar por inteiro à carreira das letras, foi poeta, escritor, autor de peças teatrais e litero-boêmio, tendo sido um dos assíduos frequentadores da Roda do Café Paris, de Niterói, espaço aonde poetas, estudantes, jornalistas e outros artífices e apreciadores daquele movimento artístico-literário se concentravam nas tardes e entravam pela noite, arriscavam apresentar e declamar seus versos e outros textos, ali os criando e recriando, ocasião em que recebiam aplausos, vaias, troças, críticas e também eram divulgados em jornais e revistas das duas primeiras décadas do século XX, e até se transformavam em livros; obras do poeta Benjamim: em 1913 publicou as suas Primeiras Canções, depois vieram, também em poesias, Lantejoulas (1914), Luzernas (1922), Estatuetas (1924), Outono de Folhas Mortas (1925), Cacarecos poemetos para crianças (1933), O Poema das Fogueiras e Meu Jordão (ambos em 1936), Canções da Terra Virgem (1948), Sonho e Miragem (1949) e Céu Tropical (1953); Benjamim Costa também produziu peças para teatro, teve várias delas encenadas e algumas radiofonizadas, como Amor de Condenado; inédito, deixou o Teatrinho dos meus bonecos.