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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Genésio dos Santos: Futebol

Livro: Número Um De Genésio Dos Santos
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Domingo.
O sol desponta com seus raios fúlgidos
no azul e límpido céu
como havia sido previsto pelos meteorologistas.
Não iria chover e não choveu.
A cidade acordou festiva,
é dia de Flamengo
e quase toda a cidade é Flamengo.
As cores rubro-negras dominam
e por certo dominarão
por mais um longo tempo
o coração de seus habitantes.
Um grito uníssono nasce na Gávea
e ecoa, desde cedo, pela cidade:
Mengo! Mengo! Mengo!

Já estou imaginando o Maracanã

 o maior estádio do mundo 

repleto de gente.
Gente unida
gente carioca
gente brasileira
gente feliz.
Gente que entende de futebol
gente que vibra
vive
e até morre pelo seu Flamengo.
Gente que esquece o dia-a-dia
o trem da Central
o trânsito congestionado até o estádio
a volta, quase sempre,
aos bairros favelados.
Gente que se encontra
sem distinção de sexo, cor, raça...
...nem credo.
Mengo! Mengo! Mengo!

Gente, muita gente.
Estou imaginando a massa
alucinada
e alucinante
nas gerais
arquibancadas
numeradas
e cadeiras-cativas.
Ai de quem se atrever a vaiar o seu Flamengo.
Ai de quem enfrentá-la.
Corre até risco de vida.

Prevendo isso é que
lá se encontram, também, os policiais
 muitos deles sem nada entender de futebol ,

seus cães amestrados
e suas bombas de gás lacrimogênio.
Estão prontos para intervir
se necessário for.
A presença deles funciona como sedativo
aos torcedores mais exaltados.
Mengo! Mengo! Mengo!

Uma pequena escaramuça surge nas gerais
e é logo contornada pela
turma-do-deixa-disso.
Não será desta vez que a polícia
intervirá.
A massa está lá para assistir a futebol.
Brigas,
desavenças,
deixemos para os
vietnamitas e africanos
gregos e troianos.
Mengo! Mengo! Mengo!

E eu,
que não sou flamenguista
(sou botafoguense),
tenho que ficar calado.
Não posso me exaurir antes do início
do jogo. Reservo as minhas forças
para os noventa minutos. O meu grito
precisa se fazer forte.
O alvinegro precisa de mim
e eu não posso desapontá-lo.
O estádio parece vir abaixo.
Mengo! Mengo! Mengo!

Eu,

continuo com os olhos fixos
na boca do túnel
e ensaio o meu grito:
Fogo! Fogo! Fogo!


Minha foto
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Número Um, Edição do Autor, 1978, São Paulo — SP; Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou  Número Um (poesias, 1978) Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical,  escreveu crônicas para o jornal O Espelho — SP, Folha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991  1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.