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quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Célia Reis: Merenda escolar


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          Dona Sônia
          Sim, Rose
          Eu vim dizer pra senhora que não tem tempero pra temperar a comida da merenda.
          Ah, tá! Eu vou encomendar
          Então, é que eu avisei à senhora há duas semanas. Disse que precisava providenciar, pois já tinha pouco e logo acabaria.
          É, eu sei Rose, mas eu me esqueci.
          E agora, dona Sônia? Porque acabou tudo, não tem óleo, nem cebola...
          Ah Rose, faz sem mesmo.
          Mas dona Sônia, outro dia a senhora me mandou fazer o purê de batata com água, porque não tinha leite. E os alunos não comeram, a comida foi todinha para o lixo. Era eu colocar no prato, eles experimentarem aquele purê insosso, aguado e a comida ia direto para o lixo. Me deu tanta dó.
          Ah, Rose, pare com esse sentimentalismo, se jogaram fora é porque não estavam com fome. Essa gente pensa que é quem? Nem tem comida em casa e querem banquete na escola?
          Mas dona Sônia, a situação hoje é pior, acabou até o sal. A senhora já pensou purê de batata sem leite e sem sal? Batata e água? E sem sal?
          É o que tem pra hoje, Rose. Vou tentar não me esquecer de fazer o pedido desses temperos.
          Eu posso pelo menos fazer menos comida, porque eu sei que eles não vão comer e assim diminui o desperdício, dona Sônia.
          Nem pensar, Rose, faça a quantidade certa para todos os alunos da escola, não tem problema que vá para o lixo. Tem problema, pra mim, se não sirvo a merenda. Se eles não comem, o problema é deles.
          Eu fico com vergonha, dona Sônia, de oferecer essa merenda, assim desse jeito para os alunos. Eu faço a comida com gosto, bem temperada, pra eles comerem bem. Muitos alunos só tem essa refeição servida na escola. Eu fico tão feliz quando eles comem, abrem o sorrisão de satisfação e diz: quero mais, tia!
          Tá pensando que é Madre Tereza de Calcutá, Rose? Essa gente não merece tanta consideração não, povo mal acostumado, a culpa disso é desse governo assistencialista. Escola é lugar de estudar, não é restaurante não.
          Mas eles estudam melhor com a barriga cheia, a senhora não acha?
          Acho sim, por isso faça o seu melhor com o que tem, e eles se quiserem estudar de barriga cheia, vão comer o que é servido, nem vão se importar se o purê é feito com água. Que eu saiba esse povo nem sabe o que é leite.
          Mas o governo não manda dinheiro pra senhora comprar o leite pra fazer o purê, dona Sônia?
          Manda sim, Rose, mas eu tenho muitas coisas pra fazer, pra me preocupar, a Secretaria de Educação solicita muitas coisas, e essas são prioridades para mim, afinal eu não posso me indispor com meus superiores. Eu não sou diretora efetiva, Rose, se os meus superiores se aborrecem comigo, perco o meu posto de diretora, e aí terei que voltar pra sala de aula. Deus me livre, aí terei que conviver diariamente com esses alunos mortos de fome.
          Não fala assim dona Sônia. Deus tá vendo.
          Já falei pra você parar com esse sentimentalismo, Rose. Eu estudei, Rose, fiz pedagogia, mesmo achando desnecessário. Mas fiz, tenho o título que me dá o direito de ficar aqui onde estou, no conforto de uma sala, só mandando os outros fazerem. Não preciso fazer o que se deve fazer, basta colocar no papel que foi feito.
          Bom, a senhora é quem sabe, dona Sônia, como disse, a senhora é estudada, e bem por isso deveria ser mais humana. Eu vou lá fazer o purê. Purê de batata com água e sem sal. Nossa mãe! Acho que nem no tempo das senzalas os negros eram tão maltratados.

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Antologia volume IV — Coletivo Cultural Poesia na Brasa [uma penca de poetas], Apresentação do Coletivo, Prefácio de Flavia Bischain Rosa, 2012, Vila Brasilândia, São Paulo — SP; Célia Reis é historiadora e educadora em escolas públicas de São Paulo; além da foto acima, é o que consta do conto que a autora escreveu para esta Antologia do Coletivo Cultural Poesia na Brasa; em pesquisa googleana, o blogueiro deste Verso e Conversa foi infeliz na busca e mais nada encontrou a respeito da historiadora e educadora Célia Reis, nem acerca do seu texto-conto Merenda escolar; este Verso e Conversa fica no aguardo de possíveis contribuições dos visitadores e leitores, e, já de antemão, agradece; a fotografia de Célia Reis é de autoria da fotógrafa Sonia Bischain.

domingo, 27 de agosto de 2023

Débora Garcia: Ópera das pedras


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          A luz amarela da televisão iluminava o rosto daquelas duas criaturas, sentadas uma ao lado da outra, mas separadas por um imenso e silencioso abismo.
          No sofá, João como sempre, estava roncando. Sua rotina de trabalho na obra era pesada, exaustiva. Distraída, Dona Jurema lembrou-se de seus meninos, do tempo em que aquele barraco era pequeno para tanta gente. No fundo dos seus pensamentos, ouvia ao longe, o barulho dos meninos aprontando, e o velho atrás, brigando com os coitadinhos.
          Suspirou profundamente de tristeza A vida foi tão dura comigo pensava. Mas religiosa que era, logo buscava conforto para a revolta que parecia jorra-lhe garganta fora como um vômito incontrolável Deus não dá um fardo maior do que a gente pode carregar Dizia a si mesma num processo de autoconvencimento. O casal teve seis filhos. Desses, quatro não vingaram, morreram ainda pequeninos, vítimas das precárias condições de moradia, alimentação e saneamento básico. O mais velho morreu assassinado aos treze anos devido às más companhias. E Josenildo, o único que vingou, sumiu no mundo, ninguém sabia de seu paradeiro há anos. Ao se lembrar de seu filho, o coração de Dona Jurema se enchia de ódio, ódio de João, de sua brutalidade e ignorância que a afastou de seu menino.
           Acorda, acorda bicha, acorda pra cuspí que a vida num tá fácil não. Cê num qué ficá locona? Fumô várias pedra minha ontem? Agora ti vira, dá teus pulos, dá o cu, faz o que tu quisé, mas ti vira! Ti vira que num sô santa pra fazê caridade tá me entendendo?
          Sem saber ao certo onde estava, abriu os olhos com dificuldade, em meio ao lixo, à sujeira, e àquele exército de zumbis do qual era um soldado.
           Já vô porra! Já vô! Disse levantando com dificuldade.
           Como é mesmo teu nome bicha?
           Geni.
          Que nome de guerra é esse heim? Que nome de guerra de merda é esse heim, bicha? É por isso que tu num arranja nem boquete a um real! Todo o grupo caiu na risada.
           Vê se num fode! Já não basta essa porra desses policial vim acabá com a nossa paz, agora você vai ficar me tirando? Só porque tô chegando agora?
           É, a vida num é fácil... Quem disse que ia sê fácil!? Tem que sê batizada pra entrá pro grupo! Agora abre o jogo, que porra é essa de Geni?
           É a Geni do Chico Buarque.
           Xiiiii gente, num é que a bicha é culta? Há, há, há...
          A líder do grupo deu seguimento ao ritual de batismo de Geni, que a todo o momento era ridicularizada, não somente por seu nome, mas por suas formas esqueléticas. Risadas medonhas cortavam o silêncio das ruas abandonadas da Luz.
          Em meio à confusão de lembranças, Josenildo ouviu distante a voz de sua mãe, que vivia cantarolando as músicas de Chico Buarque enquanto cuidava da casa. Dona Jurema conheceu o cantor na casa de uma granfina, onde trabalhava como diarista. Era apaixonada pelo coroa de olhos azuis, de voz feia mas afinada. Sempre ouvia a música Geni e o Zepelim, gostava da historinha, que não entendia direito, mas achava bonitinha.
          Desnorteado, lentamente Josenildo levou a mão à cabeça. Meteu os dedos entre os cabelos embaraçados e tocou no couro, uma grande cicatriz. A marca de um dia inesquecível, o dia em que virou Geni. Tinha então dezesseis anos, e com tão pouca idade já carregava o fardo de ser gay, nordestino e favelado. Todos os dias eram gozações no colégio e repressão em casa. Seu João era violento e impiedoso. Vô te dá uma coça pra tu aprendê a sê homi, cabra sem vergonha! Dizia seu João com a cinta em punho, todas as vezes que Josenildo em algum momento de descontração esboçava qualquer trejeito que indicasse um comportamento homossexual, ou quando ouvia nos bares, nas rodas de amigos, alguma insinuação sobre a orientação sexual de seu filho. Por vezes Josenildo teve vontade de se matar, por vezes tentou, mas não teve sucesso. Por isso, morria aos poucos, a cada dia, a cada humilhação sofrida.
          Certa noite, quando voltava da escola, foi surpreendido por um grupo de meninos encapuzados. Ficou parado, apavorado, sem saber o que fazer.
           E então, bichinha, onde você pensa que vai? Tentou correr num corre não, agora você vai ter o que gosta. Vai ser nossa mulherzinha, como sempre quis. É... A gente sabe o que você quer..., quer uma pica no meio do seu cu. Agora você vai ter várias... E riram, riram do desespero de Josenildo.
          Quando tentou correr levou uma forte pancada na cabeça e desmaiou. Acordou com a dor de um corpo violentado. Um após o outro, noite adentro, eles se divertiram até cansar. Por diversas vezes perdeu o sentido, saiu do corpo como uma forma de não presenciar aquela cena, na qual era protagonista. Deixaram-no nos fundos do seu barraco, amordaçado, imobilizado. O sol nascia, o cheiro do esgoto que sempre o incomodara não fazia qualquer diferença. Tudo parecia sem sentido, somente uma imensa dor, no corpo e na alma. Por quê? Por quê? No barraco, Dona Jurema, como de costume, ouvia Chico Buarque e cantarolava Geni e o Zepelim, sua música predileta. Encolhido e amordaçado, reduzido à sua impotência diante da situação em que estava, Josenildo passou a ouvir aquela cantiga melancólica. Passou a prestar atenção na letra da música, e se sentiu dentro da história. Ele era Geni, feita pra apanhar, boa de cuspir, apedrejada desde sempre. Resignou-se e assumiu a sua identidade, a sua condição de estar no mundo. Decidida, Geni partiu numa nuvem fria, em seu Zepelim, ora prateado, ora negro, como a escuridão. Não disse uma palavra à mãe ou ao pai , Dizer o que? Pra que? Pra quem?...
           Hei! Tá onde heim? Anda, anda bicha, faz teus corre se não quiser que eu estrague a sua cara! Disse a líder do grupo, encostando uma navalha no rosto de Geni, que saiu correndo para buscar uma forma de quitar sua dívida.
          No local, uma emissora de televisão transmitia uma reportagem sobre a situação dos dependentes de crack. Geni passou em frente a uma das câmeras. Imediatamente Dona Jurema reconheceu seu filho, aliás, o que sobrou dele. Seus olhos se encheram de lágrimas, o coração, disparou.
           João! João, acorda homi! Vi Josenildo... É ele! Ele tá lá... Lá na cracolândia!
          Sem esboçar nenhum sentimento, João abriu os olhos lentamente Não conheço nenhum Josenildo. Fechou os olhos. A televisão continuou a tagarelar. Dona Jurema sangrou por dentro, pediu a Deus pela vida de seu filho. O silêncio voltou a imperar, e as pedras, continuaram a atingir Geni enquanto fugia em seu Zepelim.

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Antologia volume IV — Coletivo Cultural Poesia na Brasa [uma penca de poetas], Apresentação do Coletivo, Prefácio de Flavia Bischain Rosa, 2012, Vila Brasilândia, São Paulo — SP; Débora Garcia da Silva, paulista e paulistana do Bairro de Itaquera — Zona Leste, formada assistente social pela UNESP Universidade Estadual Paulista, é poetisa, compositora, cantora, atriz, gestora cultural e palestrista; atua na Associação Cultural Literatura no Brasil, em Suzano SP, um canal de incentivo à formação de novos leitores e escritores e de divulgação do trabalho dos escritores locais; participação em antologias: Antologia Cadernos Negros, números 34 e 35 (Quilombhoje, 2011 e 2012), Antologia Erês e Heranças (Quilombhoje, 2012), Antologia & Coletânea Coletivo Perifatividade Volume 2 (2012); produções em áudio e audiovisual: O menino e o Livro (curta metragem, Buriti Filmes, 2010), DVD CenoPoesiaMusicada Marginal (Coletivo Cultural Marginaliaria, 2011), CD de Literatura Volume I e Vídeo Literatura Volumes II e III (Assoc. Cultural Literatura no Brasil, 2011, 2013 e 2014), Documentário Vidas de Carolina (Instituto Criar de Cinema, TV e Novas Mídias, 2013); projetos culturais: Poesia Cantada & Música Declamada (música e poesia, desde 2012), Cenas, prosas e versos de Carolina (teatro e audiovisual, 2014), Carolina — a jóia da favela (teatro, 2014); Coroações — Aurora de poemas (2014) é seu primeiro livro publicado; a poetisa atua em saraus pela paulicéia e é idealizadora do Sarau das Pretas.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Coletivo Cultural Poesia na Brasa: Nosso Manifesto — A Elite Treme

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                    A elite encontra-se nos grandes centros comerciais, rodeada pelas periferias que ela própria inventou.
                    A periferia se arma e apavora a elite central.
                    Nas guerras das armas, os ricos reprimem os favelados com a força do Estado através da polícia.
                    Mas agora é diferente, a periferia se arma de outra forma. Agora o armamento é o conhecimento, a munição é o livro e os disparos vêm das letras.
                    Então a gente quebra as muralhas do acesso e parte para o ataque.
                    Invadimos as bibliotecas, as universidades, todos os espaços que conseguimos para arrumar munição (informação).
                    Os irmãos que foram se armar, já estão de volta preparando a transformação.
                    Não queremos falar para os acadêmicos, mas sim para a dona Maria e o seu José, pois eles querem se informar.
                    E a periferia dispara.
                    Um, dois, três, quatro, vários livros publicados.
                    A elite treme.
                    Agora favelado escreve livro, conta a história e a realidade da favela que a elite nunca soube, ou nunca quis contar direito.
                    Os exércitos de sedentos por conhecimento estão espalhados dentro dos centros culturais e bibliotecas da periferia.
                    A elite treme.
                    Agora não vai mais poder falar o que quiser no jornal ou na novela, porque os periféricos vão questionar.
                    O conhecimento trouxe a reflexão e a reflexão trouxe a ação. Agora a revolta está preparada e a elite treme.
                    Não queremos mais seus tênis, seus celulares.
                    Não queremos mais ser mão de obra barata, nem consumidores que não questionam a propaganda.
                    Queremos conhecimento e transformação nas relações sociais.
                    A elite treme.
                    Agora não mais enquadramos madames no farol e sim queremos ter os mesmos direitos das madames.
                    E é por isso que a elite TEME.

Coletivo Cultural Poesia na Brasa
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Antologia Poesia na Brasa  Volume IV,  Prefácio de Flavia Bischain Rosa, 2012, Coletivo Cultural Poesia na Brasa (Vila Brasilândia), São Paulo SP; o Sarau Poesia na Brasa, criado em 2008, é um movimento cultural de periferia para a periferia e objetiva produzir e divulgar a arte naquele contexto e demais espaços dos periféricos. Ali se discute e reflete-se a periferia, permanecendo aberto a quem queira comungar da palavra; são apresentações regulares num bar (Bar do Cardoso, depois, Bar do Carlita), mas também com atuação em escolas, UBSs, unidades da Fundação Casa, Centros Culturais e outros; o Sarau é parte integrante de um movimento de "Literatura Periférica" que acontece por outros rincões de Sampa  o Cooperifa, o Sarau do Binho, o Elo da Corrente, e tantos outros em tantos bairros; publicações do Coletivo: Antologia Poesia na Brasa (2009), Império Lampinho (poemas, várias autoras, 2009), Coletivo 8542 (poemas e contos, vários autores, 2009), Tambores da noite (poemas de Carlos Assumpção, 2009), Nem tudo é silêncio (romance, de Sônia Regina Bischain, 2010), Antologia Poesia na Brasa Volumes II e III (2010 e 2011) e outros títulos; ativistas do Coletivo: Sidnei das Neves, Samanta Biotti, Vagner Souza, Diego Arias, Sonia Regina Bischaim, Chellmí  Michell da Silva, ...