domingo, 31 de maio de 2026

Paul Celan: Assis


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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Noite úmbria.
Noite úmbria com a prata do sino e folha de oliva.
Noite úmbria com a pedra que trouxeste até aqui.
Noite úmbria com a pedra.

Mudo, o que veio à vida, mudo.
Enche os jarros.

Jarro barroso.
Jarro barroso, onde a mão do oleiro cresceu firme.
Jarro barroso que para sempre trancafiou a mão de uma sombra.
Jarro barroso com o selo da sombra.

Pedra, para onde olhas, pedra.
Deixa entrar o asno.

Animal trotante.
Animal trotante na neve, que a mais nua mão espalha.
Animal trotante frente à palavra, que caiu presa.
Animal trotante, que come o sono com a mão.

Brilho que não quer consolar, brilho.
Os mortos — estes ainda mendigam, Francisco.

(De limiar a limiar, 1955)

Paul Celan

Assisi

Umbrische Nacht.
Umbrische Nacht mit dem Silber von Glocke und Ölblatt.
Umbrische Nacht mit dem Stein, den du hertrugst.
Umbrische Nacht mit dem Stein.

Stumm, was ins Leben stieg, stumm.
Füll die Krüge um.

Irdener Krug.
Irdener Krug, dran die Töpferhand festwuchs.
Irdener Krug, den die Hand eines Schattens für immer verschloβ.
Irdener Krug mit dem Siegel des Schattens.

Stein, wo du hinsiehst, Stein.
Laβ das Grautier ein.

Trottendes Tier.
Trottendes Tier im Schnee, den die nackteste Hand streut.
Trottendes Tier vor dem Wort, das ins Schloβ fiel.
Trottendes Tier, das den Schlaf aus der Hand friβt.

Glanz, der nicht trösten will, Glanz.
Die Toten — sie betteln noch, Franz.

(Von Schwelle zu Schwelle, 1955)
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Cristal: Paul Celan, Seleção, Tradução e Nota Biobibliográfica de Claudia Cavalcanti, edição bilíngue, Apresentação de Márcio Seligmann Silva, 1999 (3ª reimpressão, 2014), Iluminuras, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 — 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina — Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours — França, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor — traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

Eugen Gömringer: calar

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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

calar  calar  calar
calar  calar  calar
calar            calar
calar  calar  calar
calar  calar  calar

Eugen Gomrimger

schweigen . . .

schweigen  schweigen  schweigen
schweigen  schweigen  schweigen
schweigen                          schweigen
schweigen  schweigen  schweigen
schweigen  schweigen  schweigen
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Eugen Gomringer, nascido em 1925, boliviano de Cachuela Esperanza, viveu em Berna — Suiça, frequentou escola em Zurique, estudou Economia, Arte e História na Universidade de Berna, tendo obtido ali seus primeiros contatos com a arte concreta, o concretismo, é poeta, artista visual, poeta visual, crítico literário, foi professor de Arte e Teoria Estética; estagiou no jornal diário Der Bund, foi co-fundador da revista de arte Spirale, em 1954 fez surgir o Vom Vers zur Konstellation, primeiro manifesto teórico da poesia concreta na língua alemã; em 1973, organizou uma antologia de poesia concreta, Konkrete Poesia: Deutschprachige Autoren — Poesia Concreta de Autores de Língua Alemã, também editado em português e lançado no Brasil pelo Instituto Goethe; suas obras: Gedichtsammlung der Konkreten Poesie: konstellationen constellations constelaciones (1953), Das Stundenbuch (O livro das horas, 1965), Zur Sache der Konkreten. Band 1, Konkrete Poesie, Band 2: Konkrete Kunst. (1988), Theorie der Konkreten Poesie. Texte und Manifeste 1954-1997 (1997), Grammatische Konfession. Confession grammaticale (2002), Kommandier(t) die Poesie. Biografische Berichte (2006), Der Sonette Gezeiten. The sonnet’s tides (2009) e outros títulos; como palestrante, o poeta percorreu os Estados Unidos, países da América do Sul — incluso Brasil — e Zaire, a convite de Goethe-Instituts e Schweizer Kulturstiftung Pro Helvetia; Gomringer foi laureado com o Prêmio Cultural da cidade de Rehau, onde também fundou o Institut für Konstruktive Kunst und Konkrete Poesie (IKKP) — Instituto de Arte Construtiva e Poesia Concreta — em 2000 e, em 2022, recebeu o Prêmio Pro meritis scientiae et litterarum pelo conjunto da obra, estado da Baviera.

sábado, 30 de maio de 2026

Charles Bukowski: café

 
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(traduzido por Rodrigo Breunig)

eu estava tomando café no
balcão
quando um homem
3 ou 4 banquinhos abaixo
me perguntou
“vem cá, não era você o
cara que estava
pendurado pelos
calcanhares
daquele quarto de hotel
no quarto andar
outra
noite?”

“sim”, eu respondi, “eu
mesmo.”

“o que te levou a fazer
aquilo?”, ele perguntou.

“bem, é bastante
complicado.”

então ele virou a
cara.

a garçonete
que tinha ficado
ali parada
me perguntou
“ele estava brincando,
não
estava?”

“não”, eu
disse.

paguei, levantei, fui
até a porta,
abri.

ouvi o homem
dizendo ”esse cara é
maluco”.

na rua eu fui
andando para o norte
me sentindo
curiosamente
homenageado.

Charles Bukowski

coffee

I was having a coffee at the
counter
when a man
3 or 4 stools down
asked me,
“listen, weren’t you the
guy who was
hanging from his
heels
from that 4th floor
hotel room
the other
night?”

“yes,” I answered, “that
was me.”
“what made you do
that?” he asked.

“well, it’s pretty
involved.”

he looked away
then.

the waitress
who had been
standing there
asked me,
“he was joking,
wasn’t
he?”

"no," I
sald.

I paid, got up, walked
to the door, opened
it.

I heard the man
say, “that guy’s
nuts.”

out on the street I
walked north
feeling
curiously
honored.
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Você fica tão sozinho às vezes que até faz sentido: Charles Bukowski, Tradução de Rodrigo Breunig, 1ª edição em 2018, Coleção L&PM Pocket, volume 1345, reimpressão em 2025, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Henry Charles Bukowski Jr. (1920 — 1994), ou Heinrich Karl Bukowski, alemão de Andernach, que desde os três anos de idade viveu nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi poeta, romancista e contista; em 1939, iniciou o curso de jornalismo e literatura pela Los Angeles City College; pôs-se a escrever, foi expulso de casa, passou a morar em pensões e, sem emprego, desistiu da faculdade; convivendo com o alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão; depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos; adquiriu alguma notoriedade com publicações de contos nos jornais alternativos Open City e Nola Express; aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; suas obras: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (Notas de um velho safado, 1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979), You Get So Alone at Times that It Just Makes Sense (Você fica tão sozinho às vezes que até faz sentido, poemas, 1986) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas na Rua, romance que o tornaria famoso, passou a fazer uso de seu alterego Henry Chinaski que o acompanhou na quase totalidade de seus romances.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Bertolt Brecht: Aos pósteros

 
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[traduzido por André Vallias]

1
Verdade, vivo em tempos sombrios!

A palavra inofensiva é tola. Uma testa lisa
Sinal de insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A notícia terrível.

Que tempos são esses, em que
Uma conversa sobre árvores é quase um crime
Pois implica em calar-se sobre tanta atrocidade!
Quem atravessa calmamente a rua
Não está mais disponível para seus amigos
Necessitados?

É verdade: ainda ganho o meu sustento
Mas creiam-me: isso é mero acaso. Nada
Do que faço me permite comer até me saciar.
Fui poupado por acaso. (Quando acabar a minha sorte, estou perdido.)

   Dizem para mim: coma e beba! Alegre-se de ter!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro aquilo que como do faminto, e
Meu copo d’água falta a quem tem sede?
E, contudo, bebo e como.

Quem me dera ser sábio também.
Nos velhos livros se lê o que é sábio:
Afastar-se da peleja do mundo e passar
O breve tempo sem medo.
Também evitar a violência
Pagar a maldade com o bem
Não satisfazer seus desejos, mas esquecê-los
É tido poor sábio.
Nada disso eu consigo:
Verdade, vivo em tempos sombrios!

2
Vim para as cidades no tempo da desordem
Quando a fome imperava.
Cheguei entre os homens no tempo da revolta
E com eles me insurgi.
Assim transcorreu o tempo
Que na Terra me foi dado.

Minha comida comi entre batalhas.
Fui dormir entre assassinos.
Do amor cuidei desatento
E a natureza olhei sem paciência.
Assim transcorreu o tempo
Que na terra me foi dado.

As estradas levavam ao pântano no meu tempo.
A linguagem me entregou ao carniceiro.
Eu pouco podia. Mas sem mim os poderosos
Sentavam-se mais seguros, esperava.
Assim transcorreu o tempo
Que na Terra me foi dado.

As forças eram poucas. O alvo
Estava a uma grande distância
Visível o bastante, ainda que para mim
Quase inatingível.
Assim transcorreu o tempo
Que na Terra me foi dado.

3
Vocês que emergirão da enchente
Em que nós soçobramos
Lembrem-se
Quando falarem das nossas fraquezas
Também do tempo sombrio
Do qual fugiram.
   Mas fomos, trocando de países mais do que de sapatos
Através das guerras de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.

E contudo sabemos:
O ódio contra a baixeza
Também desfigura o semblante.
A ira contra a injustiça
Também enrouquece a voz. Oh, nós
Que queríamos preparar o solo para a gentileza
Não conseguimos nós mesmos ser gentis.

Mas vocês, quando então chegar a hora
Do ser humano ser do ser humano amparo
Lembrem-se de nós
Com benevolência.

Bertolt Brecht

An die Nachgeborenen

1
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!

Das arglose Wort ist töricht. Eine glatte Stirn
Deutet auf Unempfindlichkeit hin. Der Lachende
Hat die furchtbare Nachricht
Nur noch nicht empfangen.

Was sind das für Zeiten, wo
Ein Gespräch über Bäume fast ein Verbrechen ist.
Weil es ein Schweigen über so viele Untaten einschließt!
Der dort ruhig über die Straße geht
Ist wohl nicht mehr erreichbar für seine Freunde
Die in Not sind?

Es ist wahr: ich verdiene noch meinen Unterhalt
Aber glaubt mir: das ist nur ein Zufall. Nichts
Von dem, was ich tue, berechtigt mich dazu, mich sattzuessen.
Zufällig bin ich verschont. (Wenn mein Glück aussetzt, bin ich
verloren.)

   Man sagt mir: iß und trink du! Sei froh, dass du hast!
Aber wie kann ich essen und trinken, wenn
Ich dem Hungernden entreiße, was ich esse, und
Mein Glas Wasser einem Verdurstenden fehlt?
Und doch esse und trinke ich.

Ich wäre gerne auch weise.
In den alten Büchern steht, was weise ist:
Sich aus dem Streit der Welt halten und die kurze Zeit
Ohne Furcht verbringen.
Auch ohne Gewalt auskommen
Böses mit Gutem vergelten
Seine Wünsche nicht erfüllen, sondern vergessen
Gilt für weise.
Alles das kann ich nicht:
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten! [1937-1938]

2
In die Städte kam ich zur Zeit der Unordnung
Als da Hunger herrschte.
Unter die Menschen kam ich zu der Zeit des Aufruhrs
Und ich empörte mich mit ihnen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Mein Essen aß ich zwischen den Schlachten.
Schlafen legte ich mich unter die Mörder.
Der Liebe pflegte ich achtlos
Und die Natur sah ich ohne Geduld.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Die Straßen führten in den Sumpf zu meiner Zeit.
Die Sprache verriet mich dem Schlächter.
Ich vermochte nur wenig. Aber die Herrschenden
Saßen ohne mich sicherer, das hoffte ich.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Die Kräfte waren gering. Das Ziel
Lag in großer Ferne
Es war deutlich sichtbar, wenn auch für mich
Kaum zu erreichen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war. [1934]

3
Ihr, die ihr auftauchen werdet aus der Flut
In der wir untergegangen sind
Gedenkt
Wenn ihr von unseren Schwächen sprecht
Auch der finsteren Zeit
Der ihr entronnen seid.
   Gingen wir doch, öfter als die Schuhe die Länder wechselnd
Durch die Kriege der Klassen, verzweifelt
Wenn da nur Unrecht war und keine Empörung.

Dabei wissen wir doch:
Auch der Hass gegen die Niedrigkeit
verzerrt die Züge.
Auch der Zorn über das Unrecht
Macht die Stimme heiser. Ach, wir
Die wir den Boden bereiten wollten für Freundlichkeit
Konnten selber nicht freundlich sein.

Ihr aber, wenn es so weit sein wird
Dass der Mensch dem Menschen ein Helfer ist
Gedenkt unserer
Mit Nachsicht.

[1937-1938]
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Bertolt Brecht — Poesia, bilíngue, Introdução e Tradução de André Vallias, 1ª edição, 2019, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Eugen Berthold Friedrich Brecht (1898 — 1956), alemão de Augsburg — Baviera, estudou na Escola Real de Augsburg, formou-se em 1917 e iniciou curso de Medicina em Munique, abandonando-o para trabalhar em direção teatral e dramaturgia, foi poeta, dramaturgo, encenador, enfermeiro em Hospital Militar; ainda estudante, deu início à produção de textos literários; ao ser convocado pelo exército, na Primeira Guerra, serviu como enfermeiro em hospital militar; desde 1921 dirigiu e se envolveu em dramaturgia em Munique e, a partir de 1924, em Berlim; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixou a Alemanha, exilando-se primeiro na Dinamarca, depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção: em arte dramática, Baal (texto de 1918/produção em 1923), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1919/1922), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938), em poesia: Psalmen (Salmos, texto de 1926, publicado em 1960), Bertolt Brechts Hauspostille (Breviário Doméstico de Bertolt Brfecht, 1916-25/1926), Die Augsburger Sonette (Os Sonetos de Augsburgo, 1925-27/1982), Sonette (Sonetos, 1932-34/1951), Englische Sonette (Sonetos ingleses, 1934), Lieder Gedichte Chöre (Canções, poemas, coros, 1918-33/1934), Chinesische Gedichte (Poemas chineses, 1938-1949), Svendborger Gedichte (Poemas de Svendborger, 1934-38/1939), Gedichte im Exil (Poemas no Exílio, 1936-44/1988), Deutsche Satiren — zweiter Teil (Sátiras alemãs — parte dois, 1945/1988), Gedichte über die Liebe (Poemas sobre o amor, 1917-56/1982), Hundert Gedichte: 1918 bis 1950 (Cem Poemas: 1918 a 1950, 1958) e tantos outros textos em verso e prosa, escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Torquato Neto: Pessoal Intransferível

 
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          Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.
          Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, “herdeiro” da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.
          E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.

(Os Últimos Dias de Paupéria, 2ª edição revista e ampliada,
1982, Max Limonad, São Paulo — SP)

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Antologia do Poema em Prosa no Brasil [várias autorias], Seleção e Organização de Fernando Paixão, 2024, Editora Unicamp e Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Torquato Pereira de Araújo Neto (1944 — 1972), piauiense de Teresina, mudando-se para Salvador (BA) aos 16 anos, fez seus estudos secundários no Colégio [marista] Nossa Senhora da Vitória, foi jornalista, poeta, letrista de música popular e participante do movimento de contracultura (tropicalismo, cinema marginal, poesia concreta ...) no Brasil; em 1962, mudando-se para o Rio de Janeiro, estudou jornalismo mas não se formou, trabalhou na imprensa carioca, escreveu sobre cultura nos jornais Correio da Manhã, Jornal dos Sports e Última Hora, neste último criou a coluna Geléia Geral; em 1973 foi publicado Os últimos dias de paupéria (1ª edição, Livraria Eldorado Tijuca Ltda., Rio de Janeiro — RJ), sua obra póstuma; em 1968, o poeta e letrista Torquato Neto teve participação no LP (long-play, disco de vinil) Tropicalia ou Panis et Circencis (em composições de Gilberto Gil e Caetano Veloso), além de outras parcerias musicais em LPs de Luiz Melodia, Jards Macalé, João Bosco, Sérgio Brito, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Geraldo Azevedo, Paulo Diniz, ...; como ator, participou dos filmes Nosferatu (1970), de Ivan Cardoso, Adão e Eva do Paraíso ao Consumo (super 8, 1972), de Edemar Oliveira e Carlos Galvão, e também foi diretor, além de ator, do filme Terror da Vermelha (1972); suicidou-se em 10 de novembro de 1972, trancando-se no banheiro e abrindo o gás; algum tempo depois, em homenagem póstuma ao poeta piauiense, Caetano Veloso escreveu a canção Cajuína e a incluiu no disco Cinema Transcendental (1979).

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Vasko Popa: Retorno a Belgrado

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Aqui até esta cruz de água
Três patas de lobo me conduziram

Lavei o rosto no rio divino
Enxuguei-o nas vestes dos girassóis
Enroladas às torres

Plantei o cajado do pai
Na argila das margens
Para que floresça entre salgueiros

Parti rumo à grande porta
Aberta sobre mim no firmamento

Não sabia se a cidade branca descia
Das nuvens para dentro de mim
Ou se crescia do meu ventre para o céu

Retornei da jornada
Para dividir aqui na praça
As pedras maduras da mochila

(A Terra Ereta — 1972)

Vasko Popa

ПОВРАТАК У БЕОГРАД

Довде до овог воденог крста
Три су ме вучје стопе довеле

Умио сам лице у рајској реци
Обрисао га о скуте сунцородице
Надвијене над торњевима

Засадио сам очев штап
У глину на обали
Да међу врбама пролиста

Кренуо сам ка великој капији
Отвореној нада мном у зениту

Нисам знао спушта ли се бели град
Из облака у мене
Или ми из утробе у небо расте

Вратио сам се с пута
Да сазрело камење из завежљаја
Овде на тргу разделим

(Из збирке Успавана земља, [Uspravna Zemlja, 1972])
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Vasko Popa: Osso a Osso, Tradução, Organização e Notas de Aleksandar Jovanović [+ 2 poemas com traduções de Nelson Ascher e Haroldo de Campos], Imprólogo de Octavio Paz, Texto da contra-capa, por Haroldo de Campos, 1989, Editora Perspectiva — Coleção Signos, São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 — 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste — Romênia e na de Viena — Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca ([збирке Кора], Kora, 1953), O Campo do Desassossego (Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta ([Усправна земља], Uspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Maranhão Sobrinho: Poetas Malditos

 
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Quando, pelo clamor dos meus pecados, tive
de, à Treva Inferior, descer, à voz do Eterno,
ralando-me do Mal no aspérrimo declive,
como um deus rebelado e tonto de falerno,
sobre os antros mais nus, como Alighieri, estive
suspenso, a contemplar o delírio eviterno
das pompas sensuais de Gomorra e Nínive,
situadas ao pé do Stramboli do Inferno...

Gritos e imprecações, que as chamas retalhavam,
como gládios de bronze, em bárbaras campanhas,
de entre as lavas de sangue e sulfo se elevavam,
enquanto, aos olhos meus, nos infernais retiros,
o fogo, devorando o ventre das montanhas,
dava uns tons de gangrena às asas dos vampiros...

Com as unhas lacerando a púrpura sangrenta,
que, dos ombros de auroque, em pregas, lhe caía,
vi Nero, inda exibindo a mesma fronte odienta
que, no incêndio de Roma, às chamas exibia...

Raivava como um cão, mostrando a saburrenta
língua e, a espaços, também, às escâncaras, ria
epiléptico, ao ver as almas em tormenta
atravessando o horror da satânica orgia
de fogo, no solar do Príncipe Demônio,
para, empós, como os cães corridos, lazarentos,
encolher-se, entrevendo o vulto do Petrônio,
que, arrepanhando a toga e erguendo a ebúrnea fronte,
ia e vinha, a cantar, nos antros* pestilentos
do Inferno, uma canção de amor de Anacreonte...

Entre uma legião de cetro e tonsuras,
Voltaire, viu-me e sorriu, com um sorriso endiabrado
de caveira, a expelir das órbitas escuras
ironias, de um tom de bronze avermelhado...

Blasfemava, estalando as hirtas ossaturas
do esqueleto e mostrando o braço descarnado,
num gesto de rebelde às lívidas alturas
e a enterrar-se ainda mais no Inferno, brado a brado...

Erguia, empós, o olhar da treva aos coruchéus
e escarrava, dizendo, em nojo, que o fazia
no orgulho de Lusbel, sobre a fronte de Deus!
E, quando assim falavam os seus lábios, à míngua
de fé, de gota em gota, assombrado, eu via
como um visgo de fogo a escorrer-lhe da língua...

Também lá te encontrei, Tristan Corbière, nas grutas
do Demônio, cantando umas canções remotas
como o oceano, que morde as praias de oiro, enxutas,
no virente esplendor das vivas bergamotas...

Tremia-te entre as mãos, em púrpuras volutas
de sons, a Harpa do Mal, fazendo sob as cotas
dos hoplitas do Inferno, o amor ao sangue e às lutas
triunfar transluminoso, em túmidos Eurotas...
Os seus olhos cruéis, em flamas de palhetas
de oiro jalde, varando as vastidões aflitas
silenciavam do fogo as púrpuras trombetas
de bronze, que, a planger, nas místicas oblatas
sangrentas do Demônio, em helicinas malditas,
acordavam do Inferno as furnas escarlatas...

Desbordes e Mallarmé oscularam-me a fronte
e passaram, por uma azul chama impelidos;
chamei-os e o rumor das lavas do Aqueronte
triste abafou-me a voz, cerceando-me os sentidos...
Quando acordei-me vi perto da negra fonte,
entre um vivo clamor de pragas e gemidos,
diante do inquieto olhar de um cérebro bifronte
com os olhos como dois santelmos acendidos...

Vi, momentos depois, em palidez exangue,
Rimbaud e Villiers de L’Isle-Adam, chorando,
e o seu pranto infernal era de lodo e sangue...
E, quando recuei de agro pavor, Lelian**
surgiu-me e, empós, se foi pelas trevas clamando:
Satã! Satã! Satã! Satã! Satã! Satã!

(Papéis Velhos ...roídos pela Traça do Simbolo,
págs. 169-176 — 1908)


Notas do Organizador Andrade Muricy:
  * Está: “outros”;
** Está “Lilian”. A alusão é a Verlaine.
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 — 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML — Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís — MA a Belém — PA e Manaus — AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.