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domingo, 24 de maio de 2026

Musset: Claustros silenciosos, abóbodas monásticas, . . . [excerto de Rolla, IV]

 

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[traduzido por Gomes Júnior]

Claustros silenciosos, abóbodas monásticas,
Só vós, túmulos frios, só vós sabeis amar!
São vossas naves frias, vossas lousas fantásticas,
Que nunca lábio em fogo beijou sem desmaiar!

Oh! vinde, vinde abrir vossas entranhas frias
Á estes entes lindos, que invejam vossa sorte,
Sobre um macio leito, cercado de magias,
Que é bom unicamente para o sono ou para a morte!

Tocar, por piedade, nos vossos sacrifícios,
Seos corações mimosos, que morrem de langor,
E nas sangrentas dores de bárbaros cilícios
Mostrai-lhes o mistério do vosso puro amor.

Banhai-lhes, pois, as frontes nas águas batismais,
Dizei-lhes quantos anos, com que constância, a sós,
Devem ajoelhar-se nas pedras sepulcrais
Antes de suspeitarem que amàm como vós!

Alfred de Musset

Cloîtres silencieux, voûtes des monastères, . . .
[Rolla IV, fragment]

[ . . . ]

Cloîtres silencieux, voûtes des monastères,
C’est vous, sombres caveaux, vous qui savez aimer!
Ce sont vos froides nefs, vos pavés et vos pierres,
Que jamais lèvre en feu n’a baisés sans pâmer.
Oh! venez donc rouvrir vos profondes entrailles
À ces deux enfants-là qui cherchent le plaisir
Sur un lit qui n’est bon qu’à dormir ou mourir;
Frappez-leur donc le cœur sur vos saintes murailles,
Que la haire sanglante y fasse entrer ses clous.
Trempez-leur donc le front dans les eaux baptismales,
Dites-leur donc un peu ce qu’avec leurs genoux
Il leur faudrait user de pierres sépulcrales
Avant de soupçonner qu’on aime comme vous!

[ . . . ]

(Rolla: I, II, III, IV and V — 1833)
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França [111 autorias e vários tradutores], Organização, Seleção e Prefácio por R. Magalhães Jr., e Texto à Guisa de Introdução por Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro nº 12126, sem data, [1985?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Alfred Louis Charles de Musset (1810 1857), francês e parisiense, antes de completar 9 anos de idade foi matriculado no Lycée Henri IV, concluiu o ensino médio, depois aventurou-se nos estudos de medicina, direito, pintura, música, logo os abandonou, e passou a se dedicar com determinação e interesse à literatura, foi poeta, novelista, romancista, crítico e dramaturgo, e tido como "l'enfant terrible" do período romantista em Paris; “desde os 14 anos já fazia seus versos": A ma mére (1824), À Mademoiselle Zoé le Douairin (1826), Un rêve et L’anglais mangeur d’opium (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (coletânea de poemas, Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), Namouna (poema narrativo, 1831), La coupe et les lèvres (teatro, 1832), Rolla: I, II, III, IV and V (longo poema narrativo, 1833), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro comédia, 1834), Lorenzaccio (drama romântico, 1834), Fantasio (teatro comédia, 1834), Le Chandelier (comédia em três atos, 1835), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836), Les Nuits: La Nuit de Mai [1835], La Nuit de Décembre [1835], La Nuit d'Août [1836], La Nuit d'Octobre [1837], La Nuit d’Avril [1838] (ciclo As Noites, 1835-1838), Lettres du Dupuis et Cotonet (crítica, Cartas de Dupuis e Cotonet, 1837), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé (É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia em Um Ato, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros textos em verso e prosa e para teatro; teve poemas musicados por Hector Berlioz [poème Le Lever, 1839], Charles Gounod [avec piano, Venise, 1849], Édouard Lalo [trois mélodies: À une fleur, Chanson de Barberine et La Zuecca, 1870], Claude Debussy [Madrid, 1879], [Rondeau, 1881] e [Chanson espagnole, 1883] etc.; pertenceu à Académie Française; o poeta, desde 1824, foi um dos frequentadores do “Cénacle”, salão literário de Charles Nodier bibliotecário da Bibliotéque de l’Arsenal, e tendo como companhia Victor Hugo e outros; passou a viver como um “dândi devasso”, teve várias amantes, uma das quais a escritora George Sand [pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant]; em 1845, Musset foi condecorado com a Legião de Honra em reconhecimento à sua influência na literatura francesa; com a “saúde frágil, mas sobretudo atormentado pelo alcoolismo, pela ociosidade e pela devassidão, morreu de tuberculose em 2 de maio de 1857”, aos 46 anos.

domingo, 15 de março de 2026

Musset: Pequena Canção

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[traduzido por Álvaro Reis]

Se acreditais... que eu diga, um dia,
               Quem ousou amar
               (Nada o revela)
               Nem por um trono saberia
               Pronunciar
               O nome dela.

Cantemos alto, ao sol que doura
               Os dias belos.
               Se desejais...
Quanto eu a adoro e quanto é loura
               Com os seus cabelos
               Cor dos trigais.

Eu cumpro tudo o que a fantasia
               Desta querida
               Quer me ordenar;
Se for preciso, com alegria,
               A minha vida
               Lhe posso dar.

Do mal que o amor desconhecido,
               Sempre ocultado,
               Nos faz sofrer,
O coração levo ferido,
               Despedaçado,
               Até morrer.

Amo demais; por isso, nada,
               Nada revela,
               Quem ouso amar...
Morrer prefiro por minha amada,
               Que o nome dela
               Pronunciar.

[“Fortunio canta — Segundo Ato, Cena 3,
em O Castiçal, ou O Lustre, comédia em 3 atos,
publicada em 1835 e representada em 1848]

Alfred Musset

Chanson de Fortunio

Si vous croyez que je vais dire
           Qui j'ose aimer,
Je ne saurais, pour un empire,
           Vous la nommer.

Nous allons chanter à la ronde,
           Si vous voulez,
Que je l'adore et qu'elle est blonde
           Comme les blés.

Je fais ce que sa fantaisie
           Veut m'ordonner,
Et je puis, s'il lui faut ma vie,
           La lui donner.

Du mal qu'une amour ignorée
           Nous fait souffrir,
J'en porte l'âme déchirée
           Jusqu'à mourir.

Mais j'aime trop pour que je die
           Qui j'ose aimer,
Et je veux mourir pour ma mie
           Sans la nommer.

[“Fortunio chante — Acte deuxième, Scène III”,
en Le Chandelier — Comédie en trois actes,
públiée en 1835, représentée en 1848.]
(Poésies nouvelles)
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França [111 autorias e vários tradutores], Organização, Seleção e Prefácio por R. Magalhães Jr., e Texto à Guisa de Introdução por Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro nº 12126, sem data, [1985?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Alfred Louis Charles de Musset (1810 1857), francês e parisiense, antes de completar 9 anos de idade foi matriculado no Lycée Henri IV, concluiu o ensino médio, depois aventurou-se nos estudos de medicina, direito, pintura, música, logo os abandonou, e passou a se dedicar com determinação e interesse à literatura, foi poeta, novelista, romancista, crítico e dramaturgo, e tido como "l'enfant terrible" do período romantista em Paris; “desde os 14 anos já fazia seus versos": A ma mére (1824), À Mademoiselle Zoé le Douairin (1826), Un rêve et L’anglais mangeur d’opium (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (coletânea de poemas, Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), Namouna (poema narrativo, 1831), La coupe et les lèvres (teatro, 1832), Rolla (longo poema narrativo, 1833), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro comédia, 1834), Lorenzaccio (drama romântico, 1834), Fantasio (teatro comédia, 1834), Le Chandelier (comédia em três atos, 1835), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836), Les Nuits: La Nuit de Mai [1835], La Nuit de Décembre [1835], La Nuit d'Août [1836], La Nuit d'Octobre [1837], La Nuit d’Avril [1838] (ciclo As Noites, 1835-1838), Lettres du Dupuis et Cotonet (crítica, Cartas de Dupuis e Cotonet, 1837), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé (É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia em Um Ato, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros textos em verso e prosa e para teatro; teve poemas musicados por Hector Berlioz [poème Le Lever, 1839], Charles Gounod [avec piano, Venise, 1849], Édouard Lalo [trois mélodies: À une fleur, Chanson de Barberine et La Zuecca, 1870], Claude Debussy [Madrid, 1879], [Rondeau, 1881] e [Chanson espagnole, 1883] etc.; pertenceu à Académie Française; o poeta, desde 1824, foi um dos frequentadores do “Cénacle”, salão literário de Charles Nodier bibliotecário da Bibliotéque de l’Arsenal, e tendo como companhia Victor Hugo e outros; passou a viver como um “dândi devasso”, teve várias amantes, uma das quais a escritora George Sand [pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant]; em 1845, Musset foi condecorado com a Legião de Honra em reconhecimento à sua influência na literatura francesa; com a “saúde frágil, mas sobretudo atormentado pelo alcoolismo, pela ociosidade e pela devassidão, morreu de tuberculose em 2 de maio de 1857”, aos 46 anos.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Jean Moréas: Noturno

 
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[traduzido por Álvaro Reis]

Toc, toc, toc, toc... Crava os pregos bem cravados
Bom armador, carpinteiro dos finados...

Bom armador, oh bondoso carpinteiro,
Seja de cedro, carvalho ou de pinheiro,
Faze um caixão muito grande, bem pesado,
Para deitar meu amor, pobre finado...

Toc, toc, toc, toc... Crava os pregos bem cravados,
Bom armador, carpinteiro dos finados...

Forra o caixão de cetins alvinitentes
Como os seus dentes, como os seus nevados dentes,
Orna-o também as fitas mais azuis
Como os seus olhos tão lindos e tafuis.

Toc, toc, toc, toc... Crava os pregos bem cravados,
Bom armador, carpinteiro dos finados...

Lá embaixo, além, junto a um fresco ribeiro,
Sob os olmeiros, sob um pequeno olmeiro,
Na hora em que o cuco, cedinho alça o trinado,
Outro a beijou no pescoço, apaixonado...

Toc, toc, toc, toc... Crava os pregos bem cravados,
Bom armador, carpinteiro dos finados...

Bom armador, oh bondoso carpinteiro,
Seja de cedro, carvalho ou de pinheiro,
Talha um caixão, muito grande, e bem pesado,
Para enterrar meu amor, hoje, finado...

Jean Moréas

Nocturne

Wisst ihr warum der Sarg wohl
So gross und schwer mag sein?
Ich legt’ auch meine Liebe
Und meinen Schmerz hinein.
Heinrich Heine.

I

Toc, toc toc toc, il cloue à coups pressés;
Toc, toc, le menuisier des trépassés.

«Bon menuisier, bon menuisier,
Dans le sapin, dans le noyer,
Taille un cercueil très grand, très lourd,
Pour que j’y couche mon amour.»

II

Toc toc, toc toc, il cloue à coups pressés,
Toc toc, le menuisier des trépassés.

«Qu’il soit tendu de satin blanc
Comme ses dents, comme ses dents;
Et mets aussi des rubans bleus
Comme ses yeux, comme ses yeux.»

III

Toc toc, toc toc, il cloue à coups pressés.
Toc toc, le menuisier des trépassés.

«Là-bas, là-bas près du ruisseau,
Sous les ormeaux, sous les ormeaux,
À l’heure où chante le coucou,
Un autre l’a baisée au cou.»

IV

Toc toc, toc toc, il cloue à coups pressés,
Toc, toc, le menuisier des trépassés.

«Bon menuisier, bon menuisier,
Dans le sapin, dans le noyer,
Taille un cercueil très grand, très lourd,
Pour que j’y couche mon amour.»
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França [111 autorias e vários tradutores], Organização, Seleção e Prefácio por R. Magalhães Jr., e Texto à Guisa de Introdução por Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro nº 12126, sem data, [1985?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Ioannis A. Papadiamantopoulos, conhecido no meio literário pelo pseudônimo Jean Moréas (1856 1910), grego e ateniense, viveu em Paris — França, estudou Direito, foi poeta, romancista, ensaísta e crítico literário; em sua juventude, Moréas passou em Marselha, depois viajou à Suiça, Alemanha e Itália, por fim se fixou em Paris; teve seus poemas publicados nas revistas Lutèce e Le Chat Noir, e, em 1886, no Prefácio de sua obra Les Cantilènes, Moréas se anunciou simbolista; ainda em 1886, com a apresentação do Manifesto do Simbolismo (Le Symbolisme), de sua autoria e divulgado no suplemento literário do Le Figaro, o poeta passou a ser reconhecido como o iniciador daquele movimento que surgia na França e que até então não tinha nome; foi cofundador da revista Le Symboliste, com Paul Adam e Gustave Kahn; suas obras: Les Syrtes (Os Sirtes, primeira coletânea de versos, 1884), Les Cantilènes (As Cantilenas, 1886), Le Pélerin passioné (O Peregrino apaixonado, 1891), Autant en emporte le vent (1893), Stances (Estâncias, série poética, 1899/1901), Iphigénie — tragédie en cinq actes (peça teatral, 1904) e outros títulos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Joséphin Soulary: O Soneto

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[traduzido por Álvaro Reis]

Não caberei aqui diz-me, doida, sorrindo
Vou romper-te, afinal, colete de Procusto!
Infla o colo e depois torce o quadril robusto,
E estorce em demasia um braço airoso e lindo...

Nessas lutas, paciente, esqueço um tempo infindo.
Pelo estreito vestuário em que seu talhe ajusto,
Ora apertando um laço, ora outro desunindo,
Faço passar, por fim, cabeça, espádua e busto.

Sob as dobras da veste, os contornos, agora,
Desenhemos com arte... E a forma se avigora,
Vede: a roupa flutua e a beleza se acusa.

Estará bem ou mal nesses traços serenos?
Nada ao corpo de mais, nem na alma de menos
Gosto assim da mulher e assim desejo a Musa.

Joséphin Soulary

Le Sonnet

Je n’entrerai pas là, dit la folle en riant,
Je vais faire éclater ce corset de Procuste!
Puis elle enfle son sien, tord sa hanche robuste,
Et prête à contresens un bras luxuriant.

J’aime ces doux combats, et je suis patient.
Dans l’étroit vêtement qu’à sa taille j’ajuste,
Là serrant un atour, ici le déliant,
J’ai fait passer enfin tête, épaules et buste.

Avec art maintenant dessinons sous ces plis
La forme bondissante et les contours polis.
Voyez! la robe flotte, et la beauté s’accuse

Est-elle bien ou mal en ces simples dehors?
Rien de moins dans le coeur, rien de plus sur le corps,
Ainsi me plaît la femme, ainsi je veux la Muse.
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França [várias autorias e tradutores], Organização, Seleção e Prefácio por R. Magalhães Jr., e Texto à Guisa de Introdução por Michel Simon, sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Joséphin Soulary ou Joseph Marie Soulary (1815 1891), francês de Lyon, foi um escritor, dramaturgo comedista e poeta francês; rejeitado pelos pais, teve uma infância difícil, aos dezesseis anos alistou-se num regimento, depois, acolhido por Hippolyte-Paul Jaÿr, então prefeito de Lyon e que apreciava suas poesias, tornou-se funcionário da prefeitura e seguiu dupla carreira: a administrativa gerente de escritório e, depois, bibliotecário no Palais de Arts de Lyon e a literária; de seus traços bibliográficos, é tido que seus sonetos humorísticos atraiam a atenção e encantavam os leitores; tinha o pleno domínio das técnicas poéticas, particularmente das do soneto; suas obras: À travers champs (1837), Les Cinq cordes du luth (1838), Les Éphéméres (deux séries, 1846 et 1857), Sonnets humouristiques (1862), Les Figulines (1862), Pendant l’invasion (1871), Les Rimes ironiques (1877), Jeus divins (1882), e duas comédias: Un grand homme qu'on attend (1879) e La Lune rousse (1879); suas obras poéticas foram reunidas em 3 volumes (18721883).

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Jean Richepin: Analyse

 
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[Análise]

[III]

[traduzido por Lúcio de Mendonça1]

Ó lágrimas, em que se vão nossos rancores,
Qual proceloso céu, fuliginoso, troante,
Elétrico, e que em chuva esvaece num instante;
Ó lágrimas, ó mais suave dos licores,

Quando vos bebe o amante a berijos vencedores,
Qual bebe o sol, passado o chuveiro, anhelante,
Pelas nuvens que enxuga, o arco-íris brilhante;
Ó lágrimas, que assim cais de nossas dores,

Como o orvalho, da flor cai do quebrado cálice;
Vauquelin2 e Foureroy3 fizeram-vos a análise,
Ó lágrimas, e os dois, no crisol, afinal,

Encontraram, por junto, o que aqui vai escrito:
Água, sal, soda, muco, e fósforo de cal.
Ó lágrimas, ideal rócio d’alma!... Bonito!

(Minas, 1885)
[Murmúrios e Clamores —  ‘agrupamento Musa Peregrina:
traduções’ — poesias completas, de Lúcio de Mendonça, 1902,
pág. 304, H. Garnier, Livreiro-Editor, Rio de Janeiro — RJ]

Jean Richepin

Analyse

[Sonets Amers III]

O larmes, où s'en vont se noyer nos rancœurs,
Comme un ciel orageux, grondant, couleur de suie,
Chargé de foudre, et qui soudain se fond en pluie;
O larmes, ô la plus suave des liqueurs,

Quand un amant vous boit sous ses baisers vainqueurs
Ainsi que le soleil après l'averse enfuie
Boit l'arc-en-ciel dans les nuages qu'il essuie;
O larmes, diamants qui tombez de nos cœurs

Comme l'eau du matin tombe des fleurs brisées;
Vauquelin et Fourcroy vous ont analysées,
O larmes; et dans leurs creusets, sur leurs réchauds,

Ils ont trouvé ceci, tel que je vais écrire:
Eau, sel, soude, mucus et phosphate de chaux.
O larmes, diamants du cœur!... Laissez-moi rire!

(Les Blasphemes [groupement Sonets Amers], 1884)

Nota de R. Magalhães Júnior, autor deste Poesia e Vida de Augusto dos Anjos:
1. A tradução de Lúcio de Mendonça foi incluída na “Musa Peregrina [traduções]”, na parte final do volume Murmúrios e clamores, publicado em 1902. Várias outras saíram em jornais e revistas.
Notas do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página destaca:
2. Louis Nicolas Vauquelin, cientista francês, assistente e sucessor de Fourcroy na Universidade de Paris [cfe. R. Magalhães Júnior, autor deste Poesia e Vida ...]
3. Conde Antoine François de Fourcroy, cientista francês da Universidade de Paris, foi responsável pela análise da “composição química das lágrimas humanas” [assistido por Vauquelin], no início do século 19. [idem item 2, acima]
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Poesia e Vida de Augusto dos Anjos: R. Magalhães Júnior, 2ª edição corrigida e aumentada, 1978, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro RJ, e Instituto Nacional do Livro — MEC, Brasília DF; Auguste-Jules Richepin, ou Jean Richepin (1849 1926), franco-argelino nascido em Medeia Argélia, à época departamento francês no norte da África, diplomou-se em Literatura na École Normale Supérieure, Paris, foi poeta, romancista, dramaturgo, marinheiro, estivador, porteiro, professor ...; frequentador do Quartier Latin a Montmartre, bairros parisienses, sua vida boêmia e marginal acabou por inspirá-lo na criação das primeiras e provocativas poesias, as quais, já na estréia com sua obra La chanson de Gueux (poemas, 1876), tal como o ocorrido com Baudelaire (na publicação de Les Fleurs du Mal), lhe renderam uma condenação à prisão, além do pagamento de 600 francos de multa, pelo fato de alguns dos poemas terem sido considerados ofensivos e terem causado escândalo social; suas obras: coleções de poemas: Chanson des gueux (1876), Les Caresses (groupements: Floréal, Thermidor, Brumaire et Nivôse, 1877), Les Blasphemes (1884), La Mer (1886), Les Litanies de la mer (1894), Mes Paradis (1894), La Bombarde (1899), Poèmes durant la guerre: 1914-1918 (1919), Les Glas (1922) ..., romances: Les Morts bizarres (1876), Madame André (1878), La Glu (1881), Le Pave (1883), Miarka la fille à l'ours (1883), Les braves gens (1886), Césarine (1888) ..., e peças teatrais: Nana Sahib (drame en vers en 7 tableaux, 1883), Le Chemineau (drame en 5 actes, 1897), etc.; o poeta também compôs textos para músicos, colaborou em vários jornais, pertenceu à Académie Française (Academia Francesa); um “viajante incansável”, andejou por Londres, viajou pela Itália, Espanha, Alemanha, Escandinávia, Norte da África, ocasiões em que proferia conferências e redigia artigos para a imprensa parisiense.

domingo, 10 de agosto de 2025

Augusto dos Anjos: A Máscara

 
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Eu sei que há muito pranto na existência,
Dores que ferem corações de pedra,
E onde a vida borbulha e o sangue medra,
Aí existe a mágoa em sua essência.

No delírio, porém, da febre ardente
Da ventura fugaz e transitória
O peito rompe a capa tormentória
Para sorrindo palpitar contente.

Assim a turba inconsciente passa,
Muitos que esgotam do prazer a taça
Sentem no peito a dor indefinida.

E entre a mágoa que a másc’ra eterna apouca
A Humanidade ri-se e ri-se louca
No carnaval intérmino da vida.

(O Comércio, 4 de março de 1901;
Letras e Artes — suplemento de A
Manhã, 30 de novembro de 1941)

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Poesia e Vida de Augusto dos Anjos: R. Magalhães Júnior, 2ª edição corrigida e aumentada, 1978, (Coleção Vera Cruz: Volume 24), Editora Civilização Brasileira e Instituto Nacional do Livro — MEC; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; seu primeiro soneto, Saudade, escrito certamente em 1899, foi publicado no Almanaque do Estado da Paraíba para o ano de 1900; em 1908, recém-formado, transferiu-se para a capital do estado, passou a dar aulas particulares e foi nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, mudou-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assumiu o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, foi nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continuou a dar aulas particulares de Português, Francês, Inglês, Grego, Latim; seus poemas, e alguma prosa, foram publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio, Nonevar, A União, todos da Paraíba, e Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Blaise Cendrars: Quando amares, vai-te embora . . .


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[paráfrase de Cendrars, por Prudente de Moraes, Neto]

Quando amares, vai-te embora,
toma o trem, toma o avião,
o auto, o vapor, dá o fora,
pisa, rasga o coração.
Suspira, chora, aborrece-te,
assobia, dança, embriaga-te
e se a morte um dia afaga-te,
verás, teu amor esquece-te.
Um ano, um dia, uma hora...
Quando amares vai-te embora,
sossega esse coração.

Quando amares vai-te embora
por esse mundo de Deus.
Vai sem destino, que agora
não saibam os passos teus
onde conduzir-te. A esmo
sem hora, sem rumo, à toa
companheiros de ti mesmo
verás que a vida ainda é boa.
Vai, anda, parte, dá o fora
Vai, anda, parte, dá o fora
quando amares vai-te embora
domina o teu coração.

Quando amares vai-te embora
por este mundo sem fim!
Faz como eu farei agora,
não volto mais, ai de mim!

Blaise Cendrars

Tu es plus belle que le ciel et la mer

Quand tu aimes il faut partir
Quitte ta femme quitte ton enfant
Quitte ton ami quitte ton amie
Quitte ton amante quitte ton amant
Quand tu aimes il faut partir

Le monde est plein de nègres et de négresses
Des femmes des hommes des hommes des femmes
Regarde les beaux magasins
Ce fiacre cet homme cette femme ce fiacre
Et toutes les belles marchandises
Il y a l'air il y a le vent
Les montagnes l'eau le ciel la terre
Les enfants les animaux
Les plantes et le charbon de terre
Apprends à vendre à acheter à
Donne prends donne prends
Quand tu aimes il faut savoir
Chanter courir manger boire
Siffler
Et apprendre à travailler

Quand tu aimes il faut partir
Ne larmoie pas en souriant
Ne te niche pas entre deux seins
Respire marche pars va-t-en

Je prends mon bain et je regarde
Je vois la bouche que je connais
La main la jambé
Le l'œil
Je prends mon bain et je regarde

Le monde entier est toujours là
La vie pleine de choses surprenantes
Je sors de la pharmacie
Je descends juste de la bascule
Je pèse mes 80 kilos
Je t'aime

[Feuilles de route, 1924]
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr., sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Blaise Cendrars (1887 1961), pseudônimo literário de Frédéric Louis Sauser, franco-suíço nascido em La Chaux-de-Fonds, Suiça, iniciou faculdade de Medicina, em Berna, mas interrompeu seus estudos, foi romancista e poeta, considerado uma das principais figuras do movimento modernista francês; em 1912, em Paris, foi cofundador da editora e revista literária Les Hommes nouvelles, na qual passou a editar e publicar seus poemas e textos de outros autorias: conheceu Apollinaire, Delaunay, Chagall e Modigliani; em 1915, juntou-se à Legião Estrangeira, lutou na primeira grande guerra, foi gravemente ferido na mão direita, em rajada de metralhadora, e teve o braço amputado logo abaixo do cotovelo; o poeta aprendeu a escrever com a mão esquerda; viajou pelos Estados Unidos, pela América do Sul e, conhecedor de várias línguas, traduziu para o francês autores ingleses, alemães, portugueses e brasileiros; produziu relatos de viagem e foi colaborador em muitas revistas e jornais literários; em 1939, na segunda guerra, tornou-se correspondente do exército inglês; suas obras: Les Pâques à New York (poemas, 1912), Sèquences (poemas, 1913), Prose du Transsibérien et de la petite Jeanne de France (1913), La Guerre au Luxembourg (1916), I Killed (poemas, 1918), Dix-neuf poèmes élastiques (1919), Feuilles de route (poemas, 1924), L’Or. La merveilleuse histoire du général Johann August Suter (novela, 1925), Moravagine (romance surrealista, 1926), Petits Contes nègres pour les enfants des Blancs (1928), L’Homme foudroyé e Le Main coupée (ambas, autobiografias de experiências da guerra, 1945 e 1946), Bourlinguer e Le Lotissement du ciel (ambas, memórias, 1948 e 1949) etc.; quando esteve no Brasil, em 1924, o poeta conheceu os modernistas Oswald de Andrade, Mario de Andrade e Sérgio Milliet, foi por eles influenciado e também os influenciou; Blaise Cendrars, que se naturalizara francês e recebera a cidadania ainda em 1916, recebeu sua única láurea por suas obras, o Grand Prix Littéraire de la Ville de Paris, em 1961, um pouco antes de morrer.

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Banville: Pastoral

 
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[traduzido por Álvaro Reis]

Deita o negro cabelo o teu chapéu de palha
Vem! Antes do rumor, da hora em que se trabalha,
Vamos ver a manhã doirando os montes, vamos
Colher pelos vergéis as flores que adoramos...

Pelo beiral da fonte, em ôndulas trementes,
Os nenúfares de ouro inclinam-se, indolentes;
Dos prados, em verdor, pairam ainda os frescores,
Como um eco longínquo, as canções dos pastores...

E vindo para nós, com as asas odorantes,
As brisas matinais, tuas irmãs errantes,
Espargem sobre ti, enquanto ris, o olor
Do pêssego rosado e da macieira em flor...

Théodore de Banville

Viens. Sur tes cheveux noirs . . .

Viens. Sur tes cheveux noirs jette un chapeau de paille.
Avant l’heure du bruit, l’heure où chacun travaille,
Allons voir le matin se lever sur les monts
Et cueillir par les prés les fleurs que nous aimons.

Sur les bords de la source aux moires assouplies,
Les nénufars dorés penchent des fleurs pâlies,
Il reste dans les champs et dans les grands vergers
Comme un écho lointain des chansons des bergers,

Et, secouant pour nous leurs ailes odorantes,
Les brises du matin, comme des sœurs errantes,
Jettent déjà vers toi, tandis que tu souris,
L’odeur du pêcher rose et des pommiers fleuris.

Avril 1845.

Les Stalactites, 1846
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr., sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Étienne Jean Baptiste Claude Théodore Faullain de Banville (1823 1891), francês de Moulins, Bourbonnais, estudou Direito, foi jornalista, dramaturgo, poeta e crítico literário e teatral; o poeta transitou no período tardio do romantismo, foi um dos líderes do movimento parnasiano, colaborou com críticas literárias no seu tempo e influenciou os simbolistas; aos 19 anos publicou seu primeiro livro de poemas, Les Cariatides (1842); depois vieram Les Stalactites (1846), Odelettes (1856), Odes funambolesques (1857), Améthystes (1863), Les Exilés (1867), Idylles prussiennes (1871) todos de poesia , Gringoire (comédia histórica, teatro, 1866), Florise (comédia em 4 atos, 1870), Petit traité de versification française (1871), Trente-six ballades joyeuses (1873), Deidamia (peça teatral, 1876), Contes pour les Femmes (1881), Contes féeriques (1882), Contes héroiques (1884), Contes bourgeois (1885), e outros títulos em verso e prosa e também para dramaturgia.