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sábado, 6 de dezembro de 2025

Branko Miljković: Orfeu no subterrâneo

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović *]

M. P.

Não te voltas, não! Pois, atrás de ti imenso
mistério há. E alto gorjeia a passarada,
bem acima, enquanto maturesce o intenso
dolor no fruto, e cai a chuva envenenada.

Por astros tendo vagas em sonho. Penso,
único és a não vê-la. Segue a tua caminhada
ela fiel. Porém, quando cair seu denso
brilho sobre ti, nem que esteja ocultada,
acharás a entrada, com os dois cães nefandos.
Dorme, o tempo é mau. Eterno amaldiçoado,
Coração maldoso. E se os mortos em bandos
existem, vivo hão chamar-te, os vitandos.
É esse por detrás de quem o mundo foi criado,
como jura eterna, movimento inebriado.

Branko Miljković

Orfej u Podzemlju

M. P.

Ne osvrći se. Velika se tajna
iza tebe odigrava. Ptice gnjiju
visoko nad tvojom glavom dok beskrajna
patnja zri u plodu i otrovne kiše liju.

Zvezdama ranjen u snu lutaš. Sjajna
onda ide tvojim tragom, ald sviju
jedini je ne smeš videti. O sjaj
na tebe njen dok pada nek je i sakriju
ti ćeš naći ulaz dva mutna psa gde stoje.
Spavaj, zlu je vreme. Zauvek si proklet.
Zlo je u srcu. Mrtvi ako postoje
proglasiće te živim. Eto to je
taj iza čijih leđa nasta svet
ko večina zavera e tužan zaokret.

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], edição bilíngue, texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Branko Miljković (1933 1961), nascido em Nis, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), formado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado, foi poeta, ensaísta, resenhista e tradutor: ainda estudante, participou de um grupo literário neo-simbolista; fez contatos e estabeleceu relações de amizade com outros poetas (Vasko Popa entre os quais), recusou adesão e associação partidária, o que acabou resultando na não publicação de sua poesia; seus primeiros poemas denotavam a influência recebida dos simbolistas franceses Paul Valéry e Stéphane Mallarmé, e também do pensamento filosófico de Heráclito; por longos três anos seguidos ouviu nãos das redações de muitas revistas, em 1955 teve seus primeiros poemas publicados na Delo, “abrindo assim as portas de outras editoras e, a partir daí, ganhou as páginas de inúmeras revistas”; em 1956 foi publicada sua primeira coletânea de canções, Acordo-a em vão (Uzalud je budim), obra que obteve “sucesso de público e crítica”; depois vieram as coletâneas de poemas Sangue contra a morte (Smrću protiv smrti, com Blažom Šćepanovićem, 1959), Origem da esperança (Poreklo nade, 1960), O fogo e o nada (Vatra i ništa, 1960), Krv koja svetli (1961) ...; agraciado pela crítica literária e alçado ao topo da poesia sérvia, Branko Miljković foi laureado com o Prêmio Outubro, um dos mais prestigiados de sua época; sabe-se, por sua biografia, que o poeta, “frequentemente visto nas tabernas de Belgrado, onde levava uma vida boêmia e despreocupado, devido ao consumo constante de álcool mostrava seu lado agressivo quando bêbado, se envolvia constantemente em brigas que quase sempre perdia”, e cujo comportamento por várias vezes lhe trazia problemas com o regime [a polícia] de Tito; seus muitos amigos sempre o resgatavam de tais dificuldades; a tais amigos, o poeta chegou a jurar “que nunca mais escreveria”; Branko deixou Belgrado “no outono de 1960”, mudou-se para Zagreb, tornou-se editor do Literarne redakcije zagrebačkog radija (Editorial Literário Escritório da Rádio Zagreb), “provavelmente insatisfeito com sua vida”, continuou se entregando ao álcool e, “na noite entre 11 e 12 de fevereiro” [de 1961], numa floresta próxima à cidade, “segundo a versão oficial, o poeta sérvio suicidou-se”; as razões que levaram Branko a tomar tal atitude permanecem polêmicas, havendo quem, à época, suspeitasse de que o poeta fora morto pela polícia ou apoiadores do regime vigente.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Branko Miljković: A defesa da terra

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

No coração o amor é mais forte que a morte
Na cabeça o pensamento maior que a cabeça
E essa é a defesa da terra

Terríveis são os guerreiros subterrâneos, soldados da defesa,
O aparato de força a postos se os vivos fraquejam
E essa é a defesa da terra

A grande palavra nem do coração nem da cabeça
Mas da terra feita planta ou flor
Desabrocha, e essa é a defesa da terra

O grão torturado pensa a flor
O dia pensa o sol
E essa é a defesa da terra

O quanto há de terra por detrás de nós
Tanto de força temos dentro de nós
E essa é a defesa da terra

Branko Miljković

Odbrana Zemlje

U srcu ljubav jača od smrti
U glavi misao veća od glave
I to je odbrana zemlje

Strašni su ratnici pod zemljom, vojnici odbrane,
Zaliha snage spremna ako živi klonu
I to je odbrana zemlje

Velika reč ni iz srca ni iz glave
Već iz zemlje ko biljka il’cvet
Raste, i to je odbrana zemlje

Namučeno zrno misli cvet
Dan misli sunce
I to je odbrana zemlje

Koliko je zemlje iza nas
Toliko je snage u nama
I to je odbrana zemlje
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], edição bilíngue, texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Branko Miljković (1933 1961), nascido em Nis, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), formado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado, foi poeta, ensaísta, resenhista e tradutor: ainda estudante, participou de um grupo literário neo-simbolista; fez contatos e estabeleceu relações de amizade com outros poetas (Vasko Popa entre os quais), recusou adesão e associação partidária, o que acabou resultando na não publicação de sua poesia; seus primeiros poemas denotavam a influência recebida dos simbolistas franceses Paul Valéry e Stéphane Mallarmé, e também do pensamento filosófico de Heráclito; por longos três anos seguidos ouviu nãos das redações de muitas revistas, em 1955 teve seus primeiros poemas publicados na Delo, “abrindo assim as portas de outras editoras e, a partir daí, ganhou as páginas de inúmeras revistas”; em 1956 foi publicada sua primeira coletânea de canções, Acordo-a em vão (Uzalud je budim), obra que obteve “sucesso de público e crítica”; depois vieram as coletâneas de poemas Sangue contra a morte (Smrću protiv smrti, com Blažom Šćepanovićem, 1959), Origem da esperança (Poreklo nade, 1960), O fogo e o nada (Vatra i ništa, 1960), Krv koja svetli (1961) ...; agraciado pela crítica literária e alçado ao topo da poesia sérvia, Branko Miljković foi laureado com o Prêmio Outubro, um dos mais prestigiados de sua época; sabe-se, por sua biografia, que o poeta, “frequentemente visto nas tabernas de Belgrado, onde levava uma vida boêmia e despreocupado, devido ao consumo constante de álcool mostrava seu lado agressivo quando bêbado, se envolvia constantemente em brigas que quase sempre perdia”, e cujo comportamento por várias vezes lhe trazia problemas com o regime [a polícia] de Tito; seus muitos amigos sempre o resgatavam de tais dificuldades; a tais amigos, o poeta chegou a jurar “que nunca mais escreveria”; Branko deixou Belgrado “no outono de 1960”, mudou-se para Zagreb, tornou-se editor do Literarne redakcije zagrebačkog radija (Editorial Literário Escritório da Rádio Zagreb), “provavelmente insatisfeito com sua vida”, continuou se entregando ao álcool e, “na noite entre 11 e 12 de fevereiro” [de 1961], numa floresta próxima à cidade, “segundo a versão oficial, o poeta sérvio suicidou-se”; as razões que levaram Branko a tomar tal atitude permanecem polêmicas, havendo quem, à época, suspeitasse de que o poeta fora morto pela polícia ou apoiadores do regime vigente.

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Branko Miljković: Predicação do amor

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Meu amor perdura, embora eu não mais viva
Vejo-o no sol e onde, podres ossos na terra,
Em sua gratitude outro dia já se encerra,
Como uma música, um deserto, paz passiva.

As intenções nossas sei que ele em si cerra,
E, por graça, os mortos natalícios reaviva.
Sombra desmedida no fio do vento altiva
Dos que não mais vivem nas cinzas se desterra.

Chama-me no tempo morto, peito isolado,
Angústia passada, num mundo renovado.
Já que não descobri o amor, e minha mente
dorme, e o dia é vazio, o dia ainda não surgido,
Ele se estende feito galho, mas inutilmente
Silva, que no vento, digno, seja envolvido.

Branko Miljković

Propovedanje Ljubavi

Nema mene al ima ljubavi moje;
Vidim je u suncu i zemlji gde nam trunu kosti.
Dovršava se an u njenoj zahvalnosti
Slično muzici slično praznini, spokojen.

Ona će sačuvati namere moje i tvoje
I vaskrsnuće mrtve rođjendane po milosti.
U podnožju vetra nemerljiva sen oholosti
Nestaće u pepelu onih što više ne postoje.

U pusto srce u mrtvo vreme me zovi
Minula čežnjo, da se svet ponovi.
Ako ne saznah ljubav i uspavah svoj um,
Pa mi je prazan dan koji još došao nije,
Ko granu koja se izdužuje u uzaludan šum
Neka me nedostojnog vetar obavije.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], edição bilíngue, texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Branko Miljković (1933 1961), nascido em Nis, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), formado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado, foi poeta, ensaísta, resenhista e tradutor: ainda estudante, participou de um grupo literário neo-simbolista; fez contatos e estabeleceu relações de amizade com outros poetas (Vasko Popa entre os quais), recusou adesão e associação partidária, o que acabou resultando na não publicação de sua poesia; seus primeiros poemas denotavam a influência recebida dos simbolistas franceses Paul Valéry e Stéphane Mallarmé, e também do pensamento filosófico de Heráclito; por longos três anos seguidos ouviu nãos das redações de muitas revistas, em 1955 teve seus primeiros poemas publicados na Delo, “abrindo assim as portas de outras editoras e, a partir daí, ganhou as páginas de inúmeras revistas”; em 1956 foi publicada sua primeira coletânea de canções, Acordo-a em vão (Uzalud je budim), obra que obteve “sucesso de público e crítica”; depois vieram as coletâneas de poemas Sangue contra a morte (Smrću protiv smrti, com Blažom Šćepanovićem, 1959), Origem da esperança (Poreklo nade, 1960), O fogo e o nada (Vatra i ništa, 1960), Krv koja svetli (1961) ...; agraciado pela crítica literária e alçado ao topo da poesia sérvia, Branko Miljković foi laureado com o Prêmio Outubro, um dos mais prestigiados de sua época; sabe-se, por sua biografia, que o poeta, “frequentemente visto nas tabernas de Belgrado, onde levava uma vida boêmia e despreocupado, devido ao consumo constante de álcool mostrava seu lado agressivo quando bêbado, se envolvia constantemente em brigas que quase sempre perdia”, e cujo comportamento por várias vezes lhe trazia problemas com o regime [a polícia] de Tito; seus muitos amigos sempre o resgatavam de tais dificuldades; a tais amigos, o poeta chegou a jurar “que nunca mais escreveria”; Branko deixou Belgrado “no outono de 1960”, mudou-se para Zagreb, tornou-se editor do Literarne redakcije zagrebačkog radija (Editorial Literário Escritório da Rádio Zagreb), “provavelmente insatisfeito com sua vida”, continuou se entregando ao álcool e, “na noite entre 11 e 12 de fevereiro” [de 1961], numa floresta próxima à cidade, “segundo a versão oficial, o poeta sérvio suicidou-se”; as razões que levaram Branko a tomar tal atitude permanecem polêmicas, havendo quem, à época, suspeitasse de que o poeta fora morto pela polícia ou apoiadores do regime vigente.