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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

José Bento de Oliveira [Nhô Bento]: Réstinho de alegria

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Denoitinha ela veio falá cô eu, se rindo...
(Se ria prô se ri; mas tava triste, eu via!)
E tudo me contô... e tudo eu fui uvindo,
cô pensamento longe, amóde que fugindo
de gosá esse réstinho triste de alegria...

Meus óio, sem querê, fugia de incará...
Não sei o que me dêu... amóde que avuáva
que nem pêna, que o vento léva, sem pará,
e despôis fáis a póvre pinoteá, no á...
Assim fiquei tambem, sem sabê dônde táva!

Ela falô, falô, despôis parô, me oiándo...
Minha afrição passô... e fiquêmo, nóis dôis,
se oiándo múdo, triste e quiéto, maginando
tudo quanto de bão ajuntêmo em trêis ano,
pra pinchá fóra ansim, num dia só, despôis!

Vô-me imbóra aminhã!  éla falô baxinho...
Eu tambem quis falá e a fala me intalô...
Mas éla compreendendo tudo, dereitinho,
se riu, não disse nada, alevantô o bracinho,
e a mão déla co’a minha forte se apertô.

Intão eu compreendi que era a filicidade
que tava despedindo de êu, naquela hora;
e apertei a mãozinha déla, cúm vontade
de pedí pra éla ansim:  Fique prô caridáde,
Nhá Chiquita, não vá mais aminhã s’imbora!

Mas quem póde trocê cô que manda o destino
que do dia fáis noite e da noite fáis dia?
E ansim, como num sonho bão que vai sumindo,
tambem pra úrtima vêis nóis se oiêmo, se rindo,
gozando esse réstinho triste de alegria...
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Rosário da Capiá  (Poemas Caboclos) — Nhô Bento (José Bento de Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars — F. Lanzara, São Paulo e Rio de Janeiro; Nhô Bento, ou José Bento de Oliveira (1902  1968), paulista de São Sebastião, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Henrique Botelho, trabalhou como funcionário público estadual, foi poeta, declamador e radialista; Nhô Bento manteve por longo tempo um programa na Rádio Gazeta, em São Paulo, onde declamava e apresentava seus textos; além deste Rosário de Capiá — poemas caboclos, o poeta declamador também teve seus textos gravados em disco de vinil pela RGE Discos do Brasil.

domingo, 5 de novembro de 2017

José Bento de Oliveira [Nhô Bento]: Pasto sêco

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O coração da gente é uma vióla...
O distino da gente é o violêro...
Quando ele é bão, sái côisa que cunsóla
inté o chão barrído do terrêro!

Mas quando o tár só sabe sê gavóla,
desses um trapaião e cavortêro,
a vida de um cristão não véve  róla!
Póde contá que se istragô o pesquêro!

Meu coração eu tinha incordoádo
e esperáva o rasgá do ponteádo
que um violêro bão me aprometêu...

O porquêra chegô... nem deu pra saída!
Destemperô-se a vióla... e a minha vida
virô invernada onde a geada deu!
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Rosário da Capiá  (Poemas Caboclos) — Nhô Bento (José Bento de Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars — F. Lanzara, São Paulo e Rio de Janeiro; Nhô Bento, ou José Bento de Oliveira (1902  1968), paulista de São Sebastião, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Henrique Botelho, trabalhou como funcionário público estadual, foi poeta, declamador e radialista; Nhô Bento manteve por longo tempo um programa na Rádio Gazeta, em São Paulo, onde declamava e apresentava seus textos; além deste Rosário de Capiá — poemas caboclos, o poeta declamador também teve seus textos gravados em disco de vinil pela RGE Discos do Brasil.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

José Bento de Oliveira [Nhô Bento]: Se eu subésse cantá . . .

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Não sei pegá na vióla,
nem sei cantá;
pra tudo percísa iscóla
pra se estudá...

Nunca púde sê violêro,
proquê o defeito
que me fêis sê canhotêro
não me deu geito.

Pra rasgá minhas toáda
a vóis não dá;
por isso não canto nada,
só sei falá!

Mas se eu cantasse, eu queria,
num ponteádo,
contá como eu fui um dia
disinganado!
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Rosário da Capiá  (Poemas Caboclos) —  hô Bento (José Bento de Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars — F. Lanzara, São Paulo e Rio de Janeiro; Nhô Bento, ou José Bento de Oliveira (1902 1968), paulista de São Sebastião, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Henrique Botelho, trabalhou como funcionário público estadual, foi poeta, declamador e radialista; Nhô Bento manteve por longo tempo um programa na Rádio Gazeta, em São Paulo, onde declamava e apresentava seus textos; além deste Rosário de Capiá — poemas caboclos, o poeta declamador também teve seus textos gravados em disco de vinil pela RGE Discos do Brasil.

domingo, 20 de agosto de 2017

Monteiro Lobato: Prefácio a "Rosário de Capiá" de Nhô Bento [trechos]

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          Foi em casa de Cicero Marques. Certa noite vi lá dois estranhos, um gordão e moreno a quem davam o nome de Nhô Bento  e era de fato um perfeito “Nhô”, bonachão, sossegado. Outro, um chatola, foi me apresentado como Pagano. Eu podia pensar tudo daqueles dois homens, menos que fossem dois verdadeiros e grandes poetas. Em certo momento Cícero pede a Nhô Bento que recite um dos seus poemas. Nhô Bento levanta-se e limpa o pigarro  e eu suspiro por dentro, preparando-me para a séca. Esses tais recitativos de encomenda são em geral uma estopada que a gente tem que engolir de cara amável, com palminhas no fim e pedidos hipócritas de “Recite outra...”

          Mas a minha surpresa foi grande. O homem pôs-se a dizer, com uma expressão, uma verdade e uma propriedade inexcedíveis, os melhores poemas caipiras que ainda ouvi  ricos de imagens novas, de modismos, de mil particularidades que no momento eu não podia analisar mas me enlevaram, como igualmente enlevaram a todos os presentes. Cicero olhava-nos orgulhoso  o orgulho dum empresário feliz. “Eu não dizia?” era a sua expressão ante o nosso espanto. E quando entre palmas Nhô Bento terminou o seu poema, o “Recite outro!” foi geral e sinceríssimo, porque versos como aqueles são como um bons-bocados que um não contenta.

          . . . Foi uma das mais belas noites de minha vida, essa em que travei conhecimento com dois estranhíssimos poetas, desses que não fazem invocação a Apolo, não entram nas academias, mas enchem a alma do povo e imortalizam-se de verdade  como o grande Catulo.
     
          Discutiu-se depois a publicação dos poemas de Nhô Bento e com prefácio meu! Pobre de mim! O menos crítico dos homens, o mais sem jeito, e virado “prefaciador” oficial” de livros, como antigamente havia na roça aqueles “oradores oficiais” das festinhas de família.

          . . .

          Este nosso país é um assombro. Nascemos aqui, vivemos aqui e morremos aqui e não o conhecemos. Conhecemo-lo tão pouco que quando apareceu o primeiro retrato d’après nature do jéca foi um espanto geral, e uma celeuma que durou anos e ainda é debatida. É que ninguém sabia como era o jéca  e sabem quantos jécas há neste país? Milhões. Talvez 15 milhões, isto é, a terceira parte da nação! Mas esses milhões de nacionais vivem de tal modo segregados da civilização das cidades grandes e pequenas, tão alheios à cultura geral, que somos etnograficamente um balde com dois terços de água e um de azeite  coisas imisturáveis.

          Temos duas civilizações, ou melhor, duas “culturas”: a cultura importada, dos que vivem nas cidades, sabem ler e escrever e até livros escrevem! E a “cultura local”, filha da terra como um cogumelo é filho dum pau podre, desenvolvida pelos homens do mato  o caboclo, o caipira, o jéca, em suma. Como o jéca nunca leu nada nem escreve, a sua cultura se foi fazendo ao tipo primitivo, por lentas acessões e restritas experiências locais e com a transmissão sempre oral. O assunto é grande demais para caber num prefácio; exige livros, já que se trata duma “cultura” de 15 milhões de seres humanos. Mas cumpre-nos aqui a considerar a galope um dos aspectos dessa “cultura”: a língua, pois foi na língua do jéca que Nhô Bento nos encantou.

          Essa língua descende da que os portugueses introduziram e que alijou a língua geral então existente nestes territórios: o tupi-guarani. Ficou a língua portuguesa sendo a língua geral do Brasil e até hoje o é. E por que o é? Porque aprendemos o português de duas maneiras: de ouvido e de leitura. Se o aprendêssemos só de ouvido, como acontece com o jéca, a nossa “língua geral” estaria hoje tão distanciada da língua portuguesa que um português não a entenderia. O que conserva as línguas e impedem que caminhem com velocidade excessiva pela tentadora da evolução, é a escrita.

          Mas como o jéca nunca soube ler nem escrever, a evolução da língua portuguesa em sua boca se fez a galope. Nhô Bento em seus poemas fixa muito bem a língua falada do jéca  e antes que me esqueça: por que os nossos filólogos não extraem a gramática dessa língua do jéca? Que interessante seria!... Quanta “mutação” vocabular, quanta variação da sintaxe, da prosódia, de tudo!... Troca do “b” pelo “v”: “cumbérsa”, “bérso”, “cuvérta”... O “lh” substituído pelo “i”: “abêia”, “páia”, “máia” (malha)... O “ou” reduzido a “ô”: “fumô”, “botô”... Quantos aspectos!

          Devíamos fazer a gramática da interessantíssima “língua do jéca” como os franceses fizeram a gramática da “língua do oc”; e devíamos ensinar essa gramática nas escolas, lado a lado com a gramática portuguesa, em vez de torturar as pobres crianças com o terrível e inútil latim do senhor Capanema. Ficaríamos assim educados em duas línguas, a geral, ou portuguesa, e uma língua auxiliar, a do jéca. Que vantagem haveria nisso? Oh, grande: podermos falar gramaticalmente com os 15 milhões de jécas que há no território brasileiro.

          . . . A forma escrita das línguas é um artificialismo tremendamente embaraçador da evolução natural das línguas. Tão emperrado, que no inglês a língua falada está p’ra cá, e a escrita está p’ra lá. Mr. Churchill escreve “enough” e diz “inâf”. O jéca teve a felicidade de não saber ler nem escrever, de não se preocupar com a Academia de Letras, de usar dos jornais unicamente o papel  e graças a isso “evoluiu” a língua portuguesa só de ouvido e sempre de acordo com as injunções da “lei do menor esforço” e da “lei da melhor compreensão”. E como suprimiu besteiras inúteis! Os verbos, por exemplo. Nós, por causa da tirania da escrita, ainda estamos com tantas variações pessoais como as tinha o latim. Dizemos: Eu tenho, Tu tens, Ele tem, Nós temos, Vós tendes, Eles têm. Ha um grave defeito aqui. Se o pronome já indica a pessoa do verbo, por que indicá-la novamente com a variação do verbo? Redundância, bobagem perda de esforço. O jéca, muito mais economizador de esforço, porque vive na maior das penúrias, diz: Eu tenho, Vancê tem, Ele tem, Nós tem, Vancês tem, Eles tem.

          O inglês também diz: I have, He have, We have, You have, They have  e tanto o jéca como o inglês exprimem perfeitamente a “pessoa que tem”, sem estarem latinescamente variando o pobre verbo.

          Há uma estranha aproximação do inglês com a língua do jéca, a ponto dum amigo meu, o visconde de Sabugosa, achar que essa língua deriva do inglês e não do português, como o saudoso Alvaro Guerra supunha. O jéca forma os seus plurais com a mesma inteligência e economia do inglês: diz, por exemplo, “as casa”, os “hóme” “as muié”, em vez de dizer redundantemente como o português, “as casas”, “os homens”, “as mulheres”. O inglês diz, “the houses” (o casas), “the men” (o homens), “the women” (o mulheres) a mesma coisa que o jéca, só que invertido. Se pondo apenas o artigo no plural a frase fica perfeitamente clara, para que botar no plural também o substantivo? Pensa com muita razão o jéca  e o inglês faz o mesmo raciocínio quando pluraliza o substantivo e não mexe no artigo.

          Tudo isso eu diria no prefácio de Nhô Bento, se fosse escrevê-lo E acentuaria que o mesmo direito que tiveram os portugueses de corromper o latim e transformá-lo em língua portuguesa, temos nós, letrados, de corromper a língua portuguesa e transformá-la na “língua brasileira”; e tem o iletrado jéca de “evoluí-la” em outro rumo. Mais cientificamente, podemos dizer que a língua portuguesa no Brasil está sofrendo duas variações: uma lenta, da gente que sabe ler e escrever; e outra rápida, da gente da roça segregada do urbanismo, do livro, do jornal e do radio  o abençoado jéca que tem a sorte de não ler os jornais do governo nem os da oposição e de não ouvir a “Hora do Brasil”.

          Quem condena como coisa “errada” o modo de falar ou a língua do jéca, revela-se curto de miolo. Os modos de variação duma língua são fenômenos naturais, e não há erro nos fenômenos naturais. Erro é coisa humana. Temos que estudar essas variações em vez de tontamente condená-las, pois condená-las equivale, por exemplo, a condenar os anéis de Saturno em nome dos planetas que não possuem anéis; os as caudas dos cometas em nome dos astros suras; ou as sementes da paineira por virem ao mundo envoltas num algodãozinho em nome das sementes de capiá que vêm nuas.

          . . .

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Rosário da Capiá  (Poemas Caboclos) — Nhô Bento (José Bento de Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars — F. Lanzara, São Paulo e Rio de Janeiro; José Bento Renato Monteiro Lobato (1882 1948), paulista de Taubaté, formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (atual USP), foi promotor público, contista, ensaísta, tradutor e editor; é considerado um dos mais influentes escritores brasileiros, tendo sido um dos primeiros autores de literatura infantil do Brasil e de toda a América Latina; escreveu para revistas e jornais de sua época, A Tribuna (de Santos), Gazeta de Notícias e revista Fon-Fon (do Rio de Janeiro) e O Estado de São Paulo; fundou a revista Paraíba, em Caçapava SP, na qual teve como colaboradores Olavo Bilac, Cassiano Ricardo e Coelho Neto, entre outras importantes figuras da literatura; colaborou na Revista do Brasil e, posteriormente, adquirindo-a e tornando-se seu editor, transformou-a em centro de cultura, contando com uma rede de distribuição com mais de mil representantes; foi co-proprietário da Companhia Editora Nacional; sua obra é, em grande parte, composta de livros para crianças; escreveu e publicou, Idéias de Jeca Tatu (1918), Urupês (conto, 1918), Cidades Mortas (conto, 1920), Negrinha (conto, 1920), O Saci (infantil, 1921), Fábulas de Narizinho (infantil, 1921), O Marquês de Rabicó (1922), O Macaco que se fez Homem (romance, 1923), Reinações de Narizinho (infantil, 1931), Caçadas de Pedrinho (1933), Emília no país da Gramática (1934), Histórias de Tia Nastácia (1937), O Escândalo do Petróleo (1936), O Pica-Pau Amarelo (infantil, 1939), entre tantos outros títulos; da literatura estrangeira, Lobato traduziu e adaptou Contos de Grimm, Contos de Andersen, Alice no País das Maravilhas, Alice no País dos Espelhos, Robinson Crusoé, Robin Hood.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

José Bento de Oliveira [Nhô Bento]: A sorte

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Dá murro em ponta de faca
quem co’a sorte se atarráca
e pérde o tino,
pensando que éla arrepênde
de fazê o que bem intênde
cô destino...

Fique lôco quem ficá,
chóre quem quizé chorá,
que éla nem vê!
E vai, de peito impoládo,
ponhando túdo trocádo,
só pô prazê!

A sorte véve brincando...
Fica de longe ispiando
quem tá cuntênte,
e donde éla tá iscondida
dá o bóte e férra a mordida,
que nem sorpênte!

É animá passarinhêro
que o mais mió cavaiêro
pincha no chão,
e sái na desimbestáda,
deixando a gente na estrada,
batendo as mão...

As pintada mais treiçoêra
perto déla é brincadêra,
proquê no côro
da sorte, nada não cála...
Nem chumbo grôsso... nem bála...
quanto mais chôro!

Mas o que éla fáis pra um hóme
remói por drênto, cunsóme,
cô uma pessôa...
Eu quiz sê forte, sô franco...
mas quando tomei o tranco,
chorei atôa!...

(Nhá Chiquita)
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Rosário da Capiá  (Poemas Caboclos) — Nhô Bento (José Bento de Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars — F. Lanzara, São Paulo e Rio de Janeiro; Nhô Bento, ou José Bento de Oliveira (1902 1968), paulista de São Sebastião, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Henrique Botelho, trabalhou como funcionário público estadual, foi poeta, declamador e radialista; Nhô Bento manteve por longo tempo um programa na Rádio Gazeta, em São Paulo, onde declamava e apresentava seus textos; além deste Rosário de Capiá — poemas caboclos, o poeta declamador também teve seus textos gravados em disco de vinil pela RGE Discos do Brasil.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

José Bento de Oliveira (Nhô Bento): Fitiçaría

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(A Augusto Esteves, à guiza de impressões
sobre a memorável exposição dos
 seus desenhos a bico de pena)

Nhô Ógusto Istéve garrô na pêna, moiô na tinta,
oiô em vórta cô ôio comprido, campeô um papé,
ponhô ele em frente, fêis um risquínho, fêis vinte, trinta,
e foi fazendo rísco e mais rísco com tuda fé!

De vêis em quando nhô Istève oiáva pra aqueles rísco,
dando um suspiro, parando a pêna pra descançá;
e via os rísco que nem peixínho dos mais arísco,
dando pinóte e corcuveándo pra lá e pra cá...

É que nos rísco tinha mandínga de fitiçêro
e o sangue brábo de gato preto, galo ô cabríto,
matádo na hóra que o sací táva nargúm terrêro,
dando pinóte na pórva acêsa, pregando gríto!

Proquê se ispiándo firme os risquínho de nhô Istéve,
não sei o que éra, mas as idéia ficáva lôca!
Proquê não via rísco nem letra que a pêna iscréve,
só via igrêja, lagôa e gente mexendo a bôca!

Foi assim que ele fêis num papé as figura
das capélinha véia como quê...
Das capélinha que hoje quando Deus precúra
campêia élas do céu e não acha pra vê
as capéla véínha que já se acabô,
que nem um tijolínho e uma têia sobrô!

Nas capélinha véia foi que a gente antíga
se batisô, rezô, se confessô e casô...
Nas capélinha véia é que as mãe de famía
se ajueiáva, chorando, de noite e de dia,
rezando Padre Nosso e Ave Maria
e fazendo preméssa pra acabá a bexíga
e acabá tantas morte co’a fébre amaréla...

Capélinha véinha... dônde tá as capéla?
Gente nóva imbirrô, não quiz mais éla,
fêis pôco cáuso em tudo o que os véio dexô...
garrô a tê réiva déla... adesprezô...
Elas sentía tanto... e choráva, choráva,
que quando arguêm garráva no sino e tocáva
as póvre capélinha saluçáva,
e os salúço da póvre ninguem iscuitô!

Morreu a gente véia que rezáva;
gente nóva não réza, pegô e derrubô!

Nhô Istéve uma vêis se assentô na cadêra,
ageitô bem na mão a pêna mandiguêra,
foi isfregando a pêna no papé,
fêis um rísco quarqué,
inté a pêna gemê de tanto se isfregá,
e as capélinha tuda vortô no lugá!

Despôis ele garrô a cumpará
(óie só o que nhô Istéve haverá maginá!)
que as capélinha que ja tão caída
é iguazínho — sem tirá nem pô 
co’as pessôa que fica famosa na vída,
côs hóme bão, côs hóme de valô,
que quando morre deixa arrespeitádo o nóme
que nunca se consóme,
proquê quando se fala é taliquá capéla
cô artazínho infeitado de frô e de véla,
e os santo e as santinha la em riba do artá
chamando a gente pra ajueiá e rezá!

Nhô Istéve ahi então tornô a riscá...
Riscô, riscô, riscô,
fêis quáse um bataião de hóme de valô,
ponhô um pértinho do ôtro, infilerô,
e despôis ajuntô
os hóme bão co’as capélinha antíga...
 Ficaram tão iguá que nem mío na ispíga!

Muita gente óia aquilo e garra a maginá
como é que nhô Istéve fêis vortá
aqueles hóme tudo e as capélinha intêra...
É que o ladino nunca disse pra ninguem
que ele fáis tudo isso só proquê ele tem
a pêna mandinguêra,
que quando reina em riba do papé
de quarqué rísco fáis o que o dono quizé,
quarqué hora que seja, de noite ô de dia...

É incantáda a diánha! Fáis fitiçaría!
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Rosário da Capiá  (Poemas Caboclos) Nhô Bento (José Bento de Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars F. Lanzara, São Paulo e Rio de Janeiro; Nhô Bento, ou José Bento de Oliveira (1902 1968), paulista de São Sebastião, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Henrique Botelho, trabalhou como funcionário público estadual, foi poeta, declamador e radialista; Nhô Bento manteve por longo tempo um programa na Rádio Gazeta, em São Paulo, onde declamava e apresentava seus textos; além deste Rosário de Capiá — poemas caboclos, o poeta declamador também teve seus textos gravados em disco de vinil pela RGE Discos do Brasil.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Nhô Bento: Doce de cidra

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Eu trúxe pra mecê este docinho,
impetecádo ansim, imbruiadinho,
nesta páia de mío...
É só mecê pegá, afroxá este amarrío,
abrí a páia dele justo bem no meio,
ferrá os dente e cumê!

É bão doce de cidra!
E este doce veio
lôco pra móde vê
bem pertinho a boquinha de mecê
só pra móde adoçá sua boquinha,
boquinha de bunéca, ô de pombinha!

Tóme! Garre ele logo na sua mão...
Mas antes de cumê
magine bem o que ele qué dizê!
Fáis de conta que tô le dando o coração
que inté se açucarô...
doce de tanto amô!

Próve como ele tá mais bão que rapadura!

ói só que gostusura!
Espremente, pra vê,
se não é taliquá que eu désse pra mecê
que véve que nem lôco,
que nem cavalo que não dá baxêro
pra quarqué cavaiêro,
só pruquê ele já sabe que iscoieu
o dono mais mió que apareceu!
Eu sei que mecê vai gostá quando cumê
o docinho que eu trúxe pra mecê...

Ah, quem déra que eu fosse esse docinho,

iguazínho co'ele, direitinho
pra mecê nunca mais me chamá eu de azedo!
que nem mecê me chamô onte, de minhã cedo!

Coma o seu doce, vá! Apinche fóra a páia,

pruquê quem não ajuda, não trapáia!
Desimbrúie ele ansim, devagazinho,
adesmánche com jeito este nòzinho,
puxe a páia pra cá... pra lá, despois...
taliquá com nóis dois
que primêro se oiêmo...
despois se cunhecêmo...
despois se riu... eu se ri, regatêro...
mecê ponhô ni mim seus oínho mortêro...
e então, desimbruiêmo a páia direitinho,
táliquá tô agora le ensinando
essa páia que tá rodeando o seu docinho!

O amô pra se bão, pra sê doce devéra,

doce mais doce ainda que o melado,
não deve andá correndo atrupeládo,
iguá côs pinto quando vê quiréra...

O amô só pode sê um doce bão,

iguá doce de cidra, ô doce de mamão,
quando fica guardado e amarradinho,
que é pra gente í tirando a páia cúm jeitinho...

Desse jeito o amô fica mesmo um doção!

Pruquê sinão,
ele garra a melá
que não dá nem vontade de pegá...
Inlambúza co'as mão
e é capais de azedá!

Eu não quiría nunca que mecê pensásse

que o meu amô um dia se azedásse...
Nem não quiría que mecê dissésse
que o doce que eu le trúxe se azedô e não présta...
Pruquê mecê bem sabe, se eu pudésse
fazia tudo o dia sê dia de festa,
só pra móde arranjá e trazê pra mecê
um docinho de cidra pra mecê cumê!

Foi ansim que eu pensei

de falá pra mecê, mas não falei,
tudo dirêito, taliquá pensei,
na horínha que le dei
um docinho de cidra guardadinho
numa páia de mío, e amarradinho
taliquá um coração drênto do peito...

Mecê cumeu, nem disse se gostô...

Se riu, agardeceu,
oiô bem n'eu,
abaxô-se de banda, isticô seu bracinho,
garrô uma frô de talo compridinho,
e ponhô a frô drênto da minha mão,
me dizendo co'a fala amolicida:

 "Tóme, guarde esta frô

que eu tô dando pra ocê,
que é pra nunca dizê
que eu sô ingrata e malagradecida...
Co'ésta frô tô pagando o seu docinho...
Pruquê este amô prêfeito
também é o coração
que eu ranquei do meu peito,
pra dá ele interinho só pra ocê!"

Pra me dá o que me deu,
falando o que falô,
decérto ela gostô
do doce que cumêu!

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Coletânea de Poetas Paulistas Seleção, Organização e Introdução de Enéas de Moura, 1951, Editora Minerva, Rio de Janeiro — RJ; Nhô Bento, ou José Bento de Oliveira (1902 1968), paulista de São Sebastião, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Henrique Botelho, trabalhou como funcionário público estadual, foi poeta, declamador e radialista; Nhô Bento manteve por longo tempo um programa na Rádio Gazeta, em São Paulo, onde declamava e apresentava seus textos; escreveu e publicou Rosário de Capiá — poemas caboclos (prefácio de Monteiro Lobato e ilustrações de Belmonte e outros, 1946); o poeta declamador também teve seus textos gravados em disco de vinil pela RGE Discos do Brasil.