sábado, 30 de setembro de 2017

Carlos Queiroz Telles: Comparação

Resultado de imagem para carlos queiroz telles
____________________
E agora?
Como é que eu vou saber
se eu sou normal?
Os amigos
da minha idade
são tão diferentes...

Alguns
já são peludos
e outros
quase pelados.

Tem gente
de rosto liso
e gente
de cara barbada.

E o tamanho...
do que interessa,
tem de tudo:
grande, médio e pequeno.

Ninguém sabe
o que é certo!

Como é duro
e complicado
ser assim indefinido,
um pedaço meio homem
e outro meio menino...

Resultado de imagem para carlos queiroz telles
____________________
Sementes de sol — Carlos Queiroz Telles, Capa e Ilustrações de May Shuravel, 1996, 6ª edição, Editora Moderna — São Paulo  SP, José Carlos Botelho de Queiroz Telles (1936  1993), paulista e paulistano, formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP — Largo São Francisco), foi dramaturgo, escritor e poeta; trabalhou em jornalismo e publicidade, tendo sido também professor universitário; teve participação ativa na fundação do Teatro Oficina, em cuja inauguração, 1958, estreou a peça A Ponte, de sua autoria; como dramaturgo, foi autor de obras para o teatro e televisão (novela e seriados), adaptou textos de Shakespeare, Camões e Calderón de La Barca; recebeu dois prêmios Moliére (1972 e 1976); além deste Sementes de sol (poesias), escreveu Sonhos, grilos e paixões (poesias), Tirando de letraAsas brancasQuase Cachorro e Quase MeninoMulher Manual do ProprietárioHomem Manual da ProprietáriaO Pirilampo TelegrafistaOs Amantes da chuvaO Rock das Estrelas, e tantos outros títulos da literatura infanto-juvenil.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Stefan George: A palavra

Resultado de imagem para Stefan George Crepúsculo
____________________
[traduzido por Eduardo de Campos Valadares]

Maravilha remota ou sonho
Para minha terra disponho

E aguardo até que a velha norna
Leia o nome na fonte morna 

Posso em mãos reter com firmeza
Esta flor de rara beleza...

Guardada com muito cuidado
Como tesouro delicado

Solene é o seu veredito:
>Nada dormita no infinito<

Escapando de minha mão
E deixando meu pátrio chão...

Assim triste concebo a lavra:
Nada existe sem a palavra.

(O novo Reino  1928)

Resultado de imagem para stefan george
Stefan George
Das Wort

Wunder von ferne oder traum
Bracht ich an meines landes saum

Und harrte bis die graue norn
Den namen fand in ihrem born 

Drauf konnt ichs greifen dicht und stark
Nun blüht und glänzt es durch die mark...

Einst langt ich an nach guter fahrt
Mit einem kleinod reich und zart

Sie suchte lang und gab mir kund:
So schläft hier nichts auf tiefem grund

Worauf es meiner hand entrann
Und nie mein land den schatz gewann...

So lernt ich traurig den verzicht:
Kein ding sei wo das wort gebricht.
____________________
Crepúsculo — Stefan George, Seleção, Ensaio e Tradução de Eduardo de Campos Valadares, 2000, Iluminuras, São Paulo — SP; Stefan Anton George (1868 1933), alemão de Büdesheim, região do Reno, foi tradutor e poeta maior do Simbolismo; fez seus estudos secundários no Ludwig-Georgs-Gymnasium, em Darmstadt, e ali passou a se interessar por teatro e poesia; editou um jornalzinho escolar de literatura, o Rosen und Disteln (Rosas e Cardos); a partir daí, toma contato com o mundo exterior, viajando a Londres, Montreux, na Suiça, Milão, Turim e, depois, Paris, onde se encontra com o poeta Albert Saint-Paul, que o apresenta a Stéphane Mallarmé; dedicando-se ao Simbolismo, as portas são abertas para um mundo novo da experiência poética, a arte pela arte, o que o faz tomar impulso na produção de versos e na tradução de textos de Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Mallarmé e outros tantos poetas contemporâneos; faz cursos de literatura e filosofia na Universidade de Berlim, cria a revista literária Blätter für die Kunst (Folhas de Arte), publicada de 1892 a 1919, isso fazendo com que o poeta passe mesmo a ser referência de um círculo literário e acadêmico denominado George-Kreis; neste período, sua roda de amigos inclui franceses, italianos e mexicanos, o que lhe possibilita falar francês e ouvir espanhol com mais assiduidade do que alemão; bibliografia: Hymnen (Hinos, 17 poemas, 1890), Algabal (1892), Das Jahr des Seele (O ano da alma, 1897), Der Teppich des Lebens und die Lieder von Traum und Tod mit einem Vorspiel (Tapete da Vida e Canções de Sonho e Morte com um Prelúdio, 1899) Der siebente Ring (O sétimo Anel, 1907), Der Stern des Bundes (A estrela da Aliança, 1914), Das neue Reich (O novo Reino, 1928) e outros; Roger Bastide (1898 1974), estudioso francês, nos propõe uma "tríade sagrada do Simbolismo" e cita o poeta Stefan George ao lado de Stéphane Mallarmé e do nosso Cruz e Sousa.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Hermes Fontes: Cigarra

____________________
É uma existência à parte a que leva a bizarra
alma do estivo inseto, a zinir, serra a serra,
além de que dos mais se distingue e desgarra
por esses suaves sons nostálgicos que encerra.

Mal resplende o verão numa parte da terra,
ei-la: que coisas diz e que episódios narra!...
Canta aqui, canta ali, canta acolá... pousa... erra,
sibila, estala, ri e, a rir, morre a cigarra!

Nunca o tédio a indispõe, nunca a tristeza a acirra!...
Quando imerge na sua aprazível modorra,
sonha visões de luz, de incenso, de ouro e mirra...

Sua vida é uma orgia, a sua voz é um hurra!...
E há de zumbir e há de cantar, até que morra,
ao sol, que a incende, ao sol, que a abrasa, ao sol, que a esturra!...


____________________
Livro dos Poemas — uma antologia de poetas brasileiros e portugueses, Organização e Notas de Sergio Faraco, 2009, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), nascido em Buquim SE, bacharel pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, foi poeta, um dos fundadores do jornal Estréia (1904) e colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, entre outros periódicos de sua época; obra poética: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922) entre outros.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Ernani Rosas: Quimera

____________________
Nossa cabeça é uma divina furna,
onde sonhos edênicos adejam
antes que os olhos da nossa alma vejam
abandonar do nosso corpo a urna.

Ela é a falena do irreal casulo
da nossa carne enferma de beleza...
voltando à realidade com tristeza,
dá do seu sonho para a vida um pulo...

Mas, o mocho do Tédio, que negreja
a curva azul da noite que nos beija
a afastada paisagem da ilusão...

faz à alma voltar à realidade,
e olhar o paraíso com saudade...
da nossa astral, cruel decepção!...

1944 — Cópia fornecida pelo autor

Resultado de imagem para ernani rosas
____________________
Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2, por Andrade Muricy, (Coleção de Literatura Brasileira 12), 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Ernani Salomão Rosas Ribeiro de Almeida (1886 1955), catarinense de Desterro, atual Florianópolis, foi poeta; desde os três anos de idade passou a residir na cidade do Rio de Janeiro e, depois, com a morte do pai (Oscar Rosas, político e também poeta, que basicamente lhe garantia as mesadas), mudou-se com a mãe e irmãs para Nova Iguaçu, também no Rio, onde morreu em difíceis condições; levou uma vida boêmia e sofreu discriminação pela sua gagueira e homossexualidade; foi um homem reservado que tentou ficar o máximo possível no anonimato; colaborou com os periódicos O Imparcial, Maçã e A Época; sua bibliografia: Certa Lenda numa Tarde Paráfrasis de Narciso (assina Rictus da Cruz, 1917), Poemas do Ópio (1918) e Silêncios (sem data); após sua morte, houve o resgate de sua obra poética: neste Panorama foram incluídos vinte e sete de seus poemas e em Poesias — Organização de Iaponan Soares e Dalila Carneiro da Cunha Luz Varella (1989) estão reunidos oitenta e oito poemas, manuscritos e plaquetes * encontrados, já nos arquivos da Academia Catarinense de Letras; depois, vieram outros estudos: História do Gosto e Outros Poemas — Organização de Ana Brancher (1997) e Cidade do Ócio — entre sonetos e retalhos, Organizadora: Zilma Gesser Nunes (2008).

* Nota: plaquetes: este aprendiz de blogueiro faz constar que, conforme o História do Gosto e Outros Poemas (1997), as plaquetes, em torno de trinta e sete, organizadas pelo poeta, são pequenos livros costurados à mão e com barbante, com capa de papel “de embrulho”, onde foi escrito à mão o título da plaquete; pelas plaquetes, tem-se que Ernani Rosas também fez uso de alguns pseudônimos para assiná-las: N. Cáspio, A. Luzo, N. Luzo, além do já anteriormente citado Rictus da Cruz.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Carlos Queiroz Telles: Mensagens ortopédicas

Resultado de imagem para carlos queiroz telles
____________________
Creque!

O joelho dobrou esquisito
A dor subiu pela espinha
O grito empacou na garganta.

Droga!

Socorro gente... me acudam!
Acho que quebrei a perna...
Quebrou... confirmam as caras
Debruçadas sobre mim.

E agora?

Pega com jeito... Cuidado que dói!
Vai devagar... Toca pra enfermaria.
Não aperta! Não cutuca! Ai!!!
Se não estava quebrado, agora quebrou.

Porcaria de time!

Maldito futebol! Raio de campeonato!
Droga de bola dividida! Desgraçado beque central!
Ai... lá vou eu para o hospital...
Ainda bem que a turma está firme ao meu lado.

Gente legal!

Puxa, repuxa, encaixa, acerta, emenda,
enfaixa, aperta, engessa... pronto!
Manquitola e conformado, o atleta glorioso
Volta ao campo de batalha.

Curiosidade geral.

Engraçadinhos a postos empunham suas canetas
e iniciam a ofensiva de recadinhos no gesso.
São grafites de pura inveja
e oportunistas juras de amor:

Te amo mesmo assim.
PERNETA!
Agora você não vai fugir de mim!
Manquinho!
Até que enfim vou ser titular.
Tomara que fique três meses na cerca!
Amoreco!
Conte sempre com o meu ombro amigo.
Deixa que eu chuto.
Perna de pau!

Engraçado este mundo!

Foi preciso uma fratura
pra descobrir como é bom
ter amigos e atenção.
E tem mais!
Minha perna, de repente,
serve até para colar:
entre um recado e outro
cabe bem uma equação!

Santa bola dividida!
Querido beque central!

Resultado de imagem para carlos queiroz telles
____________________
Sementes de sol — Carlos Queiroz Telles, Capa e Ilustrações de May Shuravel, 1996, 6ª edição, Editora Moderna — São Paulo — SP; José Carlos Botelho de Queiroz Telles (1936 1993), paulista e paulistano, formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP  Largo São Francisco), foi dramaturgo, escritor e poeta; trabalhou em jornalismo e publicidade, tendo sido também professor universitário; teve participação ativa na fundação do Teatro Oficina, em cuja inauguração, 1958, estreou a peça A Ponte, de sua autoria; como dramaturgo, foi autor de obras para o teatro e televisão (novela e seriados), adaptou textos de Shakespeare, Camões e Calderón de La Barca; recebeu dois prêmios Moliére (1972 e 1976); além deste Sementes de sol (poesias), escreveu Sonhos, grilos e paixões (poesias), Tirando de letra, Asas brancasQuase Cachorro e Quase MeninoMulher Manual do ProprietárioHomem Manual da ProprietáriaO Pirilampo TelegrafistaOs Amantes da chuvaO Rock das Estrelas, e tantos outros títulos da literatura infanto-juvenil.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Alceu Wamosy: A revolta do corvo

____________________
Negro, petrificado e frio como um mito
de Buda, a passear o olhar de lado a lado,
ele deixou-se ali ficar, sob o infinito
peso de sua tortura estranho torturado...

E lançando, talvez, à bruma do passado,
o seu profundo olhar, sereno, de proscrito,
atirou para o alto e negro céu calado,
a blasfêmia audaciosa e rubra do seu grito!

E o céu que não escuta e que é marmóreo e torvo,
riu, talvez, para si, da pequenez do corvo
e afivelou de novo a máscara de aço.

E o corvo, alçando o vôo, embriagado e tonto,
subiu... cortou a névoa... a bruma... e como um ponto
negro, sumiu-se além, na escuridão do espaço...

Flâmulas 1913

Resultado de imagem para alceu wamosy
____________________
Livro dos Poemas — uma antologia de poetas brasileiros e portugueses, Organização e Notas de Sergio Faraco, 2009, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Alceu de Freitas Wamosy (1895  1923), gaúcho de Uruguaiana, foi poeta da fase do simbolismo; trabalhou como colaborador no jornal A Cidade (de propriedade de seu pai, em Alegrete  RS) e também nos periódicos A Notícia, A Federação, O Diário e na revista A Máscara; tornou-se proprietário do jornal O Republicano, a partir de 1917; obra poética: Flâmulas (1913), Terra Virgem (1914), Coroa de Sonhos (1923); postumamente publicou-se Poesias Completas (1925, Editora Globo) e Poesia Completa (1994, Coleção Memória, da EDIPUCRS).

domingo, 24 de setembro de 2017

Cruz e Sousa: Entre luz e sombra

Resultado de imagem para cruz e sousa obra completa editora aguilar
____________________
Ao dia 7 de setembro
Libertas Lux Dei!!...

Surge enfim o grande astro
que se chama Liberdade!...
Dos sec′los na imensidade
eterno perdurará!...
Como as dulias matutinas
que reboam nas colinas,
nas selvas esmeraldinas
em honra ao celso Tupá!...

Eram só cinéreas nuvens
os brasíleos horizontes!
Curvadas todas as frontes
caminhavam no descrer! 
As brisas nem murmuravam...
Os bosques nem soluçavam...
Os peitos nem se arroubavam...
 Estava tudo a morrer!...

De repente, o sol formoso
vai as nuvens esgarçando.
As almas vão palpitando,
cintilam magos clarões!...
E o Índio fraco, indolente
fazendo esforço potente
dos pulsos quebra a corrente,
biparte os acres grilhões!...

Por terra tomba gemendo
o vão, atroz servilismo...
Rui a dobrez no abismo...
Eis a verdade de pé!...
Enfim!... exclama o silvedo
Enfim!... lá diz quase a medo
selvagem, nu Aimoré!...

Assim, brasílea coorte,
falange excelsa de obreiros,
soberbos, almos luzeiros
de nossa gleba gentil,
quebrai os elos d’escravos
que vivem tristes, ignavos,
formando delas uns bravos
 p′ra glória mais do Brasil!...

Lançai a luz nesses crânios
que vão nas trevas tombando
e ide assim preparando
uns homens mais p′ro porvir!
Fazei dos pobres aflitos
sem crenças, lares, proscritos,
uns entes puros, benditos
que saibam ver e sentir!...

Do carro azul do progresso
fazei girar essa mola!
Prendei-os sim,  mas à escola
matai-os sim,  mas na luz!
E então tereis trabalhado
o negro abismo sondado
e em nossos ombros levado
ao seu destino essa cruz!...

Fazei do gládio alavanca
e tudo ireis derribando;
dormi, co’a pátria sonhando
e tudo a flux se erguerá!
E a funda treva cobarde
sentindo homérico alarde,
embora mesmo que tarde
curvada assim fugirá!...

Enfim!... os vales soluçam
Enfim!... os mares rebramam
Enfim!... os prados exclamam
já somos livre nação!...
Quebrou-se a estátua de gesso...
Enfim!...  mas não... estremeço,
vacilo... caio, emudeço...
Enfim de tudo inda não!...

jornal A Regeneração  nº 69, de 7. set. 1882,
Desterro  SC (atual Florianópolis)
[O Livro Derradeiro/Dispersas] *

Imagem relacionada



* Nota deste Verso e Conversa: Conforme Andrade Muricy, O Livro Derradeiro, editado em 1945, é composto de poemas até então inéditos, manuscritos, e/ou tão somente publicados em periódicos da época vivida pelo Poeta Negro; neste Cruz e Sousa, Obra Completa publicou-se, pela primeira vez, toda a produção em verso e prosa do poeta, incluídos os manuscritos, poemas autógrafos, dispersos, inéditos, encontrados em poder de sua esposa, Gavita Rosa Gonçalves, e/ou nas mãos de poetas amigos, e/ou publicados e encontrados em jornais e revistas de então.
____________________
Cruz e Sousa, Obra Completa — Edição Comemorativa do Centenário, Introdução Geral de Andrade Muricy, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro  RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); em 1885, já publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável como arquivista na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

sábado, 23 de setembro de 2017

História da Estrada de Ferro Sorocabana / Arquivo IHGGS


____________________

François Villon: Repousa e dorme aqui neste lugar . . . [Epitáfio] / A este dai-lhe eterno repousar . . . [Rondó]

Resultado de imagem para François Villon Péricles Eugênio
____________________
[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Epitáfio
(O Testamento, vv. 1884-1903) *

Repousa e dorme aqui neste lugar
Alguém que com flechada o amor matou,
Um bem pequeno e mísero escolar:
François Villon foi como se chamou.
Nunca ele terra alguma desfrutou.
Mesas e cavaletes, pães, cestinhos,
Ninguém o ignora, tudo ele doou.
Companheiros, dizei estes versinhos:

Rondó

A este dai-lhe eterno repousar,
Tu, resplendor perpétuo, meu Senhor:
Prato, escudela, salsa a mais vulgar
Ele não teve, e nada de valor.
Rasparam-lhe o cabelo, a barba em flor,
Qual nabo que se rapa ou faz pelar.
A este dai-lhe eterno repousar.

Em exilado o transformou Rigor,
A pele do traseiro a lhe esfolar;
"Apelo!"  em vão veio ele a proclamar,
Palavra que não é de escuro teor.
A este dai-lhe eterno repousar.

Resultado de imagem para François Villon
François Villon

Épitaphe

Ci gist et dort en ce sollier,
Qu’amours occist de son raillon,
Un pauvre petit escollier,
Qui fut nommé François Villon.
Oncques de terre n’ot sillon.
Il donna tout, chascun le scet:
Tables, tresteaulx, pain, corbeillon.
Gallans, dictes en ce verset:

Rondeau

Repos eternel donne a cil,
Sire, et clarté perpetuelle,
Qui vaillant plat ni escuelle
N’eut oncques, n’ung brain de persil.
Il fut rez, chief, barbe et sourcil,
Comme ung navet qu’on ret ou pelle.
Repos eternel donne a cil.

Rigueur le transmit en exil,
Et lui frappa au cul la pelle,
Non obstant qu’il dît: "J’en appelle!" 
Qui n’est pas terme trop subtil.
Repos eternel donne a cil.



* Nota: Em ‘Notícia sobre François Villon’ deste Poemas, o tradutor Péricles Eugênio nos informa que a obra O Testamento compreende 183 oitavas (1488 versos), com o esquema de rimas ababbcbc, e em cujas estrofes se intercalam 16 baladas e 3 rondós, cerca de um quarto do poema, com 535 versos.
____________________
Poemas de François Villon — Tradução, Notícia e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Coleção Toda Poesia 2, 1986, Art Editora, São Paulo — SP; François Villon (1431 desaparecido em 1463), pseudônimo de François de Montcorbier ou François de Loges, francês e parisiense, fez bacharelado, licenciatura e mestrado na Faculdade de Artes da Universidade de Paris e é considerado o precursor dos poetas malditos do romantismo; ainda estudante, envolveu-se em episódio de roubo de um marco da escola, feriu de morte um sacerdote que lhe provocara e, Villon, também ferido, deixou Paris, mas depois obteve duas cartas de remissão pelo homicídio; após, participou do roubo do tesouro do Colégio de Navarra e, descoberto por deduragem de um outro que deu com a língua nos dentes, novamente ausentou-se de Paris, tendo levado vida errante na província, andejado pelas estradas e se misturado com marginais; consta ter sido preso em Orléans, depois libertado por indulto de Luís XI e, de retorno a Paris, foi outra vez encarcerado, agora no Châtelet; mais uma vez, por envolver-se em rixa de companheiros com os escreventes de mestre Ferrebouc, foi condenado à morte, mas a pena foi depois transformada em desterro de Paris, por dez anos, sentença essa dada pela Corte do Parlamento; foi nessa ocasião que escreveu a célebre ‘Balada dos Enforcados’; paralela a essa vida de errância crescia a sua fama como poeta, o mais faz parte das lendas criadas em torno de seu nome e de seus escritos; eis o que nos relata e nos apresenta Péricles Eugênio da Silva Ramos em sua ‘Notícia sobre François Villon’, deste Poemas; sua bibliografia: entre tantas baladas e rondós, Le Lais (Legado, 1457), Le Testament (O Testamento, 1461), Ballade des Pendus (Balada dos Enforcados, 1462).