Mostrando postagens com marcador Marília Garcia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marília Garcia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Sylvia Plath: O Encantador de serpentes

 
____________________
[traduzido por Marília Garcia]

Os deuses criaram um mundo; o homem, outro,
E o encantador de serpentes criou uma esfera sinuosa com
Olho-de-lua e flauta-na-boca. Ele sopra a flauta. Verde. Água.

De tanto soprar o verde da água, as águas verdes
Vibram em meio aos juncos, pontais e ondas.
Enquanto as notas se retorcem verdes, o rio verde

Dá forma às imagens das suas melodias.
Ele sopra um lugar para ficar, sem pedras,
Sem chão: uma onda de grama que oscila

Sob os pés. Do fundo do seu espírito de víbora
Ele sopra um mundo serpentino que vacila,
Repleto de espirais. E agora só restam as

Serpentes. As escamas das serpentes se transformam
Em folhas, em olhos; em corpo de serpente, troncos
De árvore e de gente. E do seu reino de serpentes

Ele rege as torções que só confirmam: ele é dono
De uma alma de serpente, com a melodia que sai
De sua flauta fina. Eis que surgem, do ninho verde,

Bem como do umbigo do Éden, os cordões de uma
Geração de serpentes: que se façam as serpentes!
E se fizeram, se fazem, se farão — até que o sono

Consuma sua flauta e ele se canse da música
E sopre o mundo de volta ao simples tecido urdido,
Uma pele de serpentes. Que ele sopre as serpentes para as

Águas verdes, até que nenhuma delas fique mais
À mostra, e as águas esverdeadas voltem a ser
Só água, só verde, nada a ver com uma serpente.
E ele deixe de lado a flauta e cubra seu olho de lua.

(O Colosso — 1960)

Sylvia Plath

Snakecharmer

As the gods began one world, and man another,
So the snakecharmer begins a snaky sphere
With moon-eye, mouth-pipe, He pipes. Pipes green. Pipes water.

Pipes water green until green waters waver
With reedy lengths and necks and undulatings.
And as his notes twine green, the green river

Shapes its images around his sons.
He pipes a place to stand on, but no rocks,
No floor: a wave of flickering grass tongues

Supports his foot. He pipes a world of snakes,
Of sways and coilings, from the snake-rooted bottom
Of his mind. And now nothing but snakes

Is visible. The snake-scales have become
Leaf, become eyelid; snake-bodies, bough, breast
Of tree and human. And he within this snakedom

Rules the writhings which make manifest
His snakehood and his might with pliant tunes
From his thin pipe. Out of this green nest

As out of Eden's navel twist the lines
Of snaky generations: let there be snakes!
And snakes there were, are, will be — till yawns

Consume this piper and he tires of music
And pipes the world back to the simple fabric
Of snake-warp, snake-weft. Pipes the cloth of snakes

To a melting of green waters, till no snake
Shows its head, and those green waters back to
Water, to green, to nothing like a snake.
Puts up his pipe, and lids his moony eye.

(The Colossus [and Other Poems] — 1960)
____________________
Poesia reunida [bilíngue]: Sylvia Plath, Organização e Tradução de Marília Garcia, 1ª edição, 2023, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 — 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoiselle [revista feminina], The Lyric  Grecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounter; desde 1956 viveu na Inglaterra após se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Sylvia Plath: Canção da prostituta

 
____________________
[traduzido por Marília Garcia]

Já derretida a geada branca
E os sonhos verdes que não valem nada,
Após um dia escasso de trabalho
Chega a hora dessa puta depravada:
Um mero boato sobre ela toma nossas ruas
Até que todos os homens,
Ruivos, brancos ou negros,
Se desviam do seu desleixo.

Veja só, eu grito, essa boca
Feita para a violência,
Esse rosto disforme,
Cheio de manchas, socos, cortes,
A cada ano duro, mais um murro.
Por ali não passa um único homem sequer
Com ânimo para
Remendar, com o ferro do amor, o horror do seu rosto,
Este rosto que, do fosso da sarjeta,
Busca alguma coisa lá no fundo dos meus
Olhos castos.

(O Colosso — 1960)

Sylvia Plath

Strumpet Song

With white frost gone
And all green dreams not worth much,
After a lean day's work
Time comes round for that foul slut:
Mere bruit of her takes our street
Until every man,
Red, pale or dark,
Veers to her slouch.

Mark, I cry, that mouth
Made to do violence on,
That seamed face
Askew with blotch, dint, scar
Struck by each dour year.
Walks there not some such one man
As can spare breath
To patch with brand of love this rank grimace
Which out from black tarn, ditch and cup
Into my most chaste own eyes
Looks up.

(The Colossus [and Other Poems] — 1960)
____________________
Poesia reunida [bilíngue]: Sylvia Plath, Organização e Tradução de Marília Garcia, 1ª edição, 2023, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 — 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoiselle [revista feminina], The Lyric  Grecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounter; desde 1956 viveu na Inglaterra após se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.