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Foste e és o chefe da nossa escola
poética. E não sei que nome deva dizer a esta doutrina, que me ensinaste, e ensinaste
a tantos outros. Será ela essa famosa escola parnasiana, tão apregoada, tão
defendida e tão combatida, sempre tão pouco compreendida? Pouco compreendida, —
porque não se pode bem compreender o que não existe...
Nunca houve uma escola parnasiana,
nem aqui, nem na Europa, se nesta designação quisermos exprimir uma revolução
poética, trazendo invenções de novidade. Houve aqui, como na Europa, uma
brilhante logomaquia, sonora e vazia batalha de palavras em torno de uma
palavra. Os corifeus do parnasianismo nada inventaram,
como nada tinham inventado os românticos. Os paladinos de 1830 apenas tinham
pretendido dar seiva nova de idealizações e de elocuções á planta da poesia,
mirrada e anêmica, empobrecida pela secura do classicismo. E os de 1865, rebelando-se
contra os últimos discípulos daqueles, somente quiseram restaurar estas qualidades,
tão simples e tão belas, que estavam a ponto de ser esquecidas: a simplicidade
e a correção. A extravagância da imaginação e o desalinho da fôrma iam expelir
dos poemas a sobriedade, a clareza e a justeza, virtudes máximas do gênio
greco-latino. Porque já eram sóbrios, claros e justos, na rudeza da vida
pastoril, os primeiros poetas da nossa civilização, apercebidos de cajado e
avena, sonhando, ao pé da montanha da Fócida, consagrada a Apolo e às Musas;
aqueles foram os primeiros e verdadeiros parnasianos; e parnasianos foram pelas
idades fora, todos os artistas que amaram e praticaram as idéias límpidas, os
sentimentos altos e as expressões puras. Os poetas franceses, arregimentados no
Parnasse Contemporain, não quiseram
estabelecer uma teoria, em que se pregasse "a poesia sem paixão e sem pensamento,
o desprezo dos sentimentos humanos, o culto dos versos bem feitos e ocos, e, em
suma, a forma pela forma". Quiseram apenas lembrar que, em matéria de
arte, não se compreende um artista sem arte; que, sem palavras precisas, não há
idéias vivas; que, sem locução perfeita, não há perfeita comunicação, de
sentimento; e que não pode haver simplicidade artística sem trabalho, e mestria
sem estudo.
Estas mesmas idéias preconizaste,
no Brasil, pela palavra e pela ação, meu nobre mestre. Foi esta a instrução, de que foste o maior e
melhor professor. Não digamos "a escola parnasiana". Nem digamos ainda "escola", nem teoria;
chamemos "a disciplina do bom gosto", — à aula tua, em que me
matriculei, antes dos meus vinte anos de idade, graças à boa estrela, que levou
os meus passos à tua sombra.
Sempre haverá uma poesia popular
sem arte, e poetas populares sem apuro gramatical e métrico, versejando com o falar da gente
rústica. Acredito que é esta a verdadeira poesia, sentimento instintivo e pensamento espontâneo da terra e
dos homens, nascendo do coração do povo, como o canto sai da garganta dos pássaros e o aroma da
corola das flores. Esta será a legítima poesia, anônima e rude; e talvez seja esta a que mais
dure... Mas, ao lado desta, inspirando-se dela, e dela aproveitando a seiva e o encanto, uma outra sempre
haverá, culta e difícil; e sempre haverá, entre os bardos sem técnica, os artífices do estro literário.
Quantos pregadores iletrados, quantos padres sem estudos clássicos, quantos modestos curas de aldeia
sem brilho de eloqüência viveram no Brasil e em Portugal, no século XVII? não
tinham talento, nem estilo, nem retórica; entretanto, comoviam e consolavam as
almas simples e sofredoras, e eram bons e necessários, como os nossos
trovadores campesinos. Pois bem, entre eles apareceu Antônio Vieira, construtor
entre tantos operários, arquiteto esteta entre tantos pedreiros sem estética,
artista entre tantos mesteirais... Não queiramos que toda a extensão da terra seja
dada ao trabalho dos hortelões; demos uma nesga da horta á fantasia e ao lavor
dos jardineiros! E' justo que, entre tantos latoeiros e funileiros, vivam alguns
ourives!
Admitida esta necessidade, não admitíamos
confusões entre os que se resignam ao poetar espontâneo e os que ambicionam ao
sacerdócio do poetar artístico. Não tragam os aprendizes para a oficina da joalheria
um material indigno, vocação errada, incapacidade, pechisbeque e miçangas, em vez
de ouro e pérolas, preguiça em vez de paciência, negligência em vez de vontade
e gosto. Não entrem no verso culto o calão e o solecismo, a sintaxe truncada, o
metro cambaio, a indigência das imagens e do vocabulário, a vulgaridade do
pensar e do dizer. Não seja a arte fancaria e biscate: seja tarefa difícil,
consciente, asseada, em que haja sacrifício e orgulho! Só assim será bela e
simples a obra. A própria Natureza não trabalha de improviso. De que suados
labores, de que longos e pacientes esforços, de que complicado mecanismo de
metamorfoses nascem a singeleza de uma flor e a naturalidade de uma borboleta!
Aos chamados poetas parnasianos
também se deu outro nome: "impassíveis". Quem pode conceber um poeta
que não seja suscetível de padecimento? Ninguém e nada é impassível: nem sei se
as pedras podem viver sem alma. Uma estátua, quando é verdadeiramente bela, tem
sangue e nervos. Não há beleza morta: o que é belo vive de si e por si só.
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["A Alberto de Oliveira", em Últimas Conferencias e
Discursos, Alves, Rio, 1927; transcrito de Antônio
Cândido e José Aderaldo Castelo — Presença da
Literatura Brasileira — volume II, pp. 244 — 247]
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Antologia de Antologias — prosadores brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade
Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, apresentação de Plínio
Doyle e prefácio de Fábio Lucas, Musa Editora 1996, São Paulo — SP; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac
(1865 — 1918), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta expoente do
parnasianismo, cronista e jornalista;
escreveu Poesias (1888), Crônicas e Novelas (1894), Crítica
e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Tratado de
Versificação (1910), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e
Piedade — crônicas (1916) etc; foi autor da letra do Hino à Bandeira.