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sábado, 16 de março de 2019

Emílio Moura: O que dói em tudo isso não é tanto . . . [soneto]

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O que dói em tudo isso não é tanto
a rosa não ser rosa, e a estrela, estrela;
não é que haja no riso algo de pranto,
e amar a vida à força de perdê-la.

Amor  engano de um que se procura,
no que, ávido e cego, já criara.
Nem é isso o que dói. Força tão pura,
amor se inventa, inventa, e já não pára.

Não pára. Inventa e, múltiplo, se inventa,
tanto o amado se mira e se imagina
no que é ledo inventar que se acalenta.

O que dói é a certeza de que tudo
mais se banha em beleza, se termina,
e, ao ter algo a dizer-nos, fica mudo.

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de MinasEstado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACEUFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Emílio Moura: Inscrito em uma parede

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Por que foi que deixaram,
        ah, coração duro,
que esta estrada acabasse
        num muro?

Por que ninguém, ninguém,
        aqui se ergueu,
        ah, coração duro,
quando o que fui morreu?

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de MinasEstado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACEUFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Emílio Moura: Poema

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De repente volta
o que nem sei se foi
sonhado ou vivido.
Que apelo me chega
desta voz que emerge
de tão fundas águas?
Alguém esquecido
no fundo dos tempos?
Meu anjo vencido?
Meu duplo secreto?
Que apelo indizível
me chama, me grita
que esqueça, que durma,
ou me divida em tantos
que nenhum seja eu?

Nem eu, nem ninguém.

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de MinasEstado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACEUFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Emílio Moura: Mundo morto

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Resto de tarde já de si vazia, 
viva sombra da noite antecipada.
A chama esvai-se, apaga-se o teu dia
que, pesadas as coisas, não foi nada.

Pensar em tudo: no horizonte mudo,
no visto, no sonhado, no vivido,
e sentir, como um bêbado, que tudo
surge sem forma: nada tem sentido.

Coisas idas, presentes e futuras,
tudo se tece de uma vaga bruma,
um compor de mil formas tão obscuras

que não se sabe quando nasce o dia
e, quando nasce, ninguém vê nenhuma
luz. Ó dia cansado de ser dia!

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de MinasEstado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACEUFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

domingo, 18 de novembro de 2018

Emílio Moura: O morto-vivo

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Esquivo encontro de rua,
risco no ar, clarão, relâmpago.
Que é do morto que jazia
sob o musgo, sob a pedra,
sob milênios erguidos
com febre, torpor e lágrima?
Que é do morto que morria
a cada visão distante,
a cada novo crepúsculo?
Não houve morte. Não há.
Há febre, torpor e lágrima;
há o dia fixo, o degredo,
o signo que não se entende,
o sol, o pântano mudo,
a rosa cortada no ar.
Há a vida secreta, hermética,
o olhar que se abre  é de vidro,
a flor que brilha  é de pobre
matéria plástica; há a aurora
que se acalenta  é reflexo
de esquiva luz, já se foi.

Com que força, com que ímpeto,
o morto-vivo caminha!

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de MinasEstado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACEUFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

domingo, 16 de setembro de 2018

Emílio Moura: Soneto a Carlos Drummond de Andrade

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A hora madura envolve-te e palpita
nela o que ora te oferta, ora recusa:
posse do que és, na solidão recôndita,
graça de amar, ressurreição dos mitos.

Claros enigmas riscam céus distantes.
Falam-te as coisas pela voz que é o próprio
sentimento do mundo e pela meiga
sombra gentil que ressuscita a infância.

Ouço-te andar nas lajes desta rua,
que nem sei se é de Minas ou de alguma
pátria remota que ao teu canto se abre.

E amo-te a voz multiplicada em ecos:
verbo dócil à força íntima e pura
que à máquina do mundo se incorpora.

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de MinasEstado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACE-UFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Emílio Moura: Presença

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Esqueço a tarde que desce
com sua túnica fria,
sua úmida presença
de musgo, silêncio, pedra.
E este impreciso desenho
que de súbito se apaga
na areia, no ar, no vácuo?
Bem sei que já foi caminho,
luz esplêndida. Apagou-se.
Esqueço a pálpebra lenta
que cai trêmula e se fecha,
memória de ontem e nunca,
sobre o que vive de mim.

Por que me sinto assim leve
de corpo e de alma? Este frêmito,
este albor, este sentido
de aurora, orvalho e de cântico,
de onde é que vem? De que fonte
ignota ou próxima? E pura!
Que ar de nuvem, que áureo signo
Conduz meu úmido passo?

Nada sei. Nada de nada.
Apenas sei que a meu lado
súbita sombra, de leve,
me acompanha. De que fúlgida
aurora chega? De que alva
esteira de luz se forma,
tão luz que transcende a outra
que foi a luz de meu dia?
Nada sei. Nada de nada.
Só sei que em mim nada pesa
(já tanto pesava!) a tarde
com sua túnica fria,
sua úmida presença
de musgo, silêncio, pedra.

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de MinasEstado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACE-UFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

sábado, 7 de julho de 2018

Emílio Moura: Simples canção

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Que ficou de tudo
o que foi vivido,
ou apenas tecido,
tão canhestramente,
com fios de vento,
em margens de nada?
Que ficou de cada
caminho perdido
no tempo? De cada
frustra tentativa,
ou salto no escuro?
Que ficou de puro
segredo esquecido
nem se sabe onde?
Que ficou de tudo?
Essa fracionada
imagem sem nexo
do espelho partido?

Esse tudo-nada
que, em transe, ainda fala
à vida acabada
quer ressuscitá-la?
Ou a voz que corta
de súbito, os ares,
repete  é tão eco!
outra voz já morta?
Que buscam os dedos
tateando no muro?
A flor, numa fresta?
A fresta  uma porta?
Que caminho resta,
além desse muro?
Que azul, que impossível
amanhecer no escuro?

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de MinasEstado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACE-UFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Emílio Moura: A hora cinzenta

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Diga-me: É preciso
deixar que a lembrança
da primeira estrela,
da primeira e única
aurora se esfume?
Que os olhos, atentos,
se abram, solitários,
mas lúcidos, para
tantos desafios?
Responder ao grito
que sobe do escuro,
socorrer o próximo,
pensar mil feridos,
perdoar, amar,
mesmo malamado,
mesmo desamado,
traído, odiado,
contra tudo  amar,
amar contra todos?
Ou é hora apenas
de ódio e revolta,
ou frio desânimo,
enquanto o que resta
(ah, resta tão pouco!)
deixa que uma bomba
resolva o que nunca
se resolveria?

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902 1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACE-UFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Olavo Bilac: O Parnasianismo [excerto]

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Foste e és o chefe da nossa escola poética. E não sei que nome deva dizer a esta doutrina, que me ensinaste, e ensinaste a tantos outros. Será ela essa famosa escola parnasiana, tão apregoada, tão defendida e tão combatida, sempre tão pouco compreendida? Pouco compreendida, porque não se pode bem compreender o que não existe...

Nunca houve uma escola parnasiana, nem aqui, nem na Europa, se nesta designação quisermos exprimir uma revolução poética, trazendo invenções de novidade. Houve aqui, como na Europa, uma brilhante logomaquia, sonora e vazia batalha de palavras em torno de uma palavra. Os corifeus do parnasianismo nada inventaram, como nada tinham inventado os românticos. Os paladinos de 1830 apenas tinham pretendido dar seiva nova de idealizações e de elocuções á planta da poesia, mirrada e anêmica, empobrecida pela secura do classicismo. E os de 1865, rebelando-se contra os últimos discípulos daqueles, somente quiseram restaurar estas qualidades, tão simples e tão belas, que estavam a ponto de ser esquecidas: a simplicidade e a correção. A extravagância da imaginação e o desalinho da fôrma iam expelir dos poemas a sobriedade, a clareza e a justeza, virtudes máximas do gênio greco-latino. Porque já eram sóbrios, claros e justos, na rudeza da vida pastoril, os primeiros poetas da nossa civilização, apercebidos de cajado e avena, sonhando, ao pé da montanha da Fócida, consagrada a Apolo e às Musas; aqueles foram os primeiros e verdadeiros parnasianos; e parnasianos foram pelas idades fora, todos os artistas que amaram e praticaram as idéias límpidas, os sentimentos altos e as expressões puras. Os poetas franceses, arregimentados no Parnasse Contemporain, não quiseram estabelecer uma teoria, em que se pregasse "a poesia sem paixão e sem pensamento, o desprezo dos sentimentos humanos, o culto dos versos bem feitos e ocos, e, em suma, a forma pela forma". Quiseram apenas lembrar que, em matéria de arte, não se compreende um artista sem arte; que, sem palavras precisas, não há idéias vivas; que, sem locução perfeita, não há perfeita comunicação, de sentimento; e que não pode haver simplicidade artística sem trabalho, e mestria sem estudo.

Estas mesmas idéias preconizaste, no Brasil, pela palavra e pela ação, meu nobre mestre. Foi esta a instrução, de que foste o maior e melhor professor. Não digamos "a escola parnasiana". Nem digamos ainda "escola", nem teoria; chamemos "a disciplina do bom gosto", à aula tua, em que me matriculei, antes dos meus vinte anos de idade, graças à boa estrela, que levou os meus passos à tua sombra.

Sempre haverá uma poesia popular sem arte, e poetas populares sem apuro gramatical e métrico, versejando com o falar da gente rústica. Acredito que é esta a verdadeira poesia, sentimento instintivo e pensamento espontâneo da terra e dos homens, nascendo do coração do povo, como o canto sai da garganta dos pássaros e o aroma da corola das flores. Esta será a legítima poesia, anônima e rude; e talvez seja esta a que mais dure... Mas, ao lado desta, inspirando-se dela, e dela aproveitando a seiva e o encanto, uma outra sempre haverá, culta e difícil; e sempre haverá, entre os bardos sem técnica, os artífices do estro literário. Quantos pregadores iletrados, quantos padres sem estudos clássicos, quantos modestos curas de aldeia sem brilho de eloqüência viveram no Brasil e em Portugal, no século XVII? não tinham talento, nem estilo, nem retórica; entretanto, comoviam e consolavam as almas simples e sofredoras, e eram bons e necessários, como os nossos trovadores campesinos. Pois bem, entre eles apareceu Antônio Vieira, construtor entre tantos operários, arquiteto esteta entre tantos pedreiros sem estética, artista entre tantos mesteirais... Não queiramos que toda a extensão da terra seja dada ao trabalho dos hortelões; demos uma nesga da horta á fantasia e ao lavor dos jardineiros! E' justo que, entre tantos latoeiros e funileiros, vivam alguns ourives!

Admitida esta necessidade, não admitíamos confusões entre os que se resignam ao poetar espontâneo e os que ambicionam ao sacerdócio do poetar artístico. Não tragam os aprendizes para a oficina da joalheria um material indigno, vocação errada, incapacidade, pechisbeque e miçangas, em vez de ouro e pérolas, preguiça em vez de paciência, negligência em vez de vontade e gosto. Não entrem no verso culto o calão e o solecismo, a sintaxe truncada, o metro cambaio, a indigência das imagens e do vocabulário, a vulgaridade do pensar e do dizer. Não seja a arte fancaria e biscate: seja tarefa difícil, consciente, asseada, em que haja sacrifício e orgulho! Só assim será bela e simples a obra. A própria Natureza não trabalha de improviso. De que suados labores, de que longos e pacientes esforços, de que complicado mecanismo de metamorfoses nascem a singeleza de uma flor e a naturalidade de uma borboleta!

Aos chamados poetas parnasianos também se deu outro nome: "impassíveis". Quem pode conceber um poeta que não seja suscetível de padecimento? Ninguém e nada é impassível: nem sei se as pedras podem viver sem alma. Uma estátua, quando é verdadeiramente bela, tem sangue e nervos. Não há beleza morta: o que é belo vive de si e por si só.
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["A Alberto de Oliveira", em Últimas Conferencias e
 DiscursosAlves, Rio, 1927; transcrito de Antônio
 Cândido e José Aderaldo Castelo  Presença da
 Literatura Brasileira  volume II, pp. 244  247]

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Antologia de Antologias — prosadores brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, apresentação de Plínio Doyle e prefácio de Fábio Lucas, Musa Editora 1996, São Paulo — SP; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865 1918), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta expoente do parnasianismo, cronista e jornalista; escreveu Poesias (1888), Crônicas e Novelas (1894), Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Tratado de Versificação (1910), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade crônicas (1916) etc; foi autor da letra do Hino à Bandeira.