terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Adalberto Viana: Cântico Segundo

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(A Anarquia)

Quando este amor fecundo e sem vaidade,
Fizer banir da Terra a hipocrisia,
Derrubando essa lei de iniqüidade
E o reinado feroz da burguesia.

Quando o povo não sofra de apatia
Quando existir de fato a sã verdade;
E forem Deus, Estado e Fidalguia
Anulados a bem da humanidade:

E quando se inaugure sobre a Terra
O programa genial da guerra à guerra
E unidos todos como irmãos leais;

Então no mundo existirá, perfeito
Um regime comum de mais respeito,
Para a junção de todos os mortais!

(jornal Liberdade, 2ª quinzena/5/1912, p. 2.)
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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Adalberto Viana, ou Adalberto Vianna, foi poeta, barbeiro e militante anarquista; nos relata Milton Lopes, no Emecê — Boletim do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa — Ano III, nº 10. Novembro de 2008:
     ‘... Adalberto Viana, barbeiro de profissão, juntamente com onze colegas, redigiu e assinou dois documentos publicados no jornal anarquista Spartacus em sua edição de 18 de outubro de 1919. Eram eles as Bases de Acordo e o Regulamento de Organização do que o jornal intitulava “Um Ensaio de Livre Organização do Trabalho”, que consistia na fundação de um salão para que aqueles profissionais, vítimas das perseguições dos patrões em função de recente greve da categoria pudessem trabalhar. No entanto, o Salão Liberdade, como foi designado por seus 12 fundadores, possuía características diferentes de todos os outros estabelecimentos do gênero. Segundo suas Bases de Acordo, todos os seus 12 fundadores e sócios fariam parte de seu conselho de administração, que se reuniria semanalmente para tratar de todas as questões referentes ao salão. O mesmo conselho, integrado por todos os participantes do Salão, elegeria um administrador, um tesoureiro e um escriturário (que deveriam todos ser trabalhadores do salão) cujas funções poderiam ser revogadas a qualquer momento. O administrador deveria prestar contas duas vezes por mês e toda féria diária entregue ao tesoureiro e depois de contada e conferida juntada à féria bruta, de onde sairia o retorno financeiro para os associados e para o próprio Salão. No Salão Liberdade, que se localizaria na rua José Maurício atual República do Líbano, 41) todo associado poderia retirar até 50 mil réis além do que havia produzido, sendo o dinheiro que sobrasse reinvestido no salão. Começando a trabalhar às 8 horas da manhã, os integrantes do Salão se comprometiam a pagar a seus componentes de acordo com o memorial de seu sindicato, a União dos Oficiais de Barbeiro, assim como a cumprir quaisquer resoluções daquele sindicato. Ressalvava-se que “em nenhum caso o Salão poderá pertencer a quem pretenda explorar com ordenados a outros barbeiros; isto é, a quem se proponha a ser patrão”.
     Os princípios autogestionários e de apoio mútuo que orientavam a criação do Salão Liberdade eram produto direto da maneira como os barbeiros anarquistas tiveram que se organizar para sobreviver durante a greve da categoria em 1919. A 02 de agosto de 1919 o Spartacus em sua coluna Ação Proletária noticiava a eclosão da greve dos barbeiros no dia anterior, cansados da exploração patronal, lutando por um salário razoável, participação proporcional nos lucros e abolição completa da gorjeta. “Como se vê — comentava o jornal — as pretensões dos oficiais barbeiros não se limitam a melhorias de ordem econômica, pois a abolição da humilhante gorjeta tem uma significação altamente moral”. No número seguinte o jornal comentava que os barbeiros grevistas estavam exercendo seu ofício nas sedes das associações operárias, tendo como fregueses os trabalhadores e, desta forma, também boicotando as barbearias que permaneciam abertas, furando a greve. ...’;
Edgar Rodrigues escreve em Os pedreiros da anarquia [VERVE: Revista Semestral do NU-SOL Núcleo de Sociabilidade Libertária/Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP. Nº 7 (maio 2005)]:
     “... Conheci e soube de operários barbeiros, Amílcar dos Santos, Adalberto Viana (bom poeta libertário), Daniel Montalvão, Zacarias de Lima, e empregados do comércio: Adelino Tavares de Pinho, Antônio Duarte Candeias, Atílio Pessagno, Aquilino Massena, F.G. Sousa Passos (autor de vários opúsculos e deixou uma excelente obra inédita, O Sentido Artístico do Anarquismo). ...”;
Iara Aun Khoury, historiadora, expõe no Texto/Documento A Poesia Anarquista, em Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História São Paulo, volume 8, Nº 15, setembro de 1987/fevereiro de 1988 volume 8:
     “... É agradável deparar com poesias de libertários famosos como Gigi Damiani, Neno Vasco, José Oiticica; [ . . . ]; é desafiante perceber Adalberto Viana, Albino Bastos, Raymundo Reis, Andrade Cadete exercendo atividades variadas e se pronunciando sobre assuntos diversificados, como expressão de uma única militância; ...”.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Augusto dos Anjos: A guerra*


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Guerra é esforço, é inquietude, é ânsia, é transporte...
É a dramatização sangrenta e dura
Da avidez com que o Espírito procura
Ser perfeito, ser máximo, ser forte!

É a Subconsciência que se transfigura
Em volição conflagradora... É a coorte
Das raças todas, que se entrega à morte
Para a felicidade da Criatura!

É a obsessão de ver sangue, é o instinto horrendo
De subir, na ordem cósmica, descendo
À irracionalidade primitiva...

É a Natureza que, no seu arcano,
Precisa de encharcar-se em sangue humano
Para mostrar aos homens que está viva!

[Gazeta de Leopoldina, 17.09.1914]


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: R. Magalhães Júnior, autor deste Poesia e Vida de Augusto dos Anjos registra acerca do poema A Guerra: “Como em todos os jornais, as notícias da guerra européia [1ª guerra mundial] enchem quase toda a primeira página da Gazeta de Leopoldina, onde a 17 de setembro Augusto dos Anjos alude ao grande conflito internacional, num de seus sonetos. É a esse, provavelmente, que se refere uma passagem de sabor anedótico, narrada por Humberto Nóbrega [1912  1988]. Tal soneto teria tido repercussão negativa. Diz o autor de Augusto dos Anjos e sua época que o poeta só o divulgara por insistência de um de seus novos amigos e admiradores, João Teixeira de Moura Guimarães. E acrescenta: ‘Queria o autor que o soneto ficasse inédito. Mas cedeu às ponderações do amigo. Certos professores do Ginásio Leopoldinense não alcançaram ou não quiseram alcançar a profundeza filosófica dos versos. E ele, o Augusto não compreendido daqueles professores, com a grandeza d’alma e bonomia, que lhe modelavam o feitio, reclamava humoristicamente: ‘Tomei a tunda, João, mas você é quem a merecia’. Esse soneto teria sido ‘A guerra’, [...] O poeta encarava a conflagração europeia apenas como uma expressão da struggle for life [luta pela vida] darwiniana em escala internacional.’
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Poesia e Vida de Augusto dos Anjos: R. Magalhães Júnior, 2ª edição corrigida e aumentada, 1978, Editora Civilização Brasileira e Instituto Nacional do Livro — MEC; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Marina Tzvietáieva: A Vladímir Maiakóvski


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[traduzido por Haroldo de Campos]

Acima das cruzes e dos topos,
Arcanjo sólido, passo firme,
Batizado a fumaça e a fogo
Salve, pelos séculos, Vladímir!

Ele é dois: a lei e a exceção,
Ele é dois: cavalo e cavaleiro.
Toma fôlego, cospe nas mãos:
Resiste, triunfo carreteiro.

Escura altivez, soberba tosca,
Tribuno dos prodígios da praça,
Que trocou pela pedra mais fosca
O diamante lavrado e sem jaça.

Saúdo-te, trovão pedregoso!
Boceja, cumprimenta e ligeiro
Toma o timão, rema no teu vôo
Áspero de arcanjo carreteiro.

[18 de setembro de]1921

Marina Tzvietáieva

Маяковскому

Превыше крестов и труб,
Крещенный в огне и дыме,
Архангел-тяжелоступ
Здорово, в веках Владимир!

Он возчик и он же конь,
Он прихоть и он же право.
Вздохнул, поплевал в ладонь:
 Держись, ломовая слава!

Певец площадных чудес
Здорово, гордец чумазый,
Что камнем тяжеловес
Избрал, не прельщась алмазом.

Здорово, булыжный гром!
Зевнул, козырнул и снова
Оглоблей гребет крылом
Архангела ломового.

18 сентября 1921
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Marina Ivanovna Tsvietáieva (1892 1941), russa e moscovita, foi poetisa, escritora e tradutora; por decisão da mãe, ainda criança estudou piano e, entre 1901 e 1905, educou-se em ginásios clássicos e internatos na Europa (Nervi Itália, Lausanne França e Freiburg Alemanha); aprendeu italiano, francês e alemão; cursou História da Literatura na Sorbonne em Paris; publicou seus primeiros poemas aos 16 anos; opondo-se à Revolução de Outubro, deixou a Rússia em 1922 para juntar-se ao marido que fora oficial do Exército Branco na guerra civil, residiu primeiro em Berlim, depois em Praga e em Paris; no exílio, “deu prova também de profunda oposição ao capitalismo” e, quando os nazistas invadiram a Tcheco-Eslováquia, “escreveu um ciclo de poemas que era uma denúncia veemente do fascismo”; já em 1940, em plena turbulência da segunda guerra, retornou à então União Soviética e acabou por suicidar-se em 1941, após o marido ter sido fuzilado e uma filha ter sido internada em campo de concentração; suas obras: Вечерний альбом (Álbum da Noite, 1910), Волшебный фонарь, вторая книга стихов, Изд. «Оле-Лукойе» (Lanterna Mágica, o segundo livro de poemas, Ed. "Ole-Lukoye", 1912), Юношеские стихи (Poemas juvenis, 1913-1915), Червонный валет (Valete de Copas, drama, 1918), Каменный Ангел (Anjo de Pedra, drama, 1919), Лебединый стан (Acampamento dos cisnes, 1921), Разлука (Separação, 1922), После России (Depois da Rússia, 1928), Сибирь (Sibéria, 1930) e outros textos em verso e prosa; foi contemporânea de Rainer Maria Rilke, Boris Pasternak, Sofia Parnok, Óssip Mandelstam, Anna Akhmatova e outros; com uma Europa em guerra e uma Rússia conflagrada, traduziu Federico García Lorca, Charles Baudelaire e Vasa Pshavela, um meio de subsistência e sobrevivência.

sábado, 25 de fevereiro de 2023

setentão da silva: lula III

lula, governadores, ministros, etc., em brasília-df,
um dia após o vândaloterrorismo de 08.01.2023.
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lulalá
sem medo de ser feliz
lula é o cara

lula não se integra
lula não se entrega
lula preso

lula não se desintegra
lula é salvação
lula solto

lula encanta
ainda bem que temos lula
lula vai nos redimir

lula é real

lula é utopia?
lula é o cara?

sp, janeiro de 2023
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setentão da silva e alguns outros silva, além de genésio dos santos, são um só ativista da palavra.

Augusto dos Anjos: A Lágrima *


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Faça-me o obséquio de trazer reunidos
Clorureto de sódio, água e albumina...
Ah! Basta isto, porque isto é que origina
A lágrima de todos os vencidos!

 A farmacologia e a medicina
Com a relatividade dos sentidos
Desconhecem os mil desconhecidos
Segredos dessa secreção divina.

O farmacêutico me obtemperou.
Vem-me então à lembrança o pai Ioiô
Na ânsia psíquica da última eficácia!

E logo a lágrima em meus olhos cai.
Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai
Do que todas as drogas da farmácia!

[19.04.1909]


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: R. Magalhães Júnior, autor deste Poesia e Vida de Augusto dos Anjos registra que [o poema A Lágrima] “foi repudiado na organização do Eu [única obra de A. dos Anjos publicada em vida], fato bastante raro nesse período, em que o poeta alcançara a cristalização. Deve tê-lo achado piegas e pouco compreensível a leitores estranhos à família, em que o pai era conhecido, não pelo nome de batismo, mas pela alcunha de Ioiô. O soneto supõe um diálogo entre o poeta e um farmacêutico, [...] o soneto ficou ignorado até que, em 1964, numa conferência sobre o cinquentenário da morte de Augusto dos Anjos, José Américo de Almeida [1887 — 1980] o citou, com várias alterações e com esta explicação: ‘O pai pusera-lhe nas mãos a biblioteca da casa e ainda barafustou ele pelos livros do tio farmacêutico, donde extraiu o soneto ‘A Lágrima’, que não encontro em nenhum livro, mas meu irmão Augusto de Almeida, conhece de cor’.
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Poesia e Vida de Augusto dos Anjos: R. Magalhães Júnior, 2ª edição corrigida e aumentada, 1978, Editora Civilização Brasileira e Instituto Nacional do Livro — MEC; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

José Oiticica: O Lidador

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Sou aquele que vai de fronte erguida,
Entre turbas hostis ou indiferentes,
Cheio de bênçãos para os maldizentes,
Certo do que serei na minha vida.

Domador de demônios e serpentes,
Tenho a índole e as manhas do que lida.
Para o arranco final da acometida
Minhas células todas vão contentes.

Tenho alma de guerreiro e missionário,
Mãos de ferro e palavras de evangelho…
Fui herói num passado legendário.

E, Poeta da Anarquia, anjo do povo,
Fecho as portas cardeais do templo velho
E ilumino o altar-mór do templo novo.

(1919)

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José Oiticica: Da anarquia à anarcopoesia — Maria Aparecida Munhoz de Omena, Apresentação de Diva Cardoso de Camargo, 2010, Annablume Editora, São Paulo — SP; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882 1957), mineiro de Oliveira, fez seus primeiros estudos em Maceió AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor e poeta; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia" relata Fernando Góes em Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os jornais Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929) e Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa, e colaborou com a imprensa operária libertária, através de A Lanterna, Spartacus, A Plebe, Livre Pensador, e da revista A Vida; suas obras: Sonetos, primeira série (1911), Ode ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Fonte Perene (sonetos, 1954), Roteiro de Fonética Fisiológica, Técnica do Verso e Dicção (1955) e outros títulos.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Martins Fontes: Sully et Nadège


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As tantas da madrugada,
Lá pelo Saco do Alferes,
Numa grossa patuscada,
Com amigos e mulheres,

Lembrou-se a Lili Maluca
De irmos todos tomar vinho,
A uma famosa baiúca
Chamada  “A Parra do Minho.”

Fomos. Entramos. E um rolo
Se forma. Barulhos. Gritos.
E nós metidos no bolo,
Entre facadas e apitos.

Eis que, em meio à barafunda,
Ouço, conforme a etiqueta,
Naquela biboca imunda,
Dizer um preto a uma preta:

 “Perdoe, minha Senhora,
Tê-la trazido a este frege...”
 “Sully, vamo-nos embora.”
 “Às ordens, minha Nadège.”

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; José Maria Martins Fontes (1884 1937), paulista de Santos, estudou e doutorou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico sanitarista, poeta, conferencista e jornalista; ainda estudante no Rio, colaborou com os jornais Gazeta de NotíciasO País e com as revistas Careta e Kosmos; escreveu para os jornais A Gazeta e Diário Popular, de São Paulo, Diário de Santos, Cidade de Santos e também para outros periódicos e revistas; deixou-nos extensa produção literária em verso e prosa e também outras de caráter científico; obras: Granada (poema, 1899), O Lezado (1908), Chicouuu (versos, 1917), A Gripe em Iguape (1920), Arlequinada (fantasia, 1922), Boêmia galante (versos, 1923), Rosicler (versos, 1923), Prometeu (versos, 1924), Partida para Cítera (teatro, 1925), Volúpia (versos, 1925), Decameron (contos, 1925), O céu verde (versos, 1926), O Colar Partido (prosa, 1927), A flauta encantada (poesias, 1931), Sombra, Silêncio e Sonho (1933) e tantos outros títulos.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

William Shakespeare: Em mim tu podes ver a quadra fria . . . [soneto]


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[traduzido por Oscar Mendes]

Soneto LXXIII

Em mim tu podes ver a quadra fria
Em que as folhas, já poucas ou nenhumas,
Pendem do ramo trêmulo onde havia
Outrora ninhos e gorjeio e plumas.
Em mim contemplas essa luz que apaga
Quando no poente o dia se faz mudo
E pouco a pouco a negra noite o traga,
Gêmea da morte, que cancela tudo.
Em mim tu sentes resplender o fogo
Que ardia sob as cinzas do passado
E num leito de morte expira logo
Do quanto que o nutriu ora esgotado.
      Sabê-lo faz o teu amor mais forte
      Por quem em breve há de levar a morte.

[William Shakespeare] — Obra completa, trad.
Oscar Mendes, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995.

William Shakespeare

Sonnet LXXIII

That time of year thou mayst in me behold
When yellow leaves, or none, or few, do hang
Upon those boughs which shake against the cold,
Bare ruin’d choirs, where late the sweet birds sang.
In me thou see’st the twilight of such day
As after sunset fadeth in the west;
Which by and by black night doth take away,
Death’s second self, that seals up all in rest.
In me thou see’st the glowing of such fire,
That on the ashes of his youth doth lie,
As the death-bed whereon it must expire,
Consum’d with that which it was nourish’d by.
      This thou perceiv’st, which makes thy love more strong,
      To love that well which thou must leave ere long.

William Shakespeare, em Howard Staunton (ed.), The Globe
Illustrated Shakespeare. The Complete Works, Nova York,
Greenwich House, Crown Publishers, 1986, pp. 2297, 2303-4.
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Poetas que pensaram o mundo — [vários ensaios, vários ensaístas, vários poetas] Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; William Shakespeare (1564 1616), nascido em Stratford-upon-Avon, poeta e dramaturgo inglês, é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; de Shakespeare, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias (Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, A Comédia de Erros, A Megera Domada, A Tempestade, Cimbelino, e tantas outras), tragédias (Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc.), dramas históricos (Rei João, Ricardo II, Ricardo III, Henrique IV — partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III).

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Elizabeth Lorenzotti: "Tinhorão, o Legendário" — Prefácio

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          Ele sempre nadou contra a corrente. Escreveu que a Bossa Nova é uma variante americana do samba, tão brasileira como um carro montado no Brasil. Que João Gilberto inventou um jeito de cantar para adaptar a música brasileira ao estilo americano. Garantiu que, num disco de 1929, o violão de Sinhô, soando em dupla com o do paulista Pedroso de Camargo, já antecipava a batida da Bossa Nova*.
          Personagem singular da história do jornalismo brasileiro, trata-se do único que, a partir de seus artigos em jornais, começou a construir uma outra carreira, a de historiador da cultura urbana. Hoje, seus artigos reunidos em livros são respeitável fonte de estudos e pesquisas, assim como toda sua obra de historiador.
          Alma de pesquisador que se revelou quando o poeta e criador de jornais Reynaldo Jardim encomendou, em 1961, no Jornal do Brasil: “Tinhorão, faça uma série sobre música popular brasileira”. Mas não havia livro, nem pesquisa, quase nada sobre isso. “Então se vira, vai entrevistar o pessoal”, aconselhou Jardim. Um e outro não tinham idéia de que naquele momento  por acaso, sorte, oportunidade, conjunção astral? estava dado o primeiro passo para uma carreira ímpar no jornalismo.
          Ímpar porque José Ramos foi contratado pelo Diário Carioca (DC) e por todos os outros jornais e revistas em que veio a trabalhar Jornal do Brasil, Correio da Manhã, O Cruzeiro, O Jornal, Última Hora, revista Veja, entre outros para a função de redator, ou copidesque, termo recém-adaptado do jornalismo norte-americano nos anos 1950. Mas que entrou para o vocabulário jornalístico não como a mesa em forma de ferradura onde trabalhavam os redatores norte-americanos, e sim como a designação do próprio redator.
          Ele sempre se refere à “humilde função de copidesque”, na qual o jornalista não assina matérias, não escreve o texto de sua autoria, apenas torna mais legível o que o outro escreveu, e muitas vezes faz milagres.
          Nesta função o jovem José Ramos começou em 1952 no pequeno e famoso Diário Carioca, onde Pompeu de Souza e Danton Jobim introduziram o uso do lead e o primeiro, enxuto e corretíssimo, manual de redação. Uma revolução na imprensa brasileira.
          Lá ele ganhou o apelido de Tinhorão, que se tornou um sobrenome-adjetivo, pois eis que se trata de uma planta tóxica. E por ter se destacado como exímio fazedor de textos-legendas, recebeu um epíteto apropriadíssimo: “Tinhorão, o legendário”.
          Poderia ter ficado como copidesque a vida toda. Mas não o irrequieto Tinhorão, que fazia suas pesquisas e escrevia desde sempre nos suplementos de cultura de tantos veículos de informação. E que nos anos 1970, já em São Paulo, para onde viera fazer parte da primeira turma da revista Veja, lançada em 1968, foi chamado para fazer crítica de música popular brasileira no Caderno B do Jornal do Brasil.
          Aí se cristalizou a fama de chato, que já havia se formado em fins da década de 1950, começo da de 1960, com suas críticas à Bossa Nova e seu nacionalismo. A colaboração na coluna foi extinta em 1981, segundo o informaram, um corte por medida de economia. A par da vida jornalística, que tanto exige dedicação intelectual e física, Tinhorão já escrevia livros desde 1966.
          Em 1980, insatisfeito com a profissão e com sua vida pessoal, largou literalmente tudo e tornou-se um quase ermitão, um militante solitário da cultura, vivendo literalmente dentro da pesquisa: sua quitinete de 31 metros quadrados entupida de livros, discos, partituras, documentos raros e de incrível valor. Mas era feliz, fazendo o que queria, embora vivendo com estreita margem financeira.
          E suas pesquisas, então, continuavam causando polêmica: ele demonstrou que o samba nasceu na Cidade Nova, no coração do Rio, e não no Recôncavo baiano. Que a modinha nasceu no Brasil como dança, e só depois virou canção em Portugal. Descobriu que Lereno, o poeta e músico fluminense Domingos Caldas Barbosa, introduziu a modinha e o lundu na Corte portuguesa na década de 1770, inaugurando a criação da música popular urbana como seria entendida no futuro. Em 2009 sua produção chegava a 28 livros, editados entre Brasil e Portugal.
          Embora sem contar com o reconhecimento formal da Academia (“esse pessoal come Tinhorão e arrota Mário de Andrade”, costuma observar), suas pesquisas até hoje não foram refutadas e ele mesmo diz: quem quiser que conte outra história, o que ainda não aconteceu. Suas opiniões, sim, sempre originaram grandes e raivosas polêmicas, hoje em menor intensidade e paixão, amenizadas pelo tempo e por tantas transformações das coisas deste mundo. Mas não do pensamento de Tinhorão, fiel ao seu método histórico, o materialismo dialético, ferramenta de explicação dos fenômenos que trouxe definitiva luz às suas interrogações, ainda jovem.
          Quem houve falar dele, assim de orelhada, do seu nacionalismo e de suas contendas, pensa tratar-se de um ser mal-humorado, ranheta, tosco. Uma imagem oposta ao jovem Tinhorão que completou 82 anos em 7 de fevereiro de 2010. Ágil, vital, elétrico, engraçado, sempre com uma resposta afiada na ponta da língua, um tipo muito culto e erudito, apreciador da boa música e não só da popular.
          Esforçado, estudioso desde criança, o filho de um imigrante português que, menino, foi mandado sozinho para o Brasil, não conheceu facilidades na vida e batalhou para abrir seu caminho.
          Não era de noitadas depois de sair da Redação. Sempre teve muitas atividades, foi frequentador assíduo de sebos no centro do Rio e ávido recortador de jornais. Nunca recebeu patrocínio oficial, à exceção de uma parca bolsa de estudos no seu curso de mestrado em História Social, na Universidade de São Paulo.
          Empreendedor de sua própria obra, portanto, é alguém a quem o país só tem a agradecer, mesmo discordando dele algumas vezes.


* Nota da biógrafa Elizabeth Lorenzotti: Samba, maldito costume, de Sinhô, gravado por Henrique Chaves, pela Columbia, em setembro de 1929 em São Paulo. Acervo Tinhorão, Instituto Moreira Salles.
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Elizabeth Lorenzotti: Tinhorão, O Legendário [biografia], 2009, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Elizabeth de Souza Lorenzotti, mineira de Poços de Caldas, graduada em Jornalismo pela USP Universidade de São Paulo, com mestrado em Ciências da Comunicação e doutorado em Literatura Brasileira, também pela USP, é jornalista, escritora, professora, pesquisadora, biógrafa e poetisa; suas obras: Que falta ele faz! — Suplemento Literário [do jornal O Estado de São Paulo] (2007, Imprensa Oficial, São Paulo SP), Tinhorão, o Legendário (2010, Imprensa Oficial, São Paulo SP), As Dez Mil Coisas, poesia (2011, Biblos Editora, São Paulo  SP), Jornalismo Século XXI: o modelo #mídiaNINJA (e-book, editora e-galáxia, 2014), além de publicações em jornais e revistas; atuações no jornalismo: redatora da Rádio Tupi — Diários e Emissoras Associados, repórter da Folha da Manhã, editora da Editora Abril, redatora d’O Estado de São Paulo, assessora de imprensa de Atena Editora e Comunicação, editora-chefe do Jornal da USP — USP-SP, diretora de redação da Revista do IDEC, repórter da Revista Bienart, etc.; foi professora de jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo e na PUC São Paulo; Beth Lorenzotti também trabalhou na imprensa sindical: iniciou e impulsionou a Folha Bancária diária jornal do Sindicato dos Bancários de São Paulo, no início dos anos 1980; pilota o blog vivababel.blogspot.com/.

Leminski: Último aviso

 
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      caso alguma coisa me acontecer,
informe a família,
      foi assim, assim tinha que ser

      tinha que ser dor e dor
esse processo de crescer

      tinha que vir dobrado
esse medo de não ser

      tinha que ser mistério
esse meu modo de desaparecer

      um poema, por exemplo,
caso alguma coisa me suceder,
      vá que seja um indício

quem sabe ainda não acabei de escrever

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Leminski — distraídos venceremos, 1987, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Paulo Leminski Filho (1944 1989), paranaense de Curitiba, foi escritor, poeta, crítico literário, tradutor, professor, músico e letrista; como seminarista da Ordem dos Beneditinos, no Mosteiro de São Bento em São Paulo, iniciou seus estudos de latim e grego; como judoca faixa-preta, estudou o idioma japonês e tomou contato com a cultura e a poesia do Oriente; participante do I Congresso Brasileiro de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, conheceu o poeta Haroldo de Campos, de quem se tornou amigo e parceiro em várias obras; cursou Direito e desistiu, cursou Letras e desistiu várias vezes; foi professor de História e de Redação em cursos pré-vestibulares, professor de judô, atuou em publicidade; após estréia com seus textos, na revista Invenção, do poeta Décio Pignatari, colaborou em outros periódicos e revistas de vanguarda; teve textos musicados e fez parcerias com Caetano Veloso e outros músicos, compositores e letristas; traduziu obras de Petrônio, Alfred Jarry, James Joyce, John Fante, John Lennon, Samuel Beckett, Yukio Mishima, conhecedor que era dos idiomas inglês, francês, latim, grego, japonês e espanhol; suas obras: Matsuo Bashô (ensaio biográfico, 1983), Caprichos e Relaxos (poesia, 1983), Cruz e Sousa (ensaio biográfico, 1983), Descartes com lentes (conto, 1983), Jesus a.C. (ensaio biográfico, 1983), Agora é que são elas (romance, 1984), Anseios crípticos (1986), Leon Trotski: a paixão segundo a revolução (ensaio biográfico, 1986), Distraídos venceremos (poesias, 1987), Guerra dentro da gente (1988), Catatau (prosa poética experimental, 1989), 40 Clics (poesia, com fotografias de Jack Pires, 1990), La vie en close (poesia, 1991), Uma carta uma brasa através: cartas a Régis Bonvincino — 1976 a 1981 (1992), Metamorfoses: uma viagem pelo imaginário grego (1994), Winterverno (1994), O ex-estranho (1996) e outros; recebeu premiações por sua obra.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Cruz e Sousa: Floresce! & Cárcere das almas


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Floresce!

Floresce, vive para a Natureza,
Para o Amor imortal, largo e profundo.
O Bem supremo de esquecer o mundo
Reside nessa límpida grandeza.

Floresce para a Fé, para a Beleza
Da Luz que é como um vasto mar sem fundo,
Amplo, inflamado, mágico, fecundo,
De ondas de resplendor e de pureza.

Andas em vão na Terra, apodrecendo
À toa pelas trevas, esquecendo
A Natureza e os seus aspectos calmos.

Diante da luz que a Natureza encerra
Andas a apodrecer por sobre a Terra,
Antes de apodrecer nos sete palmos!

— o —

Cárcere das almas

Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
Que chaveiro do Céu possui as chaves
Para abrir-vos as portas do Mistério?!

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Cruz e Sousa — Últimos Sonetos, Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e Notas por Adriano da Gama Kury, 5ª edição revista, 2013, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).