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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Astrid Cabral: Variações na paisagem

 
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Com dedos de pluma o tempo toca a paisagem.
De mormaço e névoa embrulha o dorso dos montes
e as muralhas do casario coroado de antenas.
Com sopro de ventania o tempo varre as ruas
alvoroça a cabeleira das palmeiras nos parques
dança em rodamoinhos de folhas pelas esquinas.
Com mãos de chuva o tempo faxina o pó de paredes
o rastro de carros no asfalto, de pés nas areias.
Com paciência o tempo borda caruncho nas pedras
envelhece galhos e troncos com varizes e fuligem
desbasta a verde pujança raleando espessas copas
desbota o colorido esplendor de todas as tintas
cega as arestas de qualquer ângulo ou quina
rói balcões de ferro e apaga o sol postiço
que reduz nas maçanetas e corrimãos de latão.
Com a não-pressa de quem se adivinha eterno
o tempo trabalha em compasso firme e lerdo.
Porém o homem na pungente urgência de seu curto
prazo, agride com vigor o regaço da paisagem:
e chegam famintos caminhões que rápidos engolem
camas, mesas, cadeiras, caixas e bagagens
mais portas, pias, soalhos, tijolos e destroços
e chegam fartos caminhões que céleres vomitam
outros tijolos, cimento e areia de nova argamassa
seguidos de portas, janelas, vasos e pias
mais novas camas, mesas, alfaias e caixas.
Então, outra já é a paisagem. Foi se a vila
onde nos ruivos telhados se hospedavam pombos.
Foram-se os pombos em companhia dos escombros
Ó gente, quem diria que um dia existiu
no espaço o que já não passa de pura fantasia
matéria de sonho e razão de meu assombro?

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Poesia de Brasília (antologia: [várias autorias]), Organização de Joanyr de Oliveira e Apresentação [orelhas do livro] de Jason Tércio, 1998, Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense e manaura, formou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, em Literatura Inglesa e Norte-Americana pelo IBEU Instituto Brasil-Estados Unidos, Rio de Janeiro, fez mestrado em Teoria Literária pela UNB, Brasília DF e em Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas Estrangeiras, foi/é poeta, contista, professora, pesquisadora, tradutora e diplomata; ainda adolescente mudou-se para o Rio e, depois, por força do ofício, residiu em Brasília, Chicago, Beirute, além de em Manaus; lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; traduziu Resistance to Civil Government (A Desobediência civil) e Walden (Walden, ou a vida nos bosques) de H. D. Thoreau, ambos em 1984; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Zé Pirulito (1982), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003), Palavra na berlinda (2011), Infância em franjas (2014) e outros títulos; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; recebeu premiações: Prêmio José Décio Filho, da União Brasileira de Escritores de Goiás (1981, por Ponto de Cruz), Prêmio Olavo Bilac, da ABL Academia Brasileira de Letras (1987, por Lição de Alice), Prêmio Nacional de Poesia Helena Kolody (1998, por Intramuros), Prêmio Nacional de Poesia, da ABL (2004, por Rasos d’água) e outros.

domingo, 16 de outubro de 2022

Astrid Cabral: Amoródio verdeamarelo & Anticanção do exílio


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Amoródio verdeamarelo

Amo os homens do povo
os que servem à pátria
domando os touros
da revolta e da fome
mulheres cujos ventres
enfunados de esperança
seguem desafiando a morte.

Odeio os poderosos
com seus corações apátridas
engordando rebanhos
em pastos roubados
as cúpidas panças
recheadas por lucros
de espúrias alianças.

— o —

Anticanção do exílio

Se fosse pela razão
não voltava não.
Mas é que sou movida
a gás de emoção.

Aqui o trabalho vale.
A mão poderosa toca
a rica realidade.

Lá, vive-se de projetos:
A mão impotente
não alcança os objetos.

Se fosse pela razão
não voltava não.
Mas é que sou movida
a gás de emoção.

(Rês desgarrada, 1994)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense de Manaus, ainda adolescente mudou-se para o Rio, diplomou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Zé Pirulito (1982), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Astrid Cabral: Bainha aberta & Cegueira*

 
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Bainha aberta

Crava em meu corpo essa espada crua.
Quero o ardor e o êxtase da luta
em que me rendo voluntária e nua.
Meu temor é a paz pós-união:
desenlace derrota solidão.

Cegueira

No começo
o amor era tão cego
que vivíamos
de tropeço em tropeço.
No começo
o amor era tão cego
que não nos víamos.
Carecíamos do tato
para nos conhecer.

Astrid Cabral

Gaine ouverte

Enfonce dans mon corps cette épée crue.
Je veux  l’ardeur et l’extase de la lutte
dans laquelle je me rends volontaire et nue.
Ma crainte est la paix post-union:
dénouement déroute solitude.

Aveuglement

Au début
l’amour était si aveugle
qu’on vivait
d’achoppement en achoppement.
Au début
l’amour était si aveugle
qu’on ne se voyait pas.
On avait besoin du toucher
pour se connaître.

Nota da edição: Poemas compilados por Olga Savary / Poèmes compilés par Olga Savary
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense de Manaus, ainda adolescente mudou-se para o Rio, diplomou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Zé Pirulito (1982), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra.

domingo, 15 de outubro de 2017

Astrid Cabral: Onipresente ontem

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A luz da manhã invade
a tarde a anoitecer.
Sombras de velhos semblantes
assombram as novas faces.
Vozes ressoam silentes
no tom de toda voz.
Tudo está grávido de ontem.
Na mesa a maçã única
é soma de maçãs colhidas
em outras manhãs extintas.
Colho os frutos do mundo
mas já contaminados
do mofo das lembranças
sujos de mim, imundos.

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Lição de Alice, poemas (1980 — 1983) — Astrid Cabral, 1986, Philobiblion, Rio de Janeiro — RJ; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense de Manaus, ainda adolescente mudou-se para o Rio, diplomou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Astrid Cabral: Esquartejamento

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Vendeu o branco sorriso 
à fábrica de dentifrício 
a cabeleira basta 
a xampu Número Um 
o busto farto à marca 
de sutiãs de náilon 
as axilas depiladas 
a desodorantes espreis 
ancas e partes pudendas 
a firmas de absorventes 
e as belas pernas a casas 
de meias transparentes. 
Depois foi pendurada
nas paredes da cidade 
 pasto de milhões de olhos 
que lhe compram os pedaços 
ao preço vil do mercado. 

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Lição de Alice, poemas (1980 — 1983) — Astrid Cabral, 1986, Philobiblion, Rio de Janeiro — RJ; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense de Manaus, ainda adolescente mudou-se para o Rio, diplomou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Astrid Cabral: O gume camuflado

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Envelhecer é o jeito
sorrateiro que a morte acha
de ir penetrando na gente.
Crueldade mascarada
ou autêntica bondade,
o gume camuflado?
Afinal não nos guardamos
da vil sujeira do mundo,
mãos na maciez das pelicas?
Não calçamos com mil feltros
os infinitos atritos?
Não temperamos de ilusões
insossos feijões sem alho?
Afinal não nos protegemos
sempre ternos e paternos?
E embora sequer ousemos
confessar-nos uns coitados,
no fundo bem nos sabemos
sacaneados, ó dores
de doenças e carências,
coitas de amor malogrado
vãs sabenças e cuidados
variadíssimas raivas
engolidas, vomitadas.
Ai de nós sem pôr acúcar
nos cotidianos venenos.
Ai de nós não fossem as máscaras
e as pílulas caridosas.


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Lição de Alice, poemas (1980 — 1983) — Astrid Cabral, 1986, Philobiblion, Rio de Janeiro — RJ; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense de Manaus, ainda adolescente mudou-se para o Rio, diplomou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Astrid Cabral: Filosofia de bolso

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O mistério é grande
mas a gente vai
e quebra a cabeça.
A água é funda
mas a gente dá
com os burros n'água.
A vida é dura
mas a gente dá murro
em ponta de faca.
A fome é feia
mas a gente tira
leite das pedras.
Tudo pra num triz
num piscar de olhos
vestir pijama de madeira
e ir comer capim pela raiz.

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Lição de Alice, poemas (1980 — 1983) — Astrid Cabral, 1986, Philobiblion, Rio de Janeiro — RJ; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense de Manaus, ainda adolescente mudou-se para o Rio, diplomou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Astrid Cabral: Antilouvor à rotina

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Sob a capa de paz
a rotina solapa
pertinaz e exata

Sob a capa de paz
a rotina rói e rumina
os calmos dias iguais

Sob a capa de paz
a rotina mói ferina
e ruge furtiva feroz

So a capa de paz
a rotina instila
o vil lento veneno

Sob a capa de paz
a rotina hipócrita
verte seu narcótico
gera o mofo do tédio
o bafo do enfado
o ócio sem remédio

Com ares de calmaria
e doses de anestesia
a rotina em surdina
lima e a conta-gotas
contamina e elimina

Ladra sutil a rotina
rouba o maior amor
e implacável à socapa
dilapida a já mínima
dádiva da vida

Invólucro da rotina
arauto do que finda
a rotina é a inimiga
ladina atrás da porta
suposta inviolável.

A rotina seria a sina
se fôssemos eternos
mas a vida prazo breve
prescreve o torvelinho
antes que nos quedemos
inertes séculos a fio.

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Lição de Alice, poemas (1980 — 1983) — Astrid Cabral, 1986, Philobiblion, Rio de Janeiro — RJ; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense de Manaus, ainda adolescente mudou-se para o Rio, diplomou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Astrid Cabral: Supermercado

Roteiro da Poesia Brasileira - Anos 70 - Livro - Global Editora
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À procura da neve dos requeijões
e das areias de açúcar e sal,
perco-me entre montes de massa:
parafusos que engolirei como faquir,
estrelas (ah incurável romântica!)
para o caldo noturno das sopas,
letras, a erudição em forma de biscoitos.
Passo por exército de latas perfiladas,
patrióticos mazolas e óleos sojas,
galerias de garrafas condecoradas.
Cativa-me a sinceridade dos vidros:
estão nus os retroses de palmitos
e os pêssegos em moedas de ouro.
Transparentes méis, translúcidas geleias
humilham o doce de leite tão cor de lama.
Junto aos cocos barbados laranjas-peras
prisioneiras me espiam pelo vão das redes.
Jirimuns pendem no ar, de corda ao pescoço.
Atrás de esquifes-vitrines perus e frangos
decapitados, esquartejados, ofertam-se
caro data vermi ao verme que todos somos
enquanto o freguês necrófilo confesso
pede ao balconista cem gramas de morta.

(Ponto de cruz  1979)

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 70, Seleção e Prefácio de Afonso Henriques Neto, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2009, São Paulo — SP; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense de Manaus, ainda adolescente mudou-se para o Rio, diplomou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeir UFRJ, lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra.