Pra mim vivê na alegria,
pra mim vivê sussegado,
quiria tê meu ranchinho
c'as parede bem barriado;
no terrêro, úa bandêra
c'o mastro tudo pintado;
um paió de miarada
tudo cheio, atupetado;
na sombra dos arvoredo,
galinha i porco deitado;
no palanque da portêra,
meu cavalo bem arriado,
pra mim vê minha morena
por quem ando apaxonado,
que mora numa fazenda
lá das banda do Cerrado!
Eu falava c'o pai dela,
falava c'os meu cunhado,
pidino cunsentimento
qu'eu já tava perparado,
que tinha tudo o perciso
pra se vivê bem forgado,
i me sobrava corage
pra pegá no meu arado
i trazê meu terreninho
tudo muito bem prantado!
Eu quiria que a morena
por quem ando infitiçado,
andasse c'os seus vistido
tudo muito ripimpado: —
c'uma brusa cor de rosa,
gola cheia de bordado;
i, pertado na cintura,
u'a saia de babado;
i, nos pé, piquinininho,
uns sapatinho carçado,
c'umas fivela de prata
i botãozinho dorado!
Tomára que Deus premíta
de sê tudo rializado,
êsse tão bunito sonho
que já tenho desejado,
pra mim vivê na alegria,
pra mim vivê sussegado!
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Folhas do Mato — versos caipiras, 2ª edição aumentada, Prefácio de Manoel Cerqueira Leite, 1940, Gráfica Sorocabana, Sorocaba — SP; Nhô Bentico e Abílio Soares Víctor (1899 — 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato, Versos Humorísticos, Favas de Ingá e Poemas Sertanejos.


