quarta-feira, 31 de março de 2021

Stéphane Mallarmé: Angústia

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Esta noite eu não vim vencer teu corpo, harpia,
Vórtice do pecado, ou cevar no desejo
Dos teus cabelos vis um lívido lampejo,
Sob o tédio sem fim que o beijo prenuncia.

Só demando ao teu leito o sono em que tu estiras,
Sob as cortinas do remorso reclinada,
E que podes gozar após tantas mentiras,
Tu que ainda sabes mais que os mortos sobre o nada.

Pois o Vício a roer minha nata nobreza
A ti e a mim marcou-nos de esterilidade,
Mas se teu seio tem tão pétrea natureza

No coração que dente algum do crime o invade,
Eu fujo em meus lençóis, hirto, sem cor, sem voz,
Com medo de morrer quando me deito a sós.

Stéphane Mallarmé

Angoisse

Je ne viens pas ce soir vaincre ton corps, ô bête
En qui vont les péchés d'un peuple, ni creuser
Dans tes cheveux impurs une triste tempête
Sous l'incurable ennui que verse mon baiser:

Je demande à ton lit le lourd sommeil sans songes
Planant sous les rideaux inconnus du remords,
Et que tu peux goûter après tes noirs mensonges,
Toi qui sur le néant en sais plus que les morts.

Car le Vice, rongeant ma native noblesse
M'a comme toi marqué de sa stérilité,
Mais tandis que ton sein de pierre est habite

Par un coeur que la dent d'aucun crime ne blesse,
Je fuis, pâle, défait, hanté par mon linceul,
Ayant peur de mourir lorsque je couche seul.
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços Biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés-midi d'un faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira Le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

terça-feira, 30 de março de 2021

B. Lopes: Magnífica

 
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Láctea, da lactescência das opalas,*
Alta, radiosa, senhoril e guapa,
Das linhas firmes do seu corpo escapa
O aroma aristocrático das salas.

Flautas, violinos, harpas de ouro, em alas!
Labaredas do olhar, batei-lhe em chapa!
Vênus que surge, roto o céu da capa,
Num delírio de sons, luzes e galas!

Simples coisa é mister, simples e pouca,
Para trazer a estrela enamorada
De homens e deuses a cabeça louca:

Quinze jardas de seda bem talhada,
Uma rosa ao decote, árias na boca,
E ela arrebata o sol de uma embaixada!

Brasões (1895)


* Nota de Andrade Muricy: A influência de Cruz e Sousa de Broquéis é manifesta.
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Coleção Nossos Clássicos — B. Lopes, Volume 63, por Andrade Muricy, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1962, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança em Rio Bonito RJ, começou a trabalhar muito cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares, foi funcionário público concursado do Correio Geral, poeta e jornalista; escreveu artigos para o Tribuna Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio de Janeiro; bibliografia: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (Rio, 1886), Dona Carmen (poema, 1894), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, etc.; consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890, junto com o poeta Emiliano Perneta; o poeta mestiço, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Gotthold Ephraim Lessing: Água e Vinho

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[traduzido por Raimundo Correia]

A água tomba, destrói, derriba e arrasa
Uma cidade inteira, casa a casa,
       Torres, paredes, muros;
Entre horríveis destroços faz caminho
E nada há que os seus ímpetos suporte...
Que ela é bem menos forte do que o vinho,
Vós contudo o dizeis. Mas por que, então,
Vos espantais se o vinho que é mais forte
Deita um fraco mortal como eu no chão?

Gotthold Ephraim Lessing

Die Stärke des Weins

Wein ist stärker als das Wasser:
Dies gestehn auch seine Hasser.
Wasser reisst wohl Eichen um,
Und hat Häuser umgerissen:
Und ihr wundert euch darum,
Dass der Wein mich umgerissen?
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Gotthold Ephraim Lessing (1729 1781), alemão de Kamenz, Saxônia, foi poeta, dramaturgo, filósofo, crítico de arte e bibliotecário; estudou Latim e Matemática, cursou a Universidade de Leipzig, inicialmente Medicina e Teologia, e depois Literatura e Filosofia; como crítico de arte, colaborou nos jornais Vossiche Zeitung e Berlinische Privilegierte Zeitung; bibliografia: Der Misogyn, Der Freigeist, Die Juden (teatro, comédias, 1751), Miß Sara Sampson (teatro, tragédia, 1755), Fabeln. Drei Bücher (fábula, 1759), Laoköon, oder Über die Grenzen der Malerei und Poesie (Laocoonte, sobre as fronteiras da pintura e da poesia, teoria estética, 1766), Sinngedchte (poesias, 1771), Fabeln und Erzählungen (fábula, 1771), Emilia Gallotti (teatro, tragédia, 1772), Nathan der Weise (Nathan, o sábio, teatro, poema dramático, 1779) e outros títulos em prosa, verso e dramaturgia.

domingo, 28 de março de 2021

Konstantinos Kaváfis: Lápide de Lísias, o gramático

 
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[traduzido por Trajano Vieira]

Alguns passos à destra, quando adentras na biblioteca
de Berito, foi onde enterramos Lísias, o sábio
gramático. Inexiste espaço mais propício.
Depusemo-lo próximo ao que rememora (quem sabe?)
em seu retiro: escólios, infólios, escrituras,
grafias, fascículos prolíficos em hermenêutica
helênica. Outra vantagem: rendemos loas à visão de sua lápide,
ao nos encaminharmos para os livros.

[1914]

K. Kaváfis

ΛΥΣΙΟΥ ΓΡΑΜΜΑΤΙΚΟΥ ΤΑΦΟΣ

Πλησιέστατα, δεξιά που μπαίνεις, στην βιβλιοθήκη
της Βηρυτού θάψαμε τον σοφό Λυσία,
γραμματικόν. Ο χώρος κάλλιστα προσήκει.
Τον θέσαμε κοντά σ' αυτά του που θυμάται
ίσως κ' εκεί  σχόλια, κείμενα, τεχνολογία,
γραφές, εις τεύχη ελληνισμών πολλή ερμηνεία.
Κ' επίσης έτσι από μας θα βλέπεται και θα τιμάται
ο τάφος του, όταν που περνούμε στα βιβλία.

[1914]
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Konstantinos Kaváfis — 60 poemas, Seleção, Tradução e Apresentação de Trajano Vieira, edição bilíngüe, 2ª edição, 2018, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Konstantinos Kaváfis (1863 1933), greco-otomano de Alexandria Egito, à época Império Otomano, foi poeta; ainda em sua primeira infância Kaváfis e família mudaram-se para Liverpool, no Reino Unido e, depois, retornou para Alexandria e ali viveu; teve seus primeiros versos escritos em inglês, e dominava também os idiomas francês e italiano, além do grego; em vida, o poeta não publicou nenhum livro, seus poemas foram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou então divulgados em alguns veículos literários, entre os quais a revista ateniense Panathenea e o jornal de língua grega Hespera, editado em Leipzig, e também teve impressos dois opúsculos (o primeiro, em 1904, com dezesseis folhas, e o segundo, com vinte e quatro); já postumamente, em 1935, através de seus amigos e herdeiros literários Aleko e Rika Singopoulos, editou-se um livro contendo 154 poemas, os considerados canônicos, e cujo conteúdo constituía basicamente de uma coletânea das diversas feuilles volantes anteriormente divulgadas; o poeta deixou-nos outros textos, inéditos, inacabados ou repudiados, os quais não fizeram parte da edição de 1935.

sábado, 27 de março de 2021

Luiz Leitão: Minhas dívidas

 
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Devo a vida a meus pais; ao professor,
O meu preparo, que não vale nada;
Devo à loja, à pensão, devo ao doutor...
Tenho a vida de dívida crivada.

Devo tudo: almofadas, cobertor,
Quarto, mobília, luz, roupa lavada...
Até meu terno, velho, já sem cor,
Estou devendo a um gringo * camarada.

Devo, não nego: estou devendo à beça!
Aos próprios santos, de quem não desdenho,
A cada um deles, devo uma promessa.

E apesar de viver endividado,
Para aumentar as dívidas que tenho
Eu vivo sempre a conversar fiado **...


Notas da edição de Vida apertada: (Glossário, estabelecido por Luiz Antonio Barros):
* gringo: estrangeiro louro ou ruivo; o argentino, o uruguaio. Judeu que vende a prestações. ([A gíria brasileira, Antenor] Nascentes, 1953)
** conversar fiado: ser dado a conversa fiada, ou seja, propósito de quem não tem interesse de cumprir o que promete, não tenciona cumprir o que promete, conversa sem interesse nem resultado. [idem, ibidem]
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Vida apertada, Sonetos humorísticos — Luiz Leitão, 2ª edição, Edição crítica, Organização e Notas de Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e Glossário estabelecido por Luiz Antonio Barros, 2009, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, também de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Castro Alves: Na fonte

 
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I
"Era hoje ao meio-dia.
Nem uma brisa macia
Pela savana bravia
Arrufava os ervaçais...
Um sol de fogo abrasava;
Tudo a sombra procurava;
Só a cigarra cantava
No tronco dos coqueirais.

II
"Eu cobri-me da mantilha,
Na cabeça pus a bilha,
Tomei do deserto a trilha,
Que lá na fonte vai dar.
Cansada cheguei na mata:
Ali, na sombra, a cascata
As alvas tranças desata
Como u'a moça a brincar.

III
"Era tão densa a espessura!
Corria a brisa tão pura!
Reinava tanta frescura,
Que eu quis me banhar ali.
Olhei em roda... Era quedo
O mato, o campo, o rochedo...
Só nas galhas do arvoredo
Saltava alegre o sagüi.

IV
"Junto às águas cristalinas
Despi-me louca, traquinas,
E as roupas alvas e finas
Atirei sobre os cipós.
Depois mirei-me inocente,
E ri vaidosa... e contente...
Mas voltei-me de repente...
Como que ouvira uma voz!

V
"Quem foi que passou ligeiro,
Mexendo ali no ingazeiro,
E se embrenhou no balceiro,
Rachando as folhas do chão?...
Quem foi?! Da mata sombria
Uma vermelha cutia
Saltou tímida e bravia,
Em procura do sertão.

VI
"Chamei-me então de criança;
A meus pés a onda mansa
Por entre os juncos s'entrança
Como uma cobra a fugir!
Mergulho o pé docemente;
Com o frio fujo à corrente...
De um salto após de repente
Fui dentro d'água cair.

VII
"Quando o sol queima as estradas,
E nas várzeas abrasadas
Do vento as quentes lufadas
Erguem novelos de pó,
Como é doce em meio às canas,
Sob um teto de lianas,
Das ondas nas espadanas
Banhar-se despida e só!...

VIII
"Rugitavam os palmares...
Em torno dos nenufares
Zumbiam pejando os ares
Mil insetos de rubim...
Eu naquele leito brando
Rolava alegre cantando...
Súbito... um ramo estalando
Salta um homem junto a mim!"

[A Cachoeira de Paulo Afonso]

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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho, hoje Castro Alves, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta e também escritor; na poesia, destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida, 1870), Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...

quinta-feira, 25 de março de 2021

Luiz Leitão: Ao público *

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Publicando estes versos incolores,
Que ao respeitável público ofereço,
Peço um sorriso apenas, dos leitores,
Já que boas risadas não mereço.

Fi-los por ter o espírito travesso,
Para, espalhando-os pelos compradores,
Minorar as torturas, que padeço,
Da vil perseguição dos meus credores.

Fi-los sem pretensões e sem vaidades,
Para abrandar um pouco a prontidão **,
A mais horrível das enfermidades.

São versos de uma musa atrapalhada,
De quem procura ver se fica são ***,
De quem vive, afinal, VIDA APERTADA...


Notas:
* o atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa faz constar que este  Ao público é o primeiro dos poemas constantes em Vida apertada e serve também como dedicatória aos leitores, além da apresentação da obra pelo próprio autor, Luiz Leitão ou Lili Leitão, como era conhecido;
** da edição de Vida apertada, do Glossário, de Luiz Antonio Barros: prontidão: condição de pronto, isto é, sem dinheiro. ([A gíria brasileira, Antenor] Nascentes, 1953);
*** em mais um atrevimento, este aprendiz de blogueiro supõe/entende que o poeta-humorista registra ver se fica são, neste segundo terceto do soneto, para trocadilhar com versificação.
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Vida apertada, Sonetos humorísticos — Luiz Leitão, 2ª edição, Edição crítica, Organização e Notas de Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e Glossário de Luiz Antonio Barros, 2009, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, também de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Guerra-Duval: Ontem de noite...

 
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Ontem de noite...
Na noite negra o inverno branco.
Negro e branco d’água forte
Ontem de noite,
Ardia ainda o meu Círio branco;
À meia-noite,
Veio e soprou-o a feia Morte.

À meia-noite,
Bateu à porta bem de mansinho,
Como um mendigo desgraçadinho
Que pela esmola,
(Ai! feia Morte, por que apagaste os Olhos Noivos?
Ontem de noite,
O Padre veio d’hissope e estola...
Eu aspergi-A, depois cobri-A de dor e goivos.

À meia noite,
(Doze corujas piando, as carnes arrepiando...)
Um cão negro veio uivar à porta
Da minha Noiva morta;
Ontem de noite,
Noite de agoiros roxos corvejando
No meu peito (inda as tenho cravadas!)
Sete assassinos cravaram Sete Espadas!

(Palavras que o Vento leva..., págs. 151-153.)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 1, (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 2ª edição, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Adalberto Guerra-Duval (1872 1947), gaúcho de Porto Alegre, graduado em Direito por São Paulo, seguiu carreira diplomática, foi poeta e secretário do semanário Rua do Ouvidor, de duração efêmera; Guerra-Duval não só é considerado “o introdutor do verso livre na poesia brasileira, mas também um virtuoso da métrica, que usou versos longos e curtos segundo técnicas diversas e com igual perícia”; como diplomata, serviu em capitais da Europa (Roma, Londres, Haia, Berlim, Lisboa) e da América Latina (Assunção e Buenos Aires), aposentando-se como embaixador em Roma; escreveu e publicou Palavras que o Vento Leva... (Oficinas de Ad. Mertens, Bruxelas, 1900), além de textos dispersos, quase sempre poesias, em gazetas e revistas da época; restaram inéditos, um volume de versos, e dois de prosa: Conceito Moral do Esporte e Cifra, coletânea de recordações de sua vida literária e diplomática; faleceu em Petrópolis.

terça-feira, 23 de março de 2021

Wallace Stevens: O homem do violão azul * [trechos IV, V e VI]

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

. . .

IV

Então a vida é isso: as coisas como são?
Ela tateia sobre o violão.

Mas numa corda só, toda essa gente?
E tudo que eles são, tão totalmente,

E tudo que eles são, o fraco e o forte,
E tudo que eles são, a vida e a morte?

E loucamente os sentimentos clamam,
Zunindo como moscas no outono,

E a vida é isso: as coisas como são,
Este zunido azul do violão.

V

Não fales na grandeza da poesia,
Em tochas murmurantes subterrâneas,

Na estrutura das tumbas num ponto de luz.
Não há sombras em nosso sol,

Dia é desejo e noite é sono.
Não há sombras em lugar nenhum.

Para nós, a terra é nua e plana.
Não há sombras. A poesia

Mais do que a música há de ocupar
O vazio de um céu sem hinos;

Em nossa poesia o ocuparemos,
Nessa zoeira de teu violão.

VI

Além de nós tais quais somos, uma canção,
Porem nada alterado pelo violão,

Nós na canção como se no ar,
Porém nada alterado, só o lugar

Das coisas como são, e só o lugar
Em que as tocas, no violão azul,

Fora do alcance de qualquer mudança,
Captadas numa atmosfera final;

Finais por um momento, como é final
Pensar na arte, quando pensar

Em deus é feito orvalho enfumaçado.
A canção é espaço. O violão azul

Vira o lugar das coisas como são,
Um conjugar dos sentidos do violão.

. . .

Wallace Stevens

The man with the blue guitar [excerpts]

. . .

IV

So that's life, then: things as they are?
It picks its way on the blue guitar.

A million people on one string?
And all their manner in the thing,

And all their manner, right and wrong,
And all their manner, weak and strong?

The feelings crazily, craftily call,
Like a buzzing of flies in autumn air,

And that's life, then: things as they are,
This buzzing of the blue guitar.

V

Do not speak to us of the greatness of poetry,
Of the torches wisping in the underground,

Of the structure of vaults upon a point of light.
There are no shadows in our sun,

Day is desire and night is sleep.
There are no shadows anywhere.

The earth, for us, is flat and bare.
There are no shadows. Poetry

Exceeding music must take the place
Of empty heaven and its hymns,

Ourselves in poetry must take their place,
Even in the chattering of your guitar.

VI

A tune beyond us as we are,
Yet nothing changed by the blue guitar;

Ourselves in the tune as if in space,
Yet nothing changed, except the place

Of things as they are and only the place
As you play them, on the blue guitar,

Placed, so, beyond the compass of change,
Perceived in a final atmosphere;

For a moment final, in the way
The thinking of art seems final when

The thinking of god is smoky dew.
The tune is space. The blue guitar

Becomes the place of things as they are,
A composing of senses of the guitar.

. . .

The Man With the Blue Guitar (1937)

* Nota do blogue Verso e Conversa: este atrevido aprendiz de blogueiro anota que o poema O homem do violão azul (The man with the blue guitar) é composto de 33 estrofes.
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Poemas — Wallace Stevens, Seleção, Tradução e Introdução de Paulo Henriques Britto, edição bilíngue, 1987, Companhia das Letras, Editora Schwarcz, São Paulo — SP; Wallace Stevens (1879 1955), estadunidense de Reading, Pensilvânia, estudou Direito em Harward e na New York Law School, foi poeta, jornalista, advogado e administrador de companhia de seguros; em 1914, teve seus primeiros poemas divulgados na revista Poetry, de Harriet Monroe; como jornalista, por um breve período foi repórter do New York Evening Post; suas obras: Harmonium (1923), The Man With the Blue Guitar (1937), Parts of a World (1942) Esthétique Du Mal (1945), Three Academic Pieces (1947), The Auroras of Autumn (1950), The Necessary Angel (ensaios, 1951); Collected Poems (1954), Opus Posthumous (1957) e outros títulos, além de duas peças para teatro; recebeu premiações por sua obra (Prêmio Bollingen, National Book Award Poesia e Prêmio Pulitzer de Poesia); hoje, considerável parte da crítica o posiciona literariamente como um dos maiores poetas americanos, ao lado de Ezra Pound, T. S. Eliot, William Carlos William e Marianne Moore.

segunda-feira, 22 de março de 2021

José Paulo Paes: Nova ode ao burguês

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As paredes, imóveis como porto,
Guardam-lhe o corpo de pedra cautelosa
Um horizonte de nuvens o desposa,
Mas ele, receoso, não desliza.

Numa dança contínua, as coisas voam.
Há em tudo lampejos de recreio.
Voam pássaros no quarto, e o vôo alheio
Deixa em seu peito um pássaro ofegante.

No crepúsculo do copo esconde a face
E o peixe esguio, entrando-lhe a garganta,
Provoca um oceano, de onde nascem
Permanências de água tumultuosa.

Quando o íntimo duelo nele instala
Sua esfera, noturna aparição,
blues terrível rasteja pela sala
Morde-lhe o coração de sangue e vento.

Epigramas (1958)

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Um ironismo como outro qualquer: A ironia na poesia de José Paulo Paes — João Carlos Biella, Prefácio de Sylvia Helena Telarolli de Almeida Leite, 2008, Editora UNESP, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, editor, jornalista, ensaísta e crítico literário; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido através de seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; escreveu e publicou: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Epigramas (1958), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Resíduo (1973), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Poemas para brincar (infantil, 1989), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor e tradutor, verteu para o português autores ingleses, italianos, gregos, norte-americanos, dinamarqueses etc. etc., tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.

domingo, 21 de março de 2021

Hilda Hilst: O que ficou de mim . . .

 

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II

De tudo que ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco
(Carlos Drummond de Andrade)

O que ficou de mim
além de eu mesma
não o sei.
Nem o digas às crianças
porque no que ficou
a palavra de amor
está partida

imperceptível sombra
de flor no ramo frágil.

Nem o digas aos homens
Era o rio
e antes do rio havia areia.
Era praia
e depois da praia havia o mar.
Era amigo
ah! e se tivesse existido
quem sabe ficava eterno.

Nada ficou de mim
além de eu mesma.
Tênue vontade de poesia
e mesmo isso

imperceptível sombra
de flor no ramo frágil.

Balada de Alzira — 1951

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Baladas — Hilda Hilst, Organização e plano de edição de Alcir Pécora, 2003, Editora Globo, São Paulo — SP; Hilda de Almeida Prado Hilst (1930 2004), paulista de Jaú, formada em Direito pela Universidade de São Paulo, foi poeta, ficcionista e dramaturga; escreveu e publicou: em poesia, Presságio (1950), Balada de Alzira (1951), Balada do Festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado senhor (1960), Ode Fragmentária (1961), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), Da Morte. Odes Mínimas (1980), Cantares de Perda e Predileção (1983), Poemas Malditos, Gozosos e Devotos (1984), Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Bufólicas (1992), Exercícios (2002) entre outros títulos; ficção: Fluxofloema (1970), Qadós (1973), Tu não te moves de ti (1980), A Obscena Senhora D (1982), Contos d'escárnio (1992), Cartas de um sedutor (1991) etc.; dramaturgia: Teatro Reunido, volume I (2000); Hilda Hilst teve seu trabalho reconhecido nos meios literários, foi detentora de muitas premiações e teve obras traduzidas para o francês, italiano, espanhol, inglês e alemão; em 1965, em Campinas SP, construiu a Casa do Sol, ali passou a residir, e dali passou a produzir seus textos; hoje, a Casa do Sol é a sede do Instituto Hilda Hilst, o qual objetiva preservar a sua obra e o local onde a autora trabalhou.