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Vilancete*
Entrou meu olhar por
entre
A fresta de teu vestido,
E aí ficou escondido...
Voltas
Os poetas amam a lua,
Dizem aí com a verdade,
Que, por sua claridade,
Aluados andam na rua...
Vi-te a espádua: oh! culpa
a tua
Blusa de rendas... que o
olhar
Entrou em busca de
luar...
Entrou pela frincha estreita
De um entremeio bordado,
E ficou maravilhado!
Ora hesita, agora
espreita,
Dorme, sonha e se
deleita,
E, sem que houveras sentido,
Aí ficou escondido.
Poeta sendo, o olhar
procura
O luar da fascinação;
Pois tens luar no
coração,
E luar, na pupila
escura,
Luz de lua ou neve pura
Vejo, num fio, em teu
colo,
Branco e frio luar de
polo.
Meu ardente olhar se
atreve
A entrar, já que tanto
ardia,
Em busca de neve fria,
E aquilo certo era neve.
Entrou, fechou-se de
leve,
Temendo eterna cegueira
E notou que é luar e...
cheira!
Não me condenes,
Senhora,
Se te olhar com insistência,
Que olhar a lua é
demência,
E és meu luar de toda a
hora!
Não vejo mais nada
agora,
Que o olhar ficou num
florido
Floco de espuma
escondido...
Ficando em tão lindo
abrigo,
Perto de espádua tão
branca,
Tanto suspiro me arranca
Que eu já nem conto
comigo.
Corres um certo perigo:
Que me arde o olhar, à
maneira
De um sol... sobre uma
geleira.
* Nota de Organizador Sânzio
de Azevedo: In: Poesias. 2ª Série. Rio de Janeiro: Garnier, 1911, pp. 23-4.
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Goulart de Andrade — Série Essencial 50, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação e Notas de Sânzio de Azevedo, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; José Maria Goulart de Andrade (1881 — 1936), alagoano de Maceió, estudante da Escola Naval do Rio de Janeiro e formado na Escola Politécnica, foi engenheiro, geólogo, jornalista, professor, poeta, romancista, cronista e teatrólogo; obras: Poesias, 1900 — 1905 (1907), Teatro (1909), Poesias, 2ª série, 1908 — 1909 (1911), Os Inconfidentes (teatro, 1911), Numa Nuvem (teatro, 1911), Contos do Brasil Novo (1923), Um dia a casa cai (teatro, 1923), Ocaso — 3ª série das Poesias (1934).



