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quinta-feira, 7 de abril de 2022

Goulart de Andrade: Os poetas amam a lua, . . .

 
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Vilancete*

Entrou meu olhar por entre
A fresta de teu vestido,
E aí ficou escondido...

Voltas

Os poetas amam a lua,
Dizem aí com a verdade,
Que, por sua claridade,
Aluados andam na rua...
Vi-te a espádua: oh! culpa a tua
Blusa de rendas... que o olhar
Entrou em busca de luar...

Entrou pela frincha estreita
De um entremeio bordado,
E ficou maravilhado!
Ora hesita, agora espreita,
Dorme, sonha e se deleita,
E, sem que houveras sentido,
Aí ficou escondido.

Poeta sendo, o olhar procura
O luar da fascinação;
Pois tens luar no coração,
E luar, na pupila escura,
Luz de lua ou neve pura
Vejo, num fio, em teu colo,
Branco e frio luar de polo.

Meu ardente olhar se atreve
A entrar, já que tanto ardia,
Em busca de neve fria,
E aquilo certo era neve.
Entrou, fechou-se de leve,
Temendo eterna cegueira
E notou que é luar e... cheira!

Não me condenes, Senhora,
Se te olhar com insistência,
Que olhar a lua é demência,
E és meu luar de toda a hora!
Não vejo mais nada agora,
Que o olhar ficou num florido
Floco de espuma escondido...

Ficando em tão lindo abrigo,
Perto de espádua tão branca,
Tanto suspiro me arranca
Que eu já nem conto comigo.
Corres um certo perigo:
Que me arde o olhar, à maneira
De um sol... sobre uma geleira.


* Nota de Organizador Sânzio de Azevedo: In: Poesias. 2ª Série. Rio de Janeiro: Garnier, 1911, pp. 23-4.
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Goulart de Andrade — Série Essencial 50, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação e Notas de Sânzio de Azevedo, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; José Maria Goulart de Andrade (1881 1936), alagoano de Maceió, estudante da Escola Naval do Rio de Janeiro e formado na Escola Politécnica, foi engenheiro, geólogo, jornalista, professor, poeta, romancista, cronista e teatrólogo; obras: Poesias, 1900 — 1905 (1907), Teatro (1909), Poesias, 2ª série, 1908 — 1909 (1911), Os Inconfidentes (teatro, 1911), Numa Nuvem (teatro, 1911), Contos do Brasil Novo (1923), Um dia a casa cai (teatro, 1923), Ocaso — 3ª série das Poesias (1934).

terça-feira, 27 de março de 2018

Goulart de Andrade: Por quê?

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Ris, se digo que és boa; e se te digo
Que és má, tomas um ar de indiferença...
Fazes um gesto vago de descrença,
Quando afirmo serei teu muito amigo...

Se de tuas promessas te desligo,
Amuas-te; e é fatal a desavença,
Ao te falar da gratidão imensa
E do respeito meu para contigo...

Se as mãos te beijo, cedes; mas, fremente,
Se a procuro, essa boca me resiste!...
Enfado-me, gargalha loucamente!

Não sei, porém, se alta razão te assiste,
Se a atitude é de sábio ou de demente,
Quando, ao jurar que te amo, ficas triste!

Ocaso  1934.
Rio de Janeiro: Renascença, p. 8.

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Goulart de Andrade Série Essencial 50, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação e Notas de Sânzio de Azevedo, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo SP; José Maria Goulart de Andrade (1881 1936), alagoano de Maceió, estudante da Escola Naval do Rio de Janeiro e formado na Escola Politécnica, foi geólogo, engenheiro, jornalista, professor, poeta, romancista, cronista e teatrólogo; sua bibliografia: Poesias, 1900 1905 (1907), Teatro (1909), Poesias, 2ª série, 1908 1909, (1911), Os Inconfidentes (teatro, 1911), Numa Nuvem (teatro, 1911), Contos do Brasil Novo (1923), Um dia a casa cai (teatro, 1923), Ocaso  3ª série das Poesias (1934).

domingo, 18 de março de 2018

Goulart de Andrade: Casa Nova

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Pesar da trama do ódio e das intrigas,
Sempre estivestes em minhas conjecturas;
Hoje que, ao fim das penas, me procuras,
Já não preciso mais que te desdigas.

Do peito, por desvãos, salas escuras,
A que invadiram ervas más e urtigas,
Varri as teias de ilusões antigas,
Arredei sonhos gastos, velhas juras.

Afinal, chegas! Doente da jornada;
Travo de fel na boca; mas, risonha;
Olhos de insônia; pálida, cansada...

De linho fresco pus lençol e fronha:
Tudo se renovou nesta morada...
Vem; repousa a cabeça; dorme e sonha!...

Ocaso  1934.
Rio de Janeiro: Renascença, p. 9.

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Goulart de Andrade Série Essencial 50, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação e Notas de Sânzio de Azevedo, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo SP; José Maria Goulart de Andrade (1881 1936), alagoano de Maceió, estudante da Escola Naval do Rio de Janeiro e formado na Escola Politécnica, foi geólogo, engenheiro, jornalista, professor, poeta, romancista, cronista e teatrólogo; sua bibliografia: Poesias, 1900 1905 (1907), Teatro (1909), Poesias, 2ª série, 1908 1909, (1911), Os Inconfidentes (teatro, 1911), Numa Nuvem (teatro, 1911), Contos do Brasil Novo (1923), Um dia a casa cai (teatro, 1923), Ocaso  3ª série das Poesias (1934).

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Machado de Assis: Círculo Vicioso


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Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
 "Quem me dera que fosse aquela loura estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

 "Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

 "Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

 "Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul  e desmedida umbela.
Porque não nasci eu um simples vaga-lume!"
Poesias completas (1901)
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Roteiro da Poesia Brasileira — Parnasianismo, Seleção e Prefácio de Sânzio de Azevedo, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo — SP; Joaquim Maria Machado de Assis (1839 1908), nascido no Rio de Janeiro, autodidata, além de ter sido poeta é tido como o maior ficcionista brasileiro; sua obra poética compreende Crisálidas (1864), Falenas (1870), Americanas (1875) e Poesias Completas (1901), que inclui "Ocidentais", de feição parnasiana; foi fundador e primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Alberto de Oliveira: O Pior dos Males

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Baixando à Terra, o cofre em que guardados
Vinham os Males, indiscreta abria
Pandora. E eis deles desencadeados
Á luz, o negro bando aparecia.

O Ódio, a Inveja, a Vingança, a Hipocrisia,

Todos os Vícios, todos os Pecados
Dali voaram. E desde aquele dia
Os homens se fizeram desgraçados.

Mas a Esperança, do maldito cofre
Deixara-se ficar presa no fundo,
Que é última a ficar na angústia humana...

Por que não voou também? Para quem sofre
Ela é o pior dos males que há no mundo,
Pois dentre os males é o que mais engana.


Poesias, segunda série (1906)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Parnasianismo, Seleção e Prefácio de Sânzio de Azevedo, Direção de Edla van Steen, 2006, Editora Global, São Paulo SP; Antônio Mariano Alberto de Oliveira (1857 1937), fluminense de Palmital de Saquarema, foi poeta e figura de destaque do Parnasianismo; publicou Canções românticas (1878), Meridionais (1884), Sonetos e poemas (1885), Versos e Rimas (1895), que reuniu em Poesias — primeira série (1900) e mais Poesias — segunda série (1906), Poesias — terceira série (1913) e Poesias — quarta série (1927).

segunda-feira, 12 de março de 2012

Júlia Cortines: O lago


Um pouco d'água só e, ao fundo, areia ou lama,
Um pouco d'água em que, no entanto se retrata,
O pássaro que o vôo aos ares arrebata,
e o rubro e infindo céu do crepúsculo em chama.

Água que se transmuda em reluzente prata
Quando do bosque em flor, que as brisas embalsama,
A lua, como uma áurea e finíssima trama,
Pelos ombros da noite a sua luz desata.

Poeta, como esse lago adormecido e mudo
Onde não há, sequer, um frêmito de vida,
Onde tudo é ilusório, e passageiro é tudo.

Existem, sobre um fundo, ou de lama ou de areia,
Almas em que tu vês, apenas, refletida
A tua alma, onde, o sonho astros de ouro semeia.
Vibrações (1905)
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Os Mais Belos Sonetos Brasileiros 
— Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª  edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro RJ; Roteiro da Poesia Brasileira Parnasianismo, Seleção e Prefácio de Sânzio de Azevedo, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo SP; da vida da poetisa e cronista Júlia Cortines Laxe (1868 1948), fluminense de Rio Bonito, apesar de sua longevidade, pouco ou nada se sabe, supondo-se que tenha sido professora; no início do século XX, no meio literário brasileiro, chegou a ser considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905).

sábado, 3 de março de 2012

Francisca Júlia: Rústica


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Da casinha em que vive, o reboco alvacento
Reflete o ribeirão na água clara e sonora.
Este é o ninho feliz e obscuro em que ela mora.
Além, o seu quintal; este, o seu aposento.

Vem do campo, a correr; e úmida do relento,
Toda ela, fresca do ar, tanto aroma evapora,
Que parece trazer consigo, lá de fora,
Na desordem da roupa e do cabelo, o vento...

E senta-se. Compõe as roupas. Olha em torno
Com seus olhos azuis onde a inocência bóia;
Nessa meia penumbra e nesse ambiente morno.

Pegando da costura à luz da clarabóia,
Põe na ponta do dedo em feitio de adorno,
O seu lindo dedal com pretensão de jóia.
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Antologia de Antologias  101 poemas brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, e prefácio de Alfredo Bosi, 1ª edição (2ª reimpressão), Musa Editora, 2004, São Paulo SP (O poema Rústica foi transcrito de Esfinges, conforme Marques Rebelo  Antologia Escolar Brasileira  1ª edição, MEC, 1967); Roteiro da Poesia Brasileira  Parnasianismo, Seleção e Prefácio de Sânzio Azevedo, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo  SP; Francisca Júlia da Silva Munster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas; deixou-nos como legado Mármores (1895), Esfinges (1903) e Alma infantil (1912), este último em colaboração com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição em 1920.