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sábado, 28 de fevereiro de 2026

Friedrich Nietzsche: 341. O mais pesado dos pesos — E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão . . .

 
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[traduzido por Rubens Rodrigues Torres Filho]

& 341

O mais pesado dos pesos —  E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez e tu com ela, poeirinha da poeira!” Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu é um deus, e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

[A Gaia Ciência]

Friedrich Nietzsche

341
Das größte Schwergewicht.  Wie, wenn dir eines Tages oder Nachts ein Dämon in deine einsamste Einsamkeit nachschliche und dir sagte: »Dieses Leben, wie du es jetzt lebst und gelebt hast, wirst du noch einmal und noch unzählige Male leben müssen; und es wird nichts Neues daran sein, sondern jeder Schmerz und jede Lust und jeder Gedanke und Seufzer und alles unsäglich Kleine und Große deines Lebens muß dir wiederkommen, und alles in derselben Reihe und Folge und ebenso diese Spinne und dieses Mondlicht zwischen den Bäumen, und ebenso die ser Augenblick und ich selber. Die ewige Sanduhr des Daseins wird immer wieder umgedreht und du mit ihr, Stäubchen vom Staube!« Würdest du dich nicht niederwerfen und mit den Zähnen knirschen und den Dämon verfluchen, der so redete? Oder hast du einmal einen ungeheuren Augenblick erlebt, wo du ihm antworten würdest: »du bist ein Gott und nie hörte ich Göttlicheres!« Wenn jener Gedanke über dich Gewalt bekäme, er würde dich, wie du bist, verwandeln und vielleicht zermalmen; die Frage bei allem und jedem: »willst du dies noch einmal und noch unzählige Male?« würde als das größte Schwergewicht auf deinem Handeln liegen! Oder wie müßtest du dir selber und dem Leben gut werden, um nach nichts mehr zu verlangen als nach dieser letzten ewigen Bestätigung und Besiegelung?

(Die fröliche Wissenschaft — 1882)
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Os Pensadores — Volume XXXII: Nietzsche — Obras incompletas, Seleção de textos de Gérard Lebrun e Tradução e Notas de Rubens Rodrigues Torres Filho, 1974 — Abril Cultural, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Friedrich Nietzsche: 204. Dânae e deus no ouro.


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[traduzido por Paulo César de Souza]

204. Dânae e deus no ouro.* De onde vem essa desmedida impaciência que hoje em dia torna alguém um criminoso, em condições que explicariam melhor a tendência oposta? Pois se um homem utiliza pesos falsos, um outro incendeia a própria casa, após tê-la segurado por um alto valor, um terceiro se envolve na falsificação de dinheiro, e três quartos da alta sociedade se dedicam ao logro autorizado e partilham a má consciência da bolsa e da especulação: o que impele essa gente? Não a necessidade verdadeira, não vão assim tão mal, talvez comam e bebam sem problemas o que os constrange, dia e noite, é a terrível impaciência de ver o dinheiro acumular-se muito lentamente, e um prazer e um amor igualmente terríveis pelo dinheiro acumulado. Nessa impaciência e nesse amor, porém, revela-se novamente aquele fanatismo da ânsia de poder, que em outros tempos foi inflamado pela crença de estar de posse da verdade, e que tinha nomes tão belos que se podia ousar ser desumano com boa consciência (queimando judeus, heréticos e bons livros, e exterminando culturas superiores como as do Peru e do México). Os meios da ânsia de poder mudaram, mas o mesmo vulcão ainda arde, a impaciência e o amor desmedido reclamam suas vítimas: e o que antigamente se fazia “em nome de Deus” hoje se faz pelo dinheiro, isto é, por aquilo que agora proporciona o máximo de sensação de poder e boa consciência.

Friedrich Nietzsche

204
Danae und Gott im Golde.  Woher diese unmäßige Ungeduld, welche jetzt den Menschen zum Verbrecher macht, in Zuständen, welche den entgegengesetzten Hang besser erklären würden? Denn wenn dieser falsches Gewicht gebraucht, jener sein Haus anbrennt, nachdem er es hoch versichert hat, ein dritter am Prägen falschen Geldes Anteil nimmt, wenn drei Viertel der höheren Gesellschaft dem erlaubten Betruge nachhängt und am schlechten Gewissen der Börse und der Spekulation zu tragen hat: was treibt sie? Nicht die eigentliche Not, es geht ihnen nicht so ganz schlecht, vielleicht sogar essen und trinken sie ohne Sorge aber eine furchtbare Ungeduld darüber, daß das Geld sich zu langsam häuft, und eine ebenso furchtbare Lust und Liebe zu gehäuftem Gelde drängt sie bei Tage und bei der Nacht. In dieser Ungeduld und dieser Liebe aber kommt jener Fanatismus des Machtgelüstes wieder zum Vorschein, welcher ehemals durch den Glauben, im Besitz der Wahrheit zu sein, entzündet wurde und der so schöne Namen trug, daß man es daraufhin wagen konnte, mit gutem Gewissen unmenschlich zu sein (Juden, Ketzer und gute Bücher zu verbrennen und ganze höhere Kulturen, wie die von Peru und Mexiko auszurotten). Die Mittel des Machtgelüstes haben sich verändert, aber derselbe Vulkan glüht noch immer, die Ungeduld und die unmäßige Liebe wollen ihre Opfer: und was man ehedem »um Gottes willen« tat, tut man jetzt um des Geldes willen, das heißt um dessen willen, was jetzt am höchsten Machtgefühl und gutes Gewissen gibt.

Nota do tradutor Paulo César de Souza: Dânae: na mitologia grega, filha de um rei que, encerrada numa câmara pelo pai, para impedir que tivesse relações com algum homem, foi fecundada por Zeus sob a forma de uma chuva de ouro.
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Aurora: Reflexões sobre os preconceitos morais — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 2016, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Friedrich Nietzsche*: Por que sou um destino [trecho]

 
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[traduzido por Paulo César de Souza]

2.
Querem uma fórmula para um destino assim? que se fez homem? Ela se encontra no meu Zaratustra.
— e quem um criador quiser ser no bem e no mal, deverá ser primeiro um destruidor, e despedaçar valores.
Assim o mal maior é próprio do maior bem: este porém é o criador.**
Eu sou, no mínimo, o homem mais terrível que até agora existiu o que não impede que eu venha a ser mo mais benéfico. Eu conheço o prazer de destruir em um grau conforme à minha força para destruir em ambos obedeço à minha natureza dionisíaca, que não sabe separar o dizer Sim do fazer Não. Eu sou o primeiro imoralista: e com isso sou o destruidor par excellence.

Friedrich Nietzsche

Warum ich ein Schicksal bin

2
Will man eine Formel für ein solches Schicksal, das Mensch wird? Sie steht in meinem Zarathustra.
und wer ein Schöpfer sein will im Guten und Bösen, der muß ein Vernichter erst sein und Werte zerbrechen.
Also gehört das höchste Böse zur höchsten Güte: diese aber ist die schöpferische.
Ich bin bei weitem der furchtbarste Mensch, den es bisher gegeben hat; dies schließt nicht aus, daß ich der wohltätigste sein werde. Ich kenne die Lust am Vernichten in einem Grade, die meiner Kraft zum Vernichten gemäß ist, in beidem gehorche ich meiner dionysischen Natur, welche das Neintun nicht vom Jasagen zu trennen weiß. Ich bin der erste Immoralist: damit bin ich der Vernichter par excellence.

Notas:
* deste Verso e Conversa: O incorrigível e atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe que, no Posfácio de Ecce homo, o tradutor Paulo César de Souza anota o seguinte:
Em 1908, numa das reuniões semanais da pequena Sociedade Psicanalítica de Viena, na casa do dr. Sigmund Freud, o tema proposto para discussão foi Ecce homo. Durante a reunião — que tratou sobretudo do “caso” Nietzsche, não de suas idéias — Freud fez três observações de interesse. Disse que o livro não podia ser desconsiderado como produto de insânia, porque nele se preservava o domínio da forma. Disse que ninguém havia antes alcançado, e dificilmente alguém tornaria a alcançar, o grau de introspecção alcançado por Nietzsche. E disse que nunca havia estudado Nietzsche, devido à semelhança entre as percepções do filósofo e as investigações da psicanálise (evitava-o para preservar a independência de espírito), e devido à riqueza de idéias daquelas obras, que o impedia de ler mais que metade de uma página (!).
Esta última afirmação deve interessar aos estudiosos da relação entre Freud e Nietzsche. As duas primeiras interessam ao leitor de Ecce homo. . . . ”
** do tradutor Paulo César de Souza: Citado, com ligeiras alterações, do Zaratustra, parte II. “Da autosuperação”.
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Ecce Homo — Como Alguém se Torna o que é: Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 2ª edição, 4ª reimpressão, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

domingo, 7 de setembro de 2025

Friedrich Nietzsche: 317. Motivo de ataque. — Não se ataca apenas para fazer mal a alguém, para derrotá-lo, mas talvez simplesmente para tomar consciência da própria força. & outros aforismos

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[traduzido por Paulo César de Souza]

capítulo sexto — O homem em sociedade

     298. O partidário mais perigoso. — Em todo partido há alguém que, ao enunciar com demasiada fé os princípios do partido, estimula os demais à apostasia.
     305. O equilíbrio da amizade. — Às vezes, em nosso relacionamento com outra pessoa, o justo equilíbrio da amizade é restaurado se pomos em nosso prato da balança uma pitada de falta de razão.
     317. Motivo de ataque. — Não se ataca apenas para fazer mal a alguém, para derrotá-lo, mas talvez simplesmente para tomar consciência da própria força.
     337. Dissabor com a benevolência alheia. — Enganamo-nos quanto à intensidade em que nos cremos odiados ou temidos: porque nós mesmos conhecemos bem o grau de nossa divergência em relação a uma pessoa, uma tendência, um partido, mas eles nos conhecem superficialmente, e portanto nos odeiam superficialmente. É frequente depararmos com uma benevolência que para nós é inexplicável; mas se a compreendemos, então ela nos ofende, porque mostra que nos levam bastante a sério, não nos dão suficiente importância.
     346. Indelicado sem querer. — Quando alguém, sem o querer, trata indelicadamente outra pessoa, por exemplo, não a cumprimenta por não tê-la reconhecido, isto o aborrece, ainda que não possa repreender sua consciência; incomoda-o a má impressão que produziu no outro, ou teme as consequências de um mal-entendido, ou o entristece ter ferido o outro — portanto, vaidade, medo ou compaixão podem ser despertados, ou talvez tudo isso ao mesmo tempo.

Humano, demasiado humano,
um livro para espíritos livres[Livro 1]

Friedrich Nietzsche

Sechstes Hauptstück. Der Mensch im Verkehr

     298 Der gefährlichste Parteimann. — In jeder Partei ist einer, der durch sein gar zu gläubiges Aussprechen der Parteigrundsätze die Übrigen zum Abfall reizt.
     305 Gleichgewicht der Freundschaft. — Manchmal kehrt, im Verhältnis von uns zu einem andern Menschen, das rechte Gleichgewicht der Freundschaft zurück, wenn wir in unsre eigne Wagschale einige Gran Unrecht legen.
     317 Motiv des Angriffs. — Man greift nicht nur an, um Jjemandem wehe zu tun, ihn zu besiegen, sondern vielleicht auch nur, um sich seiner Kraft bewußt zu werden.
     337 Verdruß am Wohlwollen anderer. — Wir irren uns über den Grad, in welchem wir uns gehaßt, gefürchtet glauben: weil wir selber zwar gut den Grad unserer Abweichung von einer Person, Richtung, Partei kennen, jene andern aber uns sehr oberflächlich kennen und deshalb auch nur oberflächlich hassen. Wir begegnen oft einem Wohlwollen, welches uns unerklärlich ist; verstehen wir es aber, so beleidigt es uns, weil es zeigt, daß man uns nicht ernst, nicht wichtig genug nimmt.
     346 Wider Willen unhöflich. — Wenn jemand wider Willen einen andern unhöflich behandelt, zum Beispiel nicht grüßt, weil er ihn nicht erkennt, so wurmt ihn dies, obschon er nicht seiner Gesinnung einen Vorwurf machen kann; ihn kränkt die schlechte Meinung, welche er bei dem andern erregt hat, oder er fürchtet die Folgen einer Verstimmung, oder ihn schmerzt es, den andern verletzt zu haben also Eitelkeit, Furcht oder Mitleid können rege werden, vielleicht auch alles zusammen.

Menschliches, Allzumenschliches:
Ein Buch Fuer Freie Geister[Erster Band]
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Humano, demasiado humano — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 12ª reimpressão, 2017, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Friedrich Nietzsche: A boa e a má natureza. — Primeiro os homens projetaram-se na natureza: em toda parte viram a si mesmos e seus iguais, isto é, suas características más e caprichosas, . . . [aforismo17] & outros aforismos


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[traduzido por Paulo César de Souza]

     3. Tudo tem seu tempo. — Quando o homem deu a todas as coisas um gênero, não acreditou estar brincando, mas haver obtido uma profunda compreensão: apenas muito tarde, e talvez ainda não completamente, ele deu-se conta da enormidade desse erro.  De igual modo, o homem conferiu a tudo o que existe uma relação com a moral e revestiu o mundo de um significado ético. Um dia, isso terá tanto valor quanto hoje tem a crença na masculinidade ou feminilidade do Sol.
     6. O prestidigitador e seu oposto. — O que é espantoso na ciência é o contrário do que é espantoso na arte do prestidigitador. Pois este quer que vejamos uma causalidade bem simples onde atua, na realidade, uma causalidade bem complexa. Enquanto a ciência nos faz abandonar causalidades simples onde tudo parece facilmente compreensível e nós somos os bufões da aparência. As coisas “mais simples” são muito complicadas não podemos nos maravilhar o bastante com isso!
     17. A boa e a má natureza. — Primeiro os homens projetaram-se na natureza: em toda parte viram a si mesmos e seus iguais, isto é, suas características más e caprichosas, como se estivessem escondidas entre nuvens, temporais, animais de rapina, árvores e plantas: naquele tempo inventaram a “natureza má”. Depois veio a época em que novamente se imaginaram fora da natureza, a época de Rousseau: estavam tão fartos uns dos outros, que quiseram possuir um canto a que não chegasse o homem e seu tormento: inventaram a “natureza boa”.

Aurora — Reflexões sobre os preconceitos morais,
Livro 1

Friedrich Nietzsche

3
Alles hat seine Zeit. — Als der Mensch allen Dingen ein Geschlecht gab, meinte er nicht zu spielen, sondern eine tiefe Einsicht gewonnen zu haben:  den ungeheuren Umfang dieses Irrtums hat er sich sehr spät und jetzt vielleicht noch nicht ganz eingestanden. Ebenso hat der Mensch allem, was da ist, eine Beziehung zur Moral beigelegt und der Welt eine ethische Bedeutung über die Schulter gehängt. Das wird einmal ebenso viel und nicht mehr Wert haben, als es heute schon der Glaube an die Männlichkeit oder Weiblichkeit der Sonne hat.
6
Der Taschenspieler und sein Widerspiel. — Das Erstaunliche in der Wissenschaft ist dem Erstaunlichen in der Kunst des Taschenspielers entgegengesetzt. Denn dieser will uns dafür gewinnen, eine sehr einfache Kausalität dort zu sehen, wo in Wahrheit eine sehr komplizierte Kausalität in Tätigkeit ist. Die Wissenschaft dagegen nötigt uns, den Glauben an einfache Kausalitäten gerade dort aufzugeben, wo alles so leicht begreiflich scheint und wir die Narren des Augenscheins sind. Die »einfachsten« Dinge sind sehr kompliziert, man kann sich nicht genug darüber verwundern!
17
Die gute und die böse Natur. — Erst haben die Menschen sich in die Natur hineingedichtet: sie sahen überall sich und ihresgleichen, nämlich ihre böse und launenhafte Gesinnung, gleichsam versteckt unter Wolken, Gewittern, Raubtieren, Bäumen und Kräutern: damals erfanden sie die »böse Natur«. Dann kam einmal eine Zeit, da sie sich wieder aus der Natur herausdichteten, die Zeit Rousseau’s: man war einander so satt, daß man durchaus einen Weltwinkel haben wollte, wo der Mensch nicht hinkommt mit seiner Qual: man erfand die »gute Natur«.

Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile,
Erstes Buch
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Aurora: Reflexões sobre os preconceitos morais — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 2016, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

terça-feira, 6 de maio de 2025

Friedrich Nietzsche*: Porque sou um destino [trecho]

 
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[traduzido por Paulo César de Souza]

1. Conheço a minha sina. Um dia, meu nome será ligado à lembrança de algo tremendo de uma crise como jamais houve sobre a Terra, da mais profunda colisão de consciências, de uma decisão conjurada contra tudo o que até então foi acreditado, santificado, requerido. Eu não sou um homem, sou dinamite. E com tudo isso nada tenho de fundador de religião religiões são assunto da plebe, eu sinto necessidade de lavar as mãos após o contato com pessoas religiosas... Não quero "crentes", creio ser demasiado malicioso para crer em mim mesmo, nunca me dirijo às massas... Tenho um medo pavoroso de que um dia me declarem santo: perceberão por que publico este livro antes, ele deve evitar que se cometam abusos comigo... Eu não quero ser um santo, seria antes um bufão... Talvez eu seja um bufão... E apesar disso, ou melhor, não apesar disso pois até o momento nada houve mais mendaz do que os santos , a verdade fala em mim. Mas a minha verdade é terrível: pois até agora chamou-se à mentira verdade. Tresvaloração de todos os valores: eis a minha fórmula para um ato de suprema auto-gnose da humanidade, que em mim se fez gênio e carne. Minha sina quer que eu seja o primeiro homem decente, que eu me veja em oposição à mendacidade de milênios... Eu fui o primeiro a descobrir a verdade, ao sentir por primeiro a mentira como mentira ao cheirar... Meu gênio está nas narinas... Eu contradigo como nunca foi contradito, e sou contudo o oposto de um espírito negador. Eu sou um mensageiro alegre, como nunca houve, eu conheço tarefas de uma altura tal que até então inexistiu noção para elas, somente a partir de mim há novamente esperanças. Com tudo isso sou necessariamente também o homem da fatalidade. Pois quando a verdade sair em luta contra a mentira de milênios, teremos comoções, um espasmo de terremotos, um descolamento de montes e vales como jamais foi sonhado. A noção de política estará então completamente dissolvida em uma guerra dos espíritos, todas as formações de poder da velha sociedade terão explodido pelos ares todas se baseiam inteiramente na mentira: haverá guerras como ainda não houve sobre a Terra. Somente a partir de mim haverá grande política na Terra.

Friedrich Nietzsche

Warum ich ein Schicksal bin

1 Ich kenne mein Los. Es wird sich einmal an meinen Namen die Erinnerung an etwas Ungeheures anknüpfen an eine Krisis, wie es keine auf Erden gab, an die tiefste Gewissens-Kollision, an eine Entscheidung, heraufbeschworen gegen alles, was bis dahin geglaubt, gefordert, geheiligt worden war. Ich bin kein Mensch, ich bin Dynamit. Und mit alledem ist nichts in mir von einem Religionsstifter Religionen sind Pöbel-Affären, ich habe nötig, mir die Hände nach der Berührung mit religiösen Menschen zu waschen... Ich will keine »Gläubigen«, ich denke, ich bin zu boshaft dazu, um an mich selbst zu glauben, ich rede niemals zu Massen... Ich habe eine erschreckliche Angst davor, dass man mich eines Tags heilig spricht: man wird erraten, weshalb ich dies Buch vorher herausgebe, es soll verhüten, dass man Unfug mit mir treibt... Ich will kein Heiliger sein, lieber noch ein Hanswurst... Vielleicht bin ich ein Hanswurst... Und trotzdem oder vielmehr nicht trotzdem denn es gab nichts Verlogeneres bisher als Heilige redet aus mir die Wahrheit. Aber meine Wahrheit ist furchtbar: denn man hieß bisher die Lüge Wahrheit. Umwertung aller Werte: das ist meine Formel für einen Akt höchster Selbstbesinnung der Menschheit, der in mir Fleisch und Genie geworden ist. Mein Los will, dass ich der erste anständige Mensch sein muss, dass ich mich gegen die Verlogenheit von Jahrtausenden im Gegensatz weiß... Ich erst habe die Wahrheit entdeckt, dadurch dass ich zuerst die Lüge als Lüge empfand roch... Mein Genie ist in meinen Nüstern... Ich widerspreche, wie nie widersprochen worden ist, und bin trotzdem der Gegensatz eines neinsagenden Geistes. Ich bin ein froher Botschafter, wie es keinen gab, ich kenne Aufgaben von einer Höhe, dass der Begriff dafür bisher gefehlt hat; erst von mir an gibt es wieder Hoffnungen. Mit alledem bin ich notwendig auch der Mensch des Verhängnisses. Denn wenn die Wahrheit mit der Lüge von Jahrtausenden in Kampf tritt, werden wir Erschütterungen haben, einen Krampf von Erdbeben, eine Versetzung von Berg und Tal, wie dergleichen nie geträumt worden ist. Der Begriff Politik ist dann gänzlich in einen Geisterkrieg aufgegangen, alle Machtgebilde der alten Gesellschaft sind in die Luft gesprengt sie ruhen allesamt auf der Lüge: es wird Kriege geben, wie es noch keine auf Erden gegeben hat. Erst von mir an gibt es auf Erden große Politik.

* Nota deste Verso e Conversa: O incorrigível e atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe que, no Posfácio de Ecce homo, o tradutor Paulo César de Souza anota o seguinte:
          “Em 1908, numa das reuniões semanais da pequena Sociedade Psicanalítica de Viena, na casa do dr. Sigmund Freud, o tema proposto para discussão foi Ecce homo. Durante a reunião — que tratou sobretudo do “caso” Nietzsche, não de suas idéias — Freud fez três observações de interesse. Disse que o livro não podia ser desconsiderado como produto de insânia, porque nele se preservava o domínio da forma. Disse que ninguém havia antes alcançado, e dificilmente alguém tornaria a alcançar, o grau de introspecção alcançado por Nietzsche. E disse que nunca havia estudado Nietzsche, devido à semelhança entre as percepções do filósofo e as investigações da psicanálise (evitava-o para preservar a independência de espírito), e devido à riqueza de idéias daquelas obras, que o impedia de ler mais que metade de uma página (!).
          Esta última afirmação deve interessar aos estudiosos da relação entre Freud e Nietzsche. As duas primeiras interessam ao leitor de Ecce homo. . . . ”
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Ecce Homo — Como Alguém se Torna o que é: Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 2ª edição, 4ª reimpressão, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

domingo, 16 de março de 2025

Friedrich Nietzsche: Marca de distinção. — Todos os poetas e escritores apaixonados pelo superlativo querem mais do que podem. [aforismo 141] & outros aforismos

 
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[traduzido por Paulo César de Souza]

     120. Próximos demais. — É desvantajoso para os bons pensamentos sucederem-se uns aos outros muito rapidamente; eles obstruem a visão um do outro. Por isso os maiores artistas e escritores fizeram bastante uso do que é mediano.
     137. Os piores leitores. Os piores leitores são os que agem como soldados saqueadores: retiram alguma coisa de que podem necessitar, suja, e desarranujam o resto e difamam todo o conjunto.
     141. Marca de distinção. Todos os poetas e escritores apaixonados pelo superlativo querem mais do que podem.
     152. Escrever e querer vencer. — Escrever deveria sempre indicar uma vitória, uma superação de si mesmo, que deve ser comunicada para benefício dos outros; mas há autores dispépticos, que escrevem apenas quando não conseguem digerir algo, e mesmo quando esse algo lhes ficou nos dentes: involuntariamente procuram aborrecer também o leitor com seu desgosto, e assim exercer algum poder sobre ele, isto é: também eles querem triunfar, mas sobre os outros.
     163. Todo começo é um perigo. O poeta tem a escolha: ou fazer subir o sentimento de um degrau a outro, finalmente erguendo-o bastante alto, ou experimentar um ataque de surpresa, puxando já de início com toda a força a corda do sino. As duas opções têm seus perigos: no primeiro caso, o tédio talvez afugente o espectador; no segundo, o medo.
     191. Pró e contra necessários. — Quem não compreendeu que todo grande homem deve ser não somente apoiado, mas também, para benefício geral, combatido, certamente é ainda uma grande criança ou também um grande homem.
     364. Razão de muito mau humor. — Quem, na vida, prefere o belo ao útil, certamente acabará, como a criança que prefere o doce ao pão, por estragar o estômago e ver o mundo com bastante mau humor.
     369. Tédio. Há um tédio das mentes mais refinadas e cultivadas, para quem o melhor que o mundo oferece tornou-se insípido: habituados a comer alimentos seletos, cada vez mais seletos, e a desgostar-se com os mais grosseiros, correm o perigo de morrer de fome pois existe muito pouco do melhor, e às vezes ele se tornou inacessível ou duro demais, de sorte que nem mesmo bons dentes conseguem mordê-lo.

[Humano, Demasiado Humano II * —
Primeira parte: Opiniões e Sentenças Diversas]

Friedrich Nietzsche

120
Nicht zu nahe. — Es ist ein Nachteil für gute Gedanken, wenn sie zu rasch aufeinanderfolgen; sie verdecken sich gegenseitig die Aussicht. Deshalb haben die größten Künstler und Schriftsteller reichlichen Gebrauch vom Mittelmäßigen gemacht.
137
Die schlechtesten Leser. — Die schlechtesten Leser sind die, welche wie plündernde Soldaten verfahren: sie nehmen sich einiges, was sie brauchen können, heraus, beschmutzen und verwirren das übrige und lästern auf das Ganze.
141
Abzeichen des Ranges. — Alle Dichter und Schriftsteller, welche in den Superlativ verliebt sind, wollen mehr als sie können.
152
Schreiben und Siegen-wollen. — Schreiben sollte immer einen Sieg anzeigen, und zwar eine Überwindung seiner selbst, welche andern zum Nutzen mitgeteilt werden muß; aber es gibt dyspeptische Autoren, welche gerade nur schreiben, wenn sie etwas nicht verdauen können, ja wenn dies ihnen schon in den Zähnen hängengeblieben ist: sie suchen unwillkürlich mit ihrem Ärger auch dem Leser Verdruß zu machen und so eine Gewalt über ihn auszuüben, das heißt: auch sie wollen siegen, aber über andere.
163
Aller Anfang ist Gefahr. — Der Dichter hat die Wahl, entweder das Gefühl von einer Stufe zur andern zu heben und es so zuletzt sehr hoch zu steigern oder es mit einem Überfalle zu versuchen und gleich von Beginn an mit aller Gewalt am Glockenstrang zu ziehn. Beides hat seine Gefahren: im ersten Falle läuft ihm vielleicht sein Zuhörer vor Langeweile, im zweiten vor Schrecken davor.
191
Pro und Contra nötig. — Wer nicht begriffen hat, daß jeder große Mann nicht nur gefördert, sondern auch, der allgemeinen Wohlfahrt wegen, bekämpft werden muß, ist gewiß noch ein großes Kind oder selber ein großer Mann.
364
Grund vieler Verdrießlichkeit. — Wer im Leben das Schöne dem Nützlichen vorzieht, wird sich gewiß zuletzt, wie das Kind, welches Zuckerwerk dem Brote vorzieht, den Magen verderben und sehr verdrießlich in die Welt sehen.
369
Langeweile. — Es gibt eine Langeweile der feinsten und gebildetsten Köpfe, denen das Beste, was die Erde bietet, schal geworden ist: gewöhnt daran, ausgesuchte und immer ausgesuchtere Kost zu essen und vor der gröberen sich zu ekeln, sind sie in Gefahr Hungers zu sterben denn des Allerbesten ist nur wenig da, und mitunter ist es unzugänglich oder steinhart geworden, so daß es auch gute Zähne nicht mehr beißen können.

[Menschliches, Allzumenschliches II —
Erste Abteilung: Vermischte Meinungen und Sprüche]

Nota do aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: No Posfácio deste Humano, Demasiado Humano II, o tradutor Paulo César de Souza nos relata que, em 1879, ao concluir O Andarilho e sua Sombra, Nietzsche achava ser esta a sua última obra, por ter sido aquele ano “pródigo em dores”. As doenças por ele sofridas desde a juventude (“enxaquecas, problemas de visão, náuseas, etc.”) haviam se tornado mais frequentes e terríveis, o que o obrigou a deixar o cargo de professor da Universidade de Basileia. Nietzsche mal podia ler e escrever, e achava que morreria no ano seguinte, aos 36 anos, idade da morte de seu pai. O tradutor, alertando caber várias outras considerações sobre o tema, expõe que, naquelas condições, para alguém incapaz de uma produção intelectual constante, e sem ter residência fixa, o aforismo “revelou-se o modo de expressão mais adequado”. Paulo César de Souza continua: “desde Humano, Demasiado Humano até o início de 1889, quando ele parou de sentir, pensar e escrever, a maior parte do que publicou foram coletâneas de aforismos”. Este Humano, Demasiado Humano II é composto de duas partes: Opiniões e Sentenças Diversas e O Andarilho e sua Sombra.
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Humano, Demasiado Humano: Um Livro para Espíritos Livres, Volume II Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 2017, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.