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sábado, 17 de fevereiro de 2024

Ariano Suassuna: Ode a Capiba


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Quem quiser saber se eu padeço
pergunte aos canaviais.
Capiba

Não basta que a ventania, vinda do Mar,
seja cortada pelo Gume de Pedra dos canaviais,
e, pejada de fatos sem memória, chegue ao Sertão,
curvando para a terra os Lombos dos patriarcas
que cerram os olhos, nos Algodoais, olhando a Distância.

Não basta que toda a terra do Nordeste
receba o impacto de legiões de Arcanjos
que vão deixando, no seu Rastro de fogo,
cicatrizes de Espadas e armaduras.

É preciso lembrar o povo dos Anjos da noite,
que cruzou o Mar, gravando na pedra da nova terra
a Queda em que o Sol o despenhou.

É preciso lembrar que todos somos Negros:
legião sem Olhos, precipitada nas Chagas da noite,
esperando que espadas e Mantos sagrados
venham curar nossos Dorsos que o chicote castigou.

Por isso achei-me, Amigo, no teu grande Ritmo negro,
nas Canções tocadas por Rebanhos incendiados,
paridos por graves Atabaques que deuses negros fazem vibrar.
Cantei, assim, os Rifles do sertão, cruzando a Tempestade,
traspassando com balas de Sol corpos amorenados,
e hei de lembrar sempre a epopeia de meu povo
que revive ainda, no Sertão, a marcha dos corcéis épicos.

Agora, porém, quero cantar tua Música severa,
sentindo meu sangue curvar-se ao Sangue coletivo
do grande Povo que cruzou desertos e mares, na Queda.

Meu canto é, portanto, a Canção do Povo Negro:
parte de mim, fraterno, e marcha ombro a ombro com Ele,
enquanto o vento vindo do Mar caminha para o sertão,
ao encontro de rifles e Velhos de pedra,
ferido de morte pelo Gume de faca dos canaviais.

1949
(Poemas, 1999)

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A escravidão na poesia brasileira do século XVII ao XXI [antologia poética: 81 autores e autoras, 221 poemas] — Organização e Introdução de Alexei Bueno, 1ª edição, 2022, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ariano Vilar Suassuna (1927 — 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá — PB, em 1942, então em Recife — PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, O Santo e a Porca, Auto da Compadecida, ...); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980) ..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra e foi traduzido para o polonês, inglês, francês, holandês, alemão, espanhol, ...; o dramaturgo e poeta também se formou em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Ariano Suassuna: A Acauhan — A Malhada da Onça


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Com mote de Janice Japiassu

Aqui morava um Rei quando eu menino:
vestia ouro e Castanho no gibão.
Pedra da Sorte sobre meu Destino,
pulsava, junto ao meu, seu Coração.

Para mim, seu Cantar era divino,
quando ao som da Viola e do bordão,
cantava com voz rouca o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu Pai. Desde esse dia,
eu me vi, como um Cego, sem meu Guia,
que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua Efígie me queima. Eu sou a Presa,
Ele, a Brasa que impele ao Fogo, acesa,
Espada de ouro em Pasto ensanguentado.

(Poemas. Seleção, organização e notas de Carlos
Newton Júnior. Recife: Editora da Universidade
Federal de Pernambuco, 1999, p. 190.)

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Ariano Suassuna — Série Essencial 93, Academia Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Carlos Newton Júnior, 2018, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Ariano Vilar Suassuna (1927 — 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá — PB, em 1942, então em Recife — PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 22 de agosto de 2023

Ariano Suassuna: Lápide


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Com o tema de Virgílio (o Latino) e de Lino Pedra-Azul (o Sertanejo)

Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alanceado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.

Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Chão pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.

Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido

que, em vão — Sangue insensato e vagabundo —
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao sol do Mundo!

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Seleta em prosa e verso — Ariano Suassuna, Apresentação/Prefácio, Organização, Seleção de Textos, Notas e Dados Biográficos por Silviano Santiago, 3ª edição, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ariano Vilar Suassuna (1927 — 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá — PB, em 1942, então em Recife — PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Ariano Suassuna: A Onça


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Poema escrito na forma do "martelo gabinete"1 dos Cantadores nordestinos e onde se trata a Onça — animal heráldico brasileiro por excelência — como símbolo da Morte

Essa Flecha cruel que despedaça
a carne dos Carneiros e bezerros.
Eis o Bicho sagrado, o velho Medo,
no Sangue mal cravado dos meus erros:
a Romã coroada, o doido Fruto,
a mordida do Sono e do Desterro.

O vermelho Clarão, o Verde escuro
e o Mundo — ouro e enxofre envenenado.
Possesso da serpente, asas de Arcanjo.2
olhos cegos no Sol incendiado.
Que maldade se encerra na Beleza?
Que sangrento no Molde iluminado?

Do Rebanho maldito, um verde Musgo,
e às Pedras, a ferrugem verde tinge.
À luz azul do Cérebro inquieto,
o Crime dorme, oculto na meninge.
É divina essa Chaga que o Sol cura
e o Anjo é soletrado em cega Esfinge.

O topázio dos olhos, das Estrelas,
a pele de ouro e negro, Espinhos brancos.
A luxúria de púrpura e Desejo
na polpa rubra do macio Flanco.
Canta em meu sangue a Flauta dos meus ossos,
a cometa da Títia e o Punho manco.

Quem me sopra o Traspasse3 e a solução?
Que me sussurra o fogo desta Voz?
Ai, perigo de ser do meu cansaço!
Ai, papoula da vida, sangra os Nós!
E vai, e esquiva foge, e espreita a Sombra
na Cabeça de cacto4 feroz!

16/6/1962


Notas do Organizador Silviano Santiago:
1. Forma popular de composição poética que comporta estrofes de seis versos, cada um contendo dez sílabas (cf.: “Notas sobre o Romanceiro Popular”);
2. Representação simbólica da Morte também encontrada no teatro: ao mesmo tempo o Mal (serpente) e o Bem (arcanjo);
3. Morte, dor penetrante;
4. Seria interessante a leitura do poema de Manuel Bandeira que leva o título “Cacto”, em cuja poesia também o tema da morte é capital.
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Seleta em prosa e verso — Ariano Suassuna, Apresentação/Prefácio, Organização, Seleção de Textos, Notas e Dados Biográficos por Silviano Santiago, 3ª edição, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ariano Vilar Suassuna (1927 — 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá — PB, em 1942, então em Recife — PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Ariano Suassuna: Décimas ante um retrato de Camões


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Escritas por Ariano Suassuna em forma de Martelo agalopado1 e enviadas a Aloísio Magalhães2, em retribuição ao desenho que inspirou o poema

Se, na noite de chuva, a Tempestade
em solitários galhos açoitados,
revivesse os Navios naufragados3
e o travoso gemer da Soledade;
se, da grave assonância da Vontade
entrevesse se pudesse o sacrifício
nesse claro e cansado Frontispício
quem, mais do que teus Olhos4, cantaria
da vida o Caso cego e a galhardia,
a Luz flamante e o sacro Desperdício?

Teus olhos! Mas quem pode apaziguá-los?
Se, num, a Flecha agónica demora,
noutro há bruma, salgueiro e Harpa sonora,
entre os passos do Rei5 com seus vassalos.
O pó e o sangue, as patas dos Cavalos
repousam nesse Sulco fatigado.
E, se o bravo Queixume informulado
evoca os destroçados areais,
o ressonar dos Bosques provençais
doura na Morte a mágoa do Pecado.

Pensar que foste criança e que aspiraste
o cheiro da Madeira mal queimada;
que, ao perseguir, insone, a Madrugada,
a chama do Desterro desejaste.
O Sal marinho, as folhas que esmagaste,
e vida e nome, pássaro e Memória.
Pois, se Fortuna e treva derrisória
urdiram tua Sorte alada e escura,
foi que o porvir tecera, na Espessura,
da Cadência já morta o Canto e a glória.

Pureza e dolo. A Sombra se amontoa
— destroço ressurreto e trespassado —
na prisão6 a quem um tempo foste atado,
no Barco que te chama e te enevoa.
Debalde! A Fronte é cortadora Proa,
barba barroca é Quilha e madeirame.
E o Cedro, a Infanta7, a coifa de beirame8,
tudo isso e tudo mais que não se exprime
— que não se diz — e é o que talvez redime
o atravessar das águas e o Velame.

Assim, não mais o som desse Acalanto,
não mais o Apelo, só, do já passado:
que teu Anjo o receba, dissipado,
numa Páscoa de fogo e tenso Canto.
Pois se o Eco de sono e louro acanto
não te pôde levar o que pressente,
num sussurro fraterno e Sopro ardente
chegue a ti meu Duende extraviado
e o Sonho, anseio extinto e renovado,
que é Pena e mudez de meu presente.

[O Pasto incendiado — 1953.]


Notas do Organizador Silviano Santiago:
1. Segundo Luís da Câmara Cascudo, o martelo de dez sílabas é “legítima obra-prima para o cantador nordestino”, e acrescenta “cantar martelo, improvisá-lo ou declamá-lo, respondendo ao adversário no embate do desafio, é o título mais ambicionado pelos cantadores”;
2. Programador visual contemporâneo, radicado no Rio de Janeiro, mas de origem pernambucana. Faleceu a 13 de junho de 1982;
3. Alusão poética ao célebre naufrágio em que Camões quase perde a vida e os originais de Os Lusíadas;
4. Camões, tendo optado pela carreira militar, foi fazer seu primeiro estágio na Costa da África. Um golpe inimigo ou um acidente (não se sabe ao certo) inutilizou-lhe um olho (cf. ainda segunda estrofe);
5. Possível alusão ao rei Dom Sebastião, a quem é dedicado Os Lusíadas. Devido às circunstâncias misteriosas da sua morte e à decadência político-econômica de Portugal a partir de 1580, criou-se nesse país um movimento político-sentimental que prega o culto a dom Sebastião e que leva o nome de “sebastianismo” (de enorme importância para o bom entendimento da ficção de Suassuna);
6. Logo depois do acidente de que foi vítima, Camões, segundo os biógrafos, levou vida boêmia e desregrada. Por isso, diversas vezes foi preso;
7. Alusão aos possíveis amores entre o poeta e a Infante Dona Maria, filha de Dom Manuel;
8. Referência ao poema de Camões em que a jovem amorosa se queixa de Joane por este se interessar mais pelo beirame (chita da índia) do que por ela.
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Seleta em prosa e verso — Ariano Suassuna, Apresentação/Prefácio, Organização, Seleção de Textos, Notas e Dados Biográficos por Silviano Santiago, 3ª edição, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ariano Vilar Suassuna (1927 — 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá — PB, em 1942, então em Recife — PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 11 de julho de 2023

Ariano Suassuna: A Favela e o Arraial


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          Um dia, eu estava lendo a excelente História Concisa da Literatura Brasileira, de Alfredo Bosi, quando encontrei uma distinção feita por Machado de Assis e que, a meu ver, é indispensável para se entender o processo histórico brasileiro. Machado critica atos do nosso mau governo e coisas da nossa má política. Mostra-se ácido em ambos os casos e depois explica: "Não é desprezo pelo que é nosso, não é desdém pelo meu país. O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco".
          Se Machado de Assis fosse vivo, notaria que hoje o Brasil real continua a ser o do povo e a revelar-se bom, dotado dos melhores instintos; e o Brasil oficial (que é o país "do real e do mercado") continua caricato e grotesco.
          Euclydes da Cunha, que parece ter feito distinção parecida com a machadiana, procurou assinalar aqueles dois países diferentes por meio de dois emblemas: via o Brasil oficial na rua do Ouvidor, centro da nossa cultura urbana, falsificada, de segunda mão e com pretensões a cosmopolita; e o Brasil real, no emblema bruto e poderoso do sertão.
          Eu, influenciado por Euclydes da Cunha, passei muito tempo dominado por visão semelhante. Até que, depois de alguns duros exames de consciência, descobri que, para ser fiel ao mestre, eu não deveria repeti-lo: tinha era que empunhar sua chama e tentar levá-la adiante. O Brasil real teria, na verdade, não um, mas dois emblemas, pois os arraiais do sertão tinham seus equivalentes urbanos nas favelas da cidade; e se o povo do Brasil real era aquele que habitava as favelas urbanas e os arraiais do campo, o Brasil oficial tinha seus símbolos mais expressivos nos bancos e no palácio do governo, onde reinam os presidentes e seus ministros.
          No momento em que cheguei a tal evidência, comecei também a me perguntar de onde surgira o nome "favela", aplicado aos lugares onde moram os pobres das nossas grandes cidades. Lembrei-me de que "favela" é uma planta típica das caatingas e carrascais do nosso sertão do Nordeste. Lembrei-me, também, de que, em Canudos, o grosso da artilharia que atirava sobre o arraial conselheirista ficava num certo "Morro da Favela". Teria o nome surgido a partir daí? Teria sido posto pelos soldados cariocas (pobres e também participantes de um Brasil tão real quanto o de Antônio Conselheiro)? Teriam sido alguns deles que, ao voltar da guerra para suas casas, situadas num morro qualquer do Rio, tinham percebido a semelhança e começado a chamá-lo de "Morro da Favela"?
          Durante muito tempo minha suspeita ficou sem confirmação. Mas recentemente, num "sebo" do Recife, comprei o livro Antônio Conselheiro e Canudos, de Ataliba Nogueira. E lá encontrei o que procurava. Falando sobre as atividades do arraial, diz o autor: "O grosso da população de Belo Monte trabalha na indústria da pele de cabra (...) Num dos morros do povoado vão buscar a casca da favela. Por extensão de sentido, aplica-se ao morro o nome dessa árvore ali abundante e cuja casca tem bom emprego na indústria do curtume. E, após a guerra de Canudos, no Rio de Janeiro, passaram a denominar favela a toda e qualquer casaria paupérrima situada no dorso dos morros".
          Em mim, a visão política é indissoluvelmente ligada à religiosa e à literária; assim, para meu trabalho de escritor, foi importantíssimo descobrir, pela "favela", a ligação entre os dois emblemas do Brasil verdadeiro: o emblema urbano e o rural; a "favela" da cidade e o "arraial" do sertão.

(Folha de São Paulo, 27 de abril de 1999.)

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Ariano Suassuna — Série Essencial 93, Academia Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Carlos Newton Júnior, 2018, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Ariano Vilar Suassuna (1927 — 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá — PB, em 1942, então em Recife — PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Ariano Suassuna: Galope à beira mar*!


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escrito no estilo dos Cantadores nordestinos, para comemorar a restauração da Fortaleza de Pau-Amarelo, em Olinda, e dedicado ao poeta Marcus Accioly.

Aqui, neste Forte de Pau-Amarelo
eu sonho o Brasil em seu sangue de Brasa.
Reforço o alicerce de pedra da Casa
e ao sol do Sertão, este Azul desmantelo.
Que eu canto o Paudarco, o paudarco amarelo
velando as entradas da Serra e do Mar.
E a minha Viola se põe a esturrar,
ferida no sangue do Povo que é pobre,
que é grande, que é raça, que é Onça que é nobre,
cantando Galope na beira do Mar!

Eu moldo o Sertão em teu sol, Litoral,
e o verde da Mata florada do Engenho
é outro dos Reinos que forjo e que tenho,
bebendo, do Mar, estes verdes e o Sal.
Eu sopro meu Fogo na trompa de Cal
e imito os estalos do Vento a queimar.
No som dos Canhões vejo o Bronze sagrar
os Fortes de pedra da Guerra Holandesa
e a negra e vermelha da Nau portuguesa
cantando Galope na beira do Mar!

Porque, no Sertão, as três onças sinadas
— a Negra, a Vermelha e a Branca da Moura —
cruzaram seus Sangues de ferro, em tesoura,
parindo no Sol, a Fiel, a Pintada.
Castanha da parda, vermelha e malhada,
seu pelo é dos ouros da Rosa lunar!
Uns olhos acesos, a Brasa solar!
E eu, sangue do Sol de uma Onça-Malhada,
celebro esta Raça castanha e sagrada,
cantando Galope na beira do Mar!

Ariano Suassuna


* Nota do Organizador Silviano Santiago: Ao poema [acima], A[riano]. S[uassuna]. aduziu estas notas:
     “Trata-se, evidentemente, das décimas em 11 sílabas (hendecassílabos) do galope à beira-mar. Para ampliação da pesquisa, consultem-se as características também do galope (sextilhas em decassílabos), do martelo agalopado e do ritmo de repouso. Observe-se que, aqui, nós encontraremos as tônicas em — < — — < — | — < — — < — portanto 2ª, 5ª, 8ª e 11ª, predominantemente; combinações de redondilhas menores em hemistíquios isorrítmicos (ao gosto também do Cancioneiro Geral de Garcia de Rezende):

          /_         /_           /_           /_
Can-tan-do-ga-lo-pe-na-bei-ra-do-mar
        (2ª)       (5ª)      (8ª)     (11ª)

     Trata-se, portanto, de compasso temário, e o galope à beira-mar é um dos raros gêneros em que o acento musical normalmente corresponde ao acento natural das palavras. 1. O Forte do Pau-Amarelo foi construído na luta que os Nordestinos empreenderam contra a invasão holandesa no século XVII, e considerada o início da Independência do Brasil. 2. A Casa, está aí, no sentido de o País, o Brasil. 3. Azul é o Mar, oposto ao Sertão pardo-vermelho. 4. É o ipê de folhas amarelas (também Ipê-tabaco). 5. O Povo do qual se fala aí, é o brasileiro. 6. As três Onças sinadas, isto é, assinaladas, são a raça negra, a indígena e a ibérica, esta chamada, aí, de “Branca da moura” porque, na Península Ibérica, os espanhóis e portugueses se cruzaram com os árabes, isto é, com os mouros. 7. A fiel, a Pintada, é a raça brasileira, originada dos outros três. 8. A Raça castanha é, ainda, alusão ao Povo brasileiro.
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Seleta em prosa e verso — Ariano Suassuna [mais Depoimento "Notas sobre o Romanceiro Popular do Nordeste"], Organização, Apresentação/Prefácio, Seleção de Textos, Notas e Dados biográficos por Silviano Santiago, 3ª edição, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ariano Vilar Suassuna (1927 — 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá — PB, em 1942, então em Recife — PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, O Santo e a Porca, Auto da Compadecida, ...); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980) ..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra e foi traduzido para o polonês, inglês, francês, holandês, alemão, espanhol, ...; o dramaturgo e poeta também se formou em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 29 de junho de 2023

Ariano Suassuna: A Morte do Touro Mão-de-Pau


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À memória de meu pai, que também preferiu a morte à desonra, tendo sido assassinado a 9 de outubro de 1930

Corre a Serra Joana Gomes
galope desesperado:
um Touro se defendendo,
homens querendo humilhá-lo,
um Touro com sua vida,
os homens em seus Cavalos.

Cortava o gume das Pedras
um bramido angustiado,
se quebrava nas Catingas
um Galope surdo e pardo
e os Cascos pretos soavam
nas pedras de Fogo alado,
enquanto o clarim da Morte,
ao Vento seco e queimado,
na poeira avermelhada
envolvia os velhos Cardos.

Os negros cascos soavam
em chamas de Fogo alado!
Rasgavam a Serra bruta
aboios mal arquejados
e, nas trilhas já cobertas
pelo Pó quente e dourado,
um gemido de desgraça,
um gemido angustiado:

— Adeus, Lagoa dos Velhos!
adeus, vazante do gado!
adeus, Serra Joana Gomes
e cacimba do Salgado!
O touro só tem a vida:
os homens têm seus cavalos!

O galopar recrescia:
brilhavam Ferrões farpados
e Algemas de baraúna
para o Touro preparados.
Seu Sabino tinha dito:
— Ele há de vir amarrado!

Miguel e Antônio Rodrigues,
de guarda-peito e encourados,
na frente do grupo vinham,
montados em seus Cavalos
de pernas finas, ligeiras,
ambos de prata arreados.
E, logo à frente, corria
o grande Touro marcado,
manquejando Sangue limpo
nos caminhos mal rasgados,
cortadas as bravas ancas
por Ferrões ensangüentados.

A Serra se despenhava
nas asas de seus penhascos
e a respiração fogosa
dos dois fogosos Cavalos
já requeimava, de perto,
as ancas do Manco macho
quando ele, vendo a Desonra,
tentando subjugá-lo,
mancando da mão preada
subiu num Rochedo pardo:

Num grito, todos pararam,
pelo horror paralisados,
pois sempre, ao rebanho, espanta
que um touro do nosso gado
às teias da Fama-negra
prefira o gume do Fado.
E mal seus perseguidores
esbarravam seus Cavalos,
viram o Manco selvagem
saltar do Rochedo pardo:

Houve um grande torvelinho
de terno olhar assustado
e de aspas enfurecidas
reviradas para o alto.
E o Touro lançou seu último
bramir de morrer encrespado:

— Adeus, Lagoa dos Velhos!
Adeus, vazante do gado!
Adeus, Serra Joana Gomes
e cacimba do Salgado!
Assim vai-se o Touro manco,
morto mas não desonrado!

Silêncio. A Serra calou-se
no Poente ensangüentado.
Calou-se a voz dos aboios,
cessou o troar dos Cascos.
E agora, só, no silêncio
deste Sertão assombrado,
o Touro sem sua vida,
os homens em seus Cavalos..

1946-1948

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Seleta em prosa e verso — Ariano Suassuna [mais Depoimento "Notas sobre o Romanceiro Popular do Nordeste", Organização, Apresentação/Prefácio, Seleção de Textos, Notas e Dados Biográficos por Silviano Santiago, 3ª edição, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ariano Vilar Suassuna (1927 — 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá — PB, em 1942, então em Recife — PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, O Santo e a Porca, Auto da Compadecida, ...); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra e foi traduzido para o polonês, inglês, francês, holandês, alemão, espanhol, ...; o dramaturgo e poeta também se formou em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.