Mostrando postagens com marcador Regina Przybycien. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Regina Przybycien. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Wisława Szymborska: Para o meu coração num domingo

 
____________________
[traduzido por Regina Przybycien e Gabriel Borowski]

Te agradeço, coração meu,
por não se queixar, por se afanar
sem elogios, sem recompensa,
num desvio inato.

Você tem setenta méritos por minuto.
Cada contração tua
é como o lançar de uma canoa
no mar aberto
numa viagem ao redor do mundo.

Te agradeço, coração meu,
porque sem cessar
você me retira do todo,
separada até no sonho.

Você cuida para que eu não sonhe demais
com o voo
para o qual não é preciso ter asas.

Te agradeço, coração meu,
por eu ter acordado de novo
e embora seja domingo,
dia de descanso,
sob as costelas
você seguir o ritmo normal da semana.

(Muito Divertido — 1967)

Wislawa Szymborska

Do serca w niedzielę

Dziękuję ci, serce moje,
że nie marudzisz, że się uwijasz,
bez pochlebstw, bez nagrody,
z wrodzonej pilności.

Masz siedemdziesiąt zasług na minutę.
Każdy twój skurcz
jest jak zepchnięcie łodzi
na pełne morze
w podróż dookoła świata.

Dziękuję ci, serce moje,
że raz po raz
wyjmujesz mnie z całości
nawet we śnie osobną.

Dbasz, żebym nie prześniła się na wylot.
na wylot,
do którego skrzydeł nie potrzeba.

Dziękuję ci, serce moje,
że obudziłam się znowu
i chociaż jest niedziela,
dzień odpoczywania,
pod żebrami
trwa zwykły przedświąteczny ruch.

(Sto pociech 1967)
____________________
Wislawa Szymborska [para o meu coração num domingo], Seleção, Tradução e Prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski, edição bilíngue, 1ª edição, 2020, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wislawa Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; assim, Wislawa deu início a seu processo criativo: fez suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, já em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Wolanie do Yeti (Chamando pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996) e Prêmio Niki de Literatura (2006).

sábado, 28 de março de 2026

Wisława Szymborska: Campo da fome em Jaslo

 
____________________
[traduzido por Regina Przybycien]

Escreve isto. Escreve. Com tinta comum
em papel comum: não lhes deram comida,
todos morreram de fome. Todos?. Quantos?
É uma grande campina. Quanta grama
coube a cada um? Escreve: não sei.
A história arredonda os esqueletos para zero.
Mil e um é sempre e apenas mil.
Esse um, é como se nunca existisse:
embrião imaginado, berço vazio,
cartilha aberta para ninguém,
ar que ri, grita e cresce,
escada para um vazio que corre para o jardim,
lugar de ninguém na fila.

Estamos nesta campina, onde se fez carne.
Mas ela se cala como uma testemunha comprada.
Ao sol. Verde. Ali perto um bosque,
madeira para mascar, debaixo da casca o que beber —
uma porção diária de vista
enquanto a cegueira não chega. No alto
um pássaro a deslizar pelas bocas à sombra
das asas nutritivas. As mandíbulas se abriam,
dente batia contra dente.
À noite no céu brilhava uma foice
e ceifava o pão sonhado.
Mãos voavam de ícones enegrecidos
segurando cálices vazios.
Na cerca de arame farpado
um homem se contorcia.
Cantava-se com terra na boca. Linda canção
sobre como a guerra atinge direto o coração.
Escreve como aqui há silêncio.
Sim.

(Sal — 1962)

Wisława Szymborska

Obóz głodowy pod Jasłem

Napisz to. Napisz. Zwykłym atramentem
na zwykłym papierze: nie dano im jeść,
wszyscy pomarli z głodu. Wszyscy. Ilu?
To duża łąka. Ile trawy
przypadło na jednego? Napisz: nie wiem.
Historia zaokrągla szkielety do zera.
Tysiąc i jeden to wciąż jeszcze tysiąc.
Ten jeden, jakby go wcale nie było:
płód urojony, kołyska próżna,
elementarz otwarty dla nikogo,
powietrze, które śmieje się, krzyczy i rośnie,
schody do pustki zbiegającej do ogrodu,
miejsce niczyje w szeregu.

Jesteśmy na tej łące, gdzie stało się ciałem.
A ona milczy jak kupiony świadek.
W słońcu. Zielona. Tam opodal las
do żucia drewna, do picia spod kory
porcja widoku codzienna,
póki się nie oślepnie. W górze ptak,
który po ustach przesuwał się cieniem
pożywnych skrzydeł. Otwierały się szczęki,
uderzał ząb o ząb.
Nocą na niebie błyskał sierp
i żął na śnione chleby.
Nadlatywały ręce z poczerniałych ikon
z pustymi kielichami w palcach.
Na rożnie kolczastego drutu
chwiał się człowiek.
Śpiewano z ziemią w ustach. Śliczna pieśń
o tym, że wojna trafia prosto w serce.
Napisz, jaka tu cisza.
Tak.

(Sól 1962)
____________________
Wisława Szymborska: Um amor feliz [poemas], bilíngue — Seleção, Tradução e Prefácio por Regina Przybycien, 1ª edição, 2016, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wisława Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; de sua biografia, consta que Topielec. Poemat epiczny w II pieśniach, seu poema mais antigo, é datado de 28.02.1942; assim, Wisława deu início a seu processo criativo: em Cracóvia, trabalhou como editora assistente na revista quinzenal Świetlica Krakowska, criou suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, também em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Dlatego żyjemy (Por isso vivemos, 1952), Pytania zadawane sobie (Pergunta que me faço, 1954), Wołanie do Yeti (Chamando por Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Literário da Cidade de Cracóvia (Nagrodę Literacką Miasta Krakowa 1954, pelas obras Dlatego żyjemy e Pytania zadawane sobie), Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996), Prêmio Niki de Literatura (2006), ...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Wisława Szymborska: O ódio

____________________
[traduzido por Regina Przybycien]

Vejam como ainda é eficiente,
como se mantém em forma
o ódio no nosso século.
Com que leveza transpõe altos obstáculos.
Como lhe é fácil saltar, ultrapassar.

Não é como os outros sentimentos
a um tempo mais velhos e mais novos que ele.
Ele próprio gera as causas
que lhe dão vida.
Se adormece, nunca é um sono eterno.
A insônia não lhe tira as forças; aumenta.

Religião, não religião
contanto que se ajoelhe para a largada
Pátria, não pátria
contanto que se ponha a correr.
A Justiça também não se sai mal no começo.
Depois ele já corre sozinho.
O ódio. O ódio.
Seu rosto num esgar
de êxtase amoroso.

Ah, estes outros sentimentos
fracotes e molengas.
Desde quando a fraternidade
pode contar com a multidão?
Alguma vez a compaixão
chegou primeiro à meta?
Quantos a dúvida arrasta consigo?
Só ele, que sabe o que faz, arrasta.

Capaz, esperto, muito trabalhador.
Será preciso dizer quantas canções compôs?
Quantas páginas da história numerou?
Quantos tapetes humanos estendeu
em quantas praças, estádios?

Não nos enganemos:
ele sabe criar a beleza.
São esplêndidos seus clarões na noite escura.
Fantásticos os novelos das explosões na aurora rosada.
Difícil negar o páthos das ruínas
e o humor tosco
da coluna que sobressai vigorosamente sobre elas.

É um mestre do contraste
entre o estrondo e o silêncio,
entre o sangue vermelho e a neve branca.
E acima de tudo nunca o enfada
o tema do torturador impecável
sobre a vítima conspurcada.

Pronto para novas tarefas a cada instante.
Se tem que esperar, espera.
Dizem que é cego. Cego?
Tem a vista aguda de um atirador
e afoito olha o futuro
só ele.

(Fim e começo — 1993)

Wisława Szymborska

Nienawiść

Spójrzcie, jaka wciąż sprawna,
jak dobrze się trzyma
w naszym stuleciu nienawiść.
Jak lekko bierze wysokie przeszkody.
Jakie to łatwe dla niej skoczyć, dopaść.

Nie jest jak inne uczucia.
Starsza i młodsza od nich równocześnie.
Sama rodzi przyczyny,
które ją budzą do życia.
Jeśli zasypia, to nigdy snem wiecznym.
Bezsenność nie odbiera jej sił, ale dodaje.

Religia, nie religia
byle przyklęknąć na starcie.
Ojczyzna nie ojczyzna
byle się zerwać do biegu.
Niezła i sprawiedliwość na początek.
Potem już pędzi sama.
Nienawiść. Nienawiść.
Twarz jej wykrzywia grymas
ekstazy miłosnej.

Ach, te inne uczucia
cherlawe i ślamazarne.
Od kiedy to braterstwo
może liczyć na tłumy?
Współczucie czy kiedykolwiek
pierwsze dobiło do mety?
Zwątpienie ilu chętnych porywa za sobą?
Porywa tylko ona, która swoje wie.

Zdolna, pojętna, bardzo pracowita.
Czy trzeba mówić ile ułożyła pieśni.
Ile stronic historii ponumerowała.
Ila dywanów z ludzi porozpościerała
na ilu placach, stadionach.

Nie okłamujmy się:
potrafi tworzyć piękno.
Wspaniałe są jej łuny czarną nocą.
Świetne kłęby wybuchów o różanym świcie.
]Trudno odmówić patosu ruinom
i rubasznego humoru
krzepko sterczącej nad nimi kolumnie.

Jest mistrzynią kontrastu
między łoskotem a ciszą,
między czerwoną krwią a białym śniegiem.
A nade wszystko nigdy jej nie nudzi
motyw schludnego oprawcy
nad splugawioną ofiarą.

Do nowych zadań w każdej chwili gotowa.
Jeżeli musi poczekać, poczeka.
Mówią, że ślepa. Ślepa?
Ma bystre oczy snajpera
i śmiało patrzy w przyszłość
ona jedna.

(Koniec i początek — 1993)
____________________
Wisława Szymborska: Um amor feliz [poemas], bilíngue — Seleção, Tradução e Prefácio por Regina Przybycien, 1ª edição, 2016, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wisława Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; de sua biografia, consta que Topielec. Poemat epiczny w II pieśniach, seu poema mais antigo, é datado de 28.02.1942; assim, Wisława deu início a seu processo criativo: em Cracóvia, trabalhou como editora assistente na revista quinzenal Świetlica Krakowska, criou suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, também em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Dlatego żyjemy (Por isso vivemos, 1952), Pytania zadawane sobie (Pergunta que me faço, 1954), Wołanie do Yeti (Chamando por Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Literário da Cidade de Cracóvia (Nagrodę Literacką Miasta Krakowa 1954, pelas obras Dlatego żyjemy e Pytania zadawane sobie), Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996), Prêmio Niki de Literatura (2006), ...

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Wisława Szymborska: Na torre de Babel

 
____________________
traduzido por Regina Przybycien]

Que horas são? Sim, estou feliz,
só me falta um sininho ao pescoço,
que toque sobre você quando dorme.
Não ouviu o temporal? O vento sacudiu o muro,
a torre bocejou como um leão, o grande portão
rangeu nas dobradiças.  Mas como, esqueceu?
Eu usava um simples vestido cinza
abotoado no ombro. — E logo depois o céu
rompeu em cem clarões. Como eu podia entrar?
Você não estava sozinho. — E de repente vi cores
preexistentes à própria visão. — Que pena
que não possa me prometer. — Você está certa,
deve ter sido um sonho. — Por que mente,
por que me chama com o nome dela,
você ainda a ama? — Oh, sim, queria
que você ficasse comigo. Não guardo rancor,
eu devia ter imaginado isso.
Ainda pensa nele? — Mas não estou chorando.
E isso é tudo? — Ninguém como você.
Pelo menos você é sincera. — Fique tranquilo,
vou embora desta cidade. — Fique tranquila,
eu vou embora daqui. — Você tem mãos tão lindas.
Esta é uma velha história, a lâmina penetrou
sem tocar no osso. — Não tem de quê,
meu caro, não tem de quê. — Não sei
e não quero saber que horas são.

(Sal — 1962)

Wisława Szymborska

Na wieży Babel

— Która godzina? — Tak, jestem szczęśliwa,
i brak mi tylko dzwoneczka u szyi,
który by brzęczał nad tobą, gdy śpisz.
— Więc nie słyszałaś burzy? Murem targnął wiatr,
wieża ziewnęła jak lew, wielką bramą
na skrzypiących zawiasach. — Jak to, zapomniałeś?
Miałam na sobie zwykłą szarą suknię
spinaną na ramieniu. I natychmiast potem
niebo pękło w stubłysku. — Jakże mogłam wejść,
przecież nie byłeś sam. — Ujrzałem nagle
kolory sprzed istnienia wzroku. — Szkoda,
że nie możesz mi przyrzec. — Masz słuszność
widocznie to był sen. — Dlaczego kłamiesz,
dlaczego mówisz do mnie jej imieniem,
kochasz ją jeszcze? — O tak, chciałbym,
żebyś została ze mną. — Nie mam żalu,
powinnam była domyślić się tego.
— Wciąż myślisz o nim? — Ależ ja nie płaczę.
— I to juź wszystko?  Nikogo jak ciebie.
— Przynajmniej jesteś szczera. — Bądź spokojny,
wyjadę z tego miasta. — Bądź spokojna,
odejdę stąd. — Masz takie piękne ręce.
— To stare dzieje, ostrze przeszło
nie naruszając kości. — Nie ma za co,
mój drogi, nie ma za co. — Nie wiem
i nie chcę wiedzieć, która to godzina.

(Sól — 1962)
____________________
Wisława Szymborska: Um amor feliz [poemas], bilíngue — Seleção, Tradução e Prefácio por Regina Przybycien, 1ª edição, 2016, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wisława Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; de sua biografia, consta que Topielec. Poemat epiczny w II pieśniach, seu poema mais antigo, é datado de 28.02.1942; assim, Wisława deu início a seu processo criativo: em Cracóvia, trabalhou como editora assistente na revista quinzenal Świetlica Krakowska, criou suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, também em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Dlatego żyjemy (Por isso vivemos, 1952), Pytania zadawane sobie (Pergunta que me faço, 1954), Wolanie do Yeti (Chamando pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Literário da Cidade de Cracóvia (Nagrodę Literacką Miasta Krakowa 1954, pelas obras Dlatego żyjemy e Pytania zadawane sobie), Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996), Prêmio Niki de Literatura (2006), ...

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Wisława Szymborska: No rio de Heráclito

 
____________________
[traduzido por Regina Przybycien]

No rio de Heráclito
um peixe pesca os peixes,
um peixe corta um peixe com um peixe afiado,
um peixe constrói um peixe, um peixe mora num peixe,
um peixe foge de um peixe sitiado.

No rio de Heráclito
um peixe ama um peixe,
teus olhos diz brilham como os peixes no céu,
quero nadar contigo até o mar comum,
ó tu, a mais bela do cardume.

No rio de Heráclito
um peixe imaginou o peixe dos peixes,
um peixe se ajoelha ante um peixe, um peixe canta para um peixe,
e pede ao peixe um nado mais leve.

No rio de Heráclito
eu peixe único, eu peixe separado
(ao menos do peixe árvore e do peixe pedra)
escrevo, em momentos isolados, pequenos peixes
de escamas tão fugazmente prateadas
que talvez a escuridão pisque de embaraço.

(Sal 1962)

Wisława Szymborska

W rzece Heraklita

W rzece Heraklita
ryba łowi ryby,
ryba ćwiartuje rybę ostrą rybą,
ryba buduje rybę, ryba mieszka w rybie,
ryba ucieka z oblężonej ryby.

W rzece Heraklita
ryba kocha rybę,
twoje oczy powiada lśnią jak ryby w niebie,
chcę płynąć razem z tobą do wspólnego morza,
o najpiękniejsza z ławicy.

W rzece Heraklita
ryba wymyśliła rybę nad rybami,
ryba klęka przed rybą, ryba śpiewa rybie,
prosi rybę o lżejsze pływanie.

W rzece Heraklita
ja ryba pojedyncza, ja ryba odrębna
(choćby od ryby drzewa i ryby kamienia)
pisuję w poszczególnych chwilach małe ryby
w łusce srebrnej tak krótko,
że może to ciemność w zakłopotaniu mruga?

(Sól 1962)
____________________
Wisława Szymborska: Um amor feliz [poemas], bilíngue — Seleção, Tradução e Prefácio por Regina Przybycien, 1ª edição, 2016, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wisława Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; de sua biografia, consta que Topielec. Poemat epiczny w II pieśniach, seu poema mais antigo, é datado de 28.02.1942; assim, Wisława deu início a seu processo criativo: em Cracóvia, trabalhou como editora assistente na revista quinzenal Świetlica Krakowska, criou suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, também em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Dlatego żyjemy (Por isso vivemos, 1952), Pytania zadawane sobie (Pergunta que me faço, 1954), Wołanie do Yeti (Chamando por Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Literário da Cidade de Cracóvia (Nagrodę Literacką Miasta Krakowa 1954, pelas obras Dlatego żyjemy e Pytania zadawane sobie), Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996), Prêmio Niki de Literatura (2006), ...