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terça-feira, 26 de março de 2024

Franco de Sá: Nênia

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Neste momento, último, supremo,
Dizendo ao nosso amigo o adeus extremo,
           Amigos, não chorai!
Ele passou da vida nos caminhos
Os pés dilacerando nos espinhos,
           Demais... não teve pai!

Oh, sim! na infância, do viver a aurora,
Na juventude não tiveste uma hora,
           Que não fosse de dor!
Uma esperança, que não fosse rola,
E na taça da vida uma só gota,
           Que não fosse amargor!

Se um dia no horizonte escuro e triste
Uma estrela de luz brilhando viste,
           E adorando-a, talvez,
Fitaste nela leu olhar contente,
O fugaz meteoro de repente
           Nas sombras se desfez.

A arvore fatal donde brotaste
Nos ramos afogou-te a frágil haste,
           Privando-a do sol.
Mas, ao sopro cruel da desventura
Elevou-se lua alma inda mais pura
           Das mágoas no crisol!

Pensando em Deus, passaste pelo mundo,
Sem as asas manchar no lodo imundo
           De fétido paul;
Como por sobre lodaçal impuro
Voa a garça, esquecendo o charco escuro,
           Olhando o céu azul.

E cansaste por fim! Então voando
Foste dos justos reunir-te ao bando
           Junto ao trono de Deus;
E ao mundo, que só dera-te veneno,
Sem pesares, com ânimo sereno
           Disseste o último adeus!

Nada esperavas dele! Se uma trança
De cabelos te dava inda esperança
           De um amor de mulher,
Guardaste no teu peito este segredo,
Ninguém ouviu-te murmurar a medo
           O seu nome sequer.

Nessa agonia, que o viver consome,
Na hora de morrer somente um nome
           Em teus lábios soou.
Era de tua mãe o nome santo,
Que lua alma de filho amava tanto,
           Que, chamando-a, voou!

Foi longo teu sofrer; descansa agora
Onde ludo sorri e ninguém chora,
           Onde tudo é fiel.
Terás por cada dor mil alegrias,
Por cada gota amarga, que bebias,
           Mil ânforas de mel.

Como o cativo na estrangeira praia
As cadeias depõe, se o dia raia
           Que à pátria o reconduz,
Depuseste no exílio um corpo frio,
Ninho sem rouxinol, templo vazio,
           Alâmpada sem luz!

Sobre ele o adeus extremo te dirijo;
Se o mar foi tormentoso e o vento rijo,
           Bonança lá terás.
Da virtude seguiste o duro trilho;
Foste amigo fiel, foste bom filho;
           Adeus, repousa em paz!

Meu Deus, se em minha vida agora calma
Lançares provações, dá que minh’alma
           Saia delas assim!
E que um amigo sobre a minha lousa,
Invocando leu nome, a mesma cousa
           Dizer possa de mim!

(Parnaso Maranhense, Tip. do Progresso,
São Luís do Maranhão, 1861, págs. 35/38.)
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia: vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Antônio Joaquim Franco de Sá (1836 1856), maranhense de Alcântara, fez seus primeiros estudos no Maranhão e no Rio de Janeiro, frequentou o curso de Ciências Jurídicas e Sociais da Faculdade de Recife, foi poeta e não teve obra publicada em vida; seus poemas foram reunidos postumamente e editados em Poesias de Antônio Joaquim Franco de Sá (1867); dele, constam composições no Parnaso Maranhense (1861), além de versos esparsos e traduções de trechos de Childe Harold, de Byron, e de Sganarelle, de Moliére, não reunidos em Poesias; o poeta veio a falecer em 28 de janeiro de 1856, ainda estudante do 4º ano de Direito e muito jovem, sem ter completado seus vinte anos de idade.

sábado, 29 de novembro de 2014

Franco de Sá: Eu não te encaro, donzela

Poesia Romantica Antologia 1965
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Eu não te encaro, donzela,
Mas tu não sabes por quê;
Daquela verde janela
Talvez a inveja nos vê.

Se divisarem ternura
De teus olhos no fulgor,
Em tua fronte tão pura
Quererão nódoas depor.

E eu, que te amo e venero,
Como a Deus um serafim,
Não quero, virgem, não quero,
Que tu padeças por mim.

Se meus olhos encontrares,
Os olhos porei no chão;
Apenas breves olhares
Te dirão minha paixão.

Nosso amor, nossos extremos
Ninguém conheça ao redor;
Amemos, virgem, amemos
Em silêncio, que é melhor.



Nota do Organizador:
Conforme nota que se lê na edição príncipe, os versos foram feitos de improviso em Recife, 1855.
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Poesia Romântica — Antologia, Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos (vários autores), 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Antônio Joaquim Franco de Sá (1836  1856), maranhense de Alcântara, foi poeta; fez seus primeiros estudos no Maranhão e no Rio de Janeiro; morreu muito jovem e não teve obra publicada em vida; seus poemas foram reunidos postumamente e editados em Poesias de Antônio Joaquim Franco de Sá (1867); há composições do poeta no Parnaso Maranhense (1861), além de versos esparsos e traduções de trechos de Childe Harold (de Byron) e de Sganarelle (de Molière), não reunidos em Poesias.