sábado, 31 de janeiro de 2015

Augusto dos Anjos: Idealismo

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Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?!

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
Alavanca desviada do seu fulcro

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

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Antologia da Literatura Mundial — Antologia de Poetas Brasileiros, Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, Quarta edição, 1961, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884  1914), paraibano de Sapé, formado em Direito pela Faculdade de Recife, professor, foi poeta e publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Almeida Garrett: Barca bela

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Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
          Que é tão bela,
          Ó pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
         Colhe a vela,
         Ó pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
         Mas cautela,
         Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
        Só de vê-la,
        Ó pescador!

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
        Foge dela,
        Ó pescador!

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Antologia Escolar de Poesia Portuguesa  De Camões a Pessoa, Organização de Douglas Tufano, 1993, Impressão em 2000, Editora Moderna, São Paulo  SP; João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799  1854), português do Porto, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi escritor, dramaturgo, orador e político, e considerado um dos representantes literários do Romantismo em Portugal; trabalhou em jornais, foi fundador e dirigiu alguns deles  O Português e O Cronista, e colaborou com outros periódicos  a Revista Universal Lisbonense e A Semana, de Lisboa; escreveu e publicou O Retrato de Vênus (poema, 1821), Catão (tragédia, 1822), Camões (poema, 1825), Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa (in Parnaso Lusitano, 1826), Adozinda (poema, 1828), Da Educação (ensaio), Lírica de João Mínimo (poema, 1829), Portugal na Balança da Europa (ensaio, 1830), Um Auto de Gil Vicente (teatro, 1841), Viagens na minha terra (romance, 1846), Dona Filipa de Vilhena (comédia, 1846), e tantos outros títulos em verso e prosa e dramaturgia, além de inúmeros textos que, vindos à luz, só foram publicados postumamente.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Paulo Vanzolini: Valsa das Três da Manhã

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Eu não bebo para esquecer,
bebo para lembrar.
Eu bebo e cambaleio e tenho você ao meu lado
é o meu instante de felicidade.
Vou andando na neblina das ruas
conversando com você
cantigas da perdida felicidade.
Seu perfume se mistura
ao cheiro bom da madrugada.
sua mão nem pesa no meu braço
mas seu contacto é doce, doce
e o rumor do seu passo
é música, é música pura.

               Só não vejo você.
               Mas não faz mal.
               Sei que você está ao meu lado
               isso me basta
               e vou andando na neblina, feliz,
               até cair.




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Antologia de Poetas Brasileiros — Seleção e Coordenação de Mariazinha Congílio, Prefácio de José Fernando Tavares, 1a. edição, 2000, Universitária Editora Ltda., Lisboa — Portugal; Paulo Emílio Vanzolini (1924 2013), paulista e paulistano, um dos idealizadores da FAPESP Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e ativo colaborador do Museu de Zoologia da USP Universidade de São Paulo, foi zoólogo e compositor brasileiro; Vanzolini foi o autor de canções (Ronda, Volta por Cima, Boca da Noite, ...) que, entre as décadas de 50 e 60, se tornaram famosas e o fez famoso e conhecido, pelas vozes de cantores e cantoras da boemia paulistana (Noite Ilustrada, Luís Carlos Paraná, Maísa, ...); em discografia, deixou-nos Onze Sambas e uma Capoeira (vários intérpretes, 1967), A Música de Paulo Vanzolini (1974), Por Ele Mesmo (1981), Acerto de Contas (2003); escreveu e publicou Lira de Paulo Vanzolini (1967), Tempos de Cabo (com ilustrações de Aldemir Martins, 1981), An annotated bibliography of the land and fresh-water reptiles of South América: 1758 1975 (dois volumes, 1977 e 1978); recebeu premiações por suas atividades artísticas (APCA Associação Paulista de Críticos de Arte, 2013) e como cientista (Fundação Guggenheim, Nova Iorque, 2008).

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Camilo Pessanha: Encontraste-me um dia no caminho . . . [soneto]

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Caminho

II

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.

 Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto

Que choramos a dor de cada um... 
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

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Antologia Escolar de Poesia Portuguesa De Camões a Pessoa, Organização de Douglas Tufano, 1993, Impressão em 2000, Editora Moderna, São Paulo SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura e foi professor de Filosofia; ao longo do seu período acadêmico publica poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal e em 1894 parte para Macau; pelas mãos de Ana de Castro Osório, e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi assim que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

W. B. Yeats: E daí?

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[tradução de Ivo Barroso]

Estudante, os mais íntimos colegas
Já viam nele um grande gênio então;
Ele também; e agiu segundo as regras
Passando em claro as suas noites negras.
E daí? canta a sombra de Platão.

Seus escritos lhe dão notoriedade;
Ao cabo de alguns anos, ganha tão
Bem que não passa mais necessidades;
Seus amigos, amigos de verdade.
E daí? canta a sombra de Platão.

Seus sonhos todos vêm à luz do dia:
Casa boa, mulher, filhos, carrão,
Horta e pomar onde tudo crescia,
Poetas e Sábios sobre ele choviam.
E daí? canta a sombra de Platão.

Obra completa, já maduro, tosse:
"Meu projeto de jovem concluí;
Que os tolos clamem; um senão que fosse;
Pois algo ao nível do perfeito eu trouxe."
E a voz mais alto: E daí? E daí?

W. B. Yeats

His chosen comrades thought at school
He must grow a famous man;
He thought the same and lived by rule,
All his twenties crammed with toil;
“What then?”  sang Plato's ghost. “What then?”

Everything he wrote was read,
After certain years he won
Sufficient money for his need,
Friends that have been friends indeed;
“What then?”  sang Plato's ghost. “What then?”

All his happier dreams came true 
A small old house, wife, daughter, son,
Grounds where plum and cabbage grew,
Poets and Wits about him drew;
“What then?”  sang Plato's ghost. “What then?”

“The work is done”, grown old he thought,
“According to my boyish plan;
Let the fools rage, I swerved in naught,
Something to perfection brought”;
But louder sang that ghost, “What then?”

(W.B. Yeats, Collected Poems,
 MacMillan London Ltd. 1982)

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O Torso e o Gato — O Melhor da Poesia Universal, Tradução e Organização de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss, edição bilíngue, 1991, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; W. B. Yeats (1865  1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, tho stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast poetry (1927), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Cecília Meireles: Sugestão

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Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.

Mar Absoluto — 1945

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Cecília Meireles — Antologia Poética, 2001, 3a. edição. 7a. impressão, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 1964), nascida no Rio de Janeiro RJ, foi poeta, ensaísta, cronista, folclorista, tradutora e educadora; em 1919, publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois, vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923) e Baladas para El-rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; para a presente Antologia Poética (1a. edição, 1963), a poetisa selecionou textos de Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto (1945), Elegia (1933  1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), além de poemas inéditos.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Basílio da Gama: Soneto a Tupac Amaru

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(Ao Inca que no Peru armando algumas tribos declarou guerra aos Espanhóis e por algum tempo os debelou.)

Dos curvos arcos açoitando os ares
Voa a seta veloz do índio adusto;
O horror, a confusão, o espanto, o susto,
Passam da terra, e vão gelar os mares.

Ferindo a vista os trêmulos cocares,
Animoso esquadrão de Chefe Augusto,
Rompe as cadeias do Espanhol injusto
E torna a vindicar os pátrios lares.

Inca valente, generoso Indiano!
Ao Real sangue, que te alenta as veias,
Une a memória do paterno dano.

Honra as cinzas de dor, de injúrias cheias,
Qu'inda fumando a morte, o roubo, o engano,
Clamam vingança as tépidas areias.

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Cinco Séculos de Poesia — Antologia da Poesia Clássica Brasileira, Seleção, Introdução e Organização de Frederico Barbosa, 2000, Landy Editora, São Paulo — SP; José Basílio da Gama (1741  1795), mineiro nascido no Arraial de São José do Rio das Mortes, hoje Tiradentes, foi poeta do Arcadismo; escreveu Epitalâmio às núpcias da Sra. D. Maria Amália (filha do Marquês de Pombal) e O Uraguai (1769), A declamação trágica (poema dedicado às belas artes, 1772), Os Campos Elíseos (1776), Relação abreviada da República e Lenitivo da Saudade (1788), Quitúbia (1791) ...; além do Rio de Janeiro, também viveu em Roma e em Lisboa, onde veio a falecer; escrevia sob o pseudônimo de Termindo Sipilio. 

domingo, 18 de janeiro de 2015

Menotti Del Picchia: Os Mortos

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É inútil que cubram de terra os corpos.

Eles saem do chão 
não como fantasmas
mas vivos.

Sentam-se às nossas mesas
comem soturnos nossa sopa misturada com lágrimas.

Sabemos que não são imortais
e que essa sobrevivência tem prazo.

Um dia, porém

quando?

(dessa data nem nos damos conta)

evaporam-se...

Somos nós que matamos nossos mortos
e os enterramos em nós mesmos.

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Antologia de Poetas Brasileiros — Seleção e Coordenação de Mariazinha Congílio, Prefácio de José Fernando Tavares, 1a. edição, 2000, Universitária Editora Ltda., Lisboa — Portugal; Paulo Menotti Del Picchia (1892 1988), paulista e paulistano, poeta, jornalista, romancista, contista, ensaísta, teatrólogo e historiador, empenhou-se em polêmicas na defesa da Semana De Arte Moderna, embora com uma poesia com poucos sinais de vanguardismo; em período tardio lança O Deus sem rosto (1968) onde estão contidos os mais modernistas de seus poemas; estreou na literatura com Poemas do Vício e da Virtude (1913), depois escreveu Juca Mulato (1917), Chuva de Pedra (1924), República dos Estados Unidos do Brasil (1928), Jesus (1933), Noturno (1970), entre tantos outros títulos; trabalhou nos jornais A Tribuna (de Santos), A Gazeta, Correio Paulistano, Diário de São Paulo e Diário da Noite; fundou a revista Papel e Tinta (com Oswald de Andrade) e o jornal Anhanguera (órgão informativo do movimento Bandeira, criado junto com Cassiano Ricardo e Cândido Mota Filho).

sábado, 17 de janeiro de 2015

Ulisses Tavares: pulo da gia

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fica de olho, poeta
no destino que lhe apronta esta:
viver até o fim sua utopia
ou ser jurado de concurso de poesia.

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O Eu entre Nós, Edições Pindaíba, 1978, São Paulo — SP; Ulisses Tavares, paulista de Sorocaba  SP, nascido em 1950, é poeta, professor, publicitário, jornalista, dramaturgo, compositor, roteirista e ator; sua página na internet nos informa que o poeta só não publicou em bulas de remédio e no idioma chinês  são mais de 112 livros publicados em variados gêneros e assuntos; nos anos 70 do século e milênio passados participou da Geração Mimeógrafo, criou e participou também do Núcleo Pindaíba Edições e Debates e ajudou a lançar outros poetas no mercado livreiro; eis algumas de suas obras, não necessariamente na ordem cronológica em que foram escritas e publicadas: Viva a Poesia Viva (infantil, Editora Saraiva), O Eu entre Nós (1978, Edições Pindaíba), Pega Gente (seu primeiro livro de poemas, 1977), Caindo na Real (Editora Moderna), A Maravilhosa Sabedoria das Coisas (Editora Cortez), O Diário de uma Paixão (Geração Editorial), Sete Casos do Detetive Xulé, Poemas que Latem ao Coração (Editora Nova Alexandria) etc. etc. etc.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Lêdo Ivo: Segunda Lição

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Ivo viu o pão
atrás do balcão.

Viu a liberdade
entre o céu e as grades.

Ivo viu o amor
na concha: negror

Ivo viu a fome
na barriga do homem.

E a carne, esperança,
pesar-se em balança.

Ivo viu a usura
na oferta e procura.

Viu depois a rosa
cercada de espinhos.

E uma vez passando
perto de um moinho

Ivo viu um homem
parado sozinho

com seu cheiro antigo
de centeio e trigo

com cheiro de pão
antes do balcão.

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Antologia de Poetas Brasileiros — Seleção e Coordenação de Mariazinha Congílio, Prefácio de José Fernando Tavares, 1a. edição, 2000, Universitária Editora Ltda., Lisboa — Portugal; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; produção literária: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa; o autor, que obteve diversas premiações literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.