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terça-feira, 7 de outubro de 2025

Petrarca: Ardo tanto e, ai de mim! — quem acredita? . . . [soneto]

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Ardo tanto e, ai de mim! quem acredita?
Se alguém me crê, só o duvida aquela
Que entre outras damas é a mais pura e bela,
Pois parece não ver o que me agita.

Tão pouca fé, beleza não finita,
Vê, nos olhos meu peito se revela,
Se não fosse tão dura minha Estrela,
Acharia mercê tanta desdita.

Este meu grão ardor que pouco estimas,
O teu alto louvor difuso em rimas
Mil pessoas no mundo inflamaria.

E vê meu pensamento ó doce chama,
Que o ouvido indiferente e a língua fria
Terão por alto plectro eterna fama.

Petrarca

Lasso!, ch'i' ardo, et altri non mel crede;
sí crede ogni uom, se non sola colei
che sovr'ogni altra, et ch'i' sola vorrei:
ella non par che 'l creda, e sì sel vede.

Infinita bellezza, e poca fede,
non vedete voi 'l cor, nelli occhi mei?
Se non fusse mia stella, i' pur devrei
al fonte di pietà trovar mercede.

Quest'arder mio, di che vi cal sì poco,
e i vostri onori, in mie rime diffusi,
ne porìan infiammar fors'ancor mille;

ch'i' veggio nel penser, dolce mio foco,
fredda una língua, e duo belli occhi chiusi
rimaner, dopo noi, pien di faville.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

sábado, 5 de julho de 2025

Petrarca: Era o dia em que o sol escurecia . . . [soneto]

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Era o dia em que o sol escurecia
Os raios por piedade ao seu Fator,
Quando eu me vi submisso ao vivo ardor
De teu formoso olhar que me prendia.

Defender-me do golpe eu não queria;
Desabrigado achou-me então Amor;
Por isso acrescentou-se a minha dor
À dor universal que assaz crescia.

Achou-me Amor de todo desarmado,
Pelos olhos, ao peito aberta a estrada,
Olhos que se fizeram mar de pranto.

Porém a sua ação não o honra tanto:
Ferir-me, sendo inerme o meu estado,
Não te visar quando eras tão armada.

Petrarca

Era il giorno ch’al sol si scoloraro
per la pietà del suo factore i rai,
quando i’ fui preso, e non me ne guardai,
ché i be’ vostr’occhi, donna, mi legaro.

Tempo non mi parea da far riparo
Contr’ a’ colpi d’Amor: però m’andai
secur, senza sospetto; onde i miei guai
nel commune dolor s’incominciaro.

Trovommi Amor del tutto disarmato,
et aperta la via per gli occhi al core,
che di lagrime son fatti uscio et varco.

Però al mio parer, non li fu onore
ferir me de saetta in quello stato,
a voi armata non mostrar pur l’arco.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Petrarca: Não tenho paz nem posso fazer guerra . . . [soneto]

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Não tenho paz nem posso fazer guerra;
Temo e espero, e do ardor ao gelo passo,
E voo para o céu, e desço à terra,
E nada aperto, e todo o mundo abraço.

Prisão que nem se fecha ou se descerra,
Nem me retém nem solta o duro laço;
Entre livre e submissa esta alma erra,
Nem é morto nem vivo o corpo lasso.

Vejo sem olhos, grito sem ter voz;
E sonho perecer e ajuda imploro;
A mim odeio e a outrem amo após.

Sustento-me de dor e rindo choro;
A morte como a vida enfim deploro:
E neste estado sou, Dama, por Vós.

Petrarca

Pace non trovo, et non ho da far guerra;
e temo, e spero; et ardo, e son un ghiaccio;
e volo sopra ’l cielo, e giaccio in terra;
e nulla stringo, et tutto ’l mondo abbraccio.

Tal m’ha in pregion, che non m’apre né serra,
né per suo mi riten né scioglie il laccio;
e non m’ancide Amore, e non mi sferra,
né mi vuol vivo, né mi trae d’impaccio.

Veggio senza occhi, e non ho língua, e grido;
e bramo di perir, e cheggio aita:
et ho in odio me stesso, et amo altrui.

Pascomi di dolor, piangendo rido;
egualmente mi spiace morte e vita:
in questo stato son, donna, per voi.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus, e muitos outros títulos.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Petrarca: Tanto peixe não tem o mar entre ondas . . .

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Tanto peixe não tem o mar entre ondas,
Nem acima do círculo da lua
Jamais viu tanta estrela alguma noite,
Nem tantas aves moram pelos bosques
Nem tanta erva existiu em campo ou vale
Quanto afãs o meu peito em cada tarde.

Dia a dia eu espero a ultima tarde
Que me liberte das terrenas ondas
E me deixe dormir em qualquer vale.
Homem nenhum tanto afã sob a lua
Jamais sofreu assim; sabem-no os bosques
Que, só, vou procurando dia e noite.

Eu não tive jamais tranquila noite,
Mas suspirando vou manhã e tarde,
Desde que Amor me enclausurou nos bosques.
Antes que acabe a angústia, o mar sem ondas
Será e o sol terá a luz da lua
E as flores morrrerão em todo vale.

Consumindo-me vou de vale em vale
O dia todo; e após eu choro à noite;
No meu estado sou tal qual a lua.
Mal veio agora escurecer a tarde,
Suspira o peito e dos olhos as ondas
Banham as ervas e movem os bosques.

A cidade é inimiga mas os bosques
Velam por meus cuidados; pelo vale
Afogando-os eu vou ao som das ondas
Pelo silêncio tão doce da noite;
Tanto que espero todo o dia a tarde,
Que o sol transmonte e dê lugar à lua.

Ah, pudesse eu ao resplandor da lua
Adormecer por estes verdes bosques,
E esta que cedo ainda me dá a tarde
Viesse comigo Amor àquele vale.
Só estivesse ali por uma noite;
E o dia se estendera e o sol nas ondas.

Sobre ondas duras ao lume da lua
Canção nascida à noite em meio aos bosques
Rico vale amanhã verás à tarde.

Petrarca

Non ha tanti animali il mar fra l’onde;
nè lassù sopra ’l cerchio della Luna
vide mai tante stelle alcuna notte;
nè tanti augelli albergan per li boschi;
nè tant’erbe ebbe mai campo, nè piaggia,
quant’ha ’l mio cor pensier ciascuna sera.

Di dì in dì spero omai, l’ultima sera,
che scevri in me dal vivo terren l’onde,
e mi lasci dormire in qualche piaggia:
che tanti affanni uom mai sotto la Luna
non sofferse, quant’io; sannolsi i boschi
che sol vo ricercando giorno e notte.

Io non ebbi già mai tranquilla notte,
ma sospirando andai mattino e sera,
poi ch’Amor fêmmi un cittadin de’ boschi.
Ben fia, prima ch’i’ posi, il mar senz’onde;
e la sua luce avrà ’l Sol da la Luna,
e i fior d’april morranno in ogni piaggia.

Consumando mi vo di piaggia in piaggia,
il dì pensoso; poi piango la notte;
nè stato ho mai, se non quanto la Luna.
Ratto, come imbrunir veggio la sera,
sospir del petto, e de li occhi escono onde,
da bagnar l’erbe, e da crollare i boschi.

Le città son nemiche, amici i boschi,
a’ miei pensier, che per quest’alta piaggia
sfogando vo col mormorar de l’onde
per lo dolce silenzio de la notte:
tal ch’io aspetto tutto ’l dì la sera,
che ’l Sol si parta, e dia luogo a la Luna.

Deh, or foss’io col vago de la Luna
adormentato in qua’ che verdi boschi;
e questa ch’anzi vespro a me fa sera,
con essa e con Amor in quella piaggia
sola venisse a starsi ivi una notte;
e ’l dì si stesse, e ’l Sol sempre ne l’onde.

Sovra dure onde, al lume della Luna,
canzon, nata di notte in mezzo i boschi,
ricca piaggia vedrai deman da sera.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

quinta-feira, 20 de março de 2025

Petrarca: Não vejo em que lugar me salvaria . . . [soneto]

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Não vejo em que lugar me salvaria
Da que seus olhos fazem, guerra dura
Que receio que o afã que assim perdura
Destrua o coração nesta porfia.

Fugir quisera: e o olhar que me alumia,
Que dia e noite em minha mente dura,
No décimo quinto ano assaz fulgura
Qual no momento do primeiro dia.

Belos olhos que estais por toda parte,
Recanto não existe em que eu não veja
A vossa ou símil tão acesa luz.

E só dum louro tal selva verdeja,
Que entre os ramos o imigo, com sua arte,
Por onde queira agora me conduz.

Petrarca

Non veggio ove scampar mi possa omai:
sì lunga guerra i begli occhi mi fanno,
ch’i’ temo, lasso!, no ’l soverchio affanno
distruga ’l cor che triegua non ha mai.

Fuggir vorrei; ma gli amorosi rai,
che dí et notte ne la mente stanno,
risplendon sì, ch’al quintodecimo anno
m’abbaglian più che ’l primo giorno assai;

et l’imagine lor son sì cosparte
che volver non mi posso, ov’io non veggia
o quella o simil indi accesa luce.

Solo d’un lauro tal selva verdeggia
che ’l mio adversario con mirabil arte
vago fra i rami, ovunque vuol, m’adduce.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus, e muitos outros títulos.

terça-feira, 4 de março de 2025

Petrarca: Morte, a mais bela face descoraste . . . [soneto]

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Morte, a mais bela face descoraste
E a vista mais fermosa escureceste.
Mais sublimado espírito escolheste
E do corpo mais belo o separaste.

Num momento o meu bem todo roubaste,
E o acento mais suave emudeceste.
Quanto eu vejo ou escuto é rudo e agreste,
E cheio de lamentos me deixaste.

Oh, torna a consolar tamanha dor,
Clara dama. E a piedade a reconduz
À alma que só por ela vive e espera.

E se como ela fala ou como luz,
Dizer pudesse, acendera eu de amor,
Quanto peito existir de homem ou fera.

Petrarca

Discolorato hai, Morte, il più bel vólto
che mai si vide, e i più begli occhi spenti;
spirto più acceso di vertuti ardenti,
del più leggiadro e più bel nodo hai sciolto.

In un momento ogni mio ben m’hai tolto;
post’hai silenzio a’ più soavi accenti
che mai s’udîro, e me pien di lamenti:
quant’io veggio m’è noia, et quant’io ascolto.

Ben torna a consolar tanto dolore
madonna, ove pietà la riconduce;
né trovo in questa vita altro soccorso.

E se come ella parla, e come luce,
ridir potessi, accenderei d’amore,
non dirò d’uom, un cor di tigre o d’orso.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Petrarca: Ah, se este meu sentir dissera o verso . . . [soneto]

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Ah, se este meu sentir dissera o verso
Em vez de assim jazer no peito, mudo,
Certo abrandara quanto peito rudo
Existira, e cruel pelo universo.

Mas vós, olhos que um dardo tão perverso
Atirais contra o qual não vale escudo
Por dentro e fora vedes me desnudo
E lamento nenhum pelo ar disperso.

Posto que vossa vista em mim resplende
Como transluz um raio por cristal
Basta então o desejo e eu nada diga.

A Pedro ou a Maria não fez mal
A fé que para mim é tanto imiga;
E eu sei que a não ser vós ninguém me entende.

Petrarca

Così potess’io ben chiudere in versi
i miei pensier, come nel cor gli chiudo;
ch’animo al mondo non fu mai sì crudo,
ch’i’ non facessi per pietà dolersi.

Ma voi, occhi beati, ond’io soffersi
quel colpo, ove non valse elmo né scudo,
di fòr e dentro mi vedete ignudo,
bem che ’n lamenti il duol non si riversi.

Poi che vostro vedere in me risplende,
come raggio di sol traluce in vetro,
basti dunque il desio senza ch’io dica.

Lasso!, non a Maria, non nocque a Pietro
la fede, ch’a me sol tanto è nemica;
e so ch’altri che voi nessun m’intende.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

domingo, 11 de fevereiro de 2024

José María de Heredia: Seguindo Petrarca


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[traduzido por Álvaro Reis]

Safeis de uma igreja e, num gesto apiedado,
As vossas nobres mãos abriram-se à pobreza;
À sombra do portal vossa clara beleza
Mostrava o ouro dos céus ao mendigo extasiado!

E quando, humilde como um cortesão curvado,
Eu vos saudei com toda a graça e gentileza,
Puxastes a mantilha aos olhos, com presteza,
Desviando-vos de mim, com ar de desagrado.

Mas Amor, que domina o peito mais altivo,
 Menos terna que linda  ah! não quis que uma graça
Me não desse a piedade, um doce lenitivo!

Porque fostes tão lenta o véu baixando, oh bela!
Que entre os cílios passou um clarão como passa
Dentre a folhagem negra o raio de uma estrela!

José María de Heredia

Suivant Pétrarque

Vous sortiez de l’église et, d’un geste pieux,
Vos nobles mains faisaient l’aumône au populaire,
Et sous le porche obscur votre beauté si claire
Aux pauvres éblouis montrait tout l’or des cieux.

Et je vous saluai d’un salut gracieux,
Très humble, comme il sied à qui ne veut déplaire,
Quand, tirant votre mante et d’un air de colère
Vous détournant de moi, vous couvrîtes vos yeux.

Mais Amour qui commande au coeur le plus rebele
Ne voulut pas souffrir que, moins tendre que belle,
La source de pitié me refusât merci;

Et vous fûtes si lente à ramener le voile,
Que vos cils ombrageux palpitèrent ainsi
Qu’un noir feuillage où filtre un long rayon d’étoile.

[Les Trophées — 1893]
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr., sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; José María de Heredia Girard (1842 1905), nascido em Cuba (à época, colônia espanhola), na localidade de Cafeyre, próxima a Santiago de Cuba, aos oito anos tendo sido mandado para a França, estudou e bacharelou-se no colégio dos padres vicentinos, o liceu Saint-Vincent, em Senlis, foi poeta, escritor e tradutor; em 1859, de volta a Cuba, Havana, onde permaneceu por pouco mais de um ano, aprofundou os conhecimentos da língua e da literatura espanhola, compôs seus primeiros poemas franceses que chegaram até nós, e depois retornou para Paris França; fez parte do grupo que tinha em Leconte de Lisle um “chefe e mestre”, e do qual também participavam François Coppée, Sully Prudhomme, Paul Verlaine e outros, todos se tornando conhecidos como os poetas do Parnaso, “os parnasianos”; José María de Heredia, que naturalizou-se francês, publicou Les Trophées (118 sonetos e 4 poemas de maior extensão, 1893) e no ano seguinte foi eleito membro da Academia Francesa; também foi diretor da Biblioteca do Arsenal, de Paris, e organizou uma edição crítica das obras do poeta André Chénier; Heredia é reconhecido como um dos poetas do Parnasianismo francês, embora com “produção pouco abundante, mas de boa qualidade”; além da já citada publicação de Les Tropheés, deixou-nos também sua obra esparsa em revistas literárias da época e contribuiu para a Revue de Deux Mondes, o Le Temps e o Journal des Débats; traduziu, do espanhol para o francês, A Verdadeira História da Conquista da Nova-Espanha — 3 volumes, do Capitão Bernal Diaz del Castillo (Véridique histoire de la conquête de la Nouvelle-Espagne — 3 volumes, 1877-1878).

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Francesco Petrarca: Seus olhos que eu cantei ardentemente, . . . [soneto]

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"Na morte de Laura" — O poeta, "privado de Laura, não mais fará cantos de amor".

[traduzido por Luiz Delfino]

Seus olhos que eu cantei ardentemente,
rosto, pés, braços, mãos, já não diviso:
de mim mesmo arrancaram-me, e o juízo,
para os ter, eu fugia à toda gente.

A crespa coma de ouro reluzente,
o lampejar do angélico sorriso
que fazia da terra um paraíso,
não têm mais vida agora, é pó somente.

E vivo? E calmo, tudo em torno eu olho?
Não tenho mais a luz que amava tanto,
sou como nau lançada em rude escolho.

Morra também meu amoroso canto;
de lágrimas a lira em luto eu molho:
para chorá-la fique só meu pranto.

Francesco Petrarca

CCXCII

Gli occhi di ch’io parlai sí caldamente,
et le braccia, et le mani, et i piedi e ’l viso,
che m’avean sí da me stesso diviso,
Et fatto singular da l’altra gente;

le crespe chiome d’òr puro lucente,
e ’l lampeggiar de l’angelico riso,
che solean fare in terra un paradiso,
poca polvere son, che nulla sente.

Et io pur vivo; onde mi doglio et sdegno,
rimaso senza ’l lume ch’amai tanto,
in gran fortuna, e ’n disarmato legno.

Or sia qui fine al mio amoroso canto:
secca è la vena de l’usato ingegno,
et la cetera mia rivolta in pianto.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' — poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' — diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' — série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' — elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum — coleção de doze poemas pastorais, Africa — épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

domingo, 5 de março de 2023

Francesco Petrarca: Paz não tenho, sem ter motivo à guerra: . . . [soneto]


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"Em vida de Laura" — O poeta "narra o estado em que se encontra, atribuindo-o a Laura".

[traduzido por Luiz Delfino]

Paz não tenho, sem ter motivo à guerra:
temo, espero, ardo em fogo, e sou de gelo,
quero subir ao céu e caio em terra,
nada abraço, e o universo ando a contê-lo.

Preso, a prisão não se abre, e não se cerra:
prendem-me o coração, mas sem prendê-lo,
não me dá vida ou morte, Amor, e erra
minha alma sob o enorme pesadelo.

Odeio-me a mim mesmo, alguém amando,
grito sem boca ter, sem olhos vejo,
quero morrer, e a morte me apavora.

A dor me apraz, e rio-me, chorando:
não quero a morte, a vida não desejo...
Eis o estado em que estou por vós, Senhora.

Francesco Petrarca

CXXXIV

Pace non trovo, et non ò da far guerra;
e temo, et spero; et ardo, et son un ghiaccio;
et volo sopra ’l cielo, et giaccio in terra;
et nulla stringo, et tutto ’l mondo abbraccio.

Tal m’à in pregion, che non m’apre né serra,
né per suo mi riten né scioglie il laccio;
et non m’ancide Amore, et non mi sferra,
né mi vuol vivo, né mi trae d’impaccio.

Veggio senza occhi, et non ò lingua et grido;
et bramo di perir, et cheggio aita;
et ò in odio me stesso, et amo altrui.

Pascomi di dolor, piangendo rido;
egualmente mi spiace morte et vita:
in questo stato son, donna, per voi.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' — poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' — diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' — série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' — elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum — coleção de doze poemas pastorais, Africa — épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.