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sábado, 12 de fevereiro de 2022

Benedita de Melo: A Gravata

 
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Fui encontrar no chão, abandonada,
certa gravata que te dei outrora
e que, por estar feia e desbotada,
deitaste a um canto quando foste embora.

Ela foi como eu fui, a ti ligada,
por um abraço já desfeito agora.
Foi como eu fui, um dia desprezada.
Não tive jeito de jogá-la fora.

Gostaste dela e dela desgostaste...
Guardo-a comigo, então. Pois, em verdade,
sou também coisa que tu rejeitaste.

Hoje não sou mais uma, somos duas,
e valemos nas horas de saudade
pobres gravatas que já foram tuas.

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Benedita de Melo Amaral (1906 1991), pernambucana de Vicência, cega de nascença, fez seus cursos no Instituto Benjamin Constant (antigo Imperial Instituto dos Meninos Cegos) no Rio de Janeiro, onde também lecionou português, foi professora, poetisa e escritora; obras: Lanterna Acesa (1939), Sol nas Trevas (1944), Versos do Meu Brasil (1945), Luz Interior (1972), Lâmpadas Coloridas (1984); hoje o Instituto Benjamin Constant é centro de referência nacional para questões relativas à deficiência visual e, além da escola, capacita profissionais da área da deficiência visual, assessora escolas e instituições em geral e oferece reabilitação física; consta que o nome de batismo da poetisa fosse Benedicta de Mello.

sábado, 6 de novembro de 2021

Benedita de Melo: Relógio

 
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Toda a nossa ventura enternecida,
meu relógio a marcava hora por hora.
O dia em que tornaste à minha Vida,
o amargo instante em que te foste embora.

Não gosto dele. Continua a lida,
contando o tempo em que te encontras fora.
Por que não pára se me vê sentida
e me entristece a sua voz sonora?

Quero um relógio assim como o arco-íris,
que vem ou vai, com horas singulares.
Compra-me um desses, quando acaso o vires...

Um que tenha expressão enquanto o olhares.
E que se atrase antes de tu partires,
e que se adiante para tu voltares!

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Benedita de Melo Amaral (1906 1991), pernambucana de Vicência, cega de nascença, fez seus cursos no Instituto Benjamin Constant (antigo Imperial Instituto dos Meninos Cegos) no Rio de Janeiro, onde também lecionou português, foi professora, poetisa e escritora; obras: Lanterna Acesa (1939), Sol nas Trevas (1944), Versos do Meu Brasil (1945), Luz Interior (1972), Lâmpadas Coloridas (1984); hoje o Instituto Benjamin Constant é centro de referência nacional para questões relativas à deficiência visual e, além da escola, capacita profissionais da área da deficiência visual, assessora escolas e instituições em geral e oferece reabilitação física; consta que o nome de batismo da poetisa fosse Benedicta de Mello.

sábado, 2 de outubro de 2021

Benedita de Melo: Bendita cegueira

 
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Não vi ciscar a terra o pintainho,
nem vi no lago espreguiçar-se a lua.
Não vi num ramo balouçar-se um ninho,
nem no dorso no mar vi a falua.

Não vi, em frente, o rumo ao meu caminho...
Vi ruidosa e deserta cada rua...
Meu ser em toda parte vi sozinho...
Não vi o mato verde, a pedra nua.

Mas, se não vi a graça de uma flor,
nem plumagem de pássaro cantor,
bendigo o que não vi, para bem meu...

Não vi o frio olhar de quem renega...
E a dor de minha mãe ao ver-me cega...
E o rosto de meu pai, quando morreu...

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Benedita de Melo Amaral (1906 1991), pernambucana de Vicência, cega de nascença, fez seus cursos no Instituto Benjamin Constant (antigo Imperial Instituto dos Meninos Cegos) no Rio de Janeiro, onde também lecionou português, foi professora, poetisa e escritora; suas obras: Lanterna Acesa (1939), Sol nas Trevas (1944), Versos do Meu Brasil (1945), Luz Interior (1972), Lâmpadas Coloridas (1984); hoje o Instituto Benjamin Constant é centro de referência nacional para questões relativas à deficiência visual e, além da escola, capacita profissionais da área da deficiência visual, assessora escolas e instituições em geral e oferece reabilitação física; consta que o nome de batismo da poetisa fosse Benedicta de Mello.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Benedita de Melo: Velhice

 
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Velhice é a borra do final da taça...
O sabor derradeiro da bebida,
Visão que, terna, a criatura abraça,
porém que sempre a encontra distraída.

Tem de tudo que finda, a eterna graça.
Por todos, com tristeza é recebida...
Qualquer fase da vida surge e passa,
sem que por isso passe-nos a vida.

Ela, não. Ela fica. É a mais sincera...
É mais que o Outono e mais que a Primavera...
Para atingi-la, quanto não fazemos!

Vai-se a infância e risonhos prosseguimos...
A mocidade foge e resistimos...
Mas se a velhice morre, nós morremos!...

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Benedita de Melo Amaral (1906 1991), pernambucana de Vicência, cega de nascença, fez seus cursos no Instituto Benjamin Constant (antigo Imperial Instituto dos Meninos Cegos) no Rio de Janeiro, onde também lecionou português, foi professora, poetisa e escritora; suas obras: Lanterna Acesa (1939), Sol nas Trevas (1944), Versos do Meu Brasil (1945), Luz Interior (1972), Lâmpadas Coloridas (1984); hoje o Instituto Benjamin Constant é centro de referência nacional para questões relativas à deficiência visual e, além da escola, capacita profissionais da área da deficiência visual, assessora escolas e instituições em geral e oferece reabilitação física; consta que o nome de batismo da poetisa fosse Benedicta de Mello.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Benedita de Melo: A Tristeza Maior

Ia ser mãe ou ser mulher, talvez;
Indizível anseio a dominava.
Veio-lhe belo o filho que esperava
Em róseo dia de ridente mês.

Pela primeira e derradeira vez
A criança nos seus braços apertava;
E na falta que ao anjo ela deixava,
Vi quanta falta minha mãe me fez.

Nesse momento de aflições sem termos,
Todos os vendavais, todos os ermos
Previ em torno ao ser por quem sofria.

E no meu modo de sentir ou ver,
Eu não chorei a mãe que ia morrer,
Chorei antes o filho que nascia.
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Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Benedita de Melo Amaral (1906  1991), nascida em Vicência  PE, cega de nascença, fez seus cursos no Instituto Benjamin Constant (antigo Imperial Instituto dos Meninos Cegos) no Rio de Janeiro, onde também foi professora de português; poetisa e escritora, escreveu e publicou Lanterna Acesa (1939), Sol nas Trevas (1944), e Versos do Meu Brasil (1945); hoje o Instituto Benjamin Constant é centro de referência nacional para questões relativas à deficiência visual, além da escola, capacita profissionais da área da deficiência visual, assessora escolas e instituições em geral e oferece reabilitação física; consta que o nome de batismo da poetisa fosse Benedicta de Mello.