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[traduzido por Olegário Mariano]
Mar sem limite, — o areal
vermelho abrasa e estua
Em seu leito onde o sol raios
de ouro espadana.
Ondula, em fumos no ar, sobre
a planície nua,
O amplo horizonte onde
fervilha a vida humana.
Nenhum rumor. Somente os leões
dormem saciados,
Cem léguas em redor, no antro
absconso das feras.
Bebe a girafa a água dos veios
azulados.
Sob as palmas — doce asilo das
panteras.
Nem um pássaro, um só, num voo
abandono,
Corta com o alfanje da asa o
infinito que escalda.
Por vezes a serpente, acordada
em seu sono
Move as escamas lampejantes de
esmeralda.
E enquanto o espaço abafa em
mormaços violentos
E em tudo pesa a lassidão de
um sono incerto,
Os Elefantes vão, rudes viageiros
lentos,
Rumo ao país natal, através do
deserto...
De um ponto do horizonte,
entre nuvens de poeira,
Mexem-se com vagar, tardos e
desconformes...
E em linha regular — soldados
em fileira —
Dunas levam rolando entre as
patas enormes.
À frente, marcha o velho
chefe. Tem o dorso
Áspero. É um tronco exposto ao
tempo que o espezinha.
A cabeça é uma rocha; e, num
mínimo esforço,
Dobra, crespo e brutal, o arco
mole da espinha
Conservando na marcha um
ritmado compasso,
Ele indica o país que o
Destino lhes marca...
E, abrindo a areia, os
peregrinos, passo a passo,
Seguem passivamente o velho
patriarca...
A orelha em leque, a tromba a
rolar entre dentes,
Caminham sempre... Os ventres
negros lhe latejam;
No ar abrasado o suor sobe, em
volutas quentes,
Enquanto, em derredor, milhões
de insetos voejam...
Que lhes importa a sede e a
inclemência maldita
Do sol de brasas? E o moscardo
que os ameaça?
Se eles sonham com a terra
encantada onde habita
Entre figueiras, longe, a sua
heróica raça?!
Verão, a cascatear de altos
montes incultos
O rio em que rolava o
hipopótamo a fio...
Onde em noites de luar, vinham,
mirando os vultos
N’água, em torno aos juncais,
beber a água do rio.
É por todo esse ideal que os
enche de saudade,
Que eles cortam o areal
longínquo que se explana...
E o deserto retoma a ampla
imobilidade,
Quando, ao longe, se perde a
lenta caravana...
Les
Éléphants
Le sable rouge est comme une
mer sans limite,
Et qui flambe, muette,
affaissée en son lit.
Une ondulation immobile
remplit
L’horizon aux vapeurs de
cuivre où l’homme habite.
Nulle vie et nul bruit. Tous
les lions repus
Dorment au fond de l’antre
éloigné de cent lieues,
Et la girafe boit dans les
fontaines bleues,
Là-bas, sous les dattiers des
panthères connus.
Pas un oiseau ne passe en
fouettant de son aile
L’air épais, où circule un
immense soleil.
Parfois quelque boa, chauffé
dans son sommeil,
Fait onduler son dos dont
l’écaille étincelle.
Tel l’espace enflammé brûle
sous les cieux clairs.
Mais, tandis que tout dort aux
mornes solitudes,
Lés éléphants rugueux, voyageurs
lents et rudes
Vont au pays natal à travers
les déserts.
D’un point de l’horizon, comme
des masses brunes,
Ils viennent, soulevant la
poussière, et l’on voit,
Pour ne point dévier du chemin
le plus droit,
Sous leur pied large et sûr
crouler au loin les dunes.
Celui qui tient la tête est un
vieux chef. Son corps
Est gercé comme un tronc que
le temps ronge et mine
Sa tête est comme un roc, et
l’arc de son échine
Se voûte puissamment à ses
moindres efforts.
Sans ralentir jamais et sans
hâter sa marche,
Il guide au but certain ses
compagnons poudreux;
Et, creusant par derrière un
sillon sablonneux,
Les pèlerins massifs suivent
leur patriarche.
L’oreille en éventail, la
trompe entre les dents,
Ils cheminent, l’oeil clos.
Leur ventre bat et fume,
Et leur sueur dans l’air
embrasé monte en brume;
Et bourdonnent autour mille
insectes ardents.
Mais qu’importent la soif et
la mouche vorace,
Et le soleil cuisant leur dos
noir et plissé?
Ils rêvent en marchant du pays
délaissé,
Des forêts de figuiers où s’abrita
leur race.
Ils reverront le fleuve
échappé des grands monts,
Où nage en mugissant
l’hippopotame énorme,
Où, blanchis par la Lune et
projetant leur forme,
Ils descendaient pour boire en
écrasant les joncs.
Aussi, pleins de courage et de
lenteur, ils passent
Comme une ligne noire, au
sable illimité;
Et le désert reprend son
immobilité
Quand les lourds voyageurs à
l’horizon s’effacent.
(Poèmes Barbares, 1862)
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Antologia de Poetas
Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e
tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e
Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Charles Marie René Leconte de Lisle (1818 —
1894), francês nascido em Saint-Paul, ilha francesa de La Réunion, no Oceano
Índico, estudou Direito, sem apresentar interesse por questões jurídicas
abandonou tal caminho, estudou grego, italiano e história, foi poeta expoente
do parnasianismo, escritor, dramaturgo e tradutor; viveu o período da infância
na ilha e na Bretanha, frança
continental; trabalhou no jornal La Démocratie Pacifique; suas obras: Poèmes
antiques (1852), Hélène (teatro, 1852), Le Chemin de
la Croix ou La Passion (1856), Poèmes barbares
(1862), Les Érinnyes e L’Apollonide (ambas, peças dramáticas líricas, 1873 e
1888), Poèmes tragiques (1884) e outros textos; traduziu Teócrito, Homero,
Hesíodo, Ésquilo, Horácio, Sófocles e Eurípedes; em 1886 foi eleito para a
Academia Francesa sucedendo Victor Hugo.