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sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Leconte de Lisle: O Colibri

 
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[traduzido por Castro Fonseca]

O verde colibri, rei das colinas,
sentindo o orvalho e o sol claro brilhar
em seu ninho tecido de ervas finas,
qual fresco raio libra-se no ar.

Rápido voa às fontes cristalinas,
onde os bambus murmuram como o mar,
onde o "açoká" * de exaltações divinas
abre-se e vem no coração radiar.

Desce e, pousando na dourada flor,
bebe na rósea taça tanto amor,
que morre sem saber se a flor secara!

Sobre os teus puros lábios, minha amada,
assim morrer minha alma desejara
do teu primeiro beijo perfumada.

Leconte de Lisle

Le Colibri

Le vert colibri, le roi des collines,
Voyant la rosée et le soleil clair
Luire dans son nid tissé d’herbes fines,
Comme un frais rayon s’échappe dans l’air.

Il se hâte et vole aux sources voisines
Où les bambous font le bruit de la mer,
Où l’açoka rouge, aux odeurs divines,
S’ouvre et porte au cœur un humide éclair.

Vers la fleur dorée il descend, se pose,
Et boit tant d’amour dans la coupe rose,
Qu’il meurt, ne sachant s’il l’a pu tarir.

Sur ta lèvre pure, ô ma bien-aimée,
Telle aussi mon âme eût voulu mourir
Du premier baiser qui l’a parfumée!

* Nota do organizador Vasco de Castro Lima: Verso 7 — Açoká (ou asoká, ou açocá, ou asocá) — Árvore indiana de belas flores, que se ofereciam aos ídolos (vários séculos antes de Cristo).
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Charles Marie René Leconte de Lisle (1818 1894), francês nascido em Saint-Paul, ilha francesa de La Réunion, no Oceano Índico, estudou Direito, sem apresentar interesse por questões jurídicas abandonou tal caminho, estudou grego, italiano e história, foi poeta expoente do parnasianismo, escritor, dramaturgo e tradutor; viveu o período da infância na ilha e na Bretanha, frança continental; trabalhou no jornal La Démocratie Pacifique; suas obras: A Vênus de Milo, Poèmes antiques (1852), Hélène (teatro, 1852), Poèmes et Poésies (1854), Le Chemin de la Croix ou La Passion (1856), Poèmes barbares (1862), Les Érinnyes e L’Apollonide (ambas, peças dramáticas líricas, 1873 e 1888), Poèmes tragiques (1884) e outros textos; traduziu Teócrito, Homero, Hesíodo, Ésquilo, Horácio, Sófocles e Eurípedes; em 1886 foi eleito para a Academia Francesa sucedendo Victor Hugo.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Leconte de Lisle: Paisagem polar

 
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[traduzido por Raymundo Correia]

Do mar a imensa escuma o frio aglomerou-a,
E um mundo morto fez, sem luz, sem vegetais,
E onde do gelo duro as agulhas fatais
Rasgam do fusco céu a perpétua garoa;

Em avalanches rola a neve, e se amontoa...
Tudo estéril; e atroz confusão de infernais
Brados, imprecações, roncos, soluços e ais,
Que aos seus clarins de ferro o vento arranca, troa.

Nivoso, hirto, glacial, das brumas através,
O branco e antigo deus, pai das primevas raças,
Inteiriçado jaz, do promontório aos pés...

E a babar de volúpia, em meio à cerração,
Os ursos colossais e formidandas massas
Trôpegos, cá e lá bambaleando vão...

Leconte de Lisle

Paysage polaire

Un monde mort, immense écume de la mer,
Gouffre d’ombre stérile et de lueurs spectrales,
Jets de pics convulsifs étirés en spirales
Qui vont éperdument dans le brouillard amer.

Un ciel rugueux roulant par blocs, un âpre enfer
Où passent à plein vol les clameurs sépulcrales,
Les rires, les sanglots, les cris aigus, les râles
Qu’un vent sinistre arrache à son clairon de fer.

Sur les hauts caps branlants, rongés des flots voraces,
Se roidissent les Dieux brumeux des vieilles races,
Congelés dans leur rêve et leur lividité;

Et les grands ours, blanchis par les neiges antiques,
Çà et là, balançant leurs cous épileptiques,
Ivres et monstrueux, bavent de volupté.

[Poèmes barbares — 1862]
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel Simon, sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Charles Marie René Leconte de Lisle (1818 1894), francês nascido em Saint-Paul, ilha francesa de La Réunion, no Oceano Índico, estudou Direito, sem apresentar interesse por questões jurídicas abandonou tal caminho, estudou grego, italiano e história, foi poeta expoente do parnasianismo, escritor, dramaturgo e tradutor; viveu o período da infância na ilha e na Bretanha, frança continental; trabalhou no jornal La Démocratie Pacifique; suas obras: A Vênus de Milo, Poèmes antiques (1852), Hélène (teatro, 1852), Poèmes et Poésies (1854), Le Chemin de la Croix ou La Passion (1856), Poèmes barbares (1862), Les Érinnyes e L’Apollonide (ambas, peças dramáticas líricas, 1873 e 1888), Poèmes tragiques (1884) e outros textos; traduziu Teócrito, Homero, Hesíodo, Ésquilo, Horácio, Sófocles e Eurípedes; em 1886 foi eleito para a Academia Francesa sucedendo Victor Hugo.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

Leconte de Lisle: O sono de Leilá


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[traduzido por Raymundo Corrêa]

Calmo estio; a água viva não murmura,
Nem ave alguma as asas bate, arisca;
Apenas, leve, o bengali belisca
Da rubra manga a polpa áurea e madura;

No parque real, à sombra verde-escura
Das latadas, a lânguida mourisca
Leilá repousa à sesta... O sol faísca
Num céu de chumbo ardente, que fulgura...

Oprime o rosto o braço contrafeito;
O âmbar do pé sem meia, docemente,
Colora as malhas do pantufo estreito;

Dorme e sonha e, sorrindo, o amante chama,
O lábio a abrir fruto aromado e quente,
Que o coração refresca e a boca inflama.

Leconte de Lisle

Le sommeil de Leïlah

Ni bruits d'aile, ni sons d'eau vive, ni murmures;
La cendre du soleil nage sur l'herbe en fleur,
Et de son bec furtif le bengali siffleur
Boit, comme un sang doré, le jus des mangues mûres.

Dans le verger royal où rougissent les mûres,
Sous le ciel clair qui brûle et n'a plus de couleur,
Leïlah, languissante et rose de chaleur,
Clôt ses yeux aux longs cils à l'ombre des ramures.

Son front ceint de rubis presse son bras charmant;
L'ambre de son pied nu colore doucement
Le treillis emperlé de l'étroite babouche.

Elle rit et sommeille et songe au bien-aimé,
Telle qu'un fruit de pourpre, ardent et parfumé,
Qui rafraîchit le coeur en altérant la bouche.
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. E Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro — nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Charles Marie René Leconte de Lisle (1818 1894), francês nascido em Saint-Paul, ilha francesa de La Réunion, no Oceano Índico, estudou Direito, sem apresentar interesse por questões jurídicas abandonou tal caminho, estudou grego, italiano e história, foi poeta expoente do parnasianismo, escritor, dramaturgo e tradutor; viveu o período da infância na ilha e na Bretanha, frança continental; trabalhou no jornal La Démocratie Pacifique; suas obras: A Vênus de Milo, Poèmes antiques (1852), Hélène (teatro, 1852), Poèmes et Poésies (1854), Le Chemin de la Croix ou La Passion (1856), Poèmes barbares (1862), Les Érinnyes e L’Apollonide (ambas, peças dramáticas líricas, 1873 e 1888), Poèmes tragiques (1884) e outros textos; traduziu Teócrito, Homero, Hesíodo, Ésquilo, Horácio, Sófocles e Eurípedes; em 1886 foi eleito para a Academia Francesa sucedendo Victor Hugo.

domingo, 1 de janeiro de 2023

Leconte de Lisle: Os Elefantes

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[traduzido por Olegário Mariano]

Mar sem limite, o areal vermelho abrasa e estua
Em seu leito onde o sol raios de ouro espadana.
Ondula, em fumos no ar, sobre a planície nua,
O amplo horizonte onde fervilha a vida humana.

Nenhum rumor. Somente os leões dormem saciados,
Cem léguas em redor, no antro absconso das feras.
Bebe a girafa a água dos veios azulados.
Sob as palmas doce asilo das panteras.

Nem um pássaro, um só, num voo abandono,
Corta com o alfanje da asa o infinito que escalda.
Por vezes a serpente, acordada em seu sono
Move as escamas lampejantes de esmeralda.

E enquanto o espaço abafa em mormaços violentos
E em tudo pesa a lassidão de um sono incerto,
Os Elefantes vão, rudes viageiros lentos,
Rumo ao país natal, através do deserto...

De um ponto do horizonte, entre nuvens de poeira,
Mexem-se com vagar, tardos e desconformes...
E em linha regular soldados em fileira
Dunas levam rolando entre as patas enormes.

À frente, marcha o velho chefe. Tem o dorso
Áspero. É um tronco exposto ao tempo que o espezinha.
A cabeça é uma rocha; e, num mínimo esforço,
Dobra, crespo e brutal, o arco mole da espinha

Conservando na marcha um ritmado compasso,
Ele indica o país que o Destino lhes marca...
E, abrindo a areia, os peregrinos, passo a passo,
Seguem passivamente o velho patriarca...

A orelha em leque, a tromba a rolar entre dentes,
Caminham sempre... Os ventres negros lhe latejam;
No ar abrasado o suor sobe, em volutas quentes,
Enquanto, em derredor, milhões de insetos voejam...

Que lhes importa a sede e a inclemência maldita
Do sol de brasas? E o moscardo que os ameaça?
Se eles sonham com a terra encantada onde habita
Entre figueiras, longe, a sua heróica raça?!

Verão, a cascatear de altos montes incultos
O rio em que rolava o hipopótamo a fio...
Onde em noites de luar, vinham, mirando os vultos
N’água, em torno aos juncais, beber a água do rio.

É por todo esse ideal que os enche de saudade,
Que eles cortam o areal longínquo que se explana...
E o deserto retoma a ampla imobilidade,
Quando, ao longe, se perde a lenta caravana...


Les Éléphants

Le sable rouge est comme une mer sans limite,
Et qui flambe, muette, affaissée en son lit.
Une ondulation immobile remplit
L’horizon aux vapeurs de cuivre où l’homme habite.

Nulle vie et nul bruit. Tous les lions repus
Dorment au fond de l’antre éloigné de cent lieues,
Et la girafe boit dans les fontaines bleues,
Là-bas, sous les dattiers des panthères connus.

Pas un oiseau ne passe en fouettant de son aile
L’air épais, où circule un immense soleil.
Parfois quelque boa, chauffé dans son sommeil,
Fait onduler son dos dont l’écaille étincelle.

Tel l’espace enflammé brûle sous les cieux clairs.
Mais, tandis que tout dort aux mornes solitudes,
Lés éléphants rugueux, voyageurs lents et rudes
Vont au pays natal à travers les déserts.

D’un point de l’horizon, comme des masses brunes,
Ils viennent, soulevant la poussière, et l’on voit,
Pour ne point dévier du chemin le plus droit,
Sous leur pied large et sûr crouler au loin les dunes.

Celui qui tient la tête est un vieux chef. Son corps
Est gercé comme un tronc que le temps ronge et mine
Sa tête est comme un roc, et l’arc de son échine
Se voûte puissamment à ses moindres efforts.

Sans ralentir jamais et sans hâter sa marche,
Il guide au but certain ses compagnons poudreux;
Et, creusant par derrière un sillon sablonneux,
Les pèlerins massifs suivent leur patriarche.

L’oreille en éventail, la trompe entre les dents,
Ils cheminent, l’oeil clos. Leur ventre bat et fume,
Et leur sueur dans l’air embrasé monte en brume;
Et bourdonnent autour mille insectes ardents.

Mais qu’importent la soif et la mouche vorace,
Et le soleil cuisant leur dos noir et plissé?
Ils rêvent en marchant du pays délaissé,
Des forêts de figuiers où s’abrita leur race.

Ils reverront le fleuve échappé des grands monts,
Où nage en mugissant l’hippopotame énorme,
Où, blanchis par la Lune et projetant leur forme,
Ils descendaient pour boire en écrasant les joncs.

Aussi, pleins de courage et de lenteur, ils passent
Comme une ligne noire, au sable illimité;
Et le désert reprend son immobilité
Quand les lourds voyageurs à l’horizon s’effacent.

(Poèmes Barbares, 1862)
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Charles Marie René Leconte de Lisle (1818 1894), francês nascido em Saint-Paul, ilha francesa de La Réunion, no Oceano Índico, estudou Direito, sem apresentar interesse por questões jurídicas abandonou tal caminho, estudou grego, italiano e história, foi poeta expoente do parnasianismo, escritor, dramaturgo e tradutor; viveu o período da infância na ilha e na Bretanha, frança continental; trabalhou no jornal La Démocratie Pacifique; suas obras: Poèmes antiques (1852), Hélène (teatro, 1852), Le Chemin de la Croix ou La Passion (1856), Poèmes barbares (1862), Les Érinnyes e L’Apollonide (ambas, peças dramáticas líricas, 1873 e 1888), Poèmes tragiques (1884) e outros textos; traduziu Teócrito, Homero, Hesíodo, Ésquilo, Horácio, Sófocles e Eurípedes; em 1886 foi eleito para a Academia Francesa sucedendo Victor Hugo.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Leconte de Lisle: Sonhos Mortos

 
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[traduzido por Ricardo Gonçalves]

Olha, amigo: este mar, que ora assim vês tão manso,
Bateu, como um aríete, um dia, sem descanso,
Os promontórios; foi aos saltos em cachões,
Escalando, subindo as rochas e sobre elas
Estendeu a bramir, no fragor das procelas,
O espumoso lençol dos negros vagalhões.

Agora o encrespa a fresca brisa matutina.
A beleza do sol as águas ilumina
E longe, em direção desse horizonte infindo,
Onde passam, nadando, embarcações remotas,
Vai-se da costa azul, o páramo cindindo,
Em trêmula revoada, um bando de gaivotas...

Ali bóiam, porém, contornando os ilhéus,
Destroços de naufrágio; e esses que os escarcéus
Assassinaram, vão, sob as ondas pesadas,
Lívidos, a sangrar de costas ou de bruços,
A boca aberta transbordante de soluços,
Olhos vítreos, olhando as águas sossegadas.

Meu coração é como esse mar que, tranquilo,
Beija as praias agora em doce murmurilo.

Também chorou, rugiu como ele... Sem descanso
Contra as rochas lançou-se em tremendos embates,
Todo um dia cruel de insânia e de combates,
Vês? Agora reflui apaziguado e manso;
Sem desejo ou temor de nova tempestade,
À caricia do sol a voz mal se lhe escuta.

Mas o gênio, a esperança, a força, a mocidade,
Ei-los mortos na espuma e no sangue da luta.

Leconte de Lisle

Les rêves morts

Vois! cette mer si calme a comme un lourd bélier
Effondré tout un jour le flanc des promontoires,
Escaladé par bonds leur fumant escalier,
Et versé sur les rocs, qui hurlent sans plier,
Le frisson écumeux des longues houles noires.
Un vent frais, aujourd'hui, palpite sur les eaux,
La beauté du soleil monte et les illumine,
Et vers l'horizon pur où nagent les vaisseaux,
De la côte azurée, un tourbillon d'oiseaux
S'échappe, en arpentant l'immensité divine.
Mais, parmi les varechs, aux pointes des îlots,
Ceux qu'a brisés l'assaut sans frein de la tourmente,
Livides et sanglants sous la lourdeur des flots,
La bouche ouverte et pleine encore de sanglots,
Dardent leurs yeux hagards à travers l'eau dormante.
Ami, ton coeur profond est tel que cette mer
Qui sur le sable fin déroule ses volutes:
Il a pleuré, rugi comme l'abîme amer,
Il s'est rué cent fois contre des rocs de fer,
Tout un long jour d'ivresse et d'effroyables luttes.
Maintenant il reflue, il s'apaise, il s'abat.
Sans peur et sans désir que l'ouragan renaisse,
Sous l'immortel soleil c'est à peine s'il bat;
Mais génie, espérance, amour, force et jeunesse
Sont là, morts, dans l'écume et le sang du combat.
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. E Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro — nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Charles Marie René Leconte de Lisle (1818 1894), francês nascido em Saint-Paul, ilha francesa de La Réunion, no Oceano Índico, estudou Direito, sem apresentar interesse por questões jurídicas abandonou tal caminho, estudou grego, italiano e história, foi poeta expoente do parnasianismo, escritor, dramaturgo e tradutor; viveu o período da infância na ilha e na Bretanha, frança continental; trabalhou no jornal La Démocratie Pacifique; suas obras: A Vênus de Milo, Poèmes antiques (1852), Hélène (teatro, 1852), Poèmes et Poésies (1854), Le Chemin de la Croix ou La Passion (1856), Poèmes barbares (1862), Les Érinnyes e L’Apollonide (ambas, peças dramáticas líricas, 1873 e 1888), Poèmes tragiques (1884) e outros textos; traduziu Teócrito, Homero, Hesíodo, Ésquilo, Horácio, Sófocles e Eurípedes; em 1886 foi eleito para a Academia Francesa sucedendo Victor Hugo.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Leconte de Lisle: As rosas de Ispaã

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[traduzido por Renata Cordeiro]

As rosas de Ispaã na bainha musgosa,
Os jasmins de Mossul*, a flor da laranjeira
Ah, fragrância não têm suave e tão ditosa,
Ó branca Leila, como a tua aura ligeira!

Lábios corais, soando a risada ligeira
Bem melhor que a água viva, e com voz mais ditosa,
Bem melhor que o ar feliz que embala a laranjeira,
Que a ave que canta ao lar na bainha musgosa...

Mas desde que fugiu, com sua asa ligeira,
O beijo dessa boca encarnada e ditosa,
Perfume já não há na tênue laranjeira,
E nem celeste odor nas bainhas musgosas...

Que o teu jovem amor, borboleta ligeira,
Volte ao meu coração, com sua asa ditosa,
E que perfume ainda a flor da laranjeira,
As rosas do Ispaã na bainha musgosa!

Leconte de Lisle

Les roses d’Ispahan

Les roses d'Ispahan dans leur gaine de mousse,
Les jasmins de Mossoul, les fleurs de l'oranger
Ont un parfum moins frais, ont une odeur moins douce,
Ô blanche Leïlah! que ton souffle léger.

Ta lèvre de corail, et ton rire léger
Sonne mieux que l'eau vive et d'une voix plus douce,
Mieux que le vent joyeux qui berce l'oranger,
Mieux que l'oiseau qui chante au bord d’un nid de mousse

[ . . . ]

Ô Leïlah! depuis que de leur vol léger
Tous les baisers ont fui de ta lèvre si douce,
Il n'est plus parfum dans le pâle oranger,
Plus de céleste arôme aux roses dans leur mousse.

[ . . . ]

Oh! que ton jeune amour, ce papillon léger,
Revienne vers mon coeur d'une aile prompte et douce,
Et qu'il parfume encor les fleurs de l'oranger,
Les roses d'Ispahan dans leur gaîne de mousse!

* Nota da tradutora Renata Cordeiro e acréscimo deste Verso e Conversa: Ispaã se situa no atual Irã e Mossul no Iraque; o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página ousa acrescentar que o poema Les roses d’Ispahan é composto de seis estrofes, das quais a tradutora verteu para o português as 1ª, 2ª, 4ª e 6ª estrofes, que integram a música Les Roses d’Ispahan Op.39-4, de Gabriel Fauré (1810 — 1885), compositor, organista e pianista.
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Charles Marie René Leconte de Lisle (1818 1894), francês nascido em Saint-Paul, ilha francesa de La Réunion, no Oceano Índico, estudou Direito, sem apresentar interesse por questões jurídicas abandonou tal caminho, estudou grego, italiano e história, foi poeta expoente do parnasianismo, escritor, dramaturgo e tradutor; viveu o período da infância na ilha e na Bretanha, frança continental; trabalhou no jornal La Démocratie Pacifique; suas obras: A Vênus de Milo, Poèmes antiques (1852), Hélène (teatro, 1852), Poèmes et Poésies (1854), Le Chemin de la Croix ou La Passion (1856), Poèmes barbares (1862), Les Érinnyes e L’Apollonide (ambas, peças dramáticas líricas, 1873 e 1888), Poèmes tragiques (1884) e outros textos; traduziu Teócrito, Homero, Hesíodo, Ésquilo, Horácio, Sófocles e Eurípedes; em 1886 foi eleito para a Academia Francesa sucedendo Victor Hugo.