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Pássaro! A expressão alada inventa o vôo
e sugere-a intranquila imagem: pássaro.
Golpe de brisa contra as folhas. Traço
ríspido ferindo o olhar e se esvaindo em plumas.
A forma que se esgarça entre dois gestos
e ilusória sustém um pensamento grácil:
Pássaro.
Eu calo em mim o símbolo e o vazio
de onde houvera um pássaro e um vôo.
Sustento na memória a última pluma,
hipérbole de luz que se perdeu, diáfana.
E reinvento a alada forma da palavra
que em revoada escapa de meus lábios.
E em cristalino canto, e em solitário adejo,
quebro o silêncio que se fez amargo:
Pássaro.
(Poesia cúmplice —
1959)
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Roteiro da Poesia Brasileira —
Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora
Global, 2007, São Paulo — SP; Celina Ferreira (1928 — 2012), mineira de Cataguases,
foi professora, assistente social, jornalista e poeta; mudando-se para Belo Horizonte, foi assistente social, lecionou no Senai e, aos 27 anos, outra vez de mudança, agora para o Rio de Janeiro, trabalhou na Rádio MEC, no Jornal do Brasil e foi redatora
na TV Tupi; obras: Poesia de ninguém (1954), Nave incorpórea (1955), Mundo
Encantado (1957), A Princesa Flor-de-Lótus (literatura infantil, 1958), Poesia cúmplice
(1959), Hoje poemas (1967), Espelho convexo (1973), Papagaio gaio: poeminhas (literatura
infantil, 1998) ... e participação em antologias; recebeu premiações por sua obra.






