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sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Celina Ferreira: A Forma e o Vazio

 
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Pássaro! A expressão alada inventa o vôo
e sugere-a intranquila imagem: pássaro.
Golpe de brisa contra as folhas. Traço
ríspido ferindo o olhar e se esvaindo em plumas.
A forma que se esgarça entre dois gestos
e ilusória sustém um pensamento grácil:
                               Pássaro.

Eu calo em mim o símbolo e o vazio
de onde houvera um pássaro e um vôo.
Sustento na memória a última pluma,
hipérbole de luz que se perdeu, diáfana.
E reinvento a alada forma da palavra
que em revoada escapa de meus lábios.
E em cristalino canto, e em solitário adejo,
quebro o silêncio que se fez amargo:
                               Pássaro.

(Poesia cúmplice — 1959)

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo — SP; Celina Ferreira (1928 2012), mineira de Cataguases, foi professora, assistente social, jornalista e poeta; mudando-se para Belo Horizonte, foi assistente social, lecionou no Senai e, aos 27 anos, outra vez de mudança, agora para o Rio de Janeiro, trabalhou na Rádio MEC, no Jornal do Brasil e foi redatora na TV Tupi; obras: Poesia de ninguém (1954), Nave incorpórea (1955), Mundo Encantado (1957), A Princesa Flor-de-Lótus (literatura infantil, 1958), Poesia cúmplice (1959), Hoje poemas (1967), Espelho convexo (1973), Papagaio gaio: poeminhas (literatura infantil, 1998) ... e participação em antologias; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Celina Ferreira: Humor negro

 
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                    Da varanda de seu apartamento contemplava o mar, respirando a brisa com o cheiro habitual de maresia. Estava tenso. Ou melhor, vivia tenso. O simples farfalhar das folhagens assustava-o.
                    Seu cérebro começou a derreter-se, caindo em gotas oleosas sobre o vaso de antúrios e escorrendo, sinuosamente, pelo piso de cerâmica.
                    Ergueu-se, desesperado, os olhos para o céu.
                     Que piada suja é essa, pô!
                    E Deus que nunca se importou com a fome na Etiópia ou com a tortura na América Latina, riscou um trovão no céu e descartou-se mais uma vez de seu remorso.

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Marginais do Pomba (diversos autores), contos, crônicas & etc., Apresentação de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte, Cataguases — MG; Celina Ferreira (1928 2012), mineira de Cataguases, foi professora, assistente social, jornalista e poeta; mudando-se para Belo Horizonte, atuou como assistente social, lecionou no SENAI e, aos 27 anos, mudando-se para o Rio de Janeiro, trabalhou na Rádio MEC, no Jornal do Brasil e foi redatora na TV Tupi; obras: Poesia de ninguém (1954), Nave incorpórea (1955), Mundo Encantado (1957), A Princesa Flor-de-Lótus (literatura infantil, 1958), Poesia cúmplice (1959), Hoje poemas (1967), Espelho convexo (1973), Papagaio gaio: poeminhas (literatura infantil, 1998) ... e participação em antologias; recebeu premiações por sua obra.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Celina Ferreira: Introversão

 
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A maçã mostra o vermelho
ou sou eu que agora o invento
por detrás de mim, espelho?

A cor talvez seja cor
ou somente convenção.
É feita por trás dos olhos
a sua combinação.
Sem objeto e sem luz,
sonhando em tons de vermelho,
no meu sonho, recomponho
objeto, cor e luz.

(Espelho convexo — 1973)

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo — SP; Celina Ferreira (1928 2012), mineira de Cataguases, foi professora, assistente social, jornalista e poeta; mudando-se para Belo Horizonte, atuou como assistente social, lecionou no SENAI e, aos 27 anos, outra vez de mudança, agora para o Rio de Janeiro, trabalhou na Rádio MEC, no Jornal do Brasil e foi redatora na TV Tupi; obras: Poesia de ninguém (1954), Nave incorpórea (1955), Mundo Encantado (1957), A Princesa Flor-de-Lótus (literatura infantil, 1958), Poesia cúmplice (1959), Hoje poemas (1967), Espelho convexo (1973), Papagaio gaio: poeminhas (literatura infantil, 1998) ... e participação em antologias; recebeu premiações por sua obra.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Celina Ferreira: Patética

 
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                    Jandira convivia há muitos anos com a sua depressão. E exigia sempre um milagre para sair do túnel. A primeira vez foi o namorado escaldante. Anos depois, uma filosofia japonesa que alternava zen-budismo, cristianismo, Freud e reflexo condicionado.
                    Qualquer escorregão levava Jandira de volta ao fundo do poço. Então foi a vez das ondas alfas com as técnicas de relaxamento e um curso especial denominado A Cura pela Fé.
                    De outra feita, um vendedor de estante ensinou-lhe a usar a bio-energia. Anos depois, fizeram-lhe uma limpeza espiritual, num terreiro de candomblé.
                    Finalmente, com três anos de psicanálise, depois de desencaminhar seu analista, perdeu a fé em tudo e em todos. Em desespero de causa, aliciada por um motorista de táxi, engajou-se nas fileiras da esquerda festiva. Foi pior!
                    Sem Deus e sem subterfúgio, sem acreditar sequer no comunismo, Jandira tomou de uma só vez uma porção inumerável de comprimidos para dormir.
                    E nunca mais acordou.

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Marginais do Pomba (diversos autores), contos, crônicas & etc., Apresentação de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte, Cataguases — MG; Celina Ferreira (1928 2012), mineira de Cataguases, foi professora, assistente social, jornalista e poeta; mudando-se para Belo Horizonte, atuou como assistente social, lecionou no SENAI e, aos 27 anos, outras vez de mudança, agora para o Rio de Janeiro, trabalhou na Rádio MEC, no Jornal do Brasil e foi redatora na TV Tupi; obras: Poesia de ninguém (1954), Nave incorpórea (1955), Mundo Encantado (1957), A Princesa Flor-de-Lótus (literatura infantil, 1958), Poesia cúmplice (1959), Hoje poemas (1967), Espelho convexo (1973), Papagaio gaio: poeminhas (literatura infantil, 1998) ... e participação em antologias; recebeu premiações por sua obra.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Celina Ferreira: Finados


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Quem orça
a uma rosa
sua hora?


Quem paga
a uma abelha
sua cera?


Que importa
ao morto
seu corpo?
Hoje poemas (1967)
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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo SP; Celina Ferreira, mineira de Cataguases, nascida em 1928, jornalista e poeta, também dedicou-se à literatura infantil: A Princesa Flor-de-Lótus (1958), Papagaio gaio: poeminhas (1998); obra poética: Poesia de ninguém (1954), Poesia cúmplice (1959), Hoje poemas (1967) e Espelho convexo (1973).