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Natal do tuberculoso
Eu pensei que Papai Noel
passasse por aqui
e pus na janela do quarto
meus sapatos inúteis de
doente que não mais andará.
Depois rezei. Uma oração
feita por mim,
entrecortada pelo arfar do
peito e pela tosse rouca.
Pedi uma morte mansa suave
o coração parando, sem
aflição, sem dor.
Lá fora os sinos da Missa
do Galo
acompanhando minha morte
lenta.
E aqui dentro ninguém... o
silêncio... o descanso... o mistério...
Mas Papai Noel passou sem
nada me dar.
Achou decerto enormes meus
sapatos...
— o —
Minha morte
Meus amigos dirão as
palavras da amizade.
Meus inimigos dirão as
palavras do perdão.
E os indiferentes
continuarão indiferentes.
E ela que distante reza
baixo por mim,
ela que dirá?
Sua boca dirá nada, mas
seus olhos dirão tudo...
(Ascânio Lopes: Vida e
poesia, de Delson Gonçalves Ferreira,
1967, Difusão Pan-Americana do Livro,
Belo Horizonte —
MG)
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Ascânio, o poeta da Verde,
coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco,
texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas
(1906 — 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez
seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro
e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor
e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi
um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista
Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; suas obras: além de poemas e outros textos
registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (na parceria de
Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte
e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de
tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além
de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde, e criaram a Verde, os jovens
literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro
Fonte Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto;
a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1
— 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido;
este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se
fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a
colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond
e Emílio Moura, entre outros.






