Mostrando postagens com marcador Dia de Natal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dia de Natal. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Ascânio Lopes: Natal do tuberculoso & Minha morte

 
____________________
Natal do tuberculoso

Eu pensei que Papai Noel passasse por aqui
e pus na janela do quarto
meus sapatos inúteis de doente que não mais andará.
Depois rezei. Uma oração feita por mim,
entrecortada pelo arfar do peito e pela tosse rouca.
Pedi uma morte mansa suave
o coração parando, sem aflição, sem dor.
Lá fora os sinos da Missa do Galo
acompanhando minha morte lenta.
E aqui dentro ninguém... o silêncio... o descanso... o mistério...
Mas Papai Noel passou sem nada me dar.
Achou decerto enormes meus sapatos...

— o —

Minha morte

Meus amigos dirão as palavras da amizade.
Meus inimigos dirão as palavras do perdão.
E os indiferentes continuarão indiferentes.
E ela que distante reza baixo por mim,
ela que dirá?

Sua boca dirá nada, mas seus olhos dirão tudo...

(Ascânio Lopes: Vida e poesia, de Delson Gonçalves Ferreira,
1967, Difusão Pan-Americana do Livro, Belo Horizonte — MG)

____________________
Ascânio, o poeta da Verde, coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 — 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; suas obras: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (na parceria de Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde, e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Auta de Souza: Natal

____________________
É meia noite... O sino alvissareiro
Lá da Igrejinha branca pendurado,
Como num sonho místico e fagueiro,
Vem relembrar o tempo do passado.

Ó velho sino, ó bronze abençoado,
Na alegria e na mágoa companheiro,
Tu me recordas o sorrir primeiro
De menino Jesus Imaculado.

E enquanto escuto a tua voz dolente
Meu ser que geme dolorosamente
Da desventura aos gélidos açoites...

Bebe em teus sons tanta alegria, tanta!
Sino, que lembras uma noite santa,
Noite bendita em meio às outras noites!

[revista A Mensageira, de 30 de Junho de 1898,
Ano I, nº 18, São Paulo — SP]


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Auta de Souza, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro expõe o que se segue: a poetisa ficou órfã de mãe, aos três anos de idade, e de pai, no ano seguinte, ambos vitimados pela tuberculose; aos doze anos, morreu seu irmão caçula, queimado por labaredas de um candeeiro derrubado acidentalmente; aos quatorze, ela própria recebeu o diagnóstico de tuberculose e teve que interromper os estudos; em 1895 conheceu João Leopoldo da Silva Loureiro, promotor público, se apaixonou, namorou mas, por pressão de seus irmãos e em razão de sua doença, acabou se separando e, depois, João Leopoldo veio a morrer também de tuberculose; todos estes acontecimentos acabaram sendo demarcadores de sua obra: religiosidade, orfandade, morte do irmão, desilusão amorosa, tuberculose.
____________________
A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Auta Henriqueta de Souza (1876 1901), potiguar de Macaíba, negra, foi poetisa da segunda geração romântica byroniana e com influência simbolista; na infância, criada pela avó materna e alfabetizada por professores particulares, foi matriculada, aos onze anos, no Colégio São Vicente de Paula dirigido por freiras vicentinas francesas, época em que aprendeu francês, Inglês, Literatura inclusive literatura religiosa , Música, Desenho, e leu, no original, obras de Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand e Fénelon; aos quatorze anos, por ter contraído tuberculose, teve quer interromper os estudos no colégio religioso e prosseguiu seu formação intelectual de maneira autodidata; começou a escrever seus versos aos dezesseis anos, apesar da doença; frequentou o Clube do Biscoito, associação de amigos, no qual se promovia reuniões dançantes com recitação de poemas de vários autores; aos dezoito anos colaborou com a revista Oásis, aos vinte passou a escreveu para a República, jornal de maior circulação, o que a tornou visível para a imprensa de outras regiões, teve também poemas publicados em O País, do Rio de Janeiro e escreveu com assiduidade para o jornal A Tribuna, de Natal, tendo sido publicada também  n’A Gazetinha, de Recife, no jornal religioso Oito de Setembro, de Natal, e na Revista do Rio Grande do Norte; a poetisa encerrou seu primeiro livro de manuscritos, com o título Dhálias, mas a publicação se deu de fato em 1900, e com o título mudado para Horto, cuja edição recebeu o prefácio de Olavo Bilac e acabou se tornando sua única obra deixada em vida. Entre 1899 e 1900, Auta de Souza também publicou poemas com os pseudônimos Ida Salúcio e Hilário das Neves, prática comum no período; além de versos escritos em português, também os escreveu em francês; consta de sua biografia ter sido considerada uma das mais altas expressões da poesia católica nas letras femininas do país, Luís da Câmara Cascudo a chamou de “a maior poetisa mística brasileira.

segunda-feira, 11 de março de 2024

Marcelo Gama: A uma velhinha


____________________
No dia de Natal

Boas-festas, velhinha! Eu te dou boas-festas,
nestes versos que faço à glória dessas cãs
lavadas pelo pranto, às tuas cãs honestas
linho corado ao sol de trinta mil manhãs.

Consente que eu te beije as mãos mumificadas,
trêmulas de sentir o frio dos desenganos;
mãos secas, espectrais, tiritantes, cansadas
de tanto abençoar, durante oitenta anos.

E tomem essas mãos camélias fenecidas
que ora o Amor elevou, quais ramos de oliveira,
ora o Ódio agitou, crispadas, contraídas
os versos em que evoco a tua vida inteira.

Já no tempo em que os teus cabelos foram pretos
e se usavam bandós e os toucavas de flores,
um poeta de então fizera-te uns sonetos,
onde muito falava em olhos sonhadores.

Inda os sabes de cor Os netos que os confrontem
com os versos de agora... E pões-te a recitar...
Bons tempos!... E parece entanto que foi ontem!
Não te podes conter... e ficas a chorar...

Choras... que a tua vida é uma flor em desfolhos.
Sonhavam, velam hoje, os teus olhos tristonhos.
Os sonhos, noutro tempo, erravam nos teus olhos;
os teus olhos, agora, é que erram pelos sonhos!

O tempo acumulou lembranças nos teus ombros,
e andas assim curvada, ao peso da Saudade...
Olha para o Passado! Olha para os escombros
do feudo, onde viveu a tua Mocidade!

Quase um século vai! Evoca a Meninice
e hás de ver a boneca, o berço, a Carochinha,
quando não se calcula o efeito da meiguice
e recebe-se a rir  a1 Dor que se avizinha.

Mas depois, assaltou-te uma cousa esquisita...
Tua carne te fez promessas, em segredo...
Foi então que te olhaste... e te achaste bonita...
Que estranhas sensações enchiam-te de medo!

Uma noite, febril, acordaste, a tremer...
Que vácuo!... e o coração fugia-te do peito.
Nunca te pareceu tão frágil o teu ser!
Carecias de alguém!... de mais ar!... de mais leito!...

Amaste... e tudo em torno a ti, cantava e ria!
No teu seio trinava, alacre2, um rouxinol!
Teu corpo era um rosal em maio: florescia!
E a tu’alma era como um diamante ao sol!

Foi-se o primeiro amor... Foi-se o primeiro engano...
Veio mais um amor... e foi-se... e um outro veio...
e foi-se... e finalmente eram tantos por ano,
que já entisicava a Esperança em teu seio.

Cada amor que chegava, esboçava em teu rosto
um sorriso fugaz, mas depois, quando ia3,
riscava em teu semblante a ruga de um desgosto,
e era o sulco da mágoa o que jamais saía.

Boas-festas, velhinha! Eu te dou boas-festas,
nestes versos que faço à glória dessas cãs
lavadas pelo pranto, às tuas cãs honestas
linho corado ao sol de trinta mil manhãs.

Opuseste o artifício aos estragos da idade,
e chegaste, talvez, a pensar num convento...
As tuas Ilusões, a tua Mocidade,
eram como rosais varridos pelo vento.

O beijo já pesava em teu lábio fanado
e exausto de gemer por teus mortos afetos.
Enfim!... chegou-te enfim, a noite do noivado!...
Casaste... e contas hoje alguns tataranetos.

Velhinha encarquilhada, evoca a laranjeira
que deu flores com que te engrinaldaste então...
Há muito ela morreu! Mas tu, nessa canseira,
inda queres viver, arrimada ao bordão.

As idéias, em ti, já são ocas e pecas
e como um cantochão, escapam-te dos lábios.
És uma tradição, cheiras a flores secas,
e me fazes lembrar roídos alfarrábios.

O teu tempo! velhinha... os tempos bons de outrora!...
E crescendo na idade e a mirrar no tamanho,
tens saudades de tudo, e lá vais, vida em fora,
autêntico exemplar os costumes d’antanho!

Abençoa-me sempre, ao chegar esta data!
Olha o coveiro, além, cansado de esperar-te...
Mas a Morte venera as tuas cãs de prata!
... E o louco do coveiro, a chamar-te!... a chamar-te...

(Via-Sacra, 2ª edição, págs. 43-45.)


Notas de Andrade Muricy:
1. Falta esse a;
2. Alacre (paroxítono), pronúncia muito generalizada, e que o poeta adotava, convém melhor à cadência do verso;
3. Na edição de Via-Sacra e outros poemas (1944), está: “quando se ia”.
____________________
Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Marcelo Gama, nome literário (1878 1915), pseudônimo de Possidônio Machado, gaúcho de Mostardas, de índole inquieta e boêmia, autodidata, viveu de jornalismo e de modestos empregos e foi poeta, dramaturgo, cronista e editor; em 1898, em Porto Alegre RS, fundou o quinzenário Artes e Letras e, em Cachoeira do Sul RS, a revista A Lua; depois, transferindo-se para o Rio de Janeiro, continuou a levar a mesma vida de noctívago e sonhador, vindo a falecer de forma inusitada ao ter sido lançado para fora do bonde em que viajava, dormindo, em plena madrugada, sobre os trilhos de estrada de ferro; suas obras: Via Sacra (1902), Avatar (poema dramático em um ato, 1904), Noite de Insônia (1907), todos publicados em Porto Alegre; em 1944, a Sociedade Felipe d’Oliveira, no Rio de Janeiro, publicou-lhe as obras completas sob o título de Via Sacra e Outros Poemas, acrescentando os Dispersos aos livros mencionados; foi um dos membros fundadores da Academia Rio-Grandense de Letras e é tido por estudiosos como o poeta que introduziu o Simbolismo no Rio Grande do Sul.

domingo, 25 de dezembro de 2022

Roberto Buzzo: Crônica de véspera de Natal

____________________
          Maria, grávida e solteira. Não sou eu que digo, está escrito em minha Bíblia: “Maria, sua mãe, comprometida em casamento com José, antes que coabitassem, achou-se grávida...” (Mateus 1,18).

          Não digo que José ficou puto, diria que ficou brabo, chateado. É que o José podia ser rude, mas não bronco. E já havia extirpado a urgência dos moços e adquirido a sabedoria dos velhos.

          Sim, já era velho, enquanto Maria era mocinha nova. Nova e linda, a mais linda do pedaço. José era simples, mas não cego, tinha noção de que era muita areia para sua carriola.

          Aliás, parece que a velhice do José foi escolhida a dedo. Más línguas espalharam que um comando de anjos desceu do céu especialmente para encontrar um esposo para Maria, já sabendo o que ia acontecer.

          Havia uma carrada de impetuosos jovens interessados na moça e também aquele senhor de idade… É claro que os anjos escolheram o senhor de idade.

          Todo mundo sabe que quanto mais jovem a cabeça, mais dolorido o chifre. Quanto mais jovem a cabeça, mais barulhento o escândalo. Além do mais, José era um operário respeitado, sabia que depois de tudo passado ele foi homenageado com o patronato dos trabalhadores?

          O fato incontornável é que a barriga da Maria começou a crescer. Sendo que naquele tempo a Amazônia nem era conhecida e nem havia boto por perto. A moda de anjo engravidar mulher era coisa do passado remoto, ninguém se lembrava mais. E esse tal de Espírito Santo ninguém sequer ouvira falar.

          José, apesar de sensato, era um legítimo judeu do sexo masculino, machista que só. Tudo bem, não ia contar pra ninguém, muito menos ao rabino, continuava gostando muito da Maria, que via quase como uma filha, não queria nem pensar em submetê-la ao processo público que fatalmente a levaria à lapidação, que era a pena de morte por apedrejamento.

          Uma coisa que José tinha de sobra era compaixão. Mas ele a repudiaria, sem dúvida. Não iria acobertar, com seu nome, um filho de pai ignorado.

          Na noite seguinte, um anjo baixou para fazer a cabeça do José. Em sonho, claro, eis que José não tava com essa bola toda de receber o mensageiro acordado. Mas, no sonho, a conversa foi clara:

           José, dêxa di sê bêsta! Aquilo foi obra do Espírito Santo, rapá! A moça é uma santa, vai por mim. Além de linda, sabe lavá, passá, cozinhá, costurá… Cê já tá véio, cara! Tá pensando que berimbau é gaita? Desde quando o ouro vem puro, sem areia?

          São José acordou meio ressabiado, pensou bem e falou consigo mesmo: acho que esse anjo tem razão.

          E enfim se casou com Maria numa boa, pagou o ginecologista, acompanhou-a ao postinho nas visitas do pré-natal, contratou a melhor maternidade para o parto (isso de manjedoura também é conversa, segundo Mateus), mas não relou naquela barriga nem em suas imediações enquanto o filho do Espírito Santo estava lá dentro.

[publicada no feicebúque do autor
— véspera de Natal de 2022]

____________________
Roberto Buzzo, nascido em 1956, paulista de Guaraci (próximo às barrancas do Rio Grande, na região noroeste, fronteira com o triângulo mineiro), formado em Letras pela USP, bancário aposentado, é andarilho, ou caminheiro ou maratonista, bicicletista e cronista; vive e andeja em sampa, quando não está em estradas e trilhas viajando a pé ou de bike; escreveu e publicou Diário de um bandeirante ligeiramente atrasado e totalmente desarmado (2006), 85 crônicas que relatam uma caminhada de 640 km em 14 dias, feita em 2004, de São Paulo a Fernandópolis, atravessando 37 cidades e 17 povoados, Um Milhão de Passos Pensos: No Picadão de Cuyabá (e-book, 2018), longa crônica de viagem a pé pelo interior paulista e sul de Minas, quase tudo em estradinhas de terra e em alguns trechos outrora denominados Picadão de Cuyabá, Média & Pingado: 130 crônicas amarelas (e-book, 2019); o cronista, bicicletista e andarilho, registra seus textos no feicebúque e na página  mediaepingado.blogspot.com/.

sábado, 3 de julho de 2021

Marques de Azevedo: Sodade do ranchinho

 
____________________
Na sombra duma perêra,
Nascida na ribancêra,
No meio dum parmitá
Era a casinha da Dita,
A morena mais bunita
E facêra do arraiá.

Eu vou contá pra vancêis:
Foi numa festa de Reis
Que nóis dois se cunhecemo.
Eu sirrí, ela me viu,
Sirrí mais, ela sirriu,
E ansim foi que nóis se amêmo.

Casemo, fiz um ranchinho,
Na berada dum corguinho,
Donde cantava a perdiz.
Lá dentro puis meu amô,
No terrêro prantei frô,
Préla podê sê feliz.

Tudo dia, na paióça,
Quano eu vortava da roça,
E tava oiano as panela,
Ela jurava, jurava,
Que era só eu que lhe amava,
Pru resto da vida dela!

Numa tarde triste e feia,
Quando eu cheguei lá da ardêia,
Achei vazio o meu rancho.
Na porta tava caído,
Um lenço, meu conhecido,
Que era do Juca do Sancho.

Botei na cinta a garrucha,
Muntei na besta gaúcha,
E fui seguino o fadário,
Numa vórta de caminho,
Discobrí os dois juntinho,
Cumo um casá de canário.

Só dois tiro... e dois defunto
Ficaro na estrada junto,
E, eu, já fais desasseis ano,
No fundo duma cadeia,
Na afrição que turtuvêia,
Passei chorano, chorano.

Onte fui vê meu ranchinho,
Num achei. O coitadinho,
Se acabô cas tempestade,
Mais, no jardim do terrêro,
Inda encontrei num cantêro
A frô chamada sodade!

____________________
Poemas Caipiras — Marques de Azevedo, Apresentação/Prefácio de Sebastião Noronha, 1957, Editora Acaiaca, Belo Horizonte — MG; Alfredo Marques de Azevedo (1892  ?  ), mineiro de Santa Rita do Sapucaí, foi advogado e juiz, jornalista e poeta; fundou e dirigiu a revista A Flama; no exercício de sua profissão jurídica, andejou por várias localidades do interior mineiro; obras: Em memória de Rui Barbosa, Versos de outrora, Poemas Caipiras (1957) e outros; em 1957, o autor anunciava estar no prelo as obras Reverso da vida — contos, A festa de Zazá — comédia e Anedotário Forense; Marques de Azevedo, autor da letra do hino de Resplendor MG, morou em Abaeté, também em MG.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Marques de Azevedo: Papai Noé

____________________
Era véspa de Natá...
Que alegria no arraiá,
Pra maió festa do ano!
Os grande e os piquinino
Escuitano a vóis dos sino,
Tava contente cantano.

A Teresinha, inocente,
Só pensava no presente
Que préla Deus ia dá...
As fia do coroné
Falô num papai Noé
Que às criança sabe amá.

Botô duas chinelinha
Num cantinho da cozinha
E ansim sonhano drumia.
Cedinho foi num repente
Percurá os seus presente
Mais elas tavam vazia.

Eu disse, então:  Teresinha,
Ocê é memo bobinha...
O tar Noé é ridico.
Ele prus pobre é só fita,
Só trais as coisa bunita
Prus que são fio de rico!

 Eu sei que Nosso Sinhô
Os meus brinquedo botô
Dentro das renda dum saco.
Mais as chinela é tão véia
Que Deus botô as tetéia
Que sumiro prus buraco.

____________________
Poemas Caipiras — Marques de Azevedo, Apresentação/Prefácio de Sebastião Noronha, 1957, Editora Acaiaca, Belo Horizonte — MG; Alfredo Marques de Azevedo (1892   ?  ), mineiro de Santa Rita do Sapucaí, foi advogado e juiz, jornalista e poeta; fundou e dirigiu a revista A Flama; no exercício de sua profissão, andejou por várias localidades do interior mineiro; bibliografia: Em memória de Rui Barbosa, Versos de outrora, Poemas Caipiras (1957) e outros; em 1957, o autor anunciava estar no prelo as obras Reverso da vida — contos, A festa de Zazá — comédia e Anedotário Forense; Marques de Azevedo, autor da letra do hino de Resplendor MG; morou em Abaeté, também em MG.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Marques de Azevedo: Os treis Natá

____________________
A história que eu vou contá...
Vanceis vai me perdoá,
Si eu chegá no fim chorano.
É a história da minha fia.
Nhana Piadade Maria,
Que morreu na frô dos ano.

Quano nasceu, ela tinha
Zoinho preto e a pelinha
Rosada cumo uma rosa.
Era memo tão bonita,
Que vanceis nem aquerdita...
Tão bunita e tão fermosa!

Foi no Natá, eu se alembro...
Vinte e cinco de dezembro,
Dum ano bem afastado.
Cunvidei tudo os amigo
Pra vim se alegrá cumigo,
Na festa do batizado...

E foi cresceno, cresceno...
O seu sumbrante moreno
Tinha tanta sumpatia,
Que um dia o Juca Procela
Quereu se casá cum ela...
Quiria porque quiria...

Ôtro Natá foi chegado...
Tuda a gente do Povoado
Se amuntuano num momento,
Pra mode vê minha fia,
Cum tanta graça e alegria,
Na hora do casamento.

Numa casa piquinina,
Bem no meio da campina,
Cós passarinho cantano,
Ela vivia contente...
Inté que ficou duente,
Cada veis mais definhano!

Veio o tercêro Natá.
Tudo era verde: o arrozá,
As roça, as arve e os fruto...
Mais meu pobre coração,
Oiano aquele caxão,
Se cubriu de dô e luto!...

O enterro antão foi siguino,
De gavazinho, sumino
Numa quebrada da serra...
Dispois... os sino chorano,
O caxão foi-se afundano,
Nos sete parmo de terra!

____________________
Poemas Caipiras — Marques de Azevedo, Apresentação/Prefácio de Sebastião Noronha, 1957, Editora Acaiaca, Belo Horizonte — MG; Alfredo Marques de Azevedo (1892   ?  ), mineiro de Santa Rita do Sapucaí, foi advogado e juiz, jornalista e poeta; fundou e dirigiu a revista A Flama; no exercício de sua profissão, andejou por várias localidades do interior mineiro; bibliografia: Em memória de Rui Barbosa, Versos de outrora, Poemas Caipiras (1957) e outros; em 1957, o autor anunciava estar no prelo as obras Reverso da vida — contos, A festa de Zazá — comédia e Anedotário Forense; Marques de Azevedo, autor da letra do hino de Resplendor MG; morou em Abaeté, também em MG.

sábado, 1 de agosto de 2015

Alcides Ferreira: Natal de um menino pobre

Fui menino e você, Papai Noel,
Não pôs presentes nos meus sapatinhos!...
No entanto, aos muitos outros garotinhos,
Você dava brinquedos a granel.

Muitos dezembros vi, bebendo o fel
De uma infância deserta de carinhos,
Enquanto os meus amigos e vizinhos
Das flores do Natal sorviam o mel.

Você, que eu via em todos os recantos
Da cidade, tão meigo para tantos,
Não teve, para mim, um gesto nobre!

Porém, o seu desprezo eu justifico:
Você só gosta de menino rico...
Você não gosta de menino pobre!
____________________
Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; José Alcides Ferreira da Silva (1888   ?  ), potiguar de São José do Mipibu, foi funcionário da Alfândega, no Rio de Janeiro, jornalista e poeta; utilizou o pseudônimo Zé do Norte; bibliografia: Um Punhado de Rimas (de colaboração), Rosal de Rimas, A Vingança de Creusa (poema), As Moças do Malaquias (romance), Toca de Satanás (contos) e Poemas da Angústia e da Melancolia (versos), todos inéditos.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Machado de Assis: Soneto de Natal

____________________
Um homem, era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno,
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

____________________
Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, Organização, Seleção, Prefácio e Notas de Manuel Bandeira, 1938, Edição do Ministério da Educação e Saúde, Rio de Janeiro — RJ; Joaquim Maria Machado de Assis (1839 1908), nascido no Rio de Janeiro, autodidata, é tido como o maior ficcionista brasileiro, além de ter sido poeta; sabe-se que, já aos quinze anos, dominava a língua portuguesa e conhecia o francês e teve seu primeiro texto escrito em versos publicado no Marmota Fluminense, jornal de Francisco de Paula Brito, ali passando a colaborar até 1861; em seu percurso literário publicou seus textos em inúmeros jornais e revistas: O Paraíba e Correio Mercantil (1858), revista O Espelho (crítica teatral, de 1859 a 1860), A Semana Ilustrada, revista Ilustração Brasileira (1876) entre outros veículos literários; escreveu e publicou:   Crisálida (poesias, 1864), Falenas (poesias, 1870), Contos Fluminenses (1870), Ressurreição (romance, 1872), Histórias da Meia-Noite (contos, 1873), A Mão e a Luva (romance, 1874), Americanas (poesias, 1875), Helena (romance, 1876), Iaiá Garcia (romance, 1878), Ocidentais (poesias de feição parnasiana, 1880), Memórias Póstumas de Brás Cubas (romance, 1881), Papéis Avulsos (contos, 1882), Quincas Borba (romance, 1891), Várias Histórias (contos, 1896), Dom Casmurro (romance, 1899), Páginas Recolhidas (contos, ensaios e teatro, 1899) etc, além de peças de teatro; foi fundador e primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Os sinos bimbalham . . . (2)

No texto abaixo, reproduzido da Folha de São Paulo de 22.12.2007, Oswaldo Giacoia Junior escreve sobre o dia 25 de dezembro, data natalina cristã, a partir de um excerto de Nietzsche em "A Gaia Ciência". Já, ao clicar no título acima, deparamo-nos com um outro texto - de João Heliofar de Jesus Villar - que trata do mesmo assunto.
____________________
Folha de São Paulo - São Paulo, sábado, 22 de dezembro de 2007

TENDÊNCIAS/DEBATES

"Deus está morto. Deus continua morto"?
("A Gaia Ciência", Friedrich W. Nietzsche)

SIM

Sobre a Natividade
OSWALDO GIACOIA JUNIOR
"NÃO ERRAMOS nós, como em meio a um nada infinito?". No mesmo texto em que o louco de Nietzsche anuncia o assassinato de Deus, surge outra pergunta, mais incisiva: "Não são então essas igrejas mausoléus e criptas de Deus?", indagação que culmina no paradoxo que encerra o aforismo: "Procuro Deus, procuro Deus...".
Busca trágica, cada vez menos compreensível, na medida em que nos enredamos num humanismo autista. Obcecados em desmascarar o divino, assumimos a condição de produtores de nossa própria existência. Mas, com isso, vem à luz o elemento que, há alguns séculos, permanecia latente: a aliança entre o niilismo e o domínio absoluto da razão instrumental.
O sonho emancipatório das luzes, a altivez da crítica, a que tudo deve ser submetido, desandou na barbárie de duas guerras mundiais num único século. A mesma "ratio" calculatória, capaz de solucionar o problema da fome no mundo, condena à exclusão e à miséria mais da metade de seus habitantes. O humanismo esclarecido degenerou no Holocausto e hoje patrocina a guerra civil legal, num estado de exceção permanente.
Fica claro que esse humanismo é metafísica -e, com o esgotamento desta, perece também a dimensão do ideal e do idealismo na desertificação das utopias. É nisso que resulta a perda da transcendência. Pois transcender é determinação constitutiva do existir, de modo que, desgarrados, tornamo-nos progressivamente desumanos, infra-humanos, inumanos.
E assim nos dispomos uma vez mais a celebrar no Natal a festa máxima da cristandade. Estamos em condições de fazê-lo com boa consciência? Em que medida, para além dos hábitos de consumo, a Natividade pode ser vivida por nós como um novo começo? Como uma esperança que perpetuamente se renova? Como nos postamos hoje em relação à transcendência, aquele âmbito em que, existencialmente, se abre o horizonte do possível para uma experiência do sagrado, de Deus e dos deuses, para além de nosso delírio de onipotência?
Nosso afã humanista pôs em fuga Deus e os deuses, emudecidos, obstinadamente de costas para nós. Seu silêncio não é senão o eco de nossa mudez. Sartre cunhou o lema do humanismo contemporâneo: vivemos num plano em que existem unicamente os homens, em que a escolha humana define nossa essência e nosso futuro.
Mas não é também verdade que a Terra, totalmente esclarecida, irradia o infortúnio triunfal, pairando à beira do abismo de uma crise ecológica de dimensões cósmicas? Nietzsche, o Anticristo, nunca foi tão paradoxalmente atual -ele não cessou de gritar nos ouvidos moucos do homem moderno sua distância em relação a uma experiência efetiva de Natividade.
Impávidos, precipitamo-nos a passos de gigante na transição para o Super-Homem pós-humano, artefato da nanotecnologia do "homo faber". Incapazes de viver até o fim as possibilidades do humano na história, atrevemo-nos irrefletidamente a projetar nosso destino e futuro. Pergunto-me se, atolados no hedonismo consumista, estaríamos em condições de acolher um verdadeiro Emanuel.
No ápice de sua realização, o humanismo contemporâneo ofusca a consciência da alienação que ele próprio engendra. Como resultado, estamos nos tornando cegos e surdos para a abertura do único âmbito extático em que nos seria ainda possível uma remissão do pesadelo em que nos lançou nosso programa de emancipação.
Afinal, o sonho de dominação da natureza, com refundação racional da sociedade, se tornou apocalíptico -escatologia macabra em que nosso poder-fazer pode efetivar um extermínio talvez irreversível das condições de nossa existência.
Hoje, não carecemos mais de células pluripotentes de embriões humanos para produzir concretamente o eterno retorno do mesmo. Será que teremos como prometer, responsavelmente, que uma vida humana possa nascer sobre a Terra sob a forma de futuras gerações de seres humanos?
Gostaria muito de que ainda pudéssemos fazê-lo. Pois assim poderíamos nos desejar mutuamente, de todo o coração e em seu espírito mais autêntico, um feliz e abençoado Natal.


OSWALDO GIACOIA JUNIOR, doutor em filosofia pela Universidade Livre de Berlim, é professor associado do Departamento de Filosofia da Unicamp. É autor, entre outras obras, de "Nietzsche & Para Além de Bem e Mal".