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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Henrique de Resende: Senzala

 
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A Mario de Andrade

Senzala da fazenda dos meus avós...
Vão-se desmoronando pouco a pouco
as tuas paredes de pau-a-pique e os teus telhados seculares.

Mas ainda és, no teu desmoronamento,
a lembrança angustiosa das atrocidades dos meus avós.

Senzala da fazenda...
As tuas ruínas ainda estão impregnadas do sangue machucado
dos negros que gemeram nos teus troncos,
sob o chicote ameaçador dos homens brancos feitores da fazenda.

Mas tudo isso há de desaparecer um dia.

As tuas paredes de pau-a-pique e os teus telhados seculares,
ruínas ainda impregnadas do sangue e do suor dos escravos
lembram os gemidos que se perderam pelos teus cubículos de tabique;
e as lágrimas que rolaram pelo teu chão de terra socada;
e o relho de três tranças dos algozes feitores da fazenda;
e os gritos lancinantes que vararam o horror das tuas trevas;
e a mancha apagada que ficou na braúna dos teus troncos.

Mas bendito seja Deus! as tuas ruínas desaparecerão um dia
na bruma longínqua da história dos tempos.

E então se apagará também, esse dia, na minha memória
a lembrança angustiosa das atrocidades dos meus avós...

(Revista Verde, ano.1, nº 4, p. 20, dezembro de 1927.)
(Poemas Cronológicos — 1928)

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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Enrique de Rezende ou Henrique de Resende ou Henrique Vieira de Resende (1899 1973), mineiro e cataguasense, fez seus estudos iniciais na Fazenda do Rochedo, Cataguases, cursou o Colégio Anglo-Brasileiro [Rio de Janeiro], estudou Matemática em Ouro Preto MG, formou-se engenheiro civil pela Escola de Engenharia de Juiz de Fora [hoje Faculdade de Engenharia da UFJF Universidade Federal de Juiz de Fora MG], exerceu o ofício de engenheiro, foi escritor e poeta; [H]Enrique de Rezende fez parte da geração modernista mineira, participando ativamente da criação da modernistíssima revista Verde (19271929), editada em Cataguases, tendo sido um dos signatários do Manifesto do Grupo Verde, o qual deu origem à verdejante revista; suas obras: Turris Eburnea (poemas simbolistas, 1923), Poemas Cronológicos (com Rosário Fusco e Ascânio Lopes, 1928), Cofre de Charão (poemas, 1933), Retrato de Alphonsus de Guimaraens (ensaio, 1938), Rosa dos Ventos (coletânea: poemas escolhidos + 16 trabalhos originais, 1957), A Derradeira Colheita (reunião de sua obra poética, 1964), Pequena história sentimental de Cataguases (ensaio histórico, 1969), Estórias e memórias (crônicas memorialísticas, 1971), Obras Completas, ...; foi eleito membro da Academia Mineira de Letras em 1966.

domingo, 23 de novembro de 2025

Henrique de Resende: O Canto da Terra Verde

 
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Leva de negros.

Fuzila o sol tinindo nas cacundas nuas.

No ar o lampejo metálico das enxadas e das picaretas.

(A quando e quando
estrala a dinamite, estrondando e rebom-
                                  bando no seio bruto
                                    da pedreira bruta.)

E as estradas de rodagem, a custo, lentamente,
                                                     se entrelaçam,
como um cordame de veias,
no corpo adusto
da terra inóspita.

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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Enrique de Rezende ou Henrique de Resende ou Henrique Vieira de Resende (1899 1973), mineiro e cataguasense, fez seus estudos iniciais na Fazenda do Rochedo, Cataguases, cursou o Colégio Anglo-Brasileiro [Rio de Janeiro], estudou Matemática em Ouro Preto MG, formou-se engenheiro civil pela Escola de Engenharia de Juiz de Fora [hoje Faculdade de Engenharia da UFJF Universidade Federal de Juiz de Fora MG], exerceu o ofício de engenheiro, foi escritor e poeta; [H]Enrique de Rezende fez parte da geração modernista mineira, participando ativamente da criação da modernistíssima revista Verde (19271929), editada em Cataguases, tendo sido um dos signatários do Manifesto do Grupo Verde, o qual deu origem à verdejante revista; suas obras: Turris Eburnea (poemas simbolistas, 1923), Poemas Cronológicos (com Rosário Fusco e Ascânio Lopes, 1928), Cofre de Charão (poemas, 1933), Retrato de Alphonsus de Guimaraens (ensaio, 1938), Rosa dos Ventos (coletânea: poemas escolhidos + 16 trabalhos originais, 1957), A Derradeira Colheita (reunião de sua obra poética, 1964), Pequena história sentimental de Cataguases (ensaio histórico, 1969), Estórias e memórias (crônicas memorialísticas, 1971), Obras Completas, ...; foi eleito membro da Academia Mineira de Letras em 1966.

sábado, 5 de abril de 2025

Jacques Prévert: O Fuzilado & A Lagartixa

 
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[traduzidos por Carlos Drummond de Andrade]

O fuzilado

As flores, os jardins, os repuxos, os risos,
e a doçura da vida.
Jaz um homem no chão e banha com seu sangue
as lembranças, as flores, repuxos e jardins
e sonhos infantis.
Jaz um homem no chão, qual embrulho sangrento,
e flores e jardins, repuxos e lembranças
e doçura da vida.
Jaz um homem no chão, criança adormecida.

— o —

A lagartixa

A lagartixa do amor
fugiu mais uma vez
deixando-me nos dedos
sua causa. Bem feito:
eu queria prendê-la.

Jacques Prévert

Le fusillé

Les fleurs les jardins les jets d'eau les sourires
Et la douceur de vivre
Un homme est là par terre et baigne dans son sang
Les souvenirs les fleurs les jets d'eau les jardins
Les rêves enfantins
Un homme est là par terre comme un paquet sanglant
Les fleurs les jets d'eau les jardins les souvenirs
Et la douceur de vivre
Un homme est là par terre comme un enfant dormant.

— o —

Le lézard

Le lézard de l'amour
S'est enfui encore une fois
Et m'a laissé sa queue entre les doigts
C'est bien fait
J'avais voulu le garder pour moi.
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Poesia Traduzida: Carlos Drummond de Andrade [várias autorias], edição bilíngue, Organização e Notas de Augusto Massi e Júlio Castañon Guimarães, Introdução de Júlio Castañon Guimarães, Coleção Ás de colete, 2011, Cosac Naify, São Paulo — SP e 7 Letras, Rio de Janeiro — RJ; Jacques Prévert (1900 1977), francês de Neuilly-sur-Seine, foi roteirista de cinema e poeta; suas obras: Paroles (1946), Le Cheval de Trois (1946), Histoires (1946), Contes pour enfants pas sages e Le Petit Lion (Contos para crianças não sábias e O pequeno leão, ambos de literatura infantil, 1947), Des bêtes (1950), Spectable (1951), Lettre des îles Baladar (literatura infantil, 1952), Tour le chant (1953), L’Opéra de lune (literatura infantil, 1953), além de outros textos em verso e prosa e também para crianças; Jacques Prevért foi criador de roteiros e diálogos de extensa filmografia da escola do realismo poético francês, filmes estes realizados por Jean Renoir, Marcel Carné e outros cineastas; teve poemas musicados.

terça-feira, 25 de março de 2025

Federico García Lorca: A casada infiel

 
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[traduzidos por Carlos Drummond de Andrade]

Eu que a levei ao rio,
supondo fosse donzela,
quando já tinha marido.

Era noite de Santiago
e quase por compromisso.
Apagaram-se os lampiões
e se acenderam os grilos.
Já nas últimas esquinas
toquei-lhe os seios dormidos
e se me abriram de pronto
como ramos de jacintos.
O polvilho de sua anágua
vinha ranger-me no ouvido
como uma peça de seda
por dez lâminas rompida.
Sem luz de prata nas copas
os troncos tinham crescido
e um horizonte de cães
ladrava longe do rio.

Atravessando o silvado,
depois dos juncos e espinhos,
sob a sua cabeleira
fiz uma cama no limo.
Tirei a minha gravata.
Ela tirou seu vestido.
Eu, o cinto com revólver.
Ela, seus quatro corpinhos.
Nem nardos e nem búzios
têm uma cútis tão fina,
nem sob a lua os cristais
relumbram com tanto brilho.
Suas coxas me escapavam
como peixes surpreendidos,
metade cheias de lume,
outra metade de frio.
Naquela noite corri
pelo melhor dos caminhos,
montado em potra de nácar,
sem freios e sem estribos.
Não quero dizer, sou homem,
as coisas que ela me disse.
É que a luz do entendimento
me torna mui comedido.
Suja de beijos e areia,
levei-a dali do rio.
Com o ar se arremessavam
altas espadas, os lírios.

Portei-me como quem sou.
Como um gitano legítimo.
Dei-lhe estojo de costura,
grande, de fina palhinha,
mas não quis enamorar-me
porque, já tendo marido,
me disse que era donzela
quando eu a levava ao rio.

Federico García Lorca

La Casada Infiel

Y que yo me la llevé al río
creyendo que era mozuela,
pero tenía marido.

Fue la noche de Santiago
y casi por compromiso.
Se apagaron los faroles
y se encendieron los grillos.
En las últimas esquinas
toqué sus pechos dormidos,
y se me abrieron de pronto
como ramos de jacintos.
El almidón de su enagua
me sonaba en el oído,
como una pieza de seda
rasgada por diez cuchillos.
Sin luz de plata en sus copas
los árboles han crecido,
y un horizonte de perros
ladra muy lejos del río.

Pasadas las zarzamoras,
los juncos y los espinos,
bajo su mata de pelo
hice un hoyo sobre el limo.
Yo me quité la corbata.
Ella se quitó el vestido.
Yo el cinturón con revólver.
Ella sus cuatro corpiños.
Ni nardos ni caracolas
tienen el cutis tan fino,
ni los cristales con luna
relumbran con ese brillo.
Sus muslos se me escapaban
como peces sorprendidos,
la mitad llenos de lumbre,
la mitad llenos de frío.
Aquella noche corrí
el mejor de los caminos,
montado en potra de nácar
sin bridas y sin estribos.
No quiero decir, por hombre,
las cosas que ella me dijo.
La luz del entendimento
me hace ser muy comedido.
Sucia de besos y arena
yo me la llevé del río.
Con el aire se batían
las espadas de los lirios.

Me porté como quien soy.
Como un gitano legítimo.
Le regalé un costurero
grande, de raso pajizo,
y no quise enamorarme
porque teniendo marido,
me dijo que era mozuela
cuando la llevaba al río.
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Poesia Traduzida: Carlos Drummond de Andrade [várias autorias], edição bilíngue, Organização e Notas de Augusto Massi e Júlio Castañon Guimarães, Introdução de Júlio Castañon Guimarães, Coleção Ás de colete, 2011, Cosac Naify, São Paulo — SP e 7 Letras, Rio de Janeiro — RJ; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; em Almeria iniciou seus estudos secundários e os primeiros estudos musicais, depois, mudando-se para Granada com a família, fez seus primeiros estudos universitários Filosofia e Letras e Direito ; em 1919 decidiu mudar-se para Madri e então conheceu Salvador Dalí, Luis Buñuel, Pedro Salinas, Rafael Alberti e outros; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

sexta-feira, 14 de março de 2025

Carl Sandburg: Carta aberta a Emily Dickinson

 
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[traduzido por Carlos Drummond de Andrade]

Cinco rosinhas pediram
a Deus, que chegasse perto,
a Deus, que testemunhasse.

Chama e espinho estavam dentro
e em torno das cinco rosas,
chama inquieta, voz de espinho.

Do mar um pingo
colhe de sal;
daquela estrela,
algo de névoa;
o ai de prata
de um coração.

Larga, abandona
ao móbil azul
da sombra mais rara.

Larga, abandona
à calma dos gongos,
à força dos gongos.

Divide com as chamas,
teu espinho elege,
para que Deus chegue perto,
para que Deus testemunhe.

Carl Sandburg

Public Letter to Emily Dickinson

Five little roses spoke
for God to be near them,
for God to be the witness.

Flame and thorn were there
in and around five roses,
winding flame, speaking thorn.

Pour from the sea
one hand of salt.
Take from a star
one finger of mist.
Pick from a heart
one cry of silver.

Let be, give over
to the moving blue
of the chosen shadow.

Let be, give over
to the ease of gongs,
to the might of gongs.

Share with the flamewon,
choose from your thorns,
for God to be near you,
for God to be witness.
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Poesia Traduzida: Carlos Drummond de Andrade [várias autorias], edição bilíngue, Organização e Notas de Augusto Massi e Júlio Castañon Guimarães, Introdução de Júlio Castañon Guimarães, Coleção Ás de colete, 2011, Cosac Naify, São Paulo — SP e 7 Letras, Rio de Janeiro — RJ; Carl August Sandburg (1878 1967), estadunidense de Galesburg, Illinois, fez os primeiros estudos à “trouxe-mouxe [de forma desordenada e sem conclusão], foi jornalista, poeta, historiador, novelista e folclorista; de família pobre, começou a trabalhar aos treze anos num vagão de leite e, nos seis anos seguintes, foi porteiro de barbearia, trocador de cenários num teatro barato, motorista de caminhão em olaria, aprendiz de torneiro, lavador de pratos em hotéis, ajudante de ceifeiro em trigais; tais experiências decerto o habilitaram mais do que qualquer educação livresca feita em dois períodos intervalados no Lombard College, de Galesburg, sem conclusão; teve seus primeiros poemas divulgados em 1904 e transpôs o anonimato em 1914 quando a revista Poetry: A Magazine of Verse publicou vários de seus textos; suas obras: Chicago Poems (1916), Cornhuskers (poesias, 1918), Smoke and Steel (poesias, 1920), Slabs of the Sunburnt West (poesia, 1922), Selected Poems (1926), Good Morning, America (1928); The People, Yes (poesia, 1936), Abraham Lincoln: The War Years (biografia, vários volumes, 1939), Complete Poems (1950) e outros títulos; Sandburg recebeu três Prêmios Pulitzer, dois de Poesia (1919, por Cornhukers, e 1951, por Completes Poems) e outro de História (1940, pelos quatro volumes de Abraham Lincoln: The War Years); o poeta apoiou o Movimento dos Direitos Civis [Civil Rights Movement] e foi o primeiro homem branco a ser homenageado pela National Association for the Advancement of Colored People NAACP.

sábado, 26 de outubro de 2024

Ascânio Lopes: As estrelas

 
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Ele enamorou-se das estrelas e quis possuí-las.
E começou a construir uma torre para alcançá-las.
Mas quanto mais a torre crescia no ar
mais longe ficava o céu inatingível
e as estrelas cada vez brilhavam mais.
Um dia, quando a torre estava enorme, fina, alta
e o céu tão longe e as estrelas tão altas
ele desanimou e pôs-se a chorar.
E debruçou-se no alto da torre alta.
Mas deu um grito de dor
porque, lá embaixo, embaixo, as estrelas brilhavam mais
no espelho das águas paradas.

([revista] Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929)

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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; obras: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (na parceria de Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde, e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

domingo, 1 de setembro de 2024

Emilio Moura: Serenidade no bairro pobre

 
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A tarde é ruído nas avenidas,
a tarde é calma nos arrabaldes.

No céu de bronze as aves pairam.
Depois, rápidas, num risco reto, elas descem como aeroplanos de brinquedo,
equilibram-se trêmulas, trêmulas,
e de novo pairam no céu de bronze.

Infinita, a cidade vive...

Há luzes florindo, correndo nas ruas,
há luzes paradas.

A noite é calma nos arrabaldes...

O silêncio sobe da terra magoada,
o silêncio desce do céu luminoso,
tão luminoso e tão alto que ninguém pensa nele...

Pelos jardins de trepadeiras muito calmas,
de eras e rosas,
uma inútil melancolia
planta um refúgio desconsolado.

Infinita, vaga serenidade...

[1]925

(Verde — Revista Mensal de Arte e Cultura, nº 2,
Ano 1 — Outubro de 1927, Cataguases — MG)

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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902 1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACEUFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; suas obras: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

sábado, 3 de agosto de 2024

Guilhermino César: Balada do arco-íris da gente

 
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para Rosário Fusco

Sempre que vejo o arco-íris
me vêm à lembrança muitas coisas passadas
muitas coisas lindas e muitas coisas tristes
que eu tenho gravadas dentro de mim.

Vermelho da minha ira
Anilado da minha infantilidade
Roxo do meu pesar
Laranja do meu desejo
Azul do meu ideal
Amarelo da minha desesperança.

Fica faltando a cor verde
no meu arco-íris interior.

Eu quisera ter o meu arco-íris completo
mas você me tirou a cor verde
e eu fiquei com as outras cores todas
dançando confusas
dentro de mim.

(1928)

(Verde — Revista Mensal de Arte e Cultura, nº 5,
Ano 1 — Janeiro de 1928, Cataguases — MG)

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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Guilhermino César da Silva (1908 1993), mineiro nascido em Pinheiros, atual Pinhotiba, distrito de Eugenópolis, aprendeu as primeiras letras com Zizinha Negreiros, professora particular, estudou no Grupo Escolar Astolfo Dutra e no Ginásio Municipal de Cataguases, iniciou o curso de Medicina, desistiu, formou-se em Direito, foi escritor, crítico literário, administrador público, jornalista, professor, historiador e poeta; escreveu seus primeiros versos aos oito anos de idade, fez parte da geração modernista mineira e participou ativamente, inclusive na fundação, da modernistíssima revista Verde (19271929), editada em Cataguases MG; o poeta foi um dos signatários do Manifesto do Grupo Verde cataguasense, que deu origem à verdejante revista; na década de 1940 mudou-se para Porto Alegre RS e deu continuidade às atividades no magistério, à política e à cultura; suas obras: além de sua atuação na Verde, Guilhermino escreveu e publicou Meia-Pataca (em parceria com Francisco Inácio Peixoto, 1928), Sul (romance, 1939), História da Literatura do Rio Grande do Sul: 1737 — 1902 (1956), Ladrão de Cavalo (1964), Lira Coimbrã e Portulano de Lisboa (poesia, ambos em 1965), O embuçado de Erval — mito e poesia de Pedro Canga (1968), Arte de matar (1969), Qorpo-Santo: relações naturais e outras comédias (1969), Primeiros cronistas do Rio Grande do Sul: 1605 — 1801 (1969), Sistema do Imperfeito & Outros Poemas (1977), Banhados (1986), Cantos do canto chorado (poesia, 1990) e outros títulos; no jornalismo, dirigiu o jornalzinho Mercúrio, da Associação dos Empregados no Comércio de Cataguases, na década de 20, atuou, desde a fundação, na já mencionada Verde, foi um dos fundadores da revista Leite Criôlo (em Belo Horizonte, 1929), secretariou os jornais A Tribuna e O Diário, ambos também de BH, além de ter colaborado em outros periódicos; no magistério, foi professor-fundador e depois diretor da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Minas Gerais, e ali lecionou Literatura Brasileira e História Moderna, professor, também de Literatura Brasileira, na Faculdade de Filosofia da UFRGS e na Universidade de Coimbra Portugal; assumiu funções públicas em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul.

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Ribeiro Couto: A descoberta de Cataguases

 
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          Todo o Brasil está surpreso: existe Cataguases!
          A contingência das enormíssimas distâncias criou entre nós o hábito dandy, de uma pose um pouco Anatole France (um pouco 1910), de duvidarmos mutuamente da existência das nossas cidades. Podemos ir a Petrogrado e voltar em menos tempo do que um habitante de Porto Alegre terá de gastar para ir a Manaus. (Sem falar em que a viagem à Rússia é mais cômoda). Por isso o brasileiro da rua do Ouvidor1 (principalmente o brasileiro da rua do Ouvidor), diante do mal irremediável, criou esta defensiva para a sua indiferença: Manaus não existe, Cuiabá não existe, Goiás não existe, etc. João do Rio2 tem numa comédia um personagem que duvida da existência real de Goiás. Parece que é na “Eva”. E esse personagem, que habilmente preparara um madrigal atacante, exclama num rasgo para a moça bonita da peça: “ Ó meu Goiás és tu!” Entretanto, o exagero, na razão direta das nossas descuidosas indiferenças pátrias, chega ao ponto de, em pleno Distrito Federal3, haver quem duvide de Cascadura4. Apesar dos bondes com as tabuletas insofismáveis: “Cascadura”. Apesar da minha prezada amiga Gilka Machado5 já ter morado lá e garantir que Cascadura existe. É atrevimento duvidar da palavra de uma pessoa tão sedutora.
          Assim, Cataguases. Em vão Astolpho Dutra6 foi presidente da Câmara dos Deputados Federais. Em vão Astolpho Resende7 é uma das figuras mais formosas do direito brasileiro: a par da bondade pessoal, a luz claríssima da cultura e da inteligência rica. Nasceram em Cataguases? Mas onde é Cataguases?
          Subitamente, “Verde”: um bofetão na atonia literária nacional. Poesia. Escrevem prosa também, mas tudo aquilo (a capa, os anúncios de sapatarias, a provável dívida crescente para com o tipógrafo, umas fotografias muito cheias de borrões, uns rapazes a escrever para todo mundo que não conhece “tu pra cá, tu pra lá”), tudo aquilo é poesia. Como é bom ter vinte anos! digo-lhes eu que faço 30 no próximo 12 de março. Essa fé, esse impulso, essa virgindade criança de todos os apetites!
           “O Brasil tem que saber de nós. É urgente”.
          Ó “jeunes gens de Catacazes”! O grande poeta Blaise Cendrars8, evidentemente, não podia escrever certo: Cataguases.
          Não se trata de um cidadão francês? Aliás, como ficou saborosa aquela contração cacofônica da palavra!
          E todo mundo ficou acreditando. Todo mundo foi ao mapa, roçou o dedo pela superfície, procurando, apertando os olhos, até achar: Cataguases. E todo mundo sentiu ternura. Os jornais falam. O sr. Tristão de Athayde9 escreve. O sr. Blaise Cendrars provavelmente estará compondo um poema:

Catacazes
Je voudrais bien y aller.
Ce n’est pas très loin, peut-être
Ma petite ronde insouciante et
lègere de jeunes poètes
Que j’aime
Comme j’aimerais un ananás!

          A comoção nacional aumenta, chega ao desespero, descabela-se, quando se verificou esta coisa grande: “Verde” apareceu quando não existia nenhuma revista exclusivamente de literatura no Brasil!
          (Aqui, é inadiável intercalar um poema:

Política (*)

Trinta e cinco milhões
O maior país do mundo em recur-
sos naturais na opinião
de diversos viajantes
não subvencionados pelo
Governo
A estatística do sr. Bulhões Carvalho
Me enche de fundas melancolias cí-
vicas.
Deixa estar jacaré que a lagoa há
de secar)

          Ah! Cataguases! que sensibilidade, que doçura, que cheiro bom de mato úmido de manhã cedo!
          Como há vida nessas páginas da tua revista! Não sei qual é a opinião do teu presidente da Câmara Municipal, nem sei também se as outras pessoas sensatas da localidade acreditam em “Verde”! Talvez lhes suceda como com a neblina: não a vemos quando estamos dentro dela. Nós, porém, que vivemos pela vastidão anexa do país (residindo em outros ramais ferroviários) nós sabemos em segredo que a “Verde” integrou Cataguases na realidade nacional atingível.
          E jamais oh! jamais! um comediógrafo petulante poderá pôr agora na boca de um personagem esta declaração de amor:
           Ó meu Cataguases és tu!”

(*) Este poema, apesar do sarcasmo ácido, não é do meu amigo
Carlos Drummond de Andrade, nem de nenhum outro
membro do Partido Democrático da Poesia Nacional.

(Verde — Revista Mensal de Arte e Cultura, nº 5,
Ano 1 — Janeiro de 1928, Cataguases — MG)


Notas do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página tomou a ousadia de fazer menção a algumas citações do autor Ribeiro Couto, tais como pessoas e locais: 
1. Rua do Ouvidor — considerada no início dos anos 1920 importante rua do centro do Rio, com seus cafés, livrarias e jornais, para onde afluíam leitores, escritores, poetas, intelectuais em busca de notícias;
2. João do Rio — pseudônimo de João Paulo Emilio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto (1881 — 1921), carioca, jornalista, cronista, contista, romancista, tradutor e teatrólogo;
3. Distrito Federal — cidade do Rio de Janeiro, à época capital do país;
4. Cascadura — bairro da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro;
5. Gilka Machado — Gilka da Costa Melo Machado (1893 — 1980), carioca, poeta, figura feminina do Simbolismo;
6. Astolpho Dutra — Astolfo Dutra Nicácio (1864 — 1920), mineiro de Cataguases, advogado e político;
7. Astolpho Resende — Astolpho Vieira de Rezende (1870 — 1946), mineiro de Cataguases, advogado, conselheiro geral da República, presidente da Caixa Econômica Federal e presidente do Instituto de Advogados Brasileiros;
8. Blaise Cendrars — pseudônimo de Frédéric Louis Sauser (1887 — 1961), franco-suiço, romancista, poeta, colaborador da modernista revista Verde e de outras revistas do Modernismo;
9. Tristão de Athayde — pseudônimo literário de Alceu Amoroso Lima (1893 — 1983), carioca, crítico literário, escritor, professor, intelectual e líder católico.
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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (1898 1963), paulista de Santos, foi jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista e romancista; estudou na Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco) e na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro; trabalhou nos periódicos Jornal do Commercio e Correio Paulistano, de São Paulo, Jornal do Brasil e O Globo, do Rio de Janeiro, e A Província, de Pernambuco; escreveu e publicou, em poesia, O Jardim das confidências (1921), Poemetos de ternura e de melancolia (1924), Um homem na multidão (1926), Noroeste e outros poemas do Brasil (1932), Cancioneiro de Dom Alfonso (1939), Cancioneiro do ausente (1943), Rive etrangère (1951), Le jour est long (1958), Longe (1961), e, em prosa, A casa do gato cinzento (contos, 1922), O crime do estudante Batista (contos, 1922), A cidade do vício e da graça (crônicas, 1924), Baianinha e outras mulheres (contos, 1927), Cabocla (romance, 1931), Presença de Santa Terezinha (ensaio, 1934), Conversa inocente (crônicas, 1935), Prima Belinha (romance, 1940), Dois retratos de Manuel Bandeira (1960), Sentimento lusitano (ensaio, 1961), entre outros títulos; como diplomata, atuou na França, Portugal, Holanda e Iugoslávia; participou da Semana de Arte Moderna; seu romance Cabocla foi adaptado para televisão; pertenceu à Academia Brasileira de Letras.