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segunda-feira, 18 de maio de 2026

Francisco Inácio Peixoto: Exercício erótico & Noturno

 
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Exercício erótico

Triângulo isósceles que se inscrevesse no ventre
coxim de pelos ruivos
ou negros ou fulvos
ora seda desfiada ora cerda ou lã
ou espessa crina crespa em campo escuro
que ansiosa mão afaga procurando
a oculta amêndoa
 vértice de dura bissetriz que irá feri-la
dividindo em dois o deleitável monte.

Noturno

Nada vem da rua,
só a névoa da lua
frouxa luz de acetileno
(seu único recato).
Dormes
e o sono deixa em mármore
o corpo nu.
Dormes.
No púbis
agora quieta
tarântula

(Erótica, poemas, com desenhos
de Aldary Toledo — 1981)

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Francisco Inácio Peixoto em prosa e poesia, Coleção Os Ases de Cataguases, Apresentação, Organização e Notas de Luiz Ruffato e Prefácio [orelhas do livro] por Maria Zilda Ferreira Cury, 2008, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 1986), mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito UFRJ), foi industrial, fazendeiro, contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí, outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador responsável pela formação de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos para o espanhol e participou de antologias literárias de Portugal e da Argentina; suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia, 1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo, 1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos, “um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente) que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov, 1966) ...

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Francisco Inácio Peixoto: Ciúme

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Um inglês cor de ocre
De olhos cor de bílis
De calças tipo esporte
Na hora em que avistamos
O Rio de Janeiro
Arregalou muito os olhos
Parou bestificado
Tirou uma bolsa preta
Uma codaque autográfica
E codacou com ela
Pra desculpar a sua admiração
A baía da Guanabara todinha
Sem faltar nem o Pão de Açúcar.

Eu sabia que quando ele voltasse pra Inglaterra
Havia de mostrar pros ingleses amigos dele
THE MOST BEAUTIFUL BAY IN THE WORLD...
Mas eu não queria isso não
E se eu fosse mais forte
Metia era o braço nele
E azulava com a codaque
PRO FUNDO DO MAR!

(Meia-Pataca — 1928)

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Francisco Inácio Peixoto em prosa e poesia, Coleção Os Ases de Cataguases, Apresentação, Organização e Notas de Luiz Ruffato e Prefácio [orelhas do livro] por Maria Zilda Ferreira Cury, 2008, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 1986), mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito UFRJ), foi industrial, fazendeiro, contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí, outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador responsável pela formação de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos para o espanhol e participou de antologias literárias de Portugal e da Argentina; suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia, 1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo, 1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos, “um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente) que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov, 1966) ...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Henrique de Resende: Senzala

 
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A Mario de Andrade

Senzala da fazenda dos meus avós...
Vão-se desmoronando pouco a pouco
as tuas paredes de pau-a-pique e os teus telhados seculares.

Mas ainda és, no teu desmoronamento,
a lembrança angustiosa das atrocidades dos meus avós.

Senzala da fazenda...
As tuas ruínas ainda estão impregnadas do sangue machucado
dos negros que gemeram nos teus troncos,
sob o chicote ameaçador dos homens brancos feitores da fazenda.

Mas tudo isso há de desaparecer um dia.

As tuas paredes de pau-a-pique e os teus telhados seculares,
ruínas ainda impregnadas do sangue e do suor dos escravos
lembram os gemidos que se perderam pelos teus cubículos de tabique;
e as lágrimas que rolaram pelo teu chão de terra socada;
e o relho de três tranças dos algozes feitores da fazenda;
e os gritos lancinantes que vararam o horror das tuas trevas;
e a mancha apagada que ficou na braúna dos teus troncos.

Mas bendito seja Deus! as tuas ruínas desaparecerão um dia
na bruma longínqua da história dos tempos.

E então se apagará também, esse dia, na minha memória
a lembrança angustiosa das atrocidades dos meus avós...

(Revista Verde, ano.1, nº 4, p. 20, dezembro de 1927.)
(Poemas Cronológicos — 1928)

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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Enrique de Rezende ou Henrique de Resende ou Henrique Vieira de Resende (1899 1973), mineiro e cataguasense, fez seus estudos iniciais na Fazenda do Rochedo, Cataguases, cursou o Colégio Anglo-Brasileiro [Rio de Janeiro], estudou Matemática em Ouro Preto MG, formou-se engenheiro civil pela Escola de Engenharia de Juiz de Fora [hoje Faculdade de Engenharia da UFJF Universidade Federal de Juiz de Fora MG], exerceu o ofício de engenheiro, foi escritor e poeta; [H]Enrique de Rezende fez parte da geração modernista mineira, participando ativamente da criação da modernistíssima revista Verde (19271929), editada em Cataguases, tendo sido um dos signatários do Manifesto do Grupo Verde, o qual deu origem à verdejante revista; suas obras: Turris Eburnea (poemas simbolistas, 1923), Poemas Cronológicos (com Rosário Fusco e Ascânio Lopes, 1928), Cofre de Charão (poemas, 1933), Retrato de Alphonsus de Guimaraens (ensaio, 1938), Rosa dos Ventos (coletânea: poemas escolhidos + 16 trabalhos originais, 1957), A Derradeira Colheita (reunião de sua obra poética, 1964), Pequena história sentimental de Cataguases (ensaio histórico, 1969), Estórias e memórias (crônicas memorialísticas, 1971), Obras Completas, ...; foi eleito membro da Academia Mineira de Letras em 1966.

domingo, 23 de novembro de 2025

Henrique de Resende: O Canto da Terra Verde

 
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Leva de negros.

Fuzila o sol tinindo nas cacundas nuas.

No ar o lampejo metálico das enxadas e das picaretas.

(A quando e quando
estrala a dinamite, estrondando e rebom-
                                  bando no seio bruto
                                    da pedreira bruta.)

E as estradas de rodagem, a custo, lentamente,
                                                     se entrelaçam,
como um cordame de veias,
no corpo adusto
da terra inóspita.

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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Enrique de Rezende ou Henrique de Resende ou Henrique Vieira de Resende (1899 1973), mineiro e cataguasense, fez seus estudos iniciais na Fazenda do Rochedo, Cataguases, cursou o Colégio Anglo-Brasileiro [Rio de Janeiro], estudou Matemática em Ouro Preto MG, formou-se engenheiro civil pela Escola de Engenharia de Juiz de Fora [hoje Faculdade de Engenharia da UFJF Universidade Federal de Juiz de Fora MG], exerceu o ofício de engenheiro, foi escritor e poeta; [H]Enrique de Rezende fez parte da geração modernista mineira, participando ativamente da criação da modernistíssima revista Verde (19271929), editada em Cataguases, tendo sido um dos signatários do Manifesto do Grupo Verde, o qual deu origem à verdejante revista; suas obras: Turris Eburnea (poemas simbolistas, 1923), Poemas Cronológicos (com Rosário Fusco e Ascânio Lopes, 1928), Cofre de Charão (poemas, 1933), Retrato de Alphonsus de Guimaraens (ensaio, 1938), Rosa dos Ventos (coletânea: poemas escolhidos + 16 trabalhos originais, 1957), A Derradeira Colheita (reunião de sua obra poética, 1964), Pequena história sentimental de Cataguases (ensaio histórico, 1969), Estórias e memórias (crônicas memorialísticas, 1971), Obras Completas, ...; foi eleito membro da Academia Mineira de Letras em 1966.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Ascânio Lopes: Natal do tuberculoso & Minha morte

 
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Natal do tuberculoso

Eu pensei que Papai Noel passasse por aqui
e pus na janela do quarto
meus sapatos inúteis de doente que não mais andará.
Depois rezei. Uma oração feita por mim,
entrecortada pelo arfar do peito e pela tosse rouca.
Pedi uma morte mansa suave
o coração parando, sem aflição, sem dor.
Lá fora os sinos da Missa do Galo
acompanhando minha morte lenta.
E aqui dentro ninguém... o silêncio... o descanso... o mistério...
Mas Papai Noel passou sem nada me dar.
Achou decerto enormes meus sapatos...

— o —

Minha morte

Meus amigos dirão as palavras da amizade.
Meus inimigos dirão as palavras do perdão.
E os indiferentes continuarão indiferentes.
E ela que distante reza baixo por mim,
ela que dirá?

Sua boca dirá nada, mas seus olhos dirão tudo...

(Ascânio Lopes: Vida e poesia, de Delson Gonçalves Ferreira,
1967, Difusão Pan-Americana do Livro, Belo Horizonte — MG)

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Ascânio, o poeta da Verde, coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 — 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; suas obras: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (na parceria de Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde, e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Guilhermino Cesar: Serviria o que serve, para o servente? . . .

 
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[Animal do Tarde]

8

Serviria, o que serve, para o servente?
O uniforme de ferro se forja para o sargento?
A flor de Angustura se põe no ventre?
A xícara de pez se toma como sorvete?

Onde puseste a manhã, ó sábio de Catuípe
enrolado na folha de bananeira?
Como foi acontecer o mar de Cuspe?
Onde se meteu o tigre maltês, um gato
estampado no pano da bandeira?

Pensa em Calígula, pensa em Anaximandro,
no guerreiro-poeta comendo tâmaras
e matando pulgas; pensa no elixir em que não se pensa
para o estômago azedo do infalível computador.
Um estouro.

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Sistema do Imperfeito & Outros Poemas — Guilhermino César, 1977, Editora Globo, Porto Alegre — RS; Guilhermino César da Silva (1908 1993), mineiro nascido em Pinheiros, atual Pinhotiba, distrito de Eugenópolis, aprendeu as primeiras letras com Zizinha Negreiros, professora particular, estudou no Grupo Escolar Astolfo Dutra e no Ginásio Municipal de Cataguases, iniciou o curso de Medicina, desistiu, formou-se em Direito, foi escritor, crítico literário, administrador público, jornalista, professor, historiador e poeta; escreveu seus primeiros versos aos oito anos de idade, fez parte da geração modernista mineira e participou ativamente, inclusive na fundação, da modernistíssima revista Verde (19271929), editada em Cataguases MG; o poeta foi um dos signatários do Manifesto do Grupo Verde cataguasense, que deu origem à verdejante revista; na década de 1940 mudou-se para Porto Alegre RS e deu continuidade às atividades no magistério, à política e à cultura; suas obras: além de sua atuação na Verde, Guilhermino escreveu e publicou Meia-Pataca (em parceria com Francisco Inácio Peixoto, 1928), Sul (romance, 1939), História da Literatura do Rio Grande do Sul: 1737 — 1902 (1956), Ladrão de Cavalo (1964), Lira Coimbrã e Portulano de Lisboa (poesia, ambos em 1965), O embuçado de Erval — mito e poesia de Pedro Canga (1968), Arte de matar (1969), Qorpo-Santo: relações naturais e outras comédias (1969), Primeiros cronistas do Rio Grande do Sul: 1605 — 1801 (1969), Sistema do Imperfeito & Outros Poemas (1977), Banhados (1986), Cantos do canto chorado (poesia, 1990) e outros títulos; no jornalismo, dirigiu o jornalzinho Mercúrio, da Associação dos Empregados no Comércio de Cataguases, na década de 20, atuou, desde a fundação, na já mencionada Verde, foi um dos fundadores da revista Leite Criôlo (em Belo Horizonte, 1929), secretariou os jornais A Tribuna e O Diário, ambos também de BH, além de ter colaborado em outros periódicos; no magistério, foi professor-fundador e depois diretor da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Minas Gerais, e ali lecionou Literatura Brasileira e História Moderna, professor, também de Literatura Brasileira, na Faculdade de Filosofia da UFRGS e na Universidade de Coimbra Portugal; assumiu funções públicas em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul.

sábado, 26 de julho de 2025

Ascânio Lopes: A casa da família

 
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Olha, minha amiga, nossa
velha casa de família, tão cheia de lembranças.
Neste quarto morreu minha avó,
neste outro casou-se minha avó,
neste outro casou-se minha irmã.
Os nossos pais olham sorrindo
os nossos brinquedos, os mesmos
que eles tinham, há cinquenta anos.
Os mesmos lugares.
O amor de meus pais das elegantes maneiras antigas.
O nosso amor-mocidade, o nosso amor-americano
vibrará nos mesmos luares.
E o mesmo berço
e o velho Cristo.
E o quarto da Ceia.
Até as goteiras são conhecidas.
O velho relógio de parede
que já marcou todas as horas da família.

(Ascânio Lopes: Vida e poesia, de Delson Gonçalves Ferreira,
1967, Difusão Pan-Americana do Livro, Belo Horizonte — MG)

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Ascânio, o poeta da Verde, coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; suas obras: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (na parceria de Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde, e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Francisco Inácio Peixoto: Hans Staden

 
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Nem nunca Hans Staden
Entenderei a sua maldade!
A sua alma era boa
Os seus olhos bem limpos,
Nem nunca Hans Staden
Acreditarei que você pudesse
Fazer o que fez!...
Eu sei que outros fizeram a mesma coisa também
Mas você devia ter se resignado...

Você viu eu juro que viu! com que alegria
As indiazinhas inocentes
De dentes tão brancos
De seios de bronze
De encantos tão frágeis
Olhavam alegres
Pro seu corpo azulado
De veias azuis...
E você não se resignou
Nem soube se calar
Se deixando ficar
Por amor dessas virgens tão lindas
Não tirando tão pura alegria
Dessas virgens de encantos tão frágeis...

É bem verdade Hans
Que você era de terras estranhas
E jamais poderia compreender certas coisas
Mas não posso
Nem nunca entenderei a sua maldade!

(Meia-Pataca, poemas, 1928)

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Francisco Inácio Peixoto em prosa e poesia, Coleção Os Ases de Cataguases, Apresentação, Organização e Notas de Luiz Ruffato e Prefácio [orelhas do livro] por Maria Zilda Ferreira Cury, 2008, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 1986), mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito UFRJ), foi industrial, fazendeiro, contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí, outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador responsável pela formação de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos para o espanhol e participou de antologias literárias em Portugal e na Argentina; suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia, 1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo, 1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos, “um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente) que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov, 1966) ...

terça-feira, 24 de junho de 2025

Joaquim Branco: “Oh Sir, the good die first”

 
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Oh Sir, the good die first
(Wordsworth)

          Com este livro sobre Ascânio Lopes, iniciamos uma série sob o título geral de Cataguases Cartazes, focalizando escritores que fazem parte da história da literatura de nossa cidade, de Minas e do Brasil.
          Fomos achar no alto romantismo do inglês Wordsworth o verso definidor (Ó Senhor, os bons morrem primeiro.) do nosso poeta que ainda hoje, lá do final da década de 20, exerce um estranho magnetismo sobre todos que o lêem, especialmente sobre nós, cataguasenses: Ascânio Lopes.
          Entre os esboços da noivinha, a mãe bordando os serões da casa, um passado hoje quase impossível de ser reconstruído, brotam incríveis versos que resistem ao tempo, como se não tivessem sido suficientemente conhecidos por todos os seus conterrâneos e pedissem para ser lidos e relidos pelas gerações mais novas e outras e outras.
          Não existe maior lugar-comum do que dizer que os poetas mortos prematuramente poderiam ter escrito uma obra mais completa e importante, e que sua carreira foi cortada cedo, etc., etc. Mas também não se poderia fazer injustiça maior do que negar a Ascânio após a releitura de seus poemas um futuro de autor exponencial dentro da literatura brasileira se a doença não o tivesse levado.
          Se se comparar o Serão do menino pobre com o famoso Infância, de Carlos Drummond de Andrade seu companheiro e contemporâneo sobra um saldo qualificativo em favor de Ascânio, já afirmou um crítico.
          De seus poemas vem uma finura, uma leve teia, uma aragem que só se vêem nos artistas especiais, aqueles que chegam, mal têm tempo de deixar o seu recado e se vão rapidamente para algum outro lugar talvez. Mas ninguém os esquece mais.
          Ascânio Lopes foi assim. Sendo introspectivo, liderou um grupo era o mais velho do quarteto da Revista Verde (os outros: [Rosário] Fusco, [Francisco] Chico [Inácio] Peixoto e Guilhermino Cesar). Do seu canto, silencioso, foi o “motor” do movimento, juntamente com Fusco. Tímido, colocou em verso a sua curta história pessoal. Mas tornou tudo isso de tal maneira universal que transformou-a na sua própria trajetória poética.
          Sua morte em 1929 traçou o fim da Verde como movimento. Cada um foi para o seu canto, mas por outro lado, alguns, felizmente, puderam construir, com o tempo, obras que ficaram registradas, pela sua importância, na história da literatura brasileira.
          A edição deste volume, basicamente constituído pelos textos publicados no suplemento Cataguarte, editado por mim e publicado no dia 20 de abril de 1997 anexo ao jornal Cataguases tem como objetivo principal o sentido maior de permanência e registro que têm os livros em relação a revistas e jornais, viando à preservação da história literária de Cataguases e ao conhecimento das gerações futuras de que aqui, nos anos 20, já existia um grande poeta.

Cataguases — 1998

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Ascânio, o poeta da Verde [várias autorias], coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Joaquim Branco Ribeiro Filho, nascido em 1940, mineiro e cataguasense, formou-se em Direito pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em Letras pela FIC Faculdades Integradas de Cataguases, mestrado em Literatura Brasileira pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora MG e doutorado em Literatura Comparada pela UERJ, além de ter atuado como bancário do Banco do Brasil em várias agências mineiras e no Rio de Janeiro, e ali se aposentado, foi professor universitário, lecionou por 17 anos nas Faculdades Integradas de Cataguases, é poeta, cronista, contista, crítico literário e pesquisador; suas obras: Concreções da fala (poemas, 1969), Consumito (poemas, 1975), Laser para lazer (poemas, 1984), 500 anos do descobrimento da América (1993), O caça-palavras (poemas, 1997), Do pré ao pós-moderno (manual de literatura, 1998), Ascânio, o poeta da Verde ([várias autorias], homenagem a Ascânio Lopes, 1998), Recr(e,i)ações críticas (artigos críticos, 1999), Passagem para a Modernidade (2002), O menino que procurava o reino da poesia (narrativa de ficção, 2005), Verdes Vozes Modernistas (crítica literária, 2006), Totem e as vanguardas dos anos 1960/70 (crítica literária, 2009, 1ª reimpressão, 2013), Janelas de Leitura (vários temas, 2010), Zona de Conflito (poemas, 2024), etc.; colaborou publicando seus textos em jornais e revistas no Brasil (Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Suplemento Literário de Minas Gerais, ...) e no exterior; Joaquim Branco participou de edições dos jornais O Muro, SLD — Suplemento de Literatura e Difusão e Totem; recebeu premiações por sua obra, atualmente reside em Cataguases.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Joaquim Branco: TXT — CLIP

 
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PRS  = prosa
PM   = poema
TXT  = texto
VRS  = verso

          Texto notou os escritos em prosa que se espalhavam sobre sua mesa. O escritor não gostou. Sua PRS hoje soltava uma tinta vermelha e cheirava a álcool. TXT precisava criar uma lauda e meia por dia. Já havia algum tempo que tinha essa obrigação.
          Admirava PMs em prosa nas mãos de um sr. Rimbaud e um tal sr. K tivera PRS rascunhada em papéis e brumas que falavam de muralhas, castelos, ratos e aldeões. Para os melhores VRS escolhera Pessoa, de pessimismo concentrado que levou Carneiro ao suicídio em noite de mágoas parisiense.
          TXT para sondar o PM perguntou: Um lance de dados, quem escreveu? Eu sei quem lançou. Bah! O Castelo de cartas de Kafka, quem empilhou?
          Teria que escolher palavras que fossem à página como uma matriz ao molde. Era sempre assim, tantas linhas, tantos toques. Um quadro na moldura. Mais do que isto, soldados gutemberguianos parados sobre o próprio chumbo. Mallarmé na ponta do abismo arriscaria: “um lance de dados jamais abolirá o acaso”. A página branca faísca como nunca na rampa de onde os dados vão rolar. Sorte ou azar, teria que ser. Sem opção, ela vai atraindo todas as palavras, conjunções alheias, verbos em substantivos vivos ou em farrapos, esparadrapos com preposições. Farelos de outras categorias mal-saídas da forja. Era iminente o choque. Sintaxe x dicionário.
          Naquele dia o escritor não conseguia equacionar nada. Palavras fugiam rompidas, deslizavam pela beirada lisa do papel ou se escondiam na banda escura de uma folha que tinha a ponta alevantada. TXT não esperava tanto. Pensou: o poema é um lance de dados, a prosa, o vivenciar dos dados na rampa do lançamento. Após o toque no sintetizador de textimagens, TXT viu as palavras chegarem de todos os lados cada vez mais rapidamente. Juntavam-se e subiam na mesa monstros-palavrões que penetravam nos papéis e aderiam aos objetos da sala, num sistema tático de ocupação total. Num instante a sala viu-se invadida por sílabas e letras, palavras e números de vários tamanhos e formatos.
          TXT entrou em parafuso. Sua cabeça doía muito e fundo, mas num certo prazo tudo pareceu estancar, e da tela do vídeo jorrou então um clip-poema, qual uma sinfonia de poder dominador, e TXT dormiu como se aquela máquina fosse capaz de engendrar o sono dentro de sua própria paz.

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Marginais do Pomba [diversas autorias], contos, crônicas & etc., Apresentação de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte, Cataguases — MG; Joaquim Branco Ribeiro Filho, nascido em 1940, mineiro e cataguasense, formou-se em Direito pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em Letras pela FIC Faculdades Integradas de Cataguases, mestrado em Literatura Brasileira pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora MG e doutorado em Literatura Comparada pela UERJ, além de ter atuado como bancário do Banco do Brasil em várias agências mineiras e no Rio de Janeiro, e ali se aposentado, foi professor universitário, lecionou por 17 anos nas Faculdades Integradas de Cataguases, é poeta, cronista, contista, crítico literário e pesquisador; suas obras: Concreções da fala (poemas, 1969), Consumito (poemas, 1975), Laser para lazer (poemas, 1984), 500 anos do descobrimento da América (1993), O caça-palavras (poemas, 1997), Do pré ao pós-moderno (manual de literatura, 1998), Ascânio, o poeta da Verde ([várias autorias], homenagem a Ascânio Lopes, 1998), Recr(e,i)ações críticas (artigos críticos, 1999), Passagem para a Modernidade (2002), O menino que procurava o reino da poesia (narrativa de ficção, 2005), Verdes Vozes Modernistas (crítica literária, 2006), Totem e as vanguardas dos anos 1960/70 (crítica literária, 2009, 1ª reimpressão, 2013), Janelas de Leitura (vários temas, 2010), Zona de Conflito (poemas, 2024), etc.; colaborou publicando seus textos em jornais e revistas no Brasil (Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Suplemento Literário de Minas Gerais, ...) e no exterior; Joaquim Branco participou de edições dos jornais O Muro, SLD — Suplemento de Literatura e Difusão e Totem; recebeu premiações por sua obra; atualmente reside em Cataguases.

terça-feira, 3 de junho de 2025

Francisco Inácio Peixoto: Último exercício ou poema de amor

 
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Vou me lembrar:
Nair de coxas de seda
Odete de quem entrevi um dia
a negra belbutina
a sábia Zulmira e Celmira Gláucia Carmem
a loura Abigail que era AEbigueial mas não concedia
Maria
para todos Mariinha
Olinda Guiomar
a devassa Conceição
Alcina e também Marília Filhinha...
Tantas assim?
Nem tanto nem tanto...
Havia ainda Leonora
que eu chamava Lenora
extinta como a outra como as outras.
Todas se sumiram
todas se fundiram
Numa só.

O nome?
Este, não digo

(Erótica, poemas, com desenhos
de Aldary Toledo, 1981)

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Francisco Inácio Peixoto em prosa e poesia, Coleção Os Ases de Cataguases, Apresentação, Organização e Notas de Luiz Ruffato e Prefácio [orelhas do livro] por Maria Zilda Ferreira Cury, 2008, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 1986), mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito UFRJ), foi industrial, fazendeiro, contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí, outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador também responsável pela formação de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos para o espanhol e participou de antologias literárias em Portugal e na Argentina; suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia, 1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo, 1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos, “um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente) que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov, 1966) ...

terça-feira, 27 de maio de 2025

Francisco Inácio Peixoto: Bapo

 
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          Bapo era a água, o rio, a chuva, o fiozinho cristalino que fluía no tanque do fundo da chácara, quase um pequeno lago de margens recobertas de musgo. Se, de manhã cedo, passeando no jardim, via o orvalho brilhando nos tinhorões, largava a mão da empregada, corria para eles, desajeitado, os braços tentando o equilíbrio dos passos inseguros. Possivelmente, idealizava coisas durante o percurso, porque ia de testa enrugada, compenetrado, martelando monossílabos incompreensíveis. Puxava as folhas carnudas, sacudia-as violentamente e as gotas lhe borrifavam o rosto, entrecortando-lhe em arrepios a respiração, já de si ofegante do esforço e da alegria da descoberta sempre renovada. Um repelão mais forte largava-lhe nos dedos inábeis pedaços de folhas. Esmagava-as, meticuloso. Examinava-as, atento, procurando as gotas irisadas que haviam fugido. Então, num sorriso meio de desdém, meio de desaponto, indagava da criada:
           Bapo?
           É água, sim, mas larga isso aí. Você está se molhando todo.
          Não percebia a censura inútil. Olhava outra vez para os tinhorões, olhava para a ama e confirmava, gravemente:
           Bapo!
          Era como se dissesse: “Está vendo como eu já conheço as coisas?”
          Um dia, ganhou um peixinho de cauda com véu ondulante. Jogaram-no no tanque. E Bapo ficou sendo também aquele pequeno e vivo ludião vermelho.
          Era um desses peixinhos lindos de aquário, habituados à transparência de sua bola de cristal. Esta, agora vazia e empeirada, estava num canto da sala, pois tiveram medo de que algum gesto estouvado das crianças a derrubasse, molhando tudo, estragando os móveis e os tapetes. Só isso preocupava. Não pensavam que Bapo também poderia morrer. Passando-o, assim, para o tanque, acabaram-se para ele as coisas coloridas e familiares que via através da lente deformadora de seu aquário. Acabou-se a areia fina e clara do fundo, onde se deitava, morta e decorativa, uma minúscula estrela-do-mar. Que mundo escuro e feio, aquele onde o atiraram! Esbarrava nas paredes de lodo e, deste, partículas em suspensão entravam-lhe na boca, que as expelia em seu constante movimento de fole. O menino ria:
           Papá?
           Bapo está com fome, sim. Joga um pedacinho de pão para ele.
          As migalhas caíam em chuva na superfície da água e Bapo, assustado, escondia-se sob as folhas das ninfeias, enquanto um cardume de barrigudinhos vorazes disputavam os fragmentos de pão que flutuavam um momento e logo desciam, levíssimos, pontilhando de branco o fundo do lago.
          De tarde, vinha não se sabe donde, aparecia, encarapitada numa pedra da margem, uma sapa gorda com um sapinho colado às costas. Não fosse o latejar constante do papo, que gargarejava de tempo em tempo um soído rouquenho, e a gente diria que eram bichos de louça. O sapo velho rondava, escondido nas folhagens e, às vezes, como que desatado por uma mola, caía, de um pulo, na água e, em pernadas de nadador, atravessava para o outro lado do tanque. Bapo, medroso, se esgueirava para o emaranhado de hastes e raízes.
          Passava dias sumido. Ninguém mais se lembrava de vê-lo ou de jogar-lhe comida. Só o menino insistia no seu amor pelo peixinho e ousava avançar mais perto da água para descobri-lo. A empregada repreendia-o e afastava-o para longe. Ele teimava:
           Bapo!
           Bapo foi-se embora. Não chega lá, não. Você está ficando muito levado!
          E o menino repetia, fazendo com as mãozinhas um gesto desolado:
           Foi bó!
          Arisco, mal sentia um vento mais leve encrespando o lago, Bapo refugiava-se. E só a cauda, seda esgarçada, permanecia de fora, debaixo de alguma folha.
          Um dia, numa manhã de julho, sentiu que não podia locomover-se. Era como se a água houvesse virado um bloco de gelo, prendendo-o. Tudo tão frio, tão escuro! Mais escuro pela cerração que cobria a superfície do tanque. O corpo perdera a flexibilidade e só a custo se contraía sem direção. Era uma pequena alga que as águas levassem. Recurvara-se em “s”, sinuoso e hirto.
          Certa tarde quanto tempo depois? , deram com ele engastalhado no talo de uma ninfeia, como uma flor vermelha. As guelras batiam, ritmando o incessante abrir e fechar da boca. De vez em quando, buscava libertar-se em contrações bruscas e inúteis.
          Desvencilharam-no com um pedaço de pau e puxaram-no para a margem, como uma coisa, como um papel amarrotado que estivesse boiando no tanque. Algumas escamas haviam perdido os reflexos dourados e esfiapavam, formando manchas maceradas. Talvez o tivesse bicado algum bicho ou, então, se houvesse ferido nas bordas ásperas de cimento. Talvez também que, indefeso e doente, o houvessem beliscado outros peixes.
          Quando o agarraram, ainda tentou fugir às mãos, que o seguravam e que, rápidas, o tiraram fora d’água, ligando-o entre duas talas de madeira. Bapo chiava convulsamente:
           Fiu! Fiu! Fiu!
          O menino, aflito, apontava para o pobre corpo ferido e aleijado:
           Dodói! Dodói!
          Soltaram-no de novo. E Bapo foi descendo lentamente, lentamente, como um esquifezinho, até mergulhar no lodo a pequenina cabeça vermelha.
          Quando o tiraram dali, estava morto.

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Marginais do Pomba [diversas autorias], contos, crônicas & etc., Apresentação de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 1986), mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito UFRJ), foi industrial, fazendeiro, contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí, outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador responsável pela formação de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos para o espanhol e participou de antologias literárias em Portugal e na Argentina; suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia, 1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo, 1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos, “um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente) que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov, 1966) ...