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Oi, você é novo aqui? Parece que nunca te vi e olha que tenho uma memória fotográfica de elefante! Conheço cada um que entra. Sei quando é a primeira vez. sei quando é freguês antigo. Por que eu sei? Bom, isso depois eu conto. Aquela ali, por exemplo, de saia godê de cetim, blusa transparente e óculos de gatinho. Ela é habitué, apesar de parecer ter saído de alguma peça do Nelson Rodrigues. Outro dia eu a vi aos beijos com o cara de terno cinza, que só vem de vez em quando, sendo encoxada atrás da terceira coluna. Parece que ele é... Ou ela... E... Bom, isso depois eu conto. Olha aquele sujeito de calça cáqui e camisa verde que acabou de passar. Um dia, ele olhou pra moça de saia godê de cetim até ela sumir no alto da escadaria. Tinha aquele olhar de desejodematar, sabe como? Foi atrás dela bem na hora. Deu um grito e saiu correndo, quase enfiou as fuças na cabeça do Mário que tem logo ali na entrada. Eu sei por quê. Foi porque ele é o... Bom, isso depois eu conto. Olha aquele outro. Vem toda semana. Não sei como consegue ler tanto com aquela miopia. É quase cego! Dois livros por semana. Religiosamente, todas as quartas à tarde ele devolve e pega mais dois. Fico imaginando: não trabalha? Eu não tenho nada a ver com isso, claro, mas a boca é minha e eu falo o que me dá na telha, e daí? E ele não lê aquele escritor brasileiro milionário que mora na Suiça, não! — que ninguém nos ouça, nada contra, e acho melhor que leia isso do que nada — o talzinho das quartas só lê os clássicos. Mas um dia a Gerusa... Como que Gerusa? A da recepção! Eu ouvi ela dizer pra Matilde (Matilde você sabe, né?). Então, eu ouvi ela dizer que o tal cara tinha levado um do Augusto alguma coisa... Tipo esses de autoajuda, sabe? "Você quer, você pode, você consegue" é o mantra. Trazem a fórmula da prosperidade, mas quem está milionário é o cara que escreveu!!! Parar de ser maldosa? Gerusa é que é maldosa. Rola um papo no Messenger de que ela já foi bloqueada por uma porção de gente no Facebook por causa de certos comentários... Inclusive teve uma vez que o namorada da... Bom, isso depois eu conto. Outro dia comentei com Eumesmo (como quem é Eumesmo? Eumesmo é o irmão gêmeo do Elepróprio, trabalham aqui na Biblioteca desde sempre. São os guardiões do nono andar... Que nono andar? Não tem nono andar? Bom, isso depois eu conto). Então. Comentei com Eumesmo que depois da reforma isso aqui ficou bom demais. Elepróprio não curtiu. É turrão, discorda por prazer. Mas Eumesmo confirmou: o fluxo de leitores aumentou. Você não acha? Bom, você não mora aqui na Biblioteca, né? E hoje é quarta-feira. É um dia meio morto. Olha lá, olha lá. É ela. A menina aprendiz. É nova
no pedaço. Começou outro dia. Achei ela meio arrogantezinha, falei pra
Elepróprio. Eumesmo concordou. Elepróprio não, claro, disse que eu tô com
ciúmes. Imagina se aquelazinha com cara de índia vai abalar minhas estruturas.
estou fincada e muito bem fincada neste piso de mármore chiquetérrimo desde o
século passado, quando meu pai me esculpiu. desde o tempo que o Mário foi
secretário de Cultura e estava quase todos os dias por aqui... Como que Mário?
O que estava dentro do armário??? Acho que ele nunca assumiu, chérie. Mas essa
piada é velha! Por falar em Velha... Deixa a tupininquinzinha cair no golpe da
Velha pra ela ver o que é bom pra tosse. Tolinha. Ah, sabe o que descobri? Que
essa tal aprendiz é filha adotiva de um casal de alemães. Mas o que ninguém
sabe é que a avó materna dela foi quem inspirou o Mário naquele
livro Amar, verbo intransitivo. Inclusive parece que a tal avó germânica
era professora particular de alemão do Mário e aí eles tiveram mesmo um rolê,
mas não rendeu, o Mário, cê sabe, era m eio esquisitão. Juro! E aí... Parece que
eles tiveram mesmo um... E ela ensinou pra ele a... Será que traumatizou? Por
isso ele preferia... Bom, isso depois eu conto. Voltando prazinha... Ela passa
e nem olha na minha cara. Bom, Elepróprio disse que praticamente ninguém me vê,
apesar de eu estar bem na entrada da Biblioteca do beiçudo do Mário. Agora,
depois da reforma, ganhei visibilidade! Melhoraram a iluminação... Minha foto
saiu nos jornais... Mas antes? Tinha uns malucos que até trepavam aqui em cima
e ficavam me encoxando para aparecer na selfie... Mas isso depois eu conto. Eumesmo e Elepróprio já combinaram tudo com a Velha. Com que Velha? Leia os
outros contos!!! A Velha é a personagem que está condenada a ficar o resto da
existência no nono andar. E precisa encontrar uma... Que cumpra umas... E se
falhar?... Bom, isso depois eu conto. Já está tudo armado: dia desses a
talzinha — o nome dela é Manu — vai encontrar um livro pra devolver nas
estantes — ela é repositora (entre outras coisas... Ela tem uma carinha de
vadia... Outro dia ela estava se contorcendo toda e revirando os olhinhos de
dedinho na... Boc... Enquanto escrevia no smarthphone. Como o que é que tem?
Sissiricando, ô meu, na frente de todo mundo, na sala de leitura!!! Mas isso
depois eu conto) — e aí ela vai parar no nono andar. O elevador já está
preparado. Mas isso depois eu conto.

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Um Circo de Percalços Falsos:
guia para a bibliotecária das galáxias, (Coletivo As Lontras Daquela Hora),
Coordenador: Luiz Bras, 2016, Editora Aspas, São Paulo — SP;
Lady Lou, está escrito nos minitraços biobibliográficos deste Circo de
Percalços Falsos, “é analista de sistemas psíquicos em curto-circuito e
revisora dos hieróglifos de Champolion nas horas vagas. Faz crochê com
diferentes linhas de pensamento, mas seu principal hobby é ver a banda de
Moebius passar, enquanto decifra as articulações entre o Real, o Simbólico e o
Imaginário do inconsciente coletivo. Lê tarô dos anjos, mas só os arcanjos
maiores, e faz mapa astral quântico de borboletas azuis.”