sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Anna Akhmátova: Aprendi a viver com simplicidade, com juízo, . . .

 
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[traduzido por Lauro Machado Coelho]

Aprendi a viver com simplicidade, com juízo,
a olhar o céu, a fazer minhas orações,
a passear sozinha até a noite,
até ter esgotado esta angústia inútil.

Enquanto no penhasco murmuram as bardanas
e declina o alaranjado cacho da sorveira,
componho versos bem alegres
sobre a vida caduca, caduca e belíssima.

Volto para casa. Vem lamber a minha mão
o gato peludo, que ronrona docemente,
e um fogo resplandecente brilha
no topo da serraria, à beira do lago.

Só de vez em quando o silêncio é interrompido
pelo grito da cegonha pousando no telhado.
Se vieres bater à minha porta,
é bem possível que eu sequer te ouça.

1912
(Rosário [ou, literalmente, Contas],
São Petersburgo, 1914)

Anna Akhmátova

Я научилась просто, мудро жить, . . .

Я научилась просто, мудро жить,
Смотреть на небо и молиться Богу,
И долго перед вечером бродить,
Чтоб утомить ненужную тревогу.

Когда шуршат в овраге лопухи
И никнет гроздь рябины желто-красной,
Слагаю я веселые стихи
О жизни тленной, тленной и прекрасной.

Я возвращаюсь. Лижет мне ладонь
Пушистый кот, мурлыкает умильней,
И яркий загорается огонь
На башенке озерной лесопильни.

Лишь изредка прорезывает тишь
Крик аиста, слетевшего на крышу.
И если в дверь мою ты постучишь,
Мне кажется, я даже не услышу.

1912 г.
(Чётки — ‘Tchiôtcki’, 1914)
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Antologia Poética: Anna Akhmátova, Seleção, Tradução do russo, Apresentação e Notas de Lauro Machado Coelho, Coleção L&PM Pocket, volume 751, 1ª edição em fevereiro de 2009 e reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ou Anna Andrêievna Gorienko, ucraniana nascida num subúrbio de Odessa, Bolshôi Fontán, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; escreveu seus primeiros versos no inverno de 1905, aos dezesseis anos; participou da criação do Tsékh Poétov (Oficina dos Poetas) e do Acmeísmo movimento literário de reação ao Simbolismo [escola moscovita, da qual faziam parte os poetas Vladímir Maiakóvski e Velimír Khlébnikov, além de Aleksandr Blok], publicou seus poemas nas revistas petersburguesas Apollon e Guiperbória; suas obras: Вечер (Noite, 1912), Чётки (Rosário ou, literalmente, Contas, 1914), Белая Стая (Revoada Branca, 1917), Podorójnik (Tanchagem, ou Capim, 1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Реквием — поэма (Réquiem — poemas, 1963), Бег Времени (O voo do tempo, 1965), e outros títulos, além de reedições; a poetisa, que optou por nunca sair da então União Soviética, aliás, que sempre chamou de Rússia, jamais quis emigrar, sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; nos períodos mais difíceis de sua vida social e literária, embora continuasse a produzir poemas, traduziu obras de Victor Hugo, Rabindranath Tagore e Giacomo Leopardi e “realizou trabalhos acadêmicos sobre Pushkin e Dostoiévski; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Hermes Fontes: Arquejo

 
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Comoção de Minha Alma iluminada...
Maturidade esplêndida do Amor...
... Para quê? É-me inútil a escalada
e já descri de ser o vencedor...

Desfeito o altar, por que manter a escada?
Meu destino é de chamas e esplendor,
mas olho em derredor, não vejo nada,
senão a minha Sombra e a minha Dor!

A minha Dor — essa imortal ruína;
a minha Sombra — essa espiã divina,
e a minha Solidão, em torno a mim:

e esta desilusão, e esta saudade,
e esta mentira de celebridade,
e este cansaço de esperar o fim...

[Arquejo, publicado [em 1922?!] oito anos antes de
sua morte e que, estranhamente, já era um prenúncio
terrível de seu fim tão trágico. cfe. Vasco de Castro
Lima, neste O Mundo Maravilhoso do Soneto]

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), sergipano de Buquim, órfão de mãe ainda criança, aos nove anos seguiu rumo ao Rio de Janeiro, levado pelas mãos de Martinho Garcez [à época senador federal], seu protetor, cursou a Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro [hoje Faculdade de Direito da UERJ-RJ], bacharelou-se, não exerceu a profissão, foi poeta, compositor, jornalista, crítico literário, caricaturista e funcionário público trabalhou nos Correios e foi oficial de gabinete do ministro da Viação ; tendo sido um dos fundadores do jornal Estréia (1904), também foi colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, Kosmos, Revista Souza Cruz, entre outros periódicos de sua época; Hermes Fontes também foi caricaturista do jornal O Bibliógrafo; obras poéticas: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922), A Fonte da Mata (1930) ...; o poeta, num processo de depressão, suicidou-se na véspera do Natal de 1930; sua poesia é de estética simbolista; teve poemas musicados e cantados por Vicente Celestino.

Wisława Szymborska: Certa gente

 
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[traduzido por Regina Przybycien]

Certa gente fugindo de outra gente.
Em certo país sob o sol
e algumas nuvens.

Deixam para trás certo tudo o que é seu,
campos semeados, umas galinhas, cães,
espelhos nos quais agora se fita o fogo.

Trazem às costas trouxas e potes
quanto mais vazios tanto mais pesados a cada dia.

No silêncio alguém cai de exaustão,
na algazarra alguém rouba de alguém o pão
e o filho morto de alguém é sacudido.

À sua frente uma estrada sempre errada,
uma ponte, mas não a de que precisam,
sobre um rio curiosamente rosado.
Ao redor uns disparos, ora mais perto, ora mais longe,
no alto um avião meio rodopiante.

Viria a calhar certa invisibilidade,
uma parda rochosidade
ou melhor ainda a inexistência
por um tempo breve ou mesmo longo.

Algo ainda vai acontecer, mas onde e o quê.
Alguém vai lhes barrar o caminho, mas quando, quem,
em quantas formas e com que intenções.
Se tiver escolha,
talvez não queira ser inimigo
e os deixe com alguma vida.

(Instante — 2002)

Wisława Szymborska

Jacyś ludzie

Jacyś ludzie w ucieczce przed jakimiś ludźmi.
W jakimś kraju pod słońcem
i niektórymi chmurami.

Zostawiają za sobą jakieś swoje wszystko,
obsiane pola, jakieś kury, psy,
lusterka, w których właśnie przegląda się ogień.

Mają na plecach dzbanki i tobołki,
im bardziej puste, tym z dnia na dzień cięższe.

Odbywa się po cichu czyjeś ustawanie,
a w zgiełku czyjeś komuś chleba wydzieranie
i czyjeś martwym dzieckiem potrząsanie.

Przed nimi jakaś wciąż nie tędy droga,
nie ten, co trzeba most
nad rzeką dziwnie różową.
Dokoła jakieś strzały, raz bliżej, raz dalej,
w górze samolot trochę kołujący.

Przydałaby się jakaś niewidzialność,
jakaś bura kamienność,
a jeszcze lepiej niebyłość
na pewien krótki czas albo i długi.

Coś jeszcze się wydarzy, tylko gdzie i co.
Ktoś wyjdzie im naprzeciw, tylko kiedy, kto,
w ilu postaciach i w jakich zamiarach.
Jeśli będzie miał wybór,
może nie zechce być wrogiem
i pozostawi ich przy jakimś życiu.

(Chwila — 2002)
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Wisława Szymborska [poemas], Seleção, Tradução e Prefácio por Regina Przybycien, edição bilíngue, 2ª reimpressão, 2012, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wisława Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; de sua biografia, consta que Topielec. Poemat epiczny w II pieśniach, seu poema mais antigo, é datado de 28.02.1942; assim, Wisława deu início a seu processo criativo: em Cracóvia, trabalhou como editora assistente na revista quinzenal Świetlica Krakowska, criou suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, também em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Dlatego żyjemy (Por isso vivemos, 1952), Pytania zadawane sobie (Pergunta que me faço, 1954), Wolanie do Yeti (Chamando pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo,1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Literário da Cidade de Cracóvia (Nagrodę Literacką Miasta Krakowa 1954, pelas obras Dlatego żyjemy e Pytania zadawane sobie), Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996), Prêmio Niki de Literatura (2006), ...

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Ascânio Lopes: Natal do tuberculoso & Minha morte

 
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Natal do tuberculoso

Eu pensei que Papai Noel passasse por aqui
e pus na janela do quarto
meus sapatos inúteis de doente que não mais andará.
Depois rezei. Uma oração feita por mim,
entrecortada pelo arfar do peito e pela tosse rouca.
Pedi uma morte mansa suave
o coração parando, sem aflição, sem dor.
Lá fora os sinos da Missa do Galo
acompanhando minha morte lenta.
E aqui dentro ninguém... o silêncio... o descanso... o mistério...
Mas Papai Noel passou sem nada me dar.
Achou decerto enormes meus sapatos...

— o —

Minha morte

Meus amigos dirão as palavras da amizade.
Meus inimigos dirão as palavras do perdão.
E os indiferentes continuarão indiferentes.
E ela que distante reza baixo por mim,
ela que dirá?

Sua boca dirá nada, mas seus olhos dirão tudo...

(Ascânio Lopes: Vida e poesia, de Delson Gonçalves Ferreira,
1967, Difusão Pan-Americana do Livro, Belo Horizonte — MG)

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Ascânio, o poeta da Verde, coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 — 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; suas obras: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (na parceria de Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde, e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Paulo Bomfim: Os dias mortos

 
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Os dias mortos, sim, onde enterrá-los?
Que solo se abrirá para acolhê-los
em seus pés indecisos, seus cabelos,
seu galope de sôfregos cavalos!

Os dias mortos, sim, onde guardá-los?
Em que ossário reter seus pesadelos,
seu tecido rompido de novelos,
seus fios graves, relva além dos valos?

Tempo desintegrado, tempo solto,
fátuo fogo de febre e de fuligem,
canteiro de sereia em mar revolto.

Em nossa carne, sim, em nossos portos,
quando o fim regressar à própria origem,
repousarão também os dias mortos!

(Poemas escolhidos — 1974)

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Paulo Lébeis Bomfim (1926 2019), paulista e paulistano, foi jornalista, poeta e diretor de rádio e TV; desde criança escrevia seus versos e iniciou-se no jornalismo, em 1945, no Correio Paulistano e, logo após, no Diário de São Paulo (coluna Luz e Sombra), colaborou também com o Diário de Notícias (coluna Notas Paulistas), do Rio; sua obra de estréia, Antônio Triste (poemas, com Ilustrações de Tarsila do Amaral e Prefácio de Guilherme de Almeida, 1946), foi agraciada no ano seguinte com o Prêmio Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras; foi diretor da Fundação Cásper Líbero, produzindo para rádio e televisão, e participando nos programas Universidade na TV, no Canal 2, Crônica da Cidade e Mappin Movietone, no Canal 4 e Hora do Livro e Gazeta é Notícia, na TV Gazeta; escreveu e publicou Transfiguração (1951), Relógio de  sol (1952), Cantiga do desencontro e Poema do silêncio (ambos em 1954), Sinfonia branca (1955), Armorial (1956), Poema da descoberta (1958), Sonetos (1959), Colecionador de minutos (1960), Sonetos da vida e da morte (1963), Tempo reverso (1964), Canções (1966), Aquele menino — livro de memórias (2000), Tecido de lembranças, crônicas e memórias (2004), Cancioneiro (2007) e outros títulos; teve obras traduzidas para os idiomas alemão, francês, inglês, italiano e espanhol [castelhano]; teve poemas musicados por Camargo Guarnieri, Dinorah de Carvalho, Oswaldo Lacerda e mais compositores; em 1982, recebeu o Troféu Juca Pato, de intelectual do ano, concedido pela UBE União Brasileira de Escritores.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Gérard de Nerval: Romança

 
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[traduzido por Mauro Gama

Ària: O Nobre Fulgor do Diadema

Sob alegrias simuladas
Não nos escondas tua dor!
Tanto em tristeza nos agradas
Quanto em sorriso encantador:
Em meio à névoa a aurora invade
O vale, e assim o olhar enleva
E, bela em tênue claridade,
A noite, Febe, encanta a treva.

Quem te vê muda e pensativa
Sonhar sozinha o dia inteiro,
A ingênua virgem em ti reaviva
Que ainda suspira o amor primeiro;
Não vê a coroa e seu esplendor
Cingindo em ti os cabelos belos,
E se lhe entrega com o ardor
Do amor primeiro e seus anelos.

Gérard de Nerval

Romance

Air: Le Noble Eclat du Diadème

Ah! sous une feinte allégresse
Ne nous cache pas ta douleur!
Tu plais autant par ta tristesse
Que par ton sourire enchanteur:
À travers la vapeur légère
L'Aurore ainsi charme les yeux;
Et, belle en sa pâle lumière,
La nuit, Phœbé charme les cieux.

Qui te voit, muette et pensive,
Seule rêver le long du jour,
Te prend pour la vierge naïve
Qui soupire un premier amour;
Oubliant l'auguste couronne
Qui ceint tes superbes cheveux,
A ses transports il s'abandonne,
Et sent d'amour les premiers feux!

(Poèmes divers)
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Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas [Edição Bilíngue], Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de Mauro Gama, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista, novelista, romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações, parte de seus poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies et Odelettes (1834), Léo Burckart (drama, 1839), Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie (conto, 1853), Les Filles du Feu (coleção de contos, e poemas “Les Chimères”, 1854), Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères (poemas, 1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères (publicação póstuma), Poésies Diverses (publicação esparsa ou postumamente) ...; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

domingo, 26 de outubro de 2025

James Weldon Johnson: Mãe Preta

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

Ó enluarada cabeça envolta em alegre turbante,
Ó manso semblante escuro, ó tôsca, mas afetuosa mão,
E cujos filhos são hoje os senhores da terra!
Foi o teu regaço que agasalhou, também, estas crianças,
Os teus olhos que se seguiram durante toda a sua infência
E era no teu peito que, outrora, elas sugavam a sua robustez.

Quantas vezes ao colo não estreitaste,
Quantas vezes não tiveste de encontro ao teu amplo e noturno seio
A áurea cabeça, a fronte e o rosto de neve,
Dele ressaindo como um camafeu tocado de vida!
Ó alma simples, enquanto essa criança acalentavas
Com teu doce canto, tão plangente e agoniado,
Jamais te acudiu à mente, como súbita punhalada,
Que um dia ela esmagaria o teu próprio filho negro?


The Black Mammy

O whitened head entwined in turban gay,
O kind black face, O crude, but tender hand,
O foster-mother in whose arms there lay
The race whose sons are masters of the land!
It was thine arms that sheltered in their fold,
It was thine eyes that followed through the length
Of infant days these sons. In times of old
It was thy breast that nourished them to strength.

So often hast thou to thy bosom pressed
The golden head, the face and brow of snow;
So often has it 'gainst thy broad, dark breast
Lain, set off like a quickened cameo.
Thou simple soul, as cuddling down that babe
With thy sweet croon, so plaintive and so wild,
Came ne'er the thought to thee, swift like a stab,
That it some day might crush thine own black child?
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Poemas Famosos de Língua Inglesa [diversas autorias], edição bilíngue, Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, Coleção Antologia de Poetas Universais — volume 599, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; James Weldon Johnson (1871 1938), estadunidense de Jacksonville  Flórida, estudou “literatura inglesa e a tradição musical europeia” na Stanton School [primeira escola pública para crianças negras na Flórida e única escola secundária voltada aos negros no país], graduou-se e fez mestrado em Leis nas universidades de Atlanta e Columbia, exerceu as funções de cônsul estadunidense na Nicarágua e na Venezuela, foi poeta, romancista, compositor, antologista, professor, jornalista, advogado e líder militante pró direitos civis da população negra nos EUA; dirigiu a Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP); em 1891 começou a lecionar na Geórgia; em 1895, fundou o Daily American, primeiro jornal diário direcionado aos negros nos Estados Unidos; foi pioneiro nos estudos da cultura negra (poesia, música e teatro), os quais, na década de [19]20, eram apresentados a muitos brancos americanos, o “rico espírito criativo afro-americano”; em 1897, James W. Johnson foi o “primeiro advogado negro admitido na Ordem dos Advogados da Flórida desde a Reconstrução” e passou a exercer advocacia; em 1906, já empregado no corpo diplomático, teve poemas publicados no The Century Magazine e no The Independent; em Nova York, foi redator editorial do New York Age, “o jornal negro mais antigo”; suas obras: escreveu e editou The Autobiography of an Ex-Colored Man (romance publicado anonimamente, Sherman, French & Company, 1912) Fifty Years and Other Poems (1918), The Book of American Negro Poetry (Harcourt, Brace and Company, 1922), The Book of American Negro Spirituals (Viking Press, 1925), The Second Book of American Negro Spirituals (Viking Press, 1926), God’s Trombones: Seven Negro Sermons in Verse (poemas, Viking Press, 1927), Saint Peter Relates an Incident of the Ressurrection Day (coletânea de poesias, sátiras, 1930), Along This Way: The Autobiography of James Weldon Johnson (autobiografia, 1933) e outros textos em prosa e verso; em 1900, o poeta e ativista negro também fora coautor da canção Lift Every Voice and Sing, popularizada como Hino Nacional Negro, elaborada em parceria de seu irmão e musicista John Rosamond Johnson [juntos, compuseram outras duas centenas de canções e operetas para a Broadway novaiorquina]; organizou paradas, marchas e protestos pró negros, denunciou violências e linchamentos contra afro-americanos, recebeu premiações.

sábado, 25 de outubro de 2025

Lêdo Ivo: Barganha

 
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Domingo é dia de barganha.
Troco um relógio dos antigos
por um cavalo rosilho,
um bode por um trinca-ferro,
e uma roda de cabriolé
por um radinho de pilha.
Troco um gibão de cigano
pela serra que serrou
o tronco mais odorante
e por um fogão de lenha
troco um cachorro de caça
e uma panela de cobre.
Troco toda a luz do sol
pela sombra de um só pássaro.
Por uma espingarda troco
um tacho que foi de escravos
além de um almofariz
e uma xícara sem asa.
Troco a salmoura dos peixes
por qualquer gosto de lágrima.
Pela vitrola rachada
dou a minha bicicleta
com os pneus arriados.
Troco o entulho que restou
do muro que derrubei
pelo calor da fogueira
que por uma noite apenas
negou o frio dos pobres.
Troco um lençol de noivado
e uma toalha bordada
pela lua refletida
na escuridão das cisternas.
Troco o meu selim de couro
por um arreio de prata.
Dou um caminhão de pedra
por um portão de peroba.
Na tabuada do mundo
troco o número um
pelo número dois.
E troco o bolor do dia
pelo silêncio guardado
na boca aberta dos doidos.
Troco a alvorada dos galos
pelo rumor dos reis mouros
que passam com seus vassalos
pelas antigas muralhas
rubras de tantas batalhas.
Também troco uma tigela
feita de barro da terra
por um jarro e uma gamela.
Barganho a chuva celeste
pela água negra da terra
e troco a nuvem que passa
por tudo o que for eterno.
Só a minha alma é inegociável.
Não a dou por dinheiro nenhum.

(A Noite Misteriosa — 1982)

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Antologia Poética — Coleção Prestígio, Lêdo Ivo, Seleção de Walmir Ayala e Introdução de Antônio Carlos Villaça, 1990, Ediouro — Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, fez o primário no Grupo Escolar D. Pedro II e o secundário no Colégio Diocesano, bacharelou-se pela Faculdade Nacional de Direito (hoje UFRJ) e não exerceu a profissão, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1938, deu início à colaboração na imprensa local [Maceió] e teve textos publicados na revista Carioca [Rio de Janeiro]; em 1940, transferindo-se para Recife, cursou o Colégio Carneiro Leão e também colaborou na imprensa; em 1942, de volta a Maceió, concluiu o curso “complementar” no Liceu Alagoano, trabalhou como repórter e, em 1943, já no Rio de Janeiro, formou-se em Direito, passou a colaborar em suplementos literários e trabalhou como jornalista; em 1944, estreou na vida poética com a publicação de As Imaginações; suas obras: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Finisterra (poesia, 1972, laureado com o Prêmio Luísa Cláudio de Sousa), A Noite Misteriosa (1982), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance [recebeu o Prêmio Graça Aranha], 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em muitas antologias literárias; Lêdo Ivo, que obteve diversas premiações na área da literatura, teve obras vertidas para os idiomas espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski; viajou por diversos países das Américas e da Europa.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Adélia Prado: Amor Feinho

 
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Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

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Bagagem — Adélia Prado, edição revisada, 27ª edição, 2008, Editora Record, São Paulo — SP; Adélia Luzia Prado de Freitas, nascida em 1935, mineira de Divinópolis, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Padre Matias Lobato e no Ginásio Nossa Senhora do Sagrado Coração, cursou o magistério na Escola Normal Mário Casassanta e fez filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, professora e filósofa, é contista e poetisa; como professora, começou a lecionar no Ginásio Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho em 1955; exerceu o ofício no magistério por 24 anos, em várias instituições de ensino de sua Divinópolis; na publicação de seu livro de estréia (Bagagem: poemas), em 1976, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético; suas obras: em poesia, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976), O coração disparado (agraciado com o Prêmio Jabuti, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988), Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010) etc., em prosa, Solte os Cachorros (contos, 1979), Cacos para um Vitral (1980), Os Componentes da Banda (1984), Manuscritos de Filipa (1999), Filandras (2001); a poetisa participou de várias antologias e teve obras vertidas para os idiomas espanhol, inglês e italiano, entre os quais The Headlong Heart (O Coração Disparado, inclui também poemas de Terra de Santa Cruz e Bagagem), The Alphabeth in the Park (O Alfabeto no Parque: seleção de poemas), El Corazón Disparado, Bagaje (Bagagem) e Poesie (Poesia: antologia em italiano); premiações recebidas: além do Prêmio Jabuti (por O Coração Disparado, 1978), a poetisa foi agraciada em 2024, com o Prêmio Camões (por sua obra em língua portuguesa) e o Prêmio Machado de Assis (da ABL Academia Brasileira de Letras); Adélia Prado permanece morando em Divinópolis, sua cidade natal.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Ivo Barroso: O céu dos velhos

 
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No céu dos velhos o conforto predomina:
algodões de nuvens doces ou salgadas
que se desfazem no céu da boca já sem dentes
colchões de nimbos que se amoldam à lembrança do corpo
nádegas de cúmulos alimentando a nostalgia do sexo
Os velhos se espreguiçam nas varandas do céu
espiam lá embaixo suas vidas pregressas
a memória é curta e não há rostos conhecidos
ou as faces se transverberam recortadas contra a luz
Mais que em vida o seu tempo desbaratam
na inércia e no abandono dos músculos e da mente
esperam distraídos ou conformados
uma segunda morte que lhes apague para sempre
a sensação de absoluta inutilidade.

(A caça virtual — 2001)

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A caça virtual e outros poemas: antologia — Ivo Barroso, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso (1929 2021), mineiro de Ervália, formado em Direito pela então Universidade da Guanabara [hoje UERJ], e em Línguas e Literatura Neolatinas pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro [hoje UFRJ], foi escritor, poeta, tradutor e jornalista; traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T. S. Eliot, Ítalo Calvino, Erik Axel Karlfeldt, Eugenio Montale, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; como jornalista, foi editor-adjunto do Suplemento Literário do Jornal do Brasil [Rio de Janeiro], um dos criadores da revista de cultura Senhor [primeira versão], redator da revista Seleções Reader’s Digest [em Lisboa Portugal]; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, acerca da obra de Poe, 2000), Poesia ensinada aos jovens (2010) e outros títulos; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos, licenciando-se mais de uma vez para o exercício de outros ofícios, e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres e Estocolmo, além de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; premiações recebidas: Prêmio Jabuti de tradução (1998, por Prosa poética: Uma estadia no inferno, Iluminações, Um coração sob a sotaina, Os desertos do amor, Prosas evangélicas, de Rimbaud), Prêmio Jabuti de tradução (1992, por Os Gatos, de T. S. Eliot), Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras (2005, por Teatro completo, também de Eliot) ...