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[traduzido
por Paulo Hecker Filho]
Engoli um senhor gole de veneno. — Três
vezes abençoado seja o conselho que me deram! — As entranhas me ardem. A
violência do veneno torce meus membros, me torna disforme, me prostra. Morro de
sede, sufoco, não consigo gritar. É o inferno, a pena eterna! Vejam como o fogo
se ergue! Queimo como deve ser. Anda, demônio!
Entrevi a conversão ao bem e à
felicidade, a salvação. Pudesse descrever a visão, o ar do inferno não suporta
hinos! Eram milhões de criaturas encantadoras, um suave concerto espiritual, a
força e a paz, as nobres ambições, que sei?
As nobres ambições!
E ainda é a vida! — Se a danação é
eterna! Um homem que quer se mutilar está condenado, não é? Não creio no
inferno, pois estou nele. É a execução do catecismo. Sou escravo do meu
batismo. Pais, fizeram a minha desgraça e a de vocês. Pobre inocente! — O inferno
não pode acometer os pagãos — É a vida ainda! Mais tarde, as delícias da
danação vão ser mais profundas. Um crime, ligeiro, que eu caia no nada, segundo
a lei humana.
Cala-te, mas cala-te!... É a vergonha,
a censura, aqui: Satã é quem diz que o fogo é abjeto, que minha cólera é terrivelmente
tola. — Basta!... Os equívocos que me passam, magias, falsos perfumes, músicas pueris.
— E dizer que aprendo a verdade, discirno a justiça: possuo um julgamento são e
moderado, estou pronto para a perfeição. Orgulho. — A pele do meu crânio
desseca. Piedade! Senhor, tenho medo. E sede, tanta sede! Ah! a infância, a
grama, a chuva, o lago sobre as pedras, o luar quando o campanário
batia as doze... o diabo está ali nessa hora. Maria! Santa Virgem!...
— Horror da minha tolice.
Não estão lá boas gentes, que me
querem bem?... Venham... tenho um travesseiro na boca, não me escutam, são
fantasmas. Ademais, nunca ninguém pensa no outro. Não cheguemos perto. Sinto
cheiro de queimado, é certo.
As alucinações são inumeráveis. É
bem o que eu sempre tive: não mais fé na história, o esquecimento dos
princípios. Não falo deles: poetas e visionários teriam inveja. Sou mil vezes
mais rico, sejamos avaros como o mar.
Ah isto! o relógio da vida parou há pouco. Não estou mais no mundo. — A teologia é séria, o inferno é sem dúvida embaixo — e o céu, no alto. — êxtase, pesadelo, sonho
num ninho de chamas.
Quantas travessuras em atenção ao campo...
Satã, Ferdinand*, corre
como as sementes selvagens... Jesus caminha sobre as sarças purpúreas, sem
curvá-las... Jesus anda sobre as águas encrespadas. A lanterna mostra-o de pé,
branco, com tranças escuras, na borda de uma onda de esmeralda...
Quero desvelar todos os mistérios:
mistérios religiosos ou naturais, morte, nascimento, futuro, passado,
cosmogonia, nada. Sou mestre em fantasmagorias.
Ouçam!...
Tenho todos os talentos! — Não há ninguém
aqui e há alguém: não gostaria de espalhar meu tesouro. — Querem cantos negros,
danças de huris? Querem que eu desapareça, que mergulhe em busca do anel? Querem? Farei ouro, remédios.
Confiem em mim, a fé alivia, guia,
cura. Todos, venham — mesmo as criancinhas — que os consolarei, reparto o coração
dele — o coração maravilhoso! — Pobres homens, trabalhadores! Não peço preces;
com sua confiança apenas, estou satisfeito.
— E pensemos em mim. Isso me leva a
ter pouca saudade do mundo. Tenho a possibilidade de não sofrer mais. Minha
vida não passou de doces loucuras, é lamentável.
Bah! Façamos todas as caretas
imagináveis.
Decididamente, estamos fora do
mundo. Mais nenhum som. Meu tato sumiu. Ah! meu castelo, minha Saxe, meu bosque
de salgueiros. As tardes, as manhãs, as noites, os dias. Estou ali!
Deveria ter meu inferno pela
cólera, meu inferno pelo orgulho — e o inferno da carícia; um concerto de
infernos.
Morro de lassidão. É a tumba, vou
para os vermes, horror dos horrores! Satã, farsante, queres me diluir com teus
feitiços. Me queixo. Me queixo! Um golpe do tridente, uma gota de fogo.
Ah! voltar à vida! Lançar os olhos
sobre nossas deformidades. E este veneno, este beijo mil vezes maldito! Minha
fraqueza, a crueldade do mundo! Meu Deus, piedade, esconde-me, me aguento mal! —
Estou oculto e não estou.
É o fogo que cresce, com seu
condenado.
Nuit de l’enfer
J’ai avalé une fameuse gorgée de poison.
— Trois fois béni soit le conseil qui m’est arrivé! — Les entrailles me
brûlent. La violence du venin tord mes membres, me rend difforme, me terrasse.
Je meurs de soif, j’étouffe, je ne puis crier. C’est l’enfer, l’éternelle
peine! Voyez comme le feu se relève! Je brûle comme il faut. Va, démon!
J’avais entrevu la conversion au
bien et au bonheur, le salut. Puis-je décrire la vision, l’air de l’enfer ne
souffre pas les hymnes! C’était des millions de créatures charmantes, un suave
concert spirituel, la force et la paix, les nobles ambitions, que sais-je?
Les nobles ambitions!
Et c’est encore la vie! — Si la damnation
est éternelle! Un homme qui veut se mutiler est bien damné, n’est-ce pas? Je me
crois en enfer, donc j’y suis. C’est l’exécution du catéchisme. Je suis esclave
de mon baptême. Parents, vous avez fait mon malheur et vous avez fait le vôtre.
Pauvre innocent! — L’enfer ne peut attaquer les païens. — C’est la vie encore!
Plus tard, les délices de la damnation seront plus profondes. Un crime, vite,
que je tombe au néant, de par la loi humaine.
Tais-toi, mais tais-toi!… C’est la
honte, le reproche, ici: Satan qui dit que le feu est ignoble, que ma colère
est affreusement sotte. — Assez!… Des erreurs qu’on me souffle, magies, parfums
faux, musiques puériles. — Et dire que je tiens la vérité, que je vois la
justice: j’ai un jugement sain et arrêté, je suis prêt pour la perfection… Orgueil.
— La peau de ma tête se dessèche. Pitié! Seigneur, j’ai peur. J’ai soif, si soif!
Ah! l’enfance, l’herbe, la pluie, le lac sur les pierres, le clair
de lune quando le clocher sonnait douze… le diable est au clocher, à
cette heure. Marie! Sainte-Vierge!… — Horreur de ma bêtise.
Là-bas, ne sont-ce pas des âmes
honnêtes, qui me veulent du bien… Venez… J’ai un oreiller sur la bouche, elles
ne m’entendent pas, ce sont des fantômes. Puis, jamais personne ne pense à
autrui. Qu’on n’approche pas. Je sens le roussi, c’est certain.
Les hallucinations sont
innombrables. C’est bien ce que j’ai toujours eu: plus de foi en l’histoire,
l’oubli des principes. Je m’en tairai: poètes et visionnaires seraient jaloux.
Je suis mille fois le plus riche, soyons avare comme la mer.
Ah ça! l’horloge de la vie s’est
arrêtée tout à l’heure. Je ne suis plus au monde. — La théologie est sérieuse,
l’enfer est certainement en bas — et
le ciel en haut. — Extase, cauchemar, sommeil dans un nid de flammes.
Que de malices dans l’attention
dans la campagne… Satan, Ferdinand, court avec les graines sauvages… Jésus marche
sur les ronces purpurines, sans les courber… Jésus marchait sur les eaux
irritées. La lanterne nous le montra debout, blanc et des tresses brunes, au
flanc d’une vague d’émeraude…
Je vais dévoiler tous les mystères:
mystères religieux ou naturels, mort, naissance, avenir, passé, cosmogonie,
néant. Je suis maître en fantasmagories.
Écoutez!…
J’ai tous les talents! — Il n’y a personne
ici et il y a quelqu’un: je ne voudrais pas répandre mon trésor. — Veut-on des chants
nègres, des danses de houris? Veut-on que je disparaisse, que je plonge à la recherche
de l’anneau? Veut-on? Je ferai de l’or, des remèdes.
Fiez-vous donc à moi, la foi
soulage, guide, guérit. Tous, venez, — même les petits enfants, — que je vous
console, qu’on répande pour vous son cœur, — le cœur merveilleux! — Pauvres
hommes, travailleurs! Je ne demande pas de prières; avec votre confiance
seulement, je serai heureux.
— Et pensons à moi. Ceci me fait
peu regretter le monde. J’ai de la chance de ne pas souffrir plus. Ma vie ne
fut que folies douces, c’est regrettable.
Bah! faisons toutes les grimaces
imaginables.
Décidément, nous sommes hors du
monde. Plus aucun son. Mon tact a disparu. Ah! mon château, ma Saxe, mon bois
de saules. Les soirs, les matins, les nuits, les jours… Suis-je las!
Je devrais avoir mon enfer pour la
colère, mon enfer pour l’orgueil, — et l’enfer de la caresse; un concert
d’enfers.
Je meurs de lassitude. C’est le
tombeau, je m’en vais aux vers, horreur de l’horreur! Satan, farceur, tu veux
me dissoudre, avec tes charmes. Je réclame. Je réclame! un coup de fourche, une
goutte de feu.
Ah! remonter à la vie! Jeter les
yeux sur nos difformités. Et ce poison, ce baiser mille fois maudit! Ma
faiblesse, la cruauté du monde! Mon Dieu, pitié, cachez-moi, je me tiens trop mal!
— Je suis caché et je ne le suis pas.
C’est le feu qui se relève avec son
damné.
* Nota do tradutor Paulo Hecker Filho: Provável alusão ao imperador germânico que odiava o protestantismo e causou a Guerra dos Trinta Anos no século XVII.
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Rimbaud — Uma temporada no inferno (edição
bilíngue) seguido de Correspondência (Cartas familiares, Correspondência com Verlaine,
Agonia em Marselha, Cartas da África), Edição, Introdução e Notas de Ivan Pinheiro
Machado e Tradução de Paulo Hecker Filho, Alexandre Ribondi, Júlia da Rosa Simões
e Ivo Barroso, Coleção Rebeldes & Malditos, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre
— RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 — 1891), francês
de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês;
recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard — seu professor de retórica
—, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado
um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20
anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde
a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos;
publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém
escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873—1875); Rimbaud,
além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou
autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway,
F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs
etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou
a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando
peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a
revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada
de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro
de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor
cancerígeno em seu joelho direito.

