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quarta-feira, 12 de julho de 2023

Arthur Rimbaud: Noite do Inferno

 
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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

          Engoli um senhor gole de veneno. Três vezes abençoado seja o conselho que me deram! As entranhas me ardem. A violência do veneno torce meus membros, me torna disforme, me prostra. Morro de sede, sufoco, não consigo gritar. É o inferno, a pena eterna! Vejam como o fogo se ergue! Queimo como deve ser. Anda, demônio!
          Entrevi a conversão ao bem e à felicidade, a salvação. Pudesse descrever a visão, o ar do inferno não suporta hinos! Eram milhões de criaturas encantadoras, um suave concerto espiritual, a força e a paz, as nobres ambições, que sei?
          As nobres ambições!
          E ainda é a vida! Se a danação é eterna! Um homem que quer se mutilar está condenado, não é? Não creio no inferno, pois estou nele. É a execução do catecismo. Sou escravo do meu batismo. Pais, fizeram a minha desgraça e a de vocês. Pobre inocente! O inferno não pode acometer os pagãos É a vida ainda! Mais tarde, as delícias da danação vão ser mais profundas. Um crime, ligeiro, que eu caia no nada, segundo a lei humana.
          Cala-te, mas cala-te!... É a vergonha, a censura, aqui: Satã é quem diz que o fogo é abjeto, que minha cólera é terrivelmente tola. Basta!... Os equívocos que me passam, magias, falsos perfumes, músicas pueris. E dizer que aprendo a verdade, discirno a justiça: possuo um julgamento são e moderado, estou pronto para a perfeição. Orgulho. A pele do meu crânio desseca. Piedade! Senhor, tenho medo. E sede, tanta sede! Ah! a infância, a grama, a chuva, o lago sobre as pedras, o luar quando o campanário batia as doze... o diabo está ali nessa hora. Maria! Santa Virgem!... Horror da minha tolice.
          Não estão lá boas gentes, que me querem bem?... Venham... tenho um travesseiro na boca, não me escutam, são fantasmas. Ademais, nunca ninguém pensa no outro. Não cheguemos perto. Sinto cheiro de queimado, é certo.
          As alucinações são inumeráveis. É bem o que eu sempre tive: não mais fé na história, o esquecimento dos princípios. Não falo deles: poetas e visionários teriam inveja. Sou mil vezes mais rico, sejamos avaros como o mar.
          Ah isto! o relógio da vida parou há pouco. Não estou mais no mundo. — A teologia é séria, o inferno é sem dúvida embaixo e o céu, no alto. êxtase, pesadelo, sonho num ninho de chamas.
          Quantas travessuras em atenção ao campo... Satã, Ferdinand*, corre como as sementes selvagens... Jesus caminha sobre as sarças purpúreas, sem curvá-las... Jesus anda sobre as águas encrespadas. A lanterna mostra-o de pé, branco, com tranças escuras, na borda de uma onda de esmeralda...
          Quero desvelar todos os mistérios: mistérios religiosos ou naturais, morte, nascimento, futuro, passado, cosmogonia, nada. Sou mestre em fantasmagorias.
          Ouçam!...
          Tenho todos os talentos! Não há ninguém aqui e há alguém: não gostaria de espalhar meu tesouro. Querem cantos negros, danças de huris? Querem que eu desapareça, que mergulhe em busca do anel? Querem? Farei ouro, remédios.
          Confiem em mim, a fé alivia, guia, cura. Todos, venham mesmo as criancinhas que os consolarei, reparto o coração dele o coração maravilhoso! Pobres homens, trabalhadores! Não peço preces; com sua confiança apenas, estou satisfeito.
           E pensemos em mim. Isso me leva a ter pouca saudade do mundo. Tenho a possibilidade de não sofrer mais. Minha vida não passou de doces loucuras, é lamentável.
          Bah! Façamos todas as caretas imagináveis.
          Decididamente, estamos fora do mundo. Mais nenhum som. Meu tato sumiu. Ah! meu castelo, minha Saxe, meu bosque de salgueiros. As tardes, as manhãs, as noites, os dias. Estou ali!
          Deveria ter meu inferno pela cólera, meu inferno pelo orgulho e o inferno da carícia; um concerto de infernos.
          Morro de lassidão. É a tumba, vou para os vermes, horror dos horrores! Satã, farsante, queres me diluir com teus feitiços. Me queixo. Me queixo! Um golpe do tridente, uma gota de fogo.
          Ah! voltar à vida! Lançar os olhos sobre nossas deformidades. E este veneno, este beijo mil vezes maldito! Minha fraqueza, a crueldade do mundo! Meu Deus, piedade, esconde-me, me aguento mal! Estou oculto e não estou.
          É o fogo que cresce, com seu condenado.

Arthur Rimbaud

Nuit de l’enfer

          J’ai avalé une fameuse gorgée de poison. Trois fois béni soit le conseil qui m’est arrivé! Les entrailles me brûlent. La violence du venin tord mes membres, me rend difforme, me terrasse. Je meurs de soif, j’étouffe, je ne puis crier. C’est l’enfer, l’éternelle peine! Voyez comme le feu se relève! Je brûle comme il faut. Va, démon!
          J’avais entrevu la conversion au bien et au bonheur, le salut. Puis-je décrire la vision, l’air de l’enfer ne souffre pas les hymnes! C’était des millions de créatures charmantes, un suave concert spirituel, la force et la paix, les nobles ambitions, que sais-je?
          Les nobles ambitions!
          Et c’est encore la vie! Si la damnation est éternelle! Un homme qui veut se mutiler est bien damné, n’est-ce pas? Je me crois en enfer, donc j’y suis. C’est l’exécution du catéchisme. Je suis esclave de mon baptême. Parents, vous avez fait mon malheur et vous avez fait le vôtre. Pauvre innocent! L’enfer ne peut attaquer les païens. C’est la vie encore! Plus tard, les délices de la damnation seront plus profondes. Un crime, vite, que je tombe au néant, de par la loi humaine.
          Tais-toi, mais tais-toi!… C’est la honte, le reproche, ici: Satan qui dit que le feu est ignoble, que ma colère est affreusement sotte. Assez!… Des erreurs qu’on me souffle, magies, parfums faux, musiques puériles. Et dire que je tiens la vérité, que je vois la justice: j’ai un jugement sain et arrêté, je suis prêt pour la perfection… Orgueil. — La peau de ma tête se dessèche. Pitié! Seigneur, j’ai peur. J’ai soif, si soif! Ah! l’enfance, l’herbe, la pluie, le lac sur les pierres, le clair de lune quando le clocher sonnait douze… le diable est au clocher, à cette heure. Marie! Sainte-Vierge!… Horreur de ma bêtise.
          Là-bas, ne sont-ce pas des âmes honnêtes, qui me veulent du bien… Venez… J’ai un oreiller sur la bouche, elles ne m’entendent pas, ce sont des fantômes. Puis, jamais personne ne pense à autrui. Qu’on n’approche pas. Je sens le roussi, c’est certain.
          Les hallucinations sont innombrables. C’est bien ce que j’ai toujours eu: plus de foi en l’histoire, l’oubli des principes. Je m’en tairai: poètes et visionnaires seraient jaloux. Je suis mille fois le plus riche, soyons avare comme la mer.
          Ah ça! l’horloge de la vie s’est arrêtée tout à l’heure. Je ne suis plus au monde. La théologie est sérieuse, l’enfer est certainement en bas et le ciel en haut. Extase, cauchemar, sommeil dans un nid de flammes.
          Que de malices dans l’attention dans la campagne… Satan, Ferdinand, court avec les graines sauvages… Jésus marche sur les ronces purpurines, sans les courber… Jésus marchait sur les eaux irritées. La lanterne nous le montra debout, blanc et des tresses brunes, au flanc d’une vague d’émeraude…
          Je vais dévoiler tous les mystères: mystères religieux ou naturels, mort, naissance, avenir, passé, cosmogonie, néant. Je suis maître en fantasmagories.
          Écoutez!…
          J’ai tous les talents! Il n’y a personne ici et il y a quelqu’un: je ne voudrais pas répandre mon trésor. Veut-on des chants nègres, des danses de houris? Veut-on que je disparaisse, que je plonge à la recherche de l’anneau? Veut-on? Je ferai de l’or, des remèdes.
          Fiez-vous donc à moi, la foi soulage, guide, guérit. Tous, venez, même les petits enfants, que je vous console, qu’on répande pour vous son cœur, le cœur merveilleux! Pauvres hommes, travailleurs! Je ne demande pas de prières; avec votre confiance seulement, je serai heureux.
           Et pensons à moi. Ceci me fait peu regretter le monde. J’ai de la chance de ne pas souffrir plus. Ma vie ne fut que folies douces, c’est regrettable.
          Bah! faisons toutes les grimaces imaginables.
          Décidément, nous sommes hors du monde. Plus aucun son. Mon tact a disparu. Ah! mon château, ma Saxe, mon bois de saules. Les soirs, les matins, les nuits, les jours… Suis-je las!
          Je devrais avoir mon enfer pour la colère, mon enfer pour l’orgueil, et l’enfer de la caresse; un concert d’enfers.
          Je meurs de lassitude. C’est le tombeau, je m’en vais aux vers, horreur de l’horreur! Satan, farceur, tu veux me dissoudre, avec tes charmes. Je réclame. Je réclame! un coup de fourche, une goutte de feu.
          Ah! remonter à la vie! Jeter les yeux sur nos difformités. Et ce poison, ce baiser mille fois maudit! Ma faiblesse, la cruauté du monde! Mon Dieu, pitié, cachez-moi, je me tiens trop mal! — Je suis caché et je ne le suis pas.
          C’est le feu qui se relève avec son damné.

* Nota do tradutor Paulo Hecker Filho: Provável alusão ao imperador germânico que odiava o protestantismo e causou a Guerra dos Trinta Anos no século XVII.
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Rimbaud — Uma temporada no inferno (edição bilíngue) seguido de Correspondência (Cartas familiares, Correspondência com Verlaine, Agonia em Marselha, Cartas da África), Edição, Introdução e Notas de Ivan Pinheiro Machado e Tradução de Paulo Hecker Filho, Alexandre Ribondi, Júlia da Rosa Simões e Ivo Barroso, Coleção Rebeldes & Malditos, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Rimbaud: Manhã

UMA TEMPORADA NO INFERNO SEGUIDO DE CORRESPONDÊNCIA - Arthur ...
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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

               Não tive uma vez uma juventude amável, heróica, fabulosa, a ser narrada sobre folhas de ouro, muita sorte! Por que crime, por que erro, mereci minha fraqueza atual? Os que creem que os animais têm soluços de pena, que os doentes desesperam, que os mortos tenham maus sonhos, tratem de contar a minha queda e o meu sono. Eu não posso me explicar mais que o mendigo com seus contínuos Pater e Ave Maria. Não sei mais falar!
               Porém hoje creio ter terminado o relato do meu inferno. Era o inferno; o velho, de que o filho do homem abriu as portas.
               Do mesmo deserto, à mesma noite, sempre meus olhos cansados se abrem para a estrela de prata, sempre, sem que se comovam os reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, da sabedoria nova, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, adorar os primeiros! O Natal na terra!
               O Cântico dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

Uma Temporada no Inferno — 1873

Rimbaud

               Matin

               N'eus-je pas une fois une jeunesse aimable, héroïque, fabuleuse, à écrire sur des feuilles d'or, trop de chance! Par quel crime, par quelle erreur, ai-je mérité ma faiblesse actuelle? Vous qui prétendez que des bêtes poussent des sanglots de chagrin, que des malades désespèrent, que des morts rêvent mal, tâchez de raconter ma chute et mon sommeil. Moi, je ne puis pas plus m'expliquer que le mendiant avec ses continuels Pater et Ave mariaJe ne sais plus parler!
               Pourtant, aujourd'hui, je crois avoir fini la relation de mon enfer. C'était bien l'enfer; l'ancien, celui dont le fils de l'homme ouvrit les portes.
               Du même désert, à la même nuit, toujours mes yeux las se réveillent à l'étoile d'argent, toujours, sans que s'émeuvent les Rois de la vie, les trois mages, le coeur, l'âme, l'esprit. Quand irons-nous, par delà les grèves et les monts, saluer la naissance du travail nouveau, la sagesse nouvelle, la fuite des tyrans et des démons, la fin de la superstition, adorer les premiers! Noël sur la terre!
               Le chant des cieux, la marche des peuples! Esclaves, ne maudissons pas la vie.

Une saison en enfer — 1873 
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Rimbaud — Uma temporada no inferno (edição bilíngue) seguido de Correspondência (Cartas familiares, Correspondência com Verlaine, Agonia em Marselha, Cartas da África), Edição, Introdução e Notas de Ivan Pinheiro Machado e Tradução de Paulo Hecker Filho, Alexandre Ribondi, Júlia da Rosa Simões e Ivo Barroso, Coleção Rebeldes & Malditos, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), nascido em Charleville França, foi poeta do simbolismo francês, recebeu influências de Victor Hugo, George Izambard, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandona a literatura e retoma a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Rimbaud: Delírios II — Alquimia do Verbo [excerto]

UMA TEMPORADA NO INFERNO SEGUIDO DE CORRESPONDÊNCIA - Arthur ...
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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

               Para mim. A história das minhas loucuras.
               Há muito me gabava de possuir todas as paisagens possíveis, e julgava irrisórias as celebridades da pintura e da poesia moderna.
               Gostava das pinturas idiotas, em portas, decorações, telas circenses, placas, iluminuras populares; a literatura fora de moda, o latim da igreja, livros eróticos sem ortografia, romances de nossos antepassados, contos de fadas, pequenos livros infantis, velhas óperas, estribilhos ingênuos, ritmos ingênuos.
               Sonhava com as cruzadas, viagens de descobertas de que não existem relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião esmagadas, revoluções de costumes, deslocamentos de raças e continentes: acreditava em todas as magias.
               Inventava a cor das vogais!  A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde. Regulava a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, me vangloriava de ter inventado um verbo poético acessível, um dia ou outro, a todos os sentidos. Era comigo traduzi-los.
               Foi primeiro um experimento. Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.

Longe dos pássaros, do gato, dos campônios,
O que eu bebia, de joelhos no gramado,
Entre os doces troncos das aveleiras,
Na névoa quente e verde da tarde?

Que podia beber no juvenil Oise
 Olmos sem voz, grama sem flores, céu coberto! 
Das cabaças amarelas, longe da minha choupana
Querida? Algum álcool dourado, de suar.

Fazia uma torta tabuleta de albergue.
 Uma tormenta vem tapar o céu. À noite,
A água das árvores se perdia nas areias virgens,
O vento de Deus jogava granizos nos banhados;

Chorando, via o ouro  e não pude beber.

No verão às quatro da manhã
O sono do amor ainda dura.
Sob o arvoredo se evapora
             O odor da noite de festa.

Ali, na vasta cocheira,
Das Hespérides* ao sol,
Já, em mangas de camisa,
                          Se movem os Carpinteiros.

Em seus Desertos de seiva, tranqüilos,
Preparam os belos painéis
                          em que a cidade terá
             seus falsos céus.

Aos atraentes operários,
Súditos de um rei da Babilônia,
Vênus deixa um instante os Amantes
             Coroada por suas almas.

             Ó Rainha dos Pastores,
Traz a aguardente aos que trabalham,
Para manter-lhes as forças até o banho
Do meio-dia no mar.

( . . . )
Uma Temporada no Inferno — 1873

Arthur Rimbaud | Carrilho, Fotos e Literatura
Rimbaud

               Delires II — Alchimie du Verbe

               À moi. L’histoire d’une de mes folies.
               Depuis longtemps je me vantais de posséder tous les paysages possibles, et trouvais dérisoires les célébrités de la peinture et de la poésie moderne.
               J’aimais les peintures idiotes, dessus des portes, décors, toiles de saltimbanques, enseignes, enluminures populaires ; la littérature démodée, latin d’église, livres érotiques sans orthographe, romans de nos aïeules, contes de fées, petits livres de l’enfance, opéras vieux, refrains niais, rythmes naïfs.
               Je rêvais croisades, voyages de découvertes dont on n’a pas de relations, républiques sans histoires, guerres de religion étouffées, révolutions de meurs, déplacements de races et de continents : je croyais à tous les enchantements.
               J’inventai la couleur des voyelles ! — A noir, E blanc, I rouge, O bleu, U vert. — Je réglai la forme et le mouvement de chaque consonne, et, avec des rythmes instinctifs, je me flattai d’inventer un verbe poétique accessible, un jour ou l’autre, à tous les sens. Je réservais la traduction.
               Ce fut d’abord une étude. J’écrivais des silences, des nuits, je notais l’inexprimable, je fixais des vertiges.

Loin des oiseaux, des troupeaux, des villageoises,
Que buvais-je, à genoux dans cette bruyère
Entourée de tendres bois de noisetiers,
Dans un brouillard d’après-midi tiède et vert?

Que pouvais-je boire dans cette jeune Oise,
— Ormeaux sans voix, gazon sans fleurs, ciel couvert! —
Boire à ces gourdes jaunes, loin de ma case
Chérie? Quelque liqueur d’or qui fait suer.

Je faisais une louche enseigne d’auberge.
— Un orage vint chasser le ciel. Au soir
L’eau des bois se perdait sur les sables vierges,
Le vent de Dieu jetait des glaçons aux mares;

Pleurant, je voyais de l’or — et ne pus boire. —

A quatre heures du matin, l’été,
Le sommeil d’amour dure encore.
Sous les bocages s’évapore
             L’odeur du soir fêté.

Là-bas, dans leur vaste chantier
Au soleil des Hespérides,
Déjà s’agitent — en bras de chemise —
                          Les Charpentiers.

Dans leurs Déserts de mousse, tranquilles,
Ils préparent les lambris précieux
                          Où la ville
             Peindra de faux cieux.

Ô, pour ces Ouvriers charmants
Sujets d’un roi de Babylone,
Vénus! quitte un instant les Amants
             Dont l’âme est en couronne.

             Ô Reine des Bergers,
Porte aux travailleurs l’eau-de-vie,
Que leurs forces soient en paix
En attendant le bain dans la mer à midi.

( . . . )
Une saison en enfer — 1873

* Nota do Tradutor: as três filhas de Atlas. Tinham um jardim que dava frutos de ouro sob a guarda de um dragão de cem cabeças. Hércules, no décimo primeiro de seus doze trabalhos, mata o dragão e pega os frutos.
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Rimbaud — Uma temporada no inferno (edição bilíngue) seguido de Correspondência (Cartas familiares, Correspondência com Verlaine, Agonia em Marselha, Cartas da África), Edição, Introdução e Notas de Ivan Pinheiro Machado e Tradução de Paulo Hecker Filho, Alexandre Ribondi, Júlia da Rosa Simões e Ivo Barroso, Coleção Rebeldes & Malditos, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), nascido em Charleville França, foi poeta do simbolismo francês, recebeu influências de Victor Hugo, George Izambard, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandona a literatura e retoma a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.