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sexta-feira, 27 de junho de 2025

Ribeiro Couto: Tágide

 
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Alta, contra os grandes ventos,
Leve, a resistir ao rio,
Firmes, os pés e braços lentos
Pelo horizonte vazio.
Na espuma o sol fulgurava.
Ela, também sol e espuma,
Ora andava, ora voava,
Mas não tinha asa nenhuma.

Alta, presa por um fio
Um fio só de cabelo ,
O sol a secá-lo, e o rio
Amoroso a umedecê-lo;

Alta e leve, clara e firme,
Irreal nos movimentos,
Via-a subir e fugir-me,
Levada dos grandes ventos.

(Entre Mar e Rio, Lisboa: Editora
Livros do Brasil, 1952.)

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Ribeiro Couto, por Elvia Bezerra — Série Essencial, Academia Brasileira de Letras, 2010, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (1898 1963), paulista de Santos, cursou a Escola de Comércio José Bonifácio dessa cidade, estudou na Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco) e na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, onde bacharelou-se, foi jornalista, magistrado, promotor público, diplomata, poeta, contista e romancista; trabalhou/colaborou nos periódicos Jornal do Commercio e Correio Paulistano, em São Paulo, Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil e O Globo, no Rio de Janeiro, A Província, em Pernambuco, e em outros periódicos; suas obras: em poesia: O Jardim das confidências (1921), Poemetos de ternura e de melancolia (1924), Um homem na multidão (1926), Canções de amor (1930), Noroeste e outros poemas do Brasil (1932), Cancioneiro de Dom Alfonso (1939), Cancioneiro do ausente (1943), Rive etrangère (1951), Entre Mar e Rio (1952), Le jour est long (O dia é longo, 1958), Longe (1961) ...; em prosa: A casa do gato cinzento (contos, 1922), O crime do estudante Batista (contos, 1922), A cidade do vício e da graça (crônicas, 1924), Baianinha e outras mulheres (contos, 1927), Cabocla (romance, 1931), Presença de Santa Terezinha (ensaio, 1934), Conversa inocente (crônicas, 1935), Prima Belinha (romance, 1940), Dois retratos de Manuel Bandeira (1960), Histórias de Cidade Grande — contos escolhidos (1960), Sentimento lusitano (ensaio, 1961), entre outros  títulos; participou da Semana de Arte Moderna; seu romance Cabocla foi adaptado para televisão; escreveu poemas em francês, o livro Le jour est long (O dia é longo); pertenceu à Academia Brasileira de Letras; como diplomata, atuou na França, em Portugal, Holanda e Iugoslávia, neste país, foi embaixador e ali se aposentou.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

Ribeiro Couto: Baianinha

 
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[trechos]

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          Zezé Flores chegou à pensão numa segunda-feira. O marido fora nomeado engenheiro da Inspetoria de Portos. Vinham de São Salvador, de mudança, com três pesadas malas de roupa e um acento baiano horroroso, em que os rr eram aspirados como hh ingleses.
          Era morena, miúda, flexível. Ao rir-se, a boca pequena e fina descobria dentes alvos, que sugeriam mordidelas gostosas em nacos de carne polpuda. Tinha atitudes imperativas, um olhar vitorioso quando encarava as pessoas. Usava vestidos de cores berrantes, amarelos em oca, vermelho sangrento de urucum.

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          A baianinha empolgou-me. A iniciação do nosso amor foi simples.
          O quarto dela era nos fundos do edifício, cujos compartimentos davam para um pátio com jardim. O chuveiro era no extremo do pátio. Sempre que eu passava, enfiado no roupão de banho, via Zezé costurando, numa cadeira de braços, entre os tinhorões dos canteiros.
          Acanhado, eu cumprimentava.
          Às vezes, o chuveiro estava ocupado. O professor de Inglês cantarolava lá, com uma voz estertorante de barítono gasto.
          A princípio timidamente, fui tomando o hábito de parar junto de Zezé Flores antes de ir para a ducha. Como sentisse nela uma ironia maliciosa que zombava do meu acanhamento, animei-me aos poucos. Passamos a conversar coisas picantes.
          Ela gostava de frases:
           O déstino de uma móler bonita é o amorr. Não é nãão?
          Essa literatura avançada ficava chocante na sua boca provinciana de baianinha.
          Em todo caso, que fazer? Um dia beijei-a.
          Não teve o menor susto. Lambeu a boca, como que recolhendo o beijo e continuou a conversa, muito calma.
          Olhei para trás, com o terror de que houvessem visto: à janela de um quarto havia o gato da casa, que dormia ao sol. Uma abelha zumbia em torno de uma flor, quase no meu nariz.
          Corri ao chuveiro para isolar-me, para pôr de novo as ideias em ordem, porque o meu instintivo rompante me abalara as fibras, agora desmanchadas pela comoção.

[ . . . ]

(Histórias de Cidade Grande [Contos Escolhidos].
Rio de Janeiro: Cultrix, 1960, pp. 93-96.)

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Ribeiro Couto, por Elvia Bezerra — Série Essencial, Academia Brasileira de Letras, 2010, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (1898 1963), paulista de Santos, cursou a Escola de Comércio José Bonifácio dessa cidade, estudou na Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco) e na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, onde bacharelou-se, foi jornalista, magistrado, promotor público, diplomata, poeta, contista e romancista; trabalhou/colaborou nos periódicos Jornal do Commercio e Correio Paulistano, em São Paulo, Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil e O Globo, no Rio de Janeiro, A Província, em Pernambuco, e em outros periódicos; suas obras: em poesia: O Jardim das confidências (1921), Poemetos de ternura e de melancolia (1924), Um homem na multidão (1926), Canções de amor (1930), Noroeste e outros poemas do Brasil (1932), Cancioneiro de Dom Alfonso (1939), Cancioneiro do ausente (1943), Rive etrangère (1951), Le jour est long (O dia é longo, 1958), Longe (1961) ...; em prosa: A casa do gato cinzento (contos, 1922), O crime do estudante Batista (contos, 1922), A cidade do vício e da graça (crônicas, 1924), Baianinha e outras mulheres (contos, 1927), Cabocla (romance, 1931), Presença de Santa Terezinha (ensaio, 1934), Conversa inocente (crônicas, 1935), Prima Belinha (romance, 1940), Dois retratos de Manuel Bandeira (1960), Histórias de Cidade Grande — contos escolhidos (1960), Sentimento lusitano (ensaio, 1961), entre outros  títulos; participou da Semana de Arte Moderna; seu romance Cabocla foi adaptado para televisão; escreveu poemas em francês, o livro Le jour est long (O dia é longo); pertenceu à Academia Brasileira de Letras; como diplomata, atuou na França, em Portugal, Holanda e Iugoslávia, neste país, foi embaixador e ali se aposentou.

sábado, 4 de maio de 2019

Ribeiro Couto: O Delicioso Instante

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O crepúsculo desceu de manso.
E apesar do céu ainda claro
A cidade ficou em penumbra.

Vai cair a noite.
Vão acender-se os combustores.
E desaparecerá esta indecisão delicada.

É o movimento de partir para sempre, sem dor...

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Poemetos de Ternura e de Melancolia —
1924, São Paulo: Monteiro Lobato & Cia.
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Ribeiro Couto, por Elvia Bezerra, 2010, Série Essencial, Academia Brasileira de Letras, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (1898 1963), paulista de Santos, foi jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista e romancista; estudou na Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco) e na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro; trabalhou nos periódicos Jornal do Commercio e Correio Paulistano, de São Paulo, Jornal do Brasil e O Globo, do Rio de Janeiro, e A Província, de Pernambuco; escreveu e publicou, em poesia, O Jardim das confidências (1921), Poemetos de ternura e de melancolia (1924), Um homem na multidão (1926), Noroeste e outros poemas do Brasil (1932), Cancioneiro de Dom Alfonso (1939), Cancioneiro do ausente (1943), Rive etrangère (1951), Le jour est long (1958), Longe (1961), e, em prosa, A casa do gato cinzento (contos, 1922), O crime do estudante Batista (contos, 1922), A cidade do vício e da graça (crônicas, 1924), Baianinha e outras mulheres (contos, 1927), Cabocla (romance, 1931), Presença de Santa Terezinha (ensaio, 1934), Conversa inocente (crônicas, 1935), Prima Belinha (romance, 1940), Dois retratos de Manuel Bandeira (1960), Sentimento lusitano (ensaio, 1961), entre outros títulos; como diplomata, atuou na França, Portugal, Holanda e Iugoslávia; participou da Semana de Arte Moderna; seu romance Cabocla foi adaptado para televisão; pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

domingo, 17 de março de 2019

Ribeiro Couto: Falaste da Morte

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Falaste da morte de um jeito suave,
Falaste da morte como uma criança
Seguindo com os olhos o voo de uma ave.
Falaste da morte sorrindo que agora parece
Que a morte na tarde procura por mim.
A morte seria, se agora viesse,
Como uma andorinha tonta no jardim.

Cancioneiro do Ausente — 1943,
São Paulo: Livraria Martins Editora.

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Ribeiro Couto, por Elvia Bezerra, 2010, Série Essencial 16, Academia Brasileira de Letras, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo  SP; Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (1898 1963), paulista de Santos, foi jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista e romancista; estudou na Faculdade de Direito de São Paulo (USP  Largo São Francisco) e na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro; trabalhou nos periódicos Jornal do Commercio e Correio Paulistano, de São Paulo, Jornal do Brasil e O Globo, do Rio de Janeiro, e A Província, de Pernambuco; escreveu e publicou, em poesia, O Jardim das confidências (1921), Poemetos de ternura e de melancolia (1924), Um homem na multidão (1926), Noroeste e outros poemas do Brasil (1932), Cancioneiro de Dom Alfonso (1939), Cancioneiro do ausente (1943), Rive etrangère (1951)Le jour est long  (1958)Longe (1961), e, em prosa, A casa do gato cinzento (contos, 1922), O crime do estudante Batista (contos, 1922), A cidade do vício e da graça (crônicas, 1924), Baianinha e outras mulheres (contos, 1927), Cabocla (romance, 1931), Presença de Santa Terezinha (ensaio, 1934), Conversa inocente (crônicas, 1935), Prima Belinha (romance, 1940), Dois retratos de Manuel Bandeira (1960), Sentimento lusitano (ensaio, 1961), entre outros títulos; como diplomata, atuou na França, Portugal, Holanda e Iugoslávia; participou da Semana de Arte Moderna; seu romance Cabocla foi adaptado para televisão; pertenceu à Academia Brasileira de Letras.