terça-feira, 31 de março de 2020

Friedrich Hölderlin: Empédocles

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[traduzido por Antonio Medina Rodrigues]

Buscas a vida, buscas, e brilha e brota
   Para ti, do fundo dessa terra, um fogo celestial.
      E tu, numa ansiedade a tresvariar,
         No Etna flamante mergulhaste.

E as pérolas assim fundira em vinho a arrogância
   Da rainha; e que o fizesse! Não deveras tu
      Só tua fortuna, ó meu poeta,
         Na imolação lançar de uma cratera borbulhante!

Tu, contudo, me és sagrado como o poderio da Terra,
   Que para o fundo te levou, ó vítima viril!
      Nas profundezas eu, porém, seguira os passos teus,
         Não me prendesse aqui o amor a um semideus.

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Friedrich Hölderlin

Empedokles

Das Leben suchst du, suchst, und es quillt und glänzt
   Ein göttlich Feuer tief aus der Erde dir,
      Und du in schauderndem Verlangen
          Wirfst dich hinab, in des Ätna Flammen.

So schmelzt’ im Weine Perlen der Übermut
   Der Königin; und mochte sie doch! hättest du
      Nur deinen Reichtum nicht, o Dichter,
         Hin in den gärenden Kelch geopfert!

Doch heilig bist du mir, wie der Erde Macht,
   Die dich hinwegnahm, kühner Getöteter!
      Und folgen möcht’ ich in die Tiefe,
          Hielte die Liebe mich nicht, dem Helden.
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Canto do Destino e outros cantos Hölderlin, Organização, Tradução e Ensaio de Antonio Medina Rodrigues, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770 1843), alemão de Lauffen, região da Suábia, foi poeta, romancista, dramaturgo, tradutor e filósofo; estudou teologia no convento de Tübingen, recebeu formação humanística, conviveu com Hegel e Schelling, tendo colaborado com estes na formação inicial da corrente filosófica conhecida como Idealismo alemão; frequentou a Universidade de Iena; o poeta teve quatro de suas poesias publicadas pela primeira vez no Almanaque das Musas para o ano de 1792 (Musenalmanach für das Jahr 1792), depois vieram outras publicações no Florilégio Poético para o Ano de 1793 (Poetische Blumenlese für das Jahr 1793), na edição de inverno da revista Nova Thalia (Neue Thalia), Almanaque das Musas de 1807 (Musenalmanach 1807)...; traduziu Sófocles e os fragmentos de Píndaro; bibliografia: A Morte de Empédocles (fragmentos, drama, 17971800), Hiperion ou O Eremita na Grécia (17971799), Tragédias de Sófocles (1804), Poemas de Friedrich Hölderlin (editados por Ludwig Uhland e Gustav Schwab, 1826), Gedichte vor 1800 (Poemas anteriores a 1800, volume 1, 1944), Gedichte nach 1800 (Poemas após 1800, volume 2, 1961)...; relata a sua biografia que, a partir de 1807 e pelo resto de sua vida, o poeta viveu confinado em uma torre, sendo cuidado pela família e auxiliares, após ter recebido o diagnóstico médico de loucura ou insanidade irreversível; Hölderlin, mesmo após esta data, continuou escrevendo e produziu textos em seus momentos de lucidez.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Augusto dos Anjos: A noite

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A nebulosidade ameaçadora
Tolda o éter, mancha a gleba, agride os rios
E urde amplas teias de carvões sombrios
No ar que álacre e radiante, há instantes, fora.

A água transubstancia-se. A onda estoura
Na negridão do oceano e entre os navios
Troa bárbara zoada de ais bravios,
Extraordinariamente atordoadora.

A custódia do anímico registro
A planetária escuridão se anexa...
Somente, iguais a espiões que acordam cedo,

Ficam brilhando com fulgor sinistro
Dentro da treva onímoda e complexa
Os olhos fundos dos que estão com medo!

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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina — MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Friedrich Schiller: Os Cantores do Mundo Antigo

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[traduzido por Rudolf Bölting]

Dize-me, aonde foram os seres excelsos, onde encontrarei os cantores
Que com sua palavra encantaram os povos,
Aqueles que trouxeram Deus do céu e ao céu levaram,
Nas asas do canto, nosso espírito.
Sim, eles ainda vivem, mas faltam-lhes ações, a lira falta
Que desperte um ouvido interessado, de que há falta também.
Poetas felizes do mundo feliz! De boca em boca
Foi, de geração em geração, a vossa palavra sentida.
As vossas ideias tão aplaudidas, com tanto ardor,
Como fosse o Deus em pessoa que ia ser recebido.
Na chama do canto aqueceu o ouvinte os sentimentos
E nestes sentimentos hauriu ardor o cantor,
Purificando-o cada vez mais. Feliz aquele que na voz do povo
Ouviu ecoar a alma do seu canto,
Aquele a quem, ainda na vida, apareceu a divindade
Que o homem moderno nem no coração percebe.

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Friedrich Schiller

Die Sänger der Vorwelt

Sagt, wo sind die Vortrefflichen hin, wo find ich die Sänger,
Die mit dem lebenden Wort horchende Völker entzückt,
Die vom Himmel den Gott, zum Himmel den Menschen gesungen
Und getragen den Geist hoch auf den Flügeln des Lieds?
Ach, noch leben die Sänger, nur fehlen die Taten, die Lyra
Freudig zu wecken, es fehlt, ach! ein empfangendes Ohr.
Glückliche Dichter der glücklichen Welt! Von Munde zu Munde
Flog, von Geschlecht zu Geschlecht euer empfundenes Wort.
Wie man die Götter empfängt, so begrüsste jeder mit Andacht,
Was der Genius ihm, redend und bildend, erschuf.
An der Glut des Gesangs entflammten des Hörers Gefühle,
An des Hörers Gefühle nährte der Sänger die Glut,
Nährt und reinigte sie! Der Glückliche, dem in des Volkes
Stimme noch hell zurück tönte die Seele des Lieds,
Dem noch von aussen erschien, im Leben, die himmlische Gottheit,
Die der Neuere kaum, kaum noch im Herzen vernimmt.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologias de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Christoph Friedrich von Schiller (1759 1805), alemão de Marbach am Neckar, inicia o curso de Direito, abandona, e forma-se em Medicina; foi poeta, filósofo, médico, professor, dramaturgo e historiador; considerado grande homem das letras, foi um dos principais representantes do Romantismo e do Classicismo alemão; sua obra: em dramaturgia: Os Bandoleiros (1781), Wallestein (1799), Maria Stuart (1800), A Noiva de Messina (1803), Guilherm Tell (18031804) etc., em poesia: Os Artistas (1788), Ode à Alegria (1785), A Luva (1797), O Canto do Sino (1799) e outros, em prosa: Cartas Filosóficas (1786), Da Arte Trágica (1792), Do Patético (1793), Poesia Ingênua e Sentimental (1796), História da Separação dos Países Baixos (1788), História da Guerra dos Trinta Anos (inacabada, 17911793) e outros títulos.

terça-feira, 24 de março de 2020

Púchkin: Versos compostos durante uma noite de insônia

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[traduzido por José Casado]

Tudo é sono e escuridão;
Não há luz, nem meu ser dorme.
Perto de mim, uniforme,
Só o som do carrilhão,
Da parca o senil gaguejo,
Da noite dormente o adejo,
Da vida de rato a ação…
Por que me inquietas, então?
Que expressas, ruído aborrido?
Repreensão? ou gemido
Por todo meu dia vão?
O que de mim ora exiges?
Convocas-me? Algo predizes?
Gostaria de captar
Teu sentido, e o hei de achar.

(1830)

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Aleksandr Púchkin

СТИХИ, СОЧИНЕННЫЕ НОЧЬЮ ВО ВРЕМЯ БЕССОННИЦЫ

Мне не спится, нет огня;
Всюду мрак и сон докучный.
Ход часов лишь однозвучный
Раздается близ меня,
Парки бабье лепетанье,
Спящей ночи трепетанье,
Жизни мышья беготня…
Что тревожишь ты меня?
Что ты значишь, скучный шепот?
Укоризна или ропот
Мной утраченного дня?
От меня чего ты хочешь?
Ты зовешь или пророчишь?
Я понять тебя хочу,
Смысла я в тебе ищу…

(1830)
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Poesia de Todos os Tempos: Púchkin — Poesias escolhidas, edição bilíngue, Seleção, Tradução do russo, Prefácio, Traços biobliográficos, Notas e Apêndice (Olavo Bilac, tradutor de Púchkin) de José Casado, 1992, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Aleksandr Serguéievitch Púchkin (1799 1837), russo de Moscou, foi poeta, romancista e dramaturgo; de família nobre, educado desde o berço por preceptores vindos de Paris França e devido ter tido acesso à biblioteca paterna, quase toda de literatura francesa, aprendeu o francês antes mesmo de conhecer a língua dos pais; à época, os integrantes da nobreza russa conversavam com seus pares quase sempre em francês: o idioma russo era reservado para a comunicação com os servos; o poeta e escritor veio a aprender o russo com uma avó e com uma serva da família; em 1811, ingressou no Tsarskoye Selo Lyceum, recém-inaugurado e, a partir daí, começou a escrever e divulgar seus poemas; bibliografia: em poesia, Ruslan e Lyudmila (18171820), Prisioneiro do Cáucaso (18201821), Ladrões de irmãos (1821—1822), Ciganos (1824), Conde Nulin (primeira edição, 1825), Poltava (18281829), Uegene Oneguim (novela em verso, 18231832) etc, em dramaturgia, Boris Godunov (1825), O Cavaleiro Malvado, Mozart e Salieri, Convidado de pedra (todos de 1830) ..., em prosa, O conto do falecido Ivan Petrovich Belkin (1830), Dubrovsky (1833), A Rainha de Espadas, História de Pugachev (ambos em 1834), Noites egípcias (1835), Filha do Capitão (1836) e outros, além de contos de fadas e mais textos em verso, prosa e dramaturgia; desafiado por um desafeto contendor a duelar, o poeta aceitou e, em 8 de fevereiro de 1837, foi ferido gravemente, vindo a morrer dois dias após; Púchkin, que nos deixou muitas obras inacabadas, é considerado por seus contemporâneos como o maior dos poetas russos.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Lêdo Ivo: À doce sombra dos cancioneiros . . . [soneto]

tesco aqui: 2016
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À doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros

versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.

Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,

irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.

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Antologia Poética — Coleção Prestígio, Lêdo Ivo, Seleção de Walmir Ayala e Introdução de Antônio Carlos Villaça, 1990, Ediouro — Editora Tecnoprint S.A., Rio de Janeiro — RJ; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1943, mudando-se para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito na Faculdade Nacional de Direito hoje UFRJ , passou a colaborar com suplementos literários e a trabalhar como jornalista; bibliografia: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em muitas antologias literárias; o autor, que obteve diversas premiações literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.

domingo, 22 de março de 2020

Jorge de Lima: Quando ele vem

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Quando ele vem,
vem zunindo como o vento,
como mangangá, como capeta,
como bango-balango, como marimbondo.
Donde que é que ele vem?
Vem de Oxalá, vem de Oxalá,
vem do oco do mundo,
vem do assopro de Oxalá,
vem do oco do mundo.
Quer é comer.
Quer é caruru de peixe,
quer é efó de inhame,
que é oguedé de banana,
quer é olubó de macaxeira,
quer é pimenta malagueta.
Quando ele chega, tudo fica banzando à toa,
esbodegado, enquizilado, enguiçado, enfezado.
Quando ele entra,
dá vontade na gente de embrenhar-se no mato,
de esparramar-se no chão,
de encalombar o rosto com as mãos,
de amunhecar no cansanção,
de esbanguelar os dentes nas pedras,
virar pé-de-vento,
sumir no assopro de Oxalá.
E dentro do assopro de Oxalá
virar cochicho nos ouvidos dela,
xodozar todo o santo dia,
catar cafunés invisíveis,
rolar dentro das suas anáguas,
bambeando o corpo dela,
babatando sem rumo,
amuxilado,
acuado diante das suas mungangas,
engambelado, tatambeado, fumado.

(Poemas Negros — 1947)

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Poemas Negros (edição ampliada): Jorge de Lima, Apresentação de Fábio de Souza Andrade, 2016, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

sábado, 21 de março de 2020

Mallarmé: Meus velhos livros fechados no nome de Pafos . . . [soneto]

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[traduzido por Joaquim Brasil Fontes]

Meus velhos livros fechados no nome de Pafos
Diverte-me eleger com o gênio somente
Uma ruína, por mil espumas bendita
Sob o jacinto, ao longe, de seus dias triunfais.

Corra o frio com seus silêncios de foice,
Não vou ulular ali alguma vazia nênia
Se esta branquíssima luta à flor do solo nega
A todo lugar a honra da paisagem falsa.

Minha fome que nenhum fruto aqui sacia
Encontra em sua douta falta um sabor igual:
Que um esplenda de carne humano e perfumando!

O pé nalguma serpe em que nosso amor se atiça
Peço mais tempo ainda talvez perdidamente
Na outra, no seio calcinado de uma amiga amazona.

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Stéphane Mallarmé

Mes bouquins refermés sur le nom de Paphos,
Il m’amuse d’élire avec le seul génie
Une ruine, par mille écumes bénie
Sous l’hyacinthe, au loin, de ses jours triomphaux.

Coure le froid avec ses silences de faux,
Je n’y hululerai pas de vide nénie
Si ce très blanc ébat au ras du sol dénie
À tout site l’honneur du paysage faux.

Ma faim qui d’aucuns fruits ici ne se régale
Trouve en leur docte manque une saveur égale:
Qu’un éclate de chair humain et parfumant!

Le pied sur quelque guivre où notre amour tisonne,
Je pense plus longtemps peut-être éperdument
À l’autre, au sein brûlé d’une antique amazone.
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Os Anos de Exílio do Jovem Mallarmé — Joaquim Brasil Fontes, Estudos Literários 24, 2007, Apresentação/Ensaio 'A Paixão da Ausência' de Pedro Meira Monteiro, Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés-midi d'um faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

sábado, 14 de março de 2020

Charles Baudelaire O Possesso

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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Cobriu-se o sol de um crepe, e como ele afinal,
Ó põe um bioco, ó minha lua outrora branca;
Dorme ou fuma à vontade e nasça-te a carranca,
Para após mergulhar no Tédio que é abissal;

Eu te amo assim! Mas se quiseres que hoje, tal
Uma estrela eclipsada e que da sombra arranca,
Emproar-te no lugar que a Loucura atravanca,
Irrompe da bainha, ó mágico punhal!

Fulgure-te a pupila à chama dos fuzis!
Acende o teu olhar no olhar dos imbecis!
Em ti tudo é prazer, mórbido ou petulante;

Seja o que Deus quiser, noite negra ou aurora;
Tudo aquilo que eu sou no corpo tremulante
Grita: Meu Belzebu, a minha alma te adora.

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Charles Baudelaire

Le Possédé

Le soleil s'est couvert d'un crêpe. Comme lui,
Ô Lune de ma vie! emmitoufle-toi d'ombre
Dors ou fume à ton gré; sois muette, sois sombre,
Et plonge tout entière au gouffre de l'Ennui;

Je t'aime ainsi! Pourtant, si tu veux aujourd'hui,
Comme un astre éclipsé qui sort de la pénombre,
Te pavaner aux lieux que la Folie encombre
C'est bien! Charmant poignard, jaillis de ton étui!

Allume ta prunelle à la flamme des lustres!
Allume le désir dans les regards des rustres!
Tout de toi m'est plaisir, morbide ou pétulant;

Sois ce que tu voudras, nuit noire, rouge aurore;
II n'est pas une fibre en tout mon corps tremblant
Qui ne crie: Ô mon cher Belzébuth, je t'adore!
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Os Poetas (Baudelaire, Shelley, Heine, Castro Alves Camões e outros) — José Paulo Paes, Volume VII da Coleção Vidas Ilustres, 1961, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), nascido em Paris França, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e internacionalmente reconhecido como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; escreveu e publicou As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.