[traduzido por Álvaro Reis]
Não caberei aqui — diz-me, doida, sorrindo —
Vou romper-te, afinal, colete de Procusto!
Infla o colo e depois torce o quadril robusto,
E estorce em demasia um braço airoso e lindo...
Nessas lutas, paciente, esqueço um tempo infindo.
Pelo estreito vestuário em que seu talhe ajusto,
Ora apertando um laço, ora outro desunindo,
Faço passar, por fim, cabeça, espádua e busto.
Sob as dobras da veste, os contornos, agora,
Desenhemos com arte... E a forma se avigora,
Vede: a roupa flutua e a beleza se acusa.
Estará bem ou mal nesses traços serenos?
— Nada ao corpo de mais, nem na alma de menos —
Gosto assim da mulher e assim desejo a Musa.
Le Sonnet
Je n’entrerai pas là, — dit la folle en riant, —
Je vais faire éclater ce corset de Procuste!
Puis elle enfle son sien, tord sa hanche robuste,
Et prête à contresens un bras luxuriant.
J’aime ces doux combats, et je suis patient.
Dans l’étroit vêtement qu’à sa taille j’ajuste,
Là serrant un atour, ici le déliant,
J’ai fait passer enfin tête, épaules et buste.
Avec art maintenant dessinons sous ces plis
La forme bondissante et les contours polis.
Voyez! la robe flotte, et la beauté s’accuse —
Est-elle bien ou mal en ces simples dehors?
Rien de moins dans le coeur, rien de plus sur le corps,
Ainsi me plaît la femme, ainsi je veux la Muse.
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Antologia de Poetas Franceses do
séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França [várias autorias e tradutores],
Organização, Seleção e Prefácio por R. Magalhães Jr., e Texto à Guisa de Introdução
por Michel Simon, sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S.
A., Rio de Janeiro — RJ; Joséphin Soulary ou Joseph Marie Soulary (1815 — 1891),
francês de Lyon, foi um escritor, dramaturgo comedista e poeta francês; rejeitado
pelos pais, teve uma infância difícil, aos dezesseis anos alistou-se num regimento,
depois, acolhido por Hippolyte-Paul Jaÿr, então prefeito de Lyon e que apreciava
suas poesias, tornou-se funcionário da prefeitura e seguiu dupla carreira: a administrativa
— gerente de escritório e, depois, bibliotecário no Palais de Arts de Lyon — e a
literária; de seus traços bibliográficos, é tido que seus sonetos humorísticos atraiam
a atenção e encantavam os leitores; tinha o pleno domínio das técnicas poéticas,
particularmente das do soneto; suas obras: À travers champs (1837), Les Cinq cordes
du luth (1838), Les Éphéméres (deux séries, 1846 et 1857), Sonnets humouristiques
(1862), Les Figulines (1862), Pendant l’invasion (1871), Les Rimes ironiques (1877),
Jeus divins (1882), e duas comédias: Un grand homme qu'on attend (1879) e La Lune
rousse (1879); suas obras poéticas foram reunidas em 3 volumes (1872—1883).