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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Lima Barreto: Uma entrevista

Diário do hospício & O cemitério dos vivos | Amazon.com.br
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(A Folha, 31 de janeiro de 1920)

          Lima Barreto, o romancista admirável de Isaías Caminha, está no Hospício. Boêmio incorrigível, os desregramentos de vida abateram-lhe o ânimo de tal forma, que se viu obrigado a ir passar uns dias na praia da Saudade, diante do mar, respirando o ar puro desse recanto ameno da cidade. Lá está seguramente há um mês. É verdade que não está maluco, como a princípio se poderá cuidar; apenas um pouco excitado e combalido. O seu espírito está perfeitamente lúcido, e a prova disso é que Lima Barreto, apesar do ambiente ser muito pouco propício, tem escrito muito. Ainda há dias, numa rápida visita que lhe fizemos, tivemos ocasião de verificar a sua boa disposição e de ouvi-lo sobre os planos de trabalho que está construindo mentalmente, para realizar depois que se libertar das grades do manicômio. Lima Barreto apareceu-nos vestindo a roupa de zuarte, usada no estabelecimento, os cabelos desgrenhados e os dedos sujos de tinta, sinal evidente de que escrevia no momento em que fora chamado.
           Então, Lima, o que é isso?
           É verdade. Meteram-me aqui para descansar um pouco. E eu aqui estou satisfeito, pronto a voltar ao mundo.
           Boa, então, esta vidinha?
           Boa, propriamente, não direi: mas, afinal, a maior, senão a única ventura, consiste na liberdade; o Hospício é uma prisão como outra qualquer, com grades e guardas severos que mal nos permitem chegar à janela. Para mim, porém, tem sido útil a estadia nos domínios do senhor Juliano Moreira. Tenho coligido observações interessantíssimas para escrever um livro sobre a vida interna dos hospitais de loucos. Leia O cemitério dos vivos. Nessas páginas contarei, com fartura de pormenores, as cenas mais jocosas e as mais dolorosas que se passam dentro destas paredes inexpugnáveis. Tenho visto coisas interessantíssimas.
           Mas, afinal, como vieste para aqui?
           Muito simplesmente. Estando um pouco excitado, é natural, por certos abusos, resolveu meu irmão que eu necessitava descanso. E, um belo dia, meteu-me num carro e abalou comigo para cá. Quando verifiquei  onde estava, fiquei indignado. Essa indignação, pareceu, então aos homens daqui acesso furioso de loucura e o seu amigo foi, sem mais formalidades, trancafiado num quarto-forte. Aí é que presenciei as cenas mais engraçadas entre todas as que já me têm sido dado ver. Éramos quatro dentro de um espaço que mal chegava para um homem se mover com certa liberdade. Um preto epilético, que tinha ataques horríveis, um mulato de fisionomia má, que tinha mania de ser mudo, um português, coitado, que resolveu ser cavalo de tílburi e eu. Logo que entrei, compreendi o perigo de minha situação e procurei me colocar num canto, bem cosido à parede, para evitar os pontapés, que à guisa de coices, dava o suposto cavalo de tílburi. O preto epilético, porém, veio em meu auxílio.
           Você não é aprendiz de marinheiro? perguntou-me acolhedor.
          E eu, para o não contrariar, respondi logo que sim.
           Eu me lembro de você acrescentou ele. Somos colegas.
          Se não fosse esse “colega”, agora não sei onde estaria, o “cavalo” era fraco, menor e tinha uma predileção especial pelas minhas parcas carnes. De vez em quando, juntava os pés e — bumba! arrumava um par de coices violentos. O preto é que intervinha, e, gritando como se fosse cocheiro, obrigava-o a escoicear as paredes e não a mim. Assim foram as minhas primeiras horas pesadas neste caso. Depois é que compreenderam que eu não era um maluco e me libertaram.
           Mas não te reconheceu ninguém?
           Até então, não. Nem eu fiz por isso. Queria, ao contrário, passar despercebido, para observar melhor e mesmo para verificar, por experiência própria, a maneira como eram tratados os loucos desprotegidos e sem dinheiro que no Hospício também predomina o “pistolão”, é preciso que se note. Logo que me soltaram, entretanto, deram-me uma vassoura e mandaram-me varrer o Pavilhão de Observação e, depois, o parque.
          E, passivamente me submeti e dei conta do serviço. Foi quando terminava de varrer o parque, que um pensionista me reconheceu e denunciou. No dia seguinte me visitava o meu amigo Humberto Gotuzzo e me fazia transferir para a seção em que eu até agora estou.
           E a companhia, que tal?
           Boa. Onde estou só há inofensivos, malucos mansos ou menos suspeitos, como eu. Não fazem mal a ninguém, nem se preocupam uns com a vida dos outros. Há uns “cacetes”, conversadores ou pedinchões. Querem penas, papel, cigarros enfim, os “filantes” que existem lá fora, existem também aqui dentro. Mas são mansos e não fazem mal a ninguém. Pode-se viver perfeitamente no meio deles.
           Cita aí alguns tipos interessantes dos que observaste. A título de curiosidade...
           Isso não. Se eu os citar, o livro perderá o interesse. Essas coisas valem, sobretudo, pela novidade. O que posso assegurar, no entanto, é que há uns esplêndidos, melhores ainda do que o tal “cavalo de tílburi”.
           E quando pensas lançar O cemitério dos vivos?
           Não sei. Agora só falta escrever, meter em forma as observações reunidas. Esse trabalho pretendo encetar logo que saia daqui, porque aqui não tenho as comodidades que são de desejar para a feitura de uma obra dessa natureza.
          E Lima Barreto, sorrindo, arrancou do bolso um pedaço de papel:
           Estás vendo? São uns tipos que acabo de jogar.

Lima Barreto: literatura que se confunde com vida pessoal denuncia ...
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Diário do Hospício e O Cemitério dos Vivos — Lima Barreto, Prefácio de Alfredo Bosi e Organização e Notas de Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura, 2017, 1ª edição, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C. e Careta entre eles; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; obras literárias: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em  jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Lima Barreto: A lógica do maluco

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                    Estes malucos têm cada ideia, santo Deus! Num dia destes, no Hospital Nacional de Alienados, aconteceu uma que é mesmo de se tirar o chapéu. Contou-me o caso o meu amigo doutor Gotuzzo, que me consentiu em trazê-lo a público, sem o nome do doente  o que farei sem nenhuma discrepância.
                    Havia na seção que esse ilustre médico dirige, um doente que não era comum. Não o era, não pela estranheza de sua moléstia, uma simples mania, sem aspectos notáveis; mas, pela sua educação e relativa instrução. Com bons princípios, era um rapaz lido e assaz culto. Fazia parte da Academia de Letras de Vitória, estado do Espírito Santo, onde residia  como membro extraordinário, em vista ou à vista de vaga, isto é, membro externo, ou de fora, que espera a primeira vaga para entrar. É uma espécie de acadêmico muito original que aquela academia criou e que, embora se preste à troça, lembre coisas de bebês, de cueiros, do Manequinho da Avenida, e outras muito pouco elegantes, oferece, entretanto, efeitos práticos notáveis. Atenua a cabala nas eleições e evita as sem-vergonhices e baixezas de certos candidatos. Lá, ao menos, quando há vaga, já se sabe quem vai preenchê-la. Não é preciso mandar organizar um livro às pressas...
                    A denominação, na verdade, não é lá muito parlamentar; a academia capixaba, porém, a perfilhou, depois de proposta pela boca de um dos mais insignes beletristas goianos que nela tem assento.
                    O doente do doutor Gotuzzo, como já disse, era membro de fora da academia capixaba; mas, subitamente, com a leitura dos Comentários à Constituição, do doutor Carlos Maximiliano, enlouqueceu e foi para o hospital da praia da Saudade.
                    Entregue aos cuidados do doutor Gotuzzo, melhorou um pouco; mas, tiveram a imprudência de lhe dar, de novo, os tais Comentários e a mania voltou-lhe. Como ele gostasse do assunto, o doutor Gotuzzo mandou retirar do poder dele a profunda obra do doutor Maximiliano e deu-lhe a do senhor João Barbalho. Melhorou a olhos vistos. Há dias, porém, teve um pequeno acesso; mas, brando e passageiro. Tinha pedido ser levado à presença do alienista, pois queria falar-lhe certa coisa particular. O chefe da enfermaria permitiu e ele lá foi ter, na hora própria.
                    O doutor Gotuzzo acolheu-o com toda a gentileza e bondade, como lhe é trivial:
                     Então, o que há, doutor?
                    O doente era como todo o brasileiro, bacharel em direito ou em ciências veterinárias; mas pouca importância dava à carta. Gostava de ser tratado de capitão — coisa que não era nem da defunta Guarda Nacional, sepultada, como tantas outras coisas, apesar da Constituição. Apareceu calmo e sentou-se ao lado do alienista, a um aceno deste. Interrogado, respondeu:
                     Preciso que o doutor consinta que eu vá falar ao diretor.
                     Para quê? Para que você quer falar ao doutor Juliano?
                     É muito simples: quero arranjar um emprego. Dou-me muito com o doutor Marcílio de Lacerda, senador, que foi até quem me fez membro de fora da Academia de Vitória; e ele, naturalmente, há de se interessar por mim.
                     Escreva ao doutor Marcílio que ele virá até aqui.
                     Não me serve. Quero ir até lá; é muito melhor. Para isso, preciso licença do doutor Juliano.
                     Mas, meu caro, não adianta nada o passo que você vai dar.
                     Como?
                     Você é doente, sua família já obteve a interdição de você  como é que você pode exercer um cargo público?
                     Posso, pois não. Está na Constituição: “Os cargos públicos civis, ou militares, são acessíveis a todos os brasileiros”. Eu não sou brasileiro? Logo...
                     Mas você...
                     Eu sei; mas as mulheres não estão sendo nomeadas? Olhe, doutor: mulher, menor, louco ou interdito, em direito têm grandes semelhanças.
                    Tanto insistiu que obteve o consentimento, para ir ao eminente psiquiatra. O doutor Juliano Moreira recebeu-o com a sua inesgotável bondade que, mais do que o seu real talento, é a dominante na sua individualidade. Ouviu o doente com calma, interrogou-o com doçura e respondeu ao pedido dele:
                     Por ora, não consinto, porquanto devo antes pedir, a esse respeito, as luzes de um qualquer notável consultor jurídico.

                Careta, 8 de outubro de 1921

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Diário do Hospício e O Cemitério dos Vivos — Lima Barreto, Prefácio de Alfredo Bosi e Organização e Notas de Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura, 2017, 1ª edição, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881  1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas — Fon-Fon, A.B.C. e Careta dentre eles; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; obras literárias:  O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919),  Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros títulos.