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[traduzido por José Paulo Paes]
Eu os faço acordar certa manhã numa grande casa de
quartos quase vazios. Não se ouve o roçagar dos lençóis
porque estão amaciados pelo uso.
Um dos dois é franzino
O outro não está nu — é uma
mulher
vestida com muitas camadas de roupa, de seda e algodão,
tule que pica, lã que coça, tudo em preto,
ela não quer tirá-las,
nunca as tira, mas ele a toca,
torna a tocá-la agora,
e ela suspira, encalorada
de tanta roupa,
não diz nada e o toca em resposta,
ele está deitado quase sob o seu flanco,
não é senão pele,
e assim deve ser, e assim é, e assim tem
sido a noite toda. Eu os deixo deitados onde acordaram,
podem ficar ali deitados, que fiquem, que a roupa dele
continue sumida, que as portas sejam trancadas, que eles fiquem
sempre
ali deitados, ela o contaminando com o seu calor, que
os quartos ecoem a toda volta os ruídos deles, que eles sejam.
Que eles sejam.
Roman
Jeg lader dem vågne en morgen
i et stort hus med
næsten tomme rum. Sengetøjet
knitrer ikke
for det er brugt og blødt.
Den ene er tynd.
Den anden er ikke nøgen —
det er en kvinde,
hun er klædt i mange lag af
stof, den er silke og bomuld,
tyll der stikker, uld der
kradser, det er altsammen sort,
hun vil ikke tage det af,
hun tager det aldrig af, men
han har rørt ved hende,
nu rører han ved hende igen,
og hun sukker, hun er varm,
der er så meget tøj
hun siger ingenting, hun rører
tilbage,
han ligger næsten under hendes
side,
han er ikke andet end hud,
og sådan skal det være, sådan
har det
været hele natten. Jeg lader
dem ligge hvor de er vågnet,
de kan blive liggende dér, lad
dem ligge, lad hans tøj
være blevet borte, lad dørene
være låst, lad dem altid
ligge der, lad hende være
varm, lad det smitte ham, lad
rummene give ekko omkring
deres lyde, lad dem være.
Lad dem være
[Poesi 93, publicação do festival internacional de poesia
de Copenhague de 1993]
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Quinze Poetas Dinamarqueses,
edição bilíngue, Seleção, Tradução, Introdução, Prefácio e Notas de José Paulo
Paes e Apresentação de Jorge H. Wolff, Coleção Poesia Traduzida, Volume II, 1997,
Letras Contemporâneas, Florianópolis — SC; Pia Elisabeth Juul (1962 —
2020), dinamarquesa de Korsør, concluiu seus estudos secundários em 1981, no Hobro
Gymnasium (do hoje município de Mariagerfjord), depois matriculou-se em estudos
de Inglês na Universidade de Aarhus, logo desistiu, foi poeta, escritora de
prosa, dramaturga e tradutora; a poeta foi co-editora da revista literária
dinamarquesa Den Blå Port, professora na escola de redação Forfatterskolen, em
Copenhague, e traduziu literatura, inglesa, americana e sueca; suas obras:
levende og lukket (coleção de poemas, 1985), i brand måske (poemas, 1987), Forgjort
(poemas, 1989), Skaden (romance, 1990), En død mands nys (poemas, 1993), Olsen
(contos, 1996), Mit forfærdelige ansigt (contos, 2001), Gespenst & andre
spil (drama, 2002), Lidt ligesom mig (livro infantil, 2004), Dengang med hunden
(contos, 2005), Helt i skoven (poemas, 2005), På jagt (livro infantil, 2005), Mordet
på Halland (romance, 2009), Radioteatret (poemas, 2010) e outros títulos; premiações:
Aarestrup-medaljen (1994), Beatrice Prisen (da Academia dinamarquesa, 2000), Danske
Banks Litteraturpris (pelo romance Mordet på Halland, 2009), Montanas Litteraturpris
(pela coleção de poesias Radioteatret, 2010), etc.