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domingo, 11 de outubro de 2009

Folha Bancária: E eu entrei no inferno...

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(Folha Bancária n° 349 - julho de 1979)

Foi na Cidade de Deus ou Inferno de Dante, com um salário miserável.

Aportei na Estação Ferroviária no inverno de setenta e um, às dez da noite, com mala na mão e travesseiro embaixo do braço, sem rumo certo mas com objetivo definido: trabalhar no Bradesco.

Não tinha onde dormir. Apenas sabia que pertinho do emprego, na Vila Yara, os moradores construiam em seus quintais casinhas de pombo e as alugavam por um preço não tão módico aos chegantes do interior que viessem à cata de serviço.

O Bradesco abria as suas portas. Oferecia muito serviço e um salário miserável. Que consolo!

Numa dessas casinhas de pombo me alojei naquela noite. Pelo tempo suficiente para me avizinhar de outros conterrâneos. Aí, a mudança para outra casinha não em melhores condições que a primeira.

Tinha eu a idade da aventura necessária - dezenove anos.

No interior eu já trabalhara como ajudante de açougueiro, com plantio de grama e construção de aterros na Castelo Branco, com colheita de algodão, cana e outros serviços da roça. Era o trabalhador-sem-profissão, o pau-prá-toda-obra, o bóia-fria. Fim de semana não trabalhava, não recebia. Chovia, não trabalhava, também não recebia.

Foi fácil entrar no Bradesco. O Banco andava catando gente a laço. Passava gente na porta, o Diário Popular feito desodorante, se descuidava um pouco e zás, estava admitido. Com um salarinho mínimo que nem dava prá comer direito. A piada que corria era que quem houvesse sido boiadeiro no interior seria bem recebido no Banco. Prá laçar desempregados desinformados.

Com isso, o rodízio de funcionários era assustador. Saía e entrava gente todo dia. O deslumbramento inicial por um registro em carteira era logo quebrado. Já no dia vinte e um, aquela dureza. Sem dinheiro no bolso, sem comida no estômago, com dívidas no alfaiate, no Mappin, na pensão. Cheques pré-datados. Os mais despojados, cheques-sem-fundo na praça.

Não valia a pena entrar em atrito com os chefetes. Estes passavam pelos mesmos problemas dos peões. Apenas trocavam o valor das duas horas extras obrigatórias por uma comissãozinha insignificante. Eram coagidos a usar paletó e forçados a defender o santo nome do Banco que confia em Deus. Quanta blasfêmia!

Gravata nos obrigavam a usar desde o primeiro dia de serviço. Cabelos cortados à milico, idem. A responsabilidade, isso aumentava e em muito.

Nas vésperas de todo dia vinte, aquela trabalheira. Horas extras e mais horas extras. Geralmente não remuneradas.

Trabalho nunca faltava. Ficávamos condicionados a trabalhar. Oito, dez, doze horas por dia. E até mais. Sábados e domingos dentro da seção em troca de um almoço gratuito. Ou de uma janta. Ou até das palavras gentis do chefe, dos tapinhas nas costas.

Como éramos desinformados! Como éramos bobos! Na implantação do PIS, muita noites mal dormidas. Fins-de-semana perdidos por migalhas a mais no ordenado. E dizendo amém.

Muitos de meus colegas continuam bancários. Alguns ainda lá no Bradesco. Outros, nos bancos da praça, com o Diário Popular aberto nas páginas de classificados. No desemprego. No desespero.

Sina cruel a do bancário!
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Esta crônica foi escrita para uma matéria especial que tinha como alvo o Bradesco e ajudou a compor a primeira Folha Bancária editada sob a responsabilidade da então nova diretoria do SeebSP, que tomara posse em 12.03.79. Por motivos óbvios, não foi assinada; O Quarentão de Bacaetava, P.da Silva e Genésio dos Santos são a mesma pessoa e, réus confessos, também são os únicos responsáveis pela autoria do texto. O período de trabalho do cronista no Bradesco Cidade de Deus, em Osasco-SP, foi de julho de 1971 a janeiro de 1973.