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segunda-feira, 8 de março de 2021

Alceu Wamosy: Melancolia

 
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Mon âme est malade aujourd’hui
Mon âme est malade de absences…
Maurice Maeterlinck

Uma tarde tão triste; um céu de tanta bruma;
nem um adeus de sol pela planura rasa;
nem um rumor de canto, a alegria de uma asa;
tudo se esbate em sombra e em tristeza se esfuma.

E essa ausente não vem, para alumiar-me a casa
com o seu riso leal, que o meu ermo perfuma,
e aquelas suaves mãos  carne feita de pluma 
que atenuam a febre que meu corpo abrasa…

Como eu me sinto só, dentro do fim do dia!
Todo o meu coração é uma alcova sombria.
Tenho à boca o amargor de uma taça de fel.

E este abandono… Esta incerteza que me aflige…
Ó Georges Rodenbach! Ó meu Cisnes de Bruges!
Ó “Crepuscule Pluvieux” de Ephraim Mikhael!

(Coroa de Sonhos — 1923)

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História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Alceu de Freitas Wamosy (1895 1923), gaúcho de Uruguaiana, foi poeta da fase do simbolismo; trabalhou como colaborador no jornal A Cidade (de propriedade de seu pai, em Alegrete RS) e também nos periódicos A Notícia, A Federação, O Diário e na revista A Máscara; passando por Porto Alegre, segue depois para Santana do Livramento e ali tornou-se proprietário do jornal O Republicano, a partir de 1917 e cujo periódico dirige até morrer; obra poética: Flâmulas (1913), Terra Virgem (1914), Coroa de Sonhos (1923); postumamente publicou-se Poesias Completas (1925, Editora Globo) e Poesia Completa (1994, Coleção Memória, da EDIPUCRS).

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Alceu Wamosy: Última Página

60 poetas trágicos | Amazon.com.br
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Todo este grande amor que nasceu em segredo,
e cresceu, e floriu na humildade mais pura,
teve o encanto pueril desses contos de enredo
quase ingênuo, onde a graça ao candor se mistura.

Entrou nos nossos corações como a brancura
de uma réstia de luar numa alcova entra a medo
nunca teve esse fogo intenso de loucura
que há em todo amor que nasce tarde e morre cedo.

E quando ele aflorou, tímido e pequenino,
como uma estrela azul, no meu, no teu destino,
não sei que estranha voz ao coração me disse

que este amor suave e bom, de pureza e lealdade,
sendo o primeiro amor da tua meninice,
era o último amor da minha mocidade.

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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Alceu de Freitas Wamosy (1895 1923), gaúcho de Uruguaiana, jornalista, foi poeta da fase do simbolismo; trabalhou como colaborador no jornal A Cidade (de propriedade de seu pai, em Alegrete RS) e também nos periódicos A Notícia, A Federação, O Diário e na revista A Máscara; tornou-se proprietário do jornal O Republicano, a partir de 1917; obra poética: Flâmulas (1913), Terra Virgem (1914), Coroa de Sonhos (1923); postumamente, foram publicadas Poesias Completas (1925, Editora Globo) e Poesia Completa (1994, Coleção Memória, da EDIPUCRS); o poeta, que se alistara nas forças governistas da revolução gaúcha de 1923, foi ferido em combate e veio a falecer após ter dado entrada em hospital.

domingo, 30 de junho de 2019

Alceu Wamosy: Demoníaca

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Não me tentes assim. Fechar esses braços.
Nas dobras da mantilha oculta as pomas.
Volve esses olhos mágicos e lassos,
E essa boca sensual, cheia de aromas.

Quero fugir do mal dos teus abraços,
Das trágicas cadeias das tuas comas,
E me fazes rojar, trás os teus passos,
Mal o teu vulto tentador assomas!

O meu ser te repele e te procura,
Mulher fatal, diabólica e divina,
Geradora de amor e de loucura!

Beija-me mais! Afoga-me o desejo!
Pois, se sei que teu beijo me assassina,
Sei que sucumbo à falta desse beijo!...

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Sonetos de Amor & Desamor (vários autores), Organização de Ivan Pinheiro Machado e Notas de Sergio Faraco, vol. 1095 da Coleção L&PM Pocket, 2016, Porto Alegre — RS; Alceu de Freitas Wamosy (1895  1923), gaúcho de Uruguaiana, foi poeta da fase do simbolismo; trabalhou como colaborador no jornal A Cidade (de propriedade de seu pai, em Alegrete  RS) e também nos periódicos A Notícia, A Federação, O Diário e na revista A Máscara; tornou-se proprietário do jornal O Republicano, a partir de 1917; obra poética: Flâmulas (1913), Terra Virgem (1914), Coroa de Sonhos (1923); postumamente publicou-se  Poesias Completas (1925, Editora Globo) Poesia Completa (1994, Coleção Memória, da EDIPUCRS).

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Alceu Wamosy: A revolta do corvo

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Negro, petrificado e frio como um mito
de Buda, a passear o olhar de lado a lado,
ele deixou-se ali ficar, sob o infinito
peso de sua tortura estranho torturado...

E lançando, talvez, à bruma do passado,
o seu profundo olhar, sereno, de proscrito,
atirou para o alto e negro céu calado,
a blasfêmia audaciosa e rubra do seu grito!

E o céu que não escuta e que é marmóreo e torvo,
riu, talvez, para si, da pequenez do corvo
e afivelou de novo a máscara de aço.

E o corvo, alçando o vôo, embriagado e tonto,
subiu... cortou a névoa... a bruma... e como um ponto
negro, sumiu-se além, na escuridão do espaço...

Flâmulas 1913

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Livro dos Poemas — uma antologia de poetas brasileiros e portugueses, Organização e Notas de Sergio Faraco, 2009, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Alceu de Freitas Wamosy (1895  1923), gaúcho de Uruguaiana, foi poeta da fase do simbolismo; trabalhou como colaborador no jornal A Cidade (de propriedade de seu pai, em Alegrete  RS) e também nos periódicos A Notícia, A Federação, O Diário e na revista A Máscara; tornou-se proprietário do jornal O Republicano, a partir de 1917; obra poética: Flâmulas (1913), Terra Virgem (1914), Coroa de Sonhos (1923); postumamente publicou-se Poesias Completas (1925, Editora Globo) e Poesia Completa (1994, Coleção Memória, da EDIPUCRS).

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Alceu Wamosy: Duas almas

Livro - Anatologia Escolar Brasileira 1977 - Marques Rebelo
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Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra, e sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca foste amada...

A neve anda a branquear lividamente a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã quando a luz do sol dourar radiosa
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...

Coroa de Sonhos  1923

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Antologia Escolar Brasileira Marques Rebelo, primeira edição, 1967, Companhia Nacional de Material de Ensino MEC, Rio de Janeiro RJ; Alceu de Freitas Wamosy (1895 1923), gaúcho de Uruguaiana, foi poeta da fase do simbolismo; trabalhou como colaborador no jornal A Cidade (de propriedade de seu pai, em Alegrete RS) e também nos periódicos A Notícia, A Federação, O Diário e na revista A Máscara; tornou-se proprietário do jornal O Republicano, a partir de 1917; obra poética: Flâmulas (1913), Terra Virgem (1914), Coroa de Sonhos (1923); postumamente publicou-se Poesias Completas (1925, Editora Globo) e Poesia Completa (1994, Coleção Memória, da EDIPUCRS).